Por fim, apresentamos, nesta seção, as proposições de Swiggers (2010) - no texto Le métalangage de la linguistique: reflexions à propos de la terminologie e de la terminographie linguistiques - cujo objetivo central é encaminhar uma sistematização para os estudos sobre terminologia e terminografia, no campo da linguística, e, mais especificamente, da historiografia linguística.
O autor admite, inicialmente, que o campo da terminologia e da terminografia linguística gozam de uma complexidade metodológica considerável e elenca três fatores que contribuem para esse fato: 1º- os estudos, nesse campo, entram numa “cascata semiótica” de “meta-nível” (Swiggers, 2010, p.1), isto é, compreendem uma rede de termos metalinguísticos organizada em diferentes níveis, de maneira complexa; 2º- o campo está determinado por uma ciência humana, a linguística, caracterizada por uma multiplicidade interpretativa que turva os objetos de análise; 3º- o campo constrói-se por uma dinâmica sutil de “transgressões e interseções disciplinares” (Swiggers, 2010, p. 2).
Na sequência, procurando organizar e tipificar as metodologias de análise no campo da terminologia e da terminografia linguística, o autor propõe as seguintes definições:
- terminologia – estudo de conjuntos de “entidades lexicais” usadas como “formas designativas técnicas” (Swiggers, 2010, p.3) em relação a um campo de objetos;
- terminografia – trabalho reflexivo, de natureza sistematizante, realizado sobre um corpus terminológico;
- vocabulário – conjunto de termos, de procedimentos e de definições que representam o quadro teórico de uma abordagem particular (de um autor, de uma escola, de uma disciplina etc.);
- metalinguagem – estudo da terminologia e do vocabulário, em relação a seu campo de aplicabilidade e seu funcionamento sintático, empregado na análise de um campo de objetos específicos;
- metassemiótica – estudo da metalinguagem enriquecida de seu funcionamento pragmático e de suas dimensões contextuais.
Definidos esses campos de análise, o autor dedica-se ao exame da constituição e da construção da terminologia linguística. Do ponto de vista da constituição, Swiggers (2010) afirma que a terminologia linguística pode ser resultado de uma evolução espontânea ou o resultado de um processo de interferência (um termo empregado em determinado modelo descritivo é incorporado por outro, por exemplo). Do ponto de vista da construção, são reconhecidos três tipos específicos: as construções que se submetem a constrições metodológicas, observando elementos como a sistematicidade, a economia, a transparência e a adequação, por exemplo; as construções que priorizam a descrição da substância linguística, por meio de decalques, empréstimos ou novas
criações terminológicas; e as construções de caráter semântico-pragmático, que se ocupam da apresentação, recepção e comunicação terminológica.
Em relação à definição de metatermos, Swiggers (2010) estabele a seguinte tipologia:
- definições com determinação ôntico-epistêmica, organizadas, evidentemente, segundo parâmetros ontológicos e epistemológicos;
- definições submetidas às condições do público visado, que privilegiam aspectos pragmáticos relativos ao contexto de produção e recepção;
- definições constituídas por uma oposição de base, formalizadas a partir de oposições sistêmicas formais estruturadas por um quadro metodológico particular.
O autor afirma, ainda, que a definição terminológica, em linguística, não se sustenta na dimensão específica da lógica, mas corresponde, sim, a uma opção deliberada por identificar: a coisa em si (definição da substância ou do fenômeno linguístico, de maneira intrínseca); a própria designação (definição da palavra utilizada como termo técnico); ou o procedimento definitório (tipo de definição que privilegia o procedimento empregado nas construções terminológicas).
Para Swiggers (2010), a definição é sistematizada por traços classêmicos que podem ser mapeados segundo os seguintes critérios: conteúdo, incidência (ou aplicação da definição), aspectos heurísticos, interdisciplinares, macro-científicos e culturais. Da perspectiva das correlações lógicas que organizam uma definição, um termo de uma rede terminológica concreta poderá ser definido por correlações: de subordinação ou subsunção; de não-interseção ou justaposição; por interseção ou recobrimento; por contradição ou exclusão; por contrariedade ou oposição.
Por fim, o autor ocupa-se da calibragem de termos, em estudos historiográficos, no campo da linguística. A calibragem de termos consiste, justamente, na análise,
descrição e interpretação contextualizada dos fatores constitutivos da organização e sistematização de um quadro terminológico definido. Para o exame da calibragem terminológica dos autores, o historiógrafo deverá observar a distinção entre termos de caráter mais geral, relacionados à teoria da gramática, e termos de caráter mais operatório, relacionados a uma descrição linguística objetiva. As meta-noções (como ‘objeto’ e ‘relação’) e as noções-tipo (como ‘complemento’ e ‘relacionante’) são aquelas de caráter mais geral, oriundas da teoria da gramática. As noções orientadas (como ‘complemento verbal’ e ‘relacionante de dois lugares’) e os conceitos operatórios (como ‘objeto indireto’ e ‘preposição’) apresentam caráter mais específico e destinam- se às descrições linguísticas concretas.
O estudo da calibragem terminológica, pelo historiógrafo, inclui, finalmente, no contexto de trabalhos linguísticos objetivos: a identificação da rede relacional dos termos em estudo; a datação e a crítica hermenêutica dessa rede relacional de termos; a inserção de época dos termos - no sentido da contextualização histórica da produção terminológica sob análise; o mapeamento das mudanças que organizam as definições, os exemplos, e os procedimentos metodológicos associados à constituição, construção e à manutenção de uma terminologia específica.
Com efeito, as proposições de Koerner (1996), Auroux (1992a) e Swiggers (2010), tal como apresentadas nesta seção, organizam o horizonte metodológico desta Pesquisa, sobretudo no que diz respeito ao estudo da categoria de caso nominal na língua andina. No Capítulo a seguir, passamos à descrição específica de nossos parâmetros de análise, à luz dos autores aqui examinados.
CAPÍTULO II
ESTABELECIMENTO DOS MÉTODOS DE ANÁLISE
O objetivo deste Capítulo é explicitar a metodologia empregada, neste Trabalho, por meio da descrição e contextualização das gramáticas sob exame e pela definição do corpus e dos parâmetros (linguísticos e extralinguísticos) de análise a serem utilizados.