7.2 Simulation Results
7.2.1 Single Robust Controller
Os alunos se reuniram na quadra (2º e 4º ciclos) para ouvirem as propostas das duas chapas. Um semicírculo foi feito, e alunos das respectivas chapas compuseram a mesa. Os alunos gritavam palavras de ordem. A Chapa 1 estava com uma concentração maior de representantes na mesa. A coordenadora de mesa apresentou os objetivos da reunião: apresentação das propostas das chapas para a eleição/escolha de uma delas. A figura 50 mostra um momento de debate e recortes do nosso diário de campo, mostrando na integra como foi o debate, podem ser consultados no APÊNDICE E.
Figura 50 – Plenária para debate entre os candidatos ao grêmio em 24 de junho 2002
A figura 50 e o texto transcrito no APÊNDICE E, nos colocam diante de uma plenária realizada sob a coordenação dos estudantes e que tem todo seu o eixo norteador gerado a partir da elaboração de questões – uma entrevista – a serem feitas aos candidatos. Elas refletiam um estado de compromisso e integração político-democrática que os alunos parecem estabelecer dentro da escola.
Destacamos os nossos registros de campo, com o debate dos candidatos ao grêmio feito na plenária. Esse foi de fundamental importância para darmos visibilidade a riqueza pedagógica presente nos argumentos dos alunos. Vejamos um trecho da entrevista
Nossa chapa tem a intenção de colaborar na construção político-social dentro da escola e ainda colaborar na elaboração dos aspectos pedagógicos da escola. Formar uma representação dos alunos para levar suas opiniões perante a diretora da escola. Cobrar mais pelos direitos dos estudantes, ajudando-os a resolver problemas que não conseguem resolver sozinhos. Melhorar o planejamento dos colégios, com a melhoria do ensino, permanência do diálogo e discussões da escola. Buscar a inserção de todos no processo de construção e formação dos cidadãos. De maneira geral, cabe ao grêmio elaborar um plano anual de trabalho, submetendo-os à aprovação do conselho de representantes de
turma. O grêmio nos ajuda a reivindicar uma escola de qualidade democrática e por uma sociedade mais justa e solidária.
(Recorte da entrevista com a argumentação de Pryscilla (chapa 2). 24 de junho 2002)
Fomos percebendo, nesse cruzamento de informações, a diferença entre uma chapa e outra e marcando a importância desse ato realizado pelos alunos e a consciência político pedagógica demonstrada. No debate, eles vão apontando a escola que queriam ver em ação:
1. uma escola interativa, democrática, que garantisse o direito à permanência e ao conhecimento;
2. uma escola que pensasse seu projeto não ficando restrita a ela mesma e aos professores como gestores das idéias, mas que, em comunhão com os alunos, reorganizasse seu projeto como um projeto político social;
3. uma escola que não desprestigiasse o cotidiano (a falta de professores, de qualidade das aulas, a manifestação dos alunos, o uso do cigarro na escola dentre outros) mas que reconhecesse que, a partir dele, pode se chegar a grandes questões temáticas para estudos.
Colocamos em evidência também, outra definição que a aluna Pryscilla da chapa 2 diz ao responder à pergunta: Quais as idéia e o que pretendem fazer sobre a cultura, lazer, etc? Ela se posicionando a respeito argumenta:
“Não só fazer campeonato (esporte), mas eventos culturais para o aluno estudar. Trazer a cultura para dentro da escola: teatro, concurso de desenhos, grafitagem, excursão para os alunos e o próprio esporte, que está meio fraco.”
(Recorte da entrevista com a argumentação de Pryscilla (chapa 2). 24 de junho 2002)
Com essa definição, os alunos dessa chapa (representados pela Pryscilla) deixaram escapar uma tendência pedagógica da educação – a abordagem sociocultural – que hoje é muito debatida, pouco entendida e dificilmente colocada em prática.
O que essa aluna de 16 anos quer dizer com isso – trazer a cultura para dentro da escola? Pensar a escola como espaço aberto para que as diferentes culturas possam se expressar, como idealizado por Pryscilla foi também uma proposição defendida pela Escola Plural (caderno 2), que significa:
enxergar, como partes de um mesmo processo, as atividades de ensino/aprendizagem e os conteúdos que a sustentam...
alargar a compreensão do sejam os saberes escolares...
romper com a lógica fragmentada da seriação, organizando os ciclos de idade de formação...
pensar nesta própria proposta curricular como um processo em construção e não um documento acabado e pronto a ser cumprido...
(BELO HORIZONTE, s/d)
Para tanto, seria necessário que o coletivo de professores reelaborasse o seu processo pedagógico, buscando na formação em serviço a compreensão das concepções epistemológicas do conhecimento, a reflexão sobre as práticas pedagógicas que implementam, a articulação com diferentes espaços sociais, a movimentação organizada da comunidade escolar reivindicando a efevetivação de políticas públicas para juventude dentre outros inúmeros problemas educacionais a serem enfrentados na tentativa de minimizá-los. Gestar novas formas de relacionar com o conhecimento na escola foram e continuam sendo alguns dos grandes desafios para que os educadores consiguam (re-) significar a pratica educativa
Desenvolver uma proposta pedagógica tendo como eixo central as culturas presentes na escola é também uma proposição apresentada por Juarez Dayell e Marilia Spósito121. Segundo eles, para que a escola tenha a dimensão cultural como eixo articulador do
121 Citados por Rezende (2001, p.11) retomando falas dos mesmos proferidas no Curso A Rede Debate Juventudes,
conhecimento, seria primordial que desenvolvesse processos educativos com os alunos buscando contribuir para que haja uma ampliação das experiências que eles já trazem para a escola. E nos questionam: em que medida, a escola poderia estar contribuindo para ampliar o que os jovens alunos trazem com eles? Como contribuir para que, em nossas ações cotidianas e nas diferentes disciplinas, possamos ajudar o jovem a se descobrir e elaborar os seus próprios projetos?
Os/as alunos/as parecem conhecer tacitamente essa proposição teórica e verificar nela uma importância prática. Nesse sentido, eles apelam e propõem transformar a escola – desejam que ela seja não só consumidora de cultura – assistir a aulas, a peças teatrais, ir a exposições, oficinas, festivais de dança, concerto de música, palestras dentre outros –, mas possam ter oportunidade de serem produtores de culturas, buscando colocar dentro da escola e de seus currículos a diversidade cultural representada pelos/as professore/as e alunos/as – sujeitos socioculturais –, mediante a exploração das diferentes linguagens, que os mesmos trazem para o universo escolar. Os/as alunos/as e professores/as serão eles/as próprios/as registradores da cena composta por eles/as: o/as escritores/as e atores/as de suas peças teatrais, compositores/as de suas musicas, intérpretes, expositores/as de suas expressões artísticas.
A partir do momento em que vimos os/as alunos/as registrarem essas reivindicações é por que as diferentes disciplinas ministradas na escola não estavam possibilitando espaços e instrumentos, para que os desenvolvimentos de diferentes expressões culturais fossem colocados em pratica.
Ao participar de uma ação pedagógica em que os/as alunos/as têm condições de relacionar suas experiências cotidianas com o conteúdo desenvolvido pelas diferentes disciplinas e registrá-las nas formas que consideram apropriadas, podemos dizer que a ação passa a ter sentido e significado para eles e isso os fará mobilizar o raciocínio e a afetividade, desenvolver a capacidades de tomada de decisões, a imaginação, a criatividade, a ousadia, a improvisação, a solidariedade e a cooperação... Além disso, ter-se-á como ganho o fortalecimento da auto-estima, contribuindo para melhorar o relacionamento com o outro. Na verdade, essa aluna tocou em temas importantes para nossa discussão que nos motivam a refletir: quais princípios pedagógicos devem nortear as ações educativas? Como reorganizar toda a prática pedagógica da escola, com diretrizes que norteiem a ação dos/as professores/as e alunos/as, possibilitando-lhes desenvolver uma prática escolar que colabore na formação dos cidadãos. Pensamos que, para formar cidadãos, a escola necessitaria compor, a
exemplo das cenas mostradas acima, ambientes participativos de debate, de respeito à oposição de idéias e tomada de decisões coletivas. Essas seriam uma boa introdução às lições práticas em defesa da democratização em suas diferentes facetas. Segundo Cury (1999, p.13)
a democracia supõe tanto a igualdade para o que é igual ou que deve ser igual, quanto a consideração positiva da diferença como reveladora da profunda riqueza de que se revestem todos os seres humanos, desde que tal diferença se expresse na matriz igualitária do ser humano. Retomando Aristóteles, pode-se dizer que o ente é a síntese aberta entre o ser e o modo de ser. É este o entendimento que se pode ter do texto constitucional e da lei de educação. Todas as formas impeditivas da igualdade, tomadas pelo ângulo da uniformidade, ignoram o valor das diferenças ou as condenam aos estreitos espaços privados, terminam em regimes autoritários[...]
Aproveitamos as palavras de Cury(1999) para dizer da importância da efetivação das práticas pedagógicas não mediadas apenas por textos, projetos, normas legais, mas por experiências reais, fatos que se concretizam – mostrando como os sujeitos se exprimiram e imprimiram suas idéias – permitindo que alunos e professores possam igualar seus direitos nas diferenças. O mérito, segundo o autor citado, seria a possibilidade de revelar, nessa atitude, a profundidade humana presente nas experiências de vida representadas nos seres humanos e construir projetos pedagógicos que expressem os desejos e necessidades dos sujeitos que compõem o ato educativo.
Finalizando o artigo, Cury (1999) afirmará que a efetivação destes princípios não é um caminho fácil. Situando que, no Brasil, é menos difícil derrubar ditaduras do que construir uma sólida democracia. E complementa.
a ética de reconhecimento, tal como inscrita na Constituição e na Lei de Diretrizes e Bases Nacional é sinal de uma possibilidade melhor em vista de uma prática democrática que incorpore a riqueza socioultural com espaço consciente e escolhido de sujeitos que se tornam tão iguais quão diferentes.(CURY, 1999, p.15)
A manifestação pública por professores, pela paz, a eleição do grêmio foi o ritual de concretização dessa ação, marcando, de maneira geral, a vontade real dos jovens
estudantes de se incorporarem à cena pedagógica e ganharem voz de decisão.122
Podemos dizer que todos esses caminhos percorridos mostraram uma busca pelo ideal da democracia, que tornamos visíveis ao realçarmos os diferentes posicionamentos dos estudantes que efetivaram na prática a idealização de Dewey (1998) citado por Pontes (2001, p.85) para escola.
o único caminho para preparar para a vida social é engajar na vida social. Formar hábitos aproveitáveis e de utilidade social, separadamente de qualquer necessidade e motivação social direto, separadamente de qualquer situação social existente é, ao pé da letra, ensinar a criança a nadar mediante movimentos fora d’água.
Dewey (1998), com suas palavras, quer lembrar que, para conceber essa pequena comunidade, é necessário que o aluno participe ativamente dos processos de construção, processos educativos que permitam aos sujeitos compreender e interferir no cenário em que se gesta o conhecimento. Nesse sentido, Dewey destaca ainda que, à medida que os alunos passam a ter consciência do mundo, das exigências que ele tem que cumprir e da sua colaboração dinâmica no processo, “a escola passa a estar organizada em uma base ética.”
Marcamos, dessa forma, a importância do registro durante o processo das cenas destacadas, no sentido de enfatizar as concepções, registrar fatos, exprimir idéias, concretizar uma ação de engajamento social experimentados e certificados pelos alunos.
O sentido pedagógico de registrar as ações escolares estaria situado no fato de entender essa como uma importante atividade formadora para desenvolvimento dos alunos. Após publicizados os registros dos mesmos, é possível torná-lo um material de estudo, de análises, de construções pedagógicas em que os alunos, co-participes, se envolvam e se sintam
122 Nessa eleição, vimos repetir uma cena que se desenvolve como muita freqüência nas disputas eleitorais no plano
macro: a fraude. Na contagem dos votos, os representantes dos alunos perceberam um número maior de votantes do que o previsto. A chapa 1 venceria se tivessem considerado a leitura das urnas. Para tentar resolver esse impasse, foi feita uma conversa com a Chapa 2 e a sugestão feita seria a de realizar uma assembléia para discutir o problema. A decisão dessa assembléia considerou como eleita a chapa 2.
sujeitos na produção do conhecimento. Isso nos revela o inverso do que se considera registros numa escola tradicional: uma folha de prova ou teste preenchido, às vezes, sem um conhecimento real, sem significado biográfico, mas considerado como produto avaliativo final. Essa prática é muito criticada, mas não deixa de ser usada como prioridade na ação de registrar na escola. Todas essas cenas de caráter democrático enriqueceram nossa discussão e nos permitiram mostrar que, quando os registros escolares produzidos pelos alunos são explorados, viram possibilidades mediadoras para o ato de educar.