5. Drøfting
5.1 Sykepleiers kunnskap og fagutvikling
A presente pesquisa realizou-se em uma Escola de Ensino Fundamental e Médio, localizada no município de Fortaleza, no estado do Ceará.
O motivo pelo qual a elegi como lócus de estudo deveu-se ao fato da mesma estar inserida em uma região de altíssima vulnerabilidade, onde as mortes se dão com bastante frequência, especialmente vinculadas à violência. Dentre as perdas ocorridas entre os alunos da referida escola, destacam-se a morte de dois alunos, uma ocorrida no ano de 2014 e outra no meio do ano de 2015, um pouco antes do início dessa pesquisa, ambas decorrentes de homicídio.
Todavia, essa escola não foi desde o primeiro momento o meu ponto de partida. Após a decisão de que os sujeitos seriam estudantes do ensino médio de escolas públicas em
processo de luto, passei para a fase de captação dos mesmos, utilizando como primeira estratégia a escolha de escolas para uma posterior visita, onde conversaria com a diretoria e a coordenação a fim de apresentar o projeto.
Após avaliar a viabilidade de trabalhar com algumas escolas, optei pelo Liceu do Ceará, sobretudo por acreditar que, devido a grande quantidade de alunos, não teria grandes dificuldades em reunir um grupo com cinco jovens para a realização do trabalho. Inicialmente, pensei em trabalhar com um número superior a cinco, temendo a ocorrência de desistências, sempre estão presentes em trabalhos de pesquisa, especialmente quando demandam certo empenho e persistência dos integrantes devido ao tempo, por vezes longo, para a aplicação das intervenções.
Diante dessa resolução, ao longo de dois turnos distribui entre os alunos do ensino médio do Liceu Ceará um questionário (apêndice B), constituído por cinco perguntas que versavam sobre a perda de alguém querido por morte.
Ao entrar em sala, falava um pouco sobre a pesquisa e, em seguida, perguntava se havia disposição da parte deles em responder ao questionário. Em todas as salas as respostas foram afirmativas, e percebi certa curiosidade em se discutir sobre esse tema. Supus, então, que não faltariam candidatos a sujeitos da minha pesquisa. Quando eu saía das salas, um ou outro aluno me acompanhava e me abordava sobre essa questão desejando desabafar. Em meio a esses alunos que desejavam desabafar, um deles se aproximou de mim e disse: “Tia, na minha família é todo mundo do bem. Ninguém é viciado em droga. Nada a ver essa pesquisa”. Aquela frase ficou reverberando em meus ouvidos, mas eu nem conseguia analisá- la porque estava muito envolvida com a visita as salas que eram muitas, e com uma grande quantidade de jovens agitados que gritavam, gargalhavam e se amontoavam ao meu redor, desejando ser ouvidos, ainda que não fosse para falar sobre o luto.
Cheguei em casa cansada, física e mentalmente, mas confiante que a aplicação do questionário me regalaria valiosas surpresas. Apesar desse otimismo, não esquecia a frase do garoto: “Tia, na minha família é todo mundo do bem. Ninguém é viciado em droga”.
Após a averiguação atenta dos questionários percebi que, dos 137 respondentes, somente vinte e um afirmaram ter passado pela experiência de morte de alguém próximo, a maioria deles tinha perdido um dos avós ou tios e a perda não parecia ter sido vivenciada com dor, ademais, tinham ocorrido há mais de três anos. Três desses vinte e um tinham perdido os pais, mas não desejavam fazer parte da pesquisa. Ainda, dentre estes vinte e um, tinha uma menina que havia perdido um amigo e parecia estar bem fragilizada com a perda. Ela estava
bastante interessada em participar da pesquisa, mas achei prudente não tê-la como sujeito da pesquisa porque, apesar de não ter realizado uma anamnese com ela, achei que talvez fosse o caso dela ter um tratamento com um psicólogo ou até psiquiatra. Desses vinte um, além da garota que perdeu o amigo, outros cinco demonstraram interesse em ingressar na pesquisa, mas avaliando o questionário respondido por eles, percebi que por mais que estivessem clamando por ajuda, estavam interessados em ser ajudados em outras questões que não estavam associadas diretamente ao luto. Na primeira questão do questionário na qual era perguntado se tinham perdido alguém querido, marcavam o item “outros” e especificavam dizendo ter perdido vizinhos, professores, animais, mas, ao longo das outras questões eu ia percebendo que as respostas não indicavam nenhum processo de luto a ser elaborado.
O que pude perceber com esses questionários através da análise, e em conversa com professores do Liceu, e tantos outros da rede pública de ensino é que o Liceu do Ceará era um dos colégios públicos cearenses que mais se aproximava dos colégios da rede privada da cidade, incluindo seu público alvo, muitas vezes constituído por meninos da classe média, que após uma reprovação no colégio particular, eram matriculados por seus pais no Liceu. Esses jovens pareciam ter uma condição de vida relativamente tranquila em termos financeiros, com pais desempenhando atividades laborais que não envolviam riscos e, por serem ainda novos, a perda da vida não era algo tão comum. Por isso, a maioria das mortes mencionadas tinham sido da geração mais antiga da família. Outro detalhe que vale a pena ser evidenciado foi a falta de interesse em discutir o evento morte. Como mencionei anteriormente, saí de lá lamentando por não poder ajudar tantos que a mim se reportaram, dizendo precisar muito ter com quem conversar, mas nenhum deles se referia a morte de alguém como questão de conflito em suas vidas.
Entendendo que as demandas dos alunos do Liceu eram legítimas e que careciam urgentemente de um suporte psicopedagógico ou psicológico, conversei com a coordenação da escola sobre a premência em se realizar uma ação que contemplasse essa necessidade, mas sabia que pouco seria feito por esses alunos. Da minha parte, por mais que tenha me ressentido com o fato de não poder ajudá-los, precisava naquele momento de objetividade e o uso desse substantivo implicava na busca por jovens com um “problema” bem delimitado: o processo de luto.
Diante dessa constatação, voltei a lembrar do garoto do Liceu que me disse que na família dele não haviam drogados, sinalizando que talvez em espaços onde o tráfico de drogas
estivesse presente de maneira mais explicita, originando práticas de violência, as mortes fossem mais frequentes.
Nesse sentido, amigos educadores também me alertavam que dificilmente eu encontraria sujeitos para minha pesquisa em colégios públicos localizados nas áreas centrais de Fortaleza, em decorrência não só da interdição que envolve este tema, como também pela ausência real de mortes em seus cotidianos. Diziam que se eu recorresse a colégios localizados em zonas de alta vulnerabilidade, especialmente nas imediações do Mucuripe, minha dificuldade se diluiria, tamanha a quantidade de jovens e famílias vitimadas pela violência.
Reporto-me a Cardia (1998), ao indicar que sendo os grandes centros urbanos brasileiros detentores de altos índices de violência, suas periferias se configuram espaços abrigadores de variadas manifestações do crime organizado, incluindo as chacinas e outras práticas de extermínio.
Ante essa constatação, escolhi três escolas públicas localizadas na região do Mucuripe, tencionando entrar em contato com as diretoras para apresentar o teor da pesquisa que pretendia realizar. O primeiro local por mim escolhido para este contato foi a escola na qual essa pesquisa foi realizada. Quando abordei a diretora por mensagem inbox1 no Facebook2, ouvi da mesma que no dia anterior a comunidade escolar tinha passado por uma
perda irreparável, de um excelente aluno que por motivos banais tinha sido vítima de um homicídio desumano. A diretora acreditava que se antes os alunos já careciam de um suporte psicopedagógico que os auxiliassem no contexto de violência e perda em que estavam inseridos, após este evento tudo tinha adquirido uma proporção muito maior, e ela não tinha dúvidas de que muitos iriam se dispor a participar da pesquisa. Diante desse evento, e também do meu grande interesse por ele, decidi que se a pesquisa pudesse ser realizada nessa escola, eu nem iria visitar outras escolas.
Assim, após um encontro no qual expliquei pessoalmente como pretendia que o trabalho fosse realizado, eu e a diretora marcamos o dia em que eu visitaria as salas de aula, apresentando a pesquisa e fazendo o convite aos alunos. Foram marcados dois dias, em um
1 “Na internet, a palavra inbox refere-se ao bate-papo privado, principalmente no facebook. É uma palavra
inglesa que significa dentro da caixa”. Disponível em: <http://www.significando.com.br/inbox/>. Acesso em: 13 out. 2016.
2 “Facebook é uma rede social que é uma das maiores tanto em número de acesso quanto de usuários. Foi
fundada em 2004 [...]. É uma rede social gratuita que conecta pessoas de diversas partes do mundo e, devido ao seu alto alcance, já auxiliou pessoas que tinham perdido contato com amigos e familiares a se reencontrarem dentro do site. [...]. Disponível em: <https://www.meusdicionarios.com.br/facebook>. Acesso em: 13 out. 2016.
deles visitei o turno da tarde e no outro o turno da manhã. Dessa vez eu não levei o questionário porque percebi que além dele tomar boa parte tempo que eu dispunha com os alunos, não tinha o nível de resolubilidade que eu esperava. Ademais, diante do evento de grande proporção que a mim se apresentava, esperava trabalhar com alguns que estivessem enlutados pela morte recente do colega.
Nos dias combinados, reportei-me às salas de aulas, conversei com os alunos e obtive bastante receptividade dos mesmos. O problema surgido é que de acordo com o cronograma de trabalho, por mim elaborado, os encontros ocorreriam aos sábados durante toda a manhã e, poucos estavam dispostos a abrir mão de uma manhã de folga tão preciosa, visto que a maioria estudava em um turno e no outro geralmente estagiava, e ainda havia aqueles que se dedicavam a realização de cursos técnicos à noite.
Dessa maneira, ficou determinado que eu realizaria o trabalho apenas com quatro pessoas: o Amarelo, a Vermelha, a Lilás e o menino Verde. Esta quantidade de sujeitos já era por mim almejada, visto que uma quantidade maior de integrantes dificultaria a realização de uma análise mais acurada acerca da situação particular de cada um. O meu único temor era de que, havendo desistência, caso nada incomum em processos de pesquisa longos, eu me visse, em algum momento da pesquisa sem condições de concluí-la em função de um número reduzido ou inexistente de sujeitos a serem pesquisados.
Na semana posterior ao primeiro encontro, recebi da diretora uma mensagem, dizendo que três dias antes uma aluna do nono ano, com dezesseis anos, tinha perdido o pai por homicídio em uma chacina, e a mãe muito preocupada tinha recorrido ao colégio, solicitando auxílio, caso a filha viesse a precisar.
Dispus-me prontamente a ajudá-la, conversei com a mesma e a convidei para juntar-se aos outros quatro, na pesquisa: o Amarelo, o Verde, a Lilás e a Vermelha. Convite aceito, então, o grupo passou a ser integrado por cinco componentes. A menina que entrou por último ficou sendo o elemento azul.
Aqui, pretendo me deter um pouco no menino Verde, tendo em vista que ele participou da pesquisa somente por três encontros. Era uma pessoa muito expansiva, Verde alegrou os encontros enquanto pôde estar conosco, todavia, devido a uma série de atividades preparatórias para o estágio que iria assumir, passava a maior parte da semana fora de casa e, no final de semana, estando exaurido, tudo o que queria era descansar e estar com a namorada. Dessa maneira, fazendo uso de grande sinceridade e delicadeza, informou-me que se afastaria do trabalho.
A partir de então, o grupo voltou a ter quatro componentes, mantendo-se essa configuração até o final.
Tabela 1 – Caracterização dos participantes da pesquisa.
Nome Idade Motivo do luto Tempo decorrido da perda
Azul 16 anos Morte do pai Poucos dias
Lilás 17 anos Morte do pai Um ano e dois meses
Vermelha 17 anos Morte de um colega de classe Um mês Amarelo 16 anos Morte de um colega de escola Um mês Fonte: elaborada pela autora.
Além dos encontros ocorridos na escola aos sábados e algumas vezes no domingo, por sugestão da Azul tínhamos um grupo no Whatsapp3, incialmente com caráter meramente informativo, sendo criado para facilitar a marcação dos nossos encontros que nem sempre ocorriam na data proposta, em função de um ou outro contratempo ocorrido ao longo da semana. Com o passar do tempo, a confiança entre mim e os membros foi se estabelecendo e o grupo no Whatsapp foi sendo utilizado para alguns desabafos, esclarecimentos de dúvidas e proposição de ideias. Apesar da sugestão da sua abertura ter sido feita pela Azul, foi a Lilás quem escolheu o nome, Projeto da Paz, alegando que era assim que se sentia quando nos reuníamos. A fotografia do perfil, uma pomba branca com asas abertas, também foi escolhida por ela.
E assim, os encontros presenciais relacionados à primeira fase da pesquisa ocorreram ao longo dos meses de agosto, setembro, outubro e novembro; e os encontros relacionados à segunda fase nos meses de janeiro e fevereiro.