Segundo Blanchot, “[...] o interesse do diário é sua insignificância”350. O
diarista costuma escrever com certa regularidade, mesmo quando coisas aparentemente pouco significativas ocorrem. Seu objetivo é salvar os dias, pouco importando o conteúdo dos acontecimentos. O caderno de Odísio se diferencia dos diários na medida em que tenta registrar somente eventos considerados relevantes para a tarefa de oferecer um panorama da cidade de Juazeiro. Existe, no entanto, um forte aspecto de diário nesse suporte: a datação que ocorre esporadicamente.
O presente tópico pretende discorrer sobre eventos vividos por Odísio e escritos no “quente das horas” em seu caderno de memórias. Tais trechos do caderno configuram o que mais se assemelha à experiência de um diário. Dentre esses eventos, destaca-se um que teve ampla repercussão nos jornais estaduais, regionais e nacionais: a visita do deputado Antônio Xavier de Oliveira a Juazeiro, que surtiu grande revolta na população local, gerando inclusive um intenso confronto no qual morreram alguns devotos de Padre Cícero. Odísio testemunhou o acontecimento e o narrou:
A última explosão de fanatismo eu assisti em outubro de 1934, três meses depois da morte do padre Cicero, poucos dias depois da nossa chegada. Já fazia mais de um mês que um grupo de romeiros estava em polvorosa guardando armados a matriz, dia e noite, sempre aumentando, brutalmente ameaçadores a quem se encontrasse ao altar de Nssa Sra. Esta atitude dos romeiros foi por ter mal interpretado um sermão do padre Esmeraldo351, vigário já falecido, o
qual disse do púlpito que a época era triste, que não esmorecessem de rezar e pedir a Nssa Sra das Dores, padroeira do Joaseiro, a fim que o comunismo não vingasse, porque corriam o perigo de ver os lares destruídos, as imagens santas derrubadas e as igrejas confiscadas, como aconteceu na Rússia comunista; os romeiros ficaram de atalaia e, insuflados por alguns mais fanáticos e turbulentos, começaram a vigiar por turno a matriz a fim que o tal homem chamado = comuniz = (que diziam ser alto dois metros e meio) não viesse derrubar a imagem de Nssa Sra da Dores que está num nicho sobre o altar mor,
350 BLANCHOT, Maurice. O Livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2013. p. 273.
351 Monsenhor Pedro Esmeraldo da Silva foi o primeiro vigário da Paróquia de Nossa Senhora das Dores.
Era cratense e fundou também o Colégio São José. Veio a óbito em outubro de 1934, enquanto celebrava uma missa. Padre Esmeraldo foi fiel à Igreja até o último momento, combatendo, sempre que possível, o culto ao Padre Cícero. Não obstante, foi também o responsável por confessar o Padrinho momentos antes de sua morte.
sempre de sentinela em roda da igreja e do altar, impedindo a livre entrada aos fiéis, podendo só o vigário funcionar quando eles queriam.352
O jornal carioca Diário de Notícias publicou, em 6 de novembro de 1934, um artigo sobre a passagem do deputado Xavier de Oliveira pelo Juazeiro, quando teria se espalhado o boato de que ele seria o “comuniz” encarregado de roubar os restos mortais de Padre Cícero e a imagem de Nossa Senhora das Dores. Os devotos se uniram para impedir tal acontecimento, promovendo um conflito que levou a diversas mortes dentro da Igreja da Matriz:
Houve o diabo em Joazeiro do Ceará, o reducto fanático do padre Cicero Romão Baptista, redivivo ou ‘immorrível’. Meteram na cabeça do povo que os comunistas iam roubar a padroeira dos Carirys e a ossada do padre, e essa maldade bastou para amotinar a população da zona, contra a qual interviu brutalmente a policia, travando-se conflito, de que resultaram mortes. Já houve quem lembrasse o precedente de Canudos, que começou assim. Em vez de soldados, mande o governo mestres, médicos, juízes, progresso para o Joazeiro.353
Segundo o jornal, Padre Cícero, o “imorrível”, continuava vivo através de seus devotos, que fariam o que fosse necessário para protegê-lo. Mas essa religiosidade
sui generis não deveria ser punida com a violência dos soldados. Somente o progresso,
representado pela educação, a justiça, a higiene e a saúde, seria capaz de libertar Juazeiro do destino infeliz já experimentado por Canudos.
Antônio Xavier de Oliveira, professor de Clínica Psiquiátrica na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, não era comunista, mas um árduo defensor da Igreja Católica. Foi, inclusive, deputado federal pela Liga Eleitoral Católica entre 1933 e 1937. Interessante é notar que seu pai havia intercedido anteriormente junto ao clero do Crato para que, a pedido de Floro Bartolomeu, Padre Cícero pudesse continuar a edificação da Capela do Socorro. A permissão foi concedida com a condição de que o sacerdote não atuasse junto à construção354.
352 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do
Ceará, 2006. p. 28-29.
353 PARA TODOS. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, p. 2 7 nov. 1934.
354 Floro Bartolomeu conta que, estando o Padre Cícero doente, uma senhora chamada Hermínia prometeu
a Nossa Senhora do Socorro que construiria uma capela junto ao cemitério caso o sacerdote recobrasse a saúde. Tendo sua graça atendida, procurou o Dr. Floro com o objetivo de cumprir a promessa. O líder político procurou Padre Cícero, que optou por não tomar a frente da construção em virtude da proibição anterior de Dom Joaquim em relação à igreja dedicada ao culto do Sagrado Coração de Jesus no Horto. Floro Bartolomeu explica que, não querendo tratar pessoalmente do assunto, falou com José Xavier de
O médico e deputado juazeirense contou, em entrevista concedida ao Diário
Carioca, que durante sua visita — em campanha política — ao Ceará, adversários teriam
espalhado boatos a seu respeito. Ele atribuiu ao deputado Fernandes Távora, ao prefeito de Juazeiro do Norte, José Geraldo da Cruz, e a um jornalista e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Pedro Coutinho Filho, um plano que poderia arrancar-lhe a vida no momento de sua passagem pela cidade:
O caso foi simples: partidários do deputado Fernandes Távora, guiados pelo prefeito de Juazeiro, o sr. José Geraldo e, por um desclassificado [...] o sr. Coutinho Filho, tramaram meu assassínio por ocasião de minha chegada naquela cidade. O plano foi engenhoso e interessante. Esse desclassificado (Pedro Coutinho), que se diz engenheiro sem ser engenheiro, e que se diz professor do Collegio Pedro II, do Rio, sem o ser, tendo vindo antes de mim, espalhou e fez espalhar entre os bons romeiros de Juazeiro que eu sou comunista e que ia àquella cidade para realizar três cousas:
1ª – Substituir a estatua do padre Cicero pela de Christo-Rei ‘que é maçon’ – acrescentava ele aos romeiros.
2ª – Roubar a imagem da Virgem das Dores de seu altar na matriz de que é milagrosa padroeira.
3ª – Roubar os ossos do padre Cicero de sua sepultura.355
Xavier de Oliveira comentou no mesmo texto que já estava informado das movimentações em sua cidade natal há algum tempo e tinha consciência de que sua chegada traria conturbações. Recebeu conselhos e indicações de amigos, parentes e correligionários, que pediam que se mantivesse distante de Juazeiro, mas resolveu continuar em campanha, deslocando-se até o Cariri. Ao chegar no município, a confusão efetivamente se instalou. O evento também foi noticiado pelo Diário de Notícias, que afirmou:
[...] seus adversários espalharam em Joazeiro que sua ida àquella cidade tinha três objetivos; 1º substituir a estatua do padre Cicero pela do Christo-Rei, que é maçom, segundo eles; 2º, roubar a imagem da Virgem das Dores de sua igreja e; 3º, arrancar de sua sepultura os ossos do padre Cícero. O resultado dessa manobra eleitoral foi que quando o sr. Xavier de Oliveira chegou a Joazeiro, cerca das 23 horas, duas mil pessoas estavam reunidas em torno da estatua do padre Cicero, para impedir o sacrilégio.356
Oliveira, que “[...] entendeu-se com o vigário, que é o atual Bispo do Crato, e obteve a licença, sob a única exigência do Padre Cicero não ter a menor interferência no trabalho”. COSTA, Floro Bartolomeu da. Juazeiro e o Padre Cícero: Depoimento para a História. Fortaleza: Edições UFC, 2010 [1923]. p. 60- 61.
355 SENSACIONAES AVENTURAS de um candidato a deputado na Joazeiro do Padre Cicero. Diário
Carioca, Rio de Janeiro, p. 11, 24 out. 1934.
O periódico carioca concedeu uma informação delicada: a de que existiriam milhares de devotos resguardando a escultura. De acordo com outros noticiários, o número de fiéis não chegava a uma centena, e se concentravam na Matriz, não junto à estátua do Padre Cícero. Durante esse evento, segundo o Jornal do Recife, o vigário, padre Juvenal Colares, teria estimulado os devotos a abandonarem a igreja, mas “[...] os fanáticos se opuseram, pelo que foi pedido o concurso da polícia, a qual também não conseguiu afastal-os facilmente, travando-se seria lucta da qual resultou a morte de 9 fanáticos”357. Restaram ainda alguns feridos, inclusive o próprio vigário. Em suas
memórias, Odísio lembrou, inclusive, ter sido contratado pelos católicos da cidade para construir uma imagem com o objetivo de expiar a mácula provocada pela morte de tantas pessoas dentro de um templo sagrado. Atualmente, tal estátua, que representa Nossa Senhora das Dores, permanece encimando a torre da matriz358. Conforme o testemunho
de Odísio,
A nada serviu as palavras e conselhos de paz do prefeito e das pessoas mais conceituadas e as exortações do próprio vigário explicando no erro que eles estavam; a barafunda continuou em procissões com cânticos dia e noite, sermões feitos por eles, incitando a resistir, sempre armados, cismados que o mesmo vigário fosse de acordo com o tal de = comuniz = para roubar a imagem e leva-la ao Crato aonde seria destruída; já tinham várias vezes ameaçado o padre de não se encostar ao altar, e em sabendo que o vigário estava confessando, o arrancaram incontinenti da igreja; eu vi passar da porta da nossa choça a força correndo e como já tinha algum conhecimento com o capitão o qual me fora apresentado pelo prefeito, perguntei-lhe da porta o que havia de novo, ao que ele respondeu correndo que iam para a matriz; como já estava interessado com o que se passava vesti-me as pressas e fui para ver o que tinha acontecido, quando, já perto da matriz, faltando uns cem metros, ouvi medonho estrondo de tiros vindo de dentro da igreja, barulho e gritos, e logo depois gente fugir a precipício e soldados de baioneta calada crescendo as portas [...].359
O trecho acima remete à experiência pessoal de Odísio, que viu os policiais passarem correndo e perguntou o que ocorria, escutando o capitão informar para onde
357 QUANDO GUARDAVA o túmulo do Padre Cícero. Jornal do Recife, Recife, p. 1, 6 nov. 1934. 358 Odísio teria sido ainda responsável pela reforma da Matriz de Juazeiro. Conforme depoimento concedido
por Renato Dantas em abril de 2013 ao pesquisador Paulo Wendell Alves de Oliveira, “É [...] um grande artista que morou no Juazeiro, um italiano, não é só porque ele é um italiano, mas é porque ele modificou totalmente o pensamento das artes no Juazeiro, modificou, influenciou e foi influenciado [...]. Isso já foi na modernidade da matriz de Juazeiro, porque hoje já é pós-modernidade, a matriz de Juazeiro está pós-moderna, porque a modernidade foi feita em 1934, com a morte do Padre Cícero, com a intenção de apagar a memória. Então este artista contribui muito para apagar essa memória e não apagou, pelo contrário, houve a ressignificação pelo romeiro e a sacralidade permaneceu [...]”. OLIVEIRA, Paulo Wendell Alves de. Memória da cidade: Transformações e permanências na produção espacial do núcleo de formação histórico da cidade de Juazeiro do Norte. 2014. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, 2014. p. 197-198.
359 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do
estavam indo. Como um repórter que devesse observar as ações in loco, o escultor se apressou com a intenção de verificar o que acontecia. A confusão que se desenrolou não foi revelada inicialmente pelo olhar, mas pelo ouvido, que escutou tiros e gritos. Posteriormente, o escultor avistou apenas os fugitivos do confronto, continuando sem compreender o que houve. Assim, teve que recorrer à narrativa do capitão para descrever a sequência dos eventos:
Chegada a força à matriz o capitão deu hordem de prisão aos romeiros que dentro estavam, ao que, eles todos correram atrás da balaústra ao pé do altar, trincheirando-se, o capitão, sempre intimando-os de se renderem mandou avançar a força de baioneta calada, mas os romeiros em vez de se render assaltaram os soldados derrubando um sargento a foiçadas e ferindo uma praça, ao que o capitão se viu obrigado a ordenar a defesa da qual caíram mortos seis romeiros e mais de vinte feridos, alguns gravemente a bala e pontaço de baioneta. A luta passou dentro da capella mor e os mortos ficaram estendidos ao pé do altar, os feridos leves fugiram pelo mato e os graves levados a pharmacias para o tratamento, pois aqui não existem [h]ospitais.360
Na ânsia de apresentar um panorama do acontecimento, Odísio mesclou o próprio testemunho às informações colhidas de fontes oficiais, que possuíam interesses muito bem demarcados. Desse modo, abdicou da narrativa pessoal, autoral, optando por uma versão que repetia a explicação das autoridades policiais sobre o tema. O evento presenciado pelo escritor aparece em seu caderno de memórias com uma interpretação que não é de sua própria lavra e que contribui para a fixação da imagem de Juazeiro como uma terra repleta de bandidos e fanáticos ignorantes, perigosos, selvagens e incontroláveis.
Odísio deixou de ser testemunha e passou a repetir a variante do capitão, afirmando que os romeiros iniciaram a batalha, “obrigando” o oficial a tomar medidas mais rígidas. Após reproduzir o discurso sem apresentar dúvidas sobre o que havia ocorrido no interior da capela, o escultor aproveitou o ensejo para informar que os feridos não foram levados a hospitais porque tais estabelecimentos não existiam na cidade. Seguindo ainda a narrativa do capitão, informou:
Parte foram presos e levados ao quartel aonde ficaram encarcerados, confessando depois que já haviam feito o plano: no sábado da tragédia estava marcado para expulsar o vigário e tomar conta da igreja, na quinta-feira assaltar as casas comerciais e no sábado seguinte matar as filhas de Maria porque estavam de acordo com o comuniz. Eu fiquei horrorizado quando entrando na
360 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do
igreja com o capitão logo depois do acontecido, vi o pavimento cheio de sangue, os mortos estendidos e os feridos gemendo e berrando; porém logo depois me convenci que estas scenas e factos em Joaseiro devem ser comuns, porque a mesma noite numa casa perto da igreja, aonde ainda jaziam os cadáveres, dançavam alegremente ao som de uma sanfona por uma festa de aniversário.361
Em que situação tais confissões teriam acontecido (isto é, se de fato aconteceram), é difícil saber. De todo modo, Odísio afirmou, sem contestar, a existência de um plano macabro que teria sido admitido pelos detentos, incluindo assaltos e assassinatos. O que o impressionou, no entanto, não foi o tal plano, mas a banalidade da violência, já que não presenciou grande consternação na cidade diante da tragédia. Pelo contrário: enquanto muitos jaziam mortos, alguns celebravam, desinibida e alegremente, a vida.
Outra era, no entanto, a versão oficial do caso. Segundo nota publicada no jornal católico O Nordeste em 5 de novembro de 1934, o vigário Juvenal Colares Maia teria sido agredido por “fanáticos”. Após o incidente, a guarda municipal teria comparecido à matriz com o objetivo estabelecer a ordem, mas foi atacada pelos devotos de Padre Cícero e, posteriormente, sentiu-se “obrigada” a fazer uso das armas. A versão oficial não menciona os nomes dos mortos, provavelmente devotos humildes de Padre Cícero. Foram citados nominalmente somente o vigário, o prefeito e os membros da elite civil e da força policial feridos durante o confronto. De acordo com a Nota Oficial da Interventoria Federal no Estado do Ceará,
O Exmo. Sr. Cel. Interventor Federal recebeu, hontem, um telegrama do Prefeito Municipal de Joazeiro, comunicando-lhe que, no dia 3, às 17 horas, havia sido agredido, a cacetadas, por um grupo de cerca de 50 fanaticos, o vigário da freguesia, padre Juvenal Collares Maia. Tendo a força comparecido à matriz, onde ocorrera o incidente, afim de restabelecer a ordem, foi agredida pelos fanáticos, sendo obrigada a fazer uso das armas. Do confflicto, em que a polícia foi auxiliada espontaneamente por numerosos populares, resultaram seis mortes e ferimentos em varias pessôas, entre ellas, o comerciante Antonio Cruz, Capitão Firmino Araujo, Cicero Ferreira, 3º Sargento Raymundo Marques e soldado Ananias Pereira. A ordem foi restabelecida, effectuando-se 15 prisões.362
É interessante notar que, dias antes, em 13 de outubro de 1934, o prefeito municipal tinha desmentido, em telegrama ao interventor federal, os rumores de conflitos
361 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do
Ceará, 2006. p. 32.
no Juazeiro, assegurando que ali reinava completa paz e afirmando serem inteiramente infundados os “[...] boatos contrários exploradores intuitos facciosos. Inexistem intuitos agressão deputado Xavier Oliveira, que transitou cidade destino Crato onde permanece livre vontade”363. Assim, notava-se mais uma vez a tentativa de defender a ideia de
civilidade em Juazeiro, embora estivesse clara a fuga do político cearense à cidade ao lado, onde efetivamente se encontraria a salvo dos devotos de Padre Cícero.
O jornal carioca A Noite publicou em 24 de outubro de 1934 um artigo de autoria de Humberto de Campos intitulado “O culpado sou eu!”, no qual ele especulava sobre a suposta fonte do boato que encurralou Xavier de Oliveira. Ao longo do texto, Campos informava que o deputado era seu médico e amigo próximo e sabia que existiam duas questões que o afligiam: a debilidade da própria saúde e um problema financeiro.
Humberto de Campos contou que havia comprado uma casa através de procuração concedida a um amigo. Passou muito tempo, contudo, esperando receber o imóvel. Procurando descobrir o motivo da demora, soube que a casa havia sido hipotecada pelo procurador. Xavier de Oliveira conhecia toda a situação, inclusive porque o dito procurador era seu parceiro de chapa nas eleições. O deputado afirmava querer ajudar Humberto de Campos de alguma forma. A solução encontrada por Xavier de Oliveira teria dado origem ao boato. Segue a explicação do escritor:
Xavier de Oliveira conhecia essa situação quando, há quatro ou cinco mezes, foi informado de que o meu antigo procurador seria seu companheiro na chapa como candidato da Liga Eleitoral Catholica a deputado federal pelo Ceará. Tendo de seguir para aquele Estado, veio despedir-se de mim. Falei-lhe, ainda uma vez, da minha casa e da minha saúde. Elle coçou a cabeça enorme, de nordestino inteligente, e opinou:
‒ Homem, eu quero muito bem a você, e, por você, estou disposto a todos os sacrificios. A sciencia tem feito o impossível para que você se restabeleça, ou melhore, e inutilmente. Por que você não recorre a Nossa Senhora das Dôres, de Joazeiro?
‒ Recorrer, como, Xavier? Eu não posso ir lá... ‒ Eu trago a santa aqui.
‒ Você?
‒ Eu, mesmo. É perigoso, vou por a minha vida em perigo, mas não relutarei. Irei a Joazeiro, metterei a santa na mala, e, dentro de algumas semanas, você a terá no Rio de Janeiro.
‒ Mas, depois, você leva... – aventurei.
‒ Ah, com certeza! E você pode estar certo que ficará bem.
Xavier estava sentado. Puz-me de pé e, comovido, ensopei a sua cabeça de lagrimas [...]. E aventurei:
‒ Xavier, a Senhora das Dôres do Joazeiro não fará também o milagre de obrigar aquelle nosso amigo a prestar-me contas da procuração que lhe passei? Elle vae ser deputado, e deputado catholico... A Senhora das Dores não terá influencia sobre ele?
Xavier de Oliveira fez uma careta:
‒ Não, não acredito que tenha, não. Com aquelle, em matéria de negócios, não há santo que possa.
De repente, acendeu os olhos miúdos. O rosto se iluminou:
‒ Mas, tenho uma idéa! Eu posso lhe arranjar uma relíquia capaz de obrigar aquelle camarada a prestar contas a você!
‒ Uma relíquia, Xavier?
‒ Uma relíquia, sim! Os ossos da mão direita do padre Cicero!
‒ E você me arranja isso, Xavier? – gritei, chorando de novo, e beijando-o