No Apêndice 1 (A teoria das partes do discurso) da obra A revolução tecnológica da gramatização, Auroux (1992a) discute o problema da metalinguagem no contexto da gramática ocidental. O texto tem início com a afirmação da evidente estabilidade metalinguística, nesse contexto, dada pela Teoria das partes do discurso:
Entre todas as disciplinas, a gramática é sem dúvida a que possui o vocabulário teórico próprio mais estável e mais antigo: trata-se das categorias gramaticais e, mais especialmente, das classes de palavras ou partes do discurso [...] (Auroux, 1992a, p. 101)
Segundo Auroux (1992a), a Teoria das partes do discurso repousa sempre sobre uma análise da cadeia falada, cuja unidade essencial é a palavra, análise esta que pode se verificar por dois movimentos lógicos distintos. O primeiro deles é caracterizado pela “decomposição linear”, na qual a cadeia da fala é decomposta em frases, as frases em sujeito e predicado e o sujeito em palavras. Nesse caso, a união das partes obtidas pela “decomposição” resulta numa “expressão linguística”. O segundo movimento lógico a que se refere Auroux (1992a) verifica-se pela “repartição das partes em função de propriedades imbricadas”, isto é, pela categorização, pela classificação das unidades de diferentes níveis, dada, essencialmente, pelo recurso lógico das oposições dicotômicas. Nesse segundo caso, a união das partes de mesmo nível (leia-se: a união das palavras de mesma classe gramatical) resulta na identificação da “classe superior” e não numa “expressão linguística” (cf. Auroux, 1992a, p. 101).
Fixada a classificação das palavras em propriedades categoriais, “é possível enunciar as regras válidas para um conjunto não-finito de formas” (Auroux, 1992a, p. 101). Na interpretação do autor, é esse, justamente, o procedimento original que sistematizou os domínios da gramática no Ocidente.
Segundo Auroux (1992a), nesse modelo, autores que se ocuparam em defender a monocategorização, isto é, a ideia de que uma mesma forma pertença sempre a uma mesma categoria, fizeram uso de dois recursos distintos: a elipse, que permitiu conservar a unicidade categorial (/um sábio/ /um/ /homem/ /sábio/); e a homonímia, que assegurou que duas formas pertencentes a categorias diferentes não fossem identificadas como a mesma entidade linguística (‘que’ – pronome relativo; e ‘que’ – conjunção integrante) (cf. Auroux, 1992a, p. 102).
De toda maneira, da perspectiva do autor, as estratégias empregadas pela gramática tradicional partiram, sempre, da decomposição da linguagem em palavras. As palavras, nesse contexto, devem obedecer a três exigências distintas:
1º - as palavras são signos, isto é, possuem significação; não se confundem, portanto, com outros elementos linguísticos, como as letras, os sons e as sílabas;
2º - as palavras são “os átomos da expressão linguística” (cf. Auroux, 1992a, p. 102), preservam certa autonomia, umas em relação às outras, e são responsáveis pela composição da cadeia linguística;
3º - qualquer alteração formal das palavras, necessária a um arranjo específico de uma dada expressão linguística, é considerada como uma modificação interna à própria palavra.
Para Auroux (1992a), a última dessas exigências enquadra o fenômeno da flexão, compreendida como variação interna ao paradigma organizado pela palavra, fato que denota a forte correlação, na tradição ocidental, entre o conceito de classes de palavras e as ideias de flexão e derivação:
[...] há uma correlação muito forte na tradição ocidental entre o papel das classes de palavras e a oposição flexão/derivação: Singh & Ford notam que um morfema é uma flexão (e não um afixo derivacional) se ele é membro de um paradigma de formas que serve para caracterizar uma parte de discurso.
Uma parte do discurso corresponde, quanto a ela, a possibilidades flexionais próprias. (Auroux, 1992a, p. 103)
É por isso que, na gramática antiga, pelas palavras do autor, “[...] o particípio é concebido como uma parte do discurso distinta do nome e do verbo [...]” (Auroux, 1992a, p. 103), por apresentar propriedades flexionais próprias. Esse mesmo fato explica, igualmente, que substantivos e adjetivos pertençam a uma mesma classe de palavras, nesse contexto, a classe dos nomes, uma vez que nomes substantivos e nomes adjetivos revelam propriedades flexionais idênticas.
Na sequência de sua exposição, Auroux (1992a) reconhece as dificuldades impostas pelo modelo gramatical do Ocidente, o modelo das partes do discurso, à descrição de línguas tipologicamente distintas do latim:
A categoria da palavra não é das mais cômodas para tratar das línguas aglutinantes ou polissintéticas, e os gramáticos ocidentais vão ter muita dificuldade em tratar as línguas ameríndias a partir do modelo ocidental do dicionário de palavras. (Auroux, 1992a, p. 1003)
Entretanto, a despeito dessas dificuldades, o autor reafirma a importância da teoria das partes do discurso para o desenvolvimento da gramática ocidental:
[...] atrás da teoria das partes do discurso, é preciso reconhecer algo que é a propriedade essencial da linguagem humana e que podemos enunciar como sendo sua natureza categorial: uma expressão linguística não corresponde simplesmente à concatenação de unidades indiferenciadas, isto é, a linguagem humana não é simplesmente um monóide livre. Trata-se aí de uma descoberta essencial (podemos atribuí-la a Platão e ver em Aristóteles seu primeiro teórico) para a história científica da humanidade, algo de tão importante quanto o são no domínio das matemáticas os teoremas de Tales ou Pitágoras. (Auroux, 1992a, p. 103)
Desse modo, foi a Téchnē Grammatikḗ, de Dionísio de Trácia ([séc. I a.C.]2002), e as revisões propostas a ela pelos gramáticos latinos que disponibilizaram os instrumentos metodológicos e metalinguísticos essenciais através dos quais se deu o
empreendimento massivo da gramatização (cf. Auroux, 1992, pp. 65-99), a partir do Renascimento, com a teoria das partes do discurso. Todavia, “se o nome e o número das partes do discurso permanecem relativamente estáveis, as estruturas de classificação e as definições [...] vão variar largamente no curso dos séculos” (Auroux, 1992a, p. 104). Os critérios que regulamentam as variações das classificações e definições metalinguísticas das partes do discurso, nesse contexto, podem ser agrupados, segundo o autor, da seguinte maneira (cf. Auroux, 1992a, pp. 104-108):
Morfológicos – critérios morfológicos estruturais, como na oposição palavra declinável vs palavra indeclinável, por exemplo;
Semânticos – critérios dados pela relação entre elementos linguísticos e elementos não- linguísticos, que podem ser de natureza psicológica, ontológica ou semiológica:
B.1. Psicológica – quando a propriedade destacada relaciona-se às faculdades do espírito, como em “parte do discurso que indica as diferentes afecções da alma” - definição de interjeição por Alvarez (cf. Auroux, 1992a, p. 104);
B.2. Ontológica – quando a propriedade em questão relaciona-se com a estrutura do mundo ou com os objetos do pensamento, como denota a oposição categorial substância vs qualidade;
B.3. Semiológica – a propriedade diz respeito a elementos definidos enquanto signos de uma espécie ou de outra, fundando-se mesmo na função do signo: nomear, indicar, pronunciar etc.; como exemplo o autor cita a classificação de palavra conotativa vs palavra denotativa, na gramática de Port-Royal;
Funcionais – critérios que caracterizam os fenômenos linguísticos pela sua inserção em níveis de análise superiores; podem ser lógicos, sintáticos e distribucionais:
C.1. Lógicos – a propriedade classificatória ou definitória relaciona-se à disciplina nomeada Lógica, como se observa na utilização de termos como sujeito, cópula, predicado, atributo etc.;
C.2. Sintáticos – a propriedade em questão faz referência a uma cadeia linguística mais longa que o elemento linguístico a ser definido ou classificado, como se observa na oposição principal vs acessório e em termos como antecedente, por exemplo;
C.3. Distribucionais – propriedade que concerne, segundo o autor, à substituabilidade e à co-ocorrência; essa propriedade diferencia-se como paradigmática ou sintagmática: C.3.1. Paradigmática – quando o nível de análise superior considerado não é da natureza da cadeia linguística, como denotam proposições como este nome pertence a um inventário finito ou pertence a um inventário aberto;
C.3.2. Sintagmática – quando a propriedade é fundada na co-ocorrência de dois itens lexicais da cadeia linguística, tal como se observa em proposições como o adjetivo acompanha o nome ou o advérbio acompanha o verbo;
D. Metalinguísticos – critérios que definem ou classificam categorias linguísticas fazendo referência ao próprio enunciado linguístico; esses critérios dividem-se em dois tipos, comunicacionais e metagramaticais:
D.1. Comunicacionais – quando a referência ao enunciado está relacionada à situação de interlocução;
D.2. Metagramaticais – quando a referência ao enunciado está relacionada à própria metalinguagem gramatical; o autor identifica três tipos dentre os critérios metagramaticais de definição e/ou classificação:
D.2.1. Parafrástico – quando a propriedade corresponde a uma paráfrase estruturada a partir dos nomes de outras classes de palavras, como em proposições como o advérbio é equivalente a uma preposição seguida de um nome;
D.2.2. Etimológico – quando a propriedade faz uso da etimologia na definição/classificação de uma classe de palavra, como se observa na definição clássica do substantivo justificada pelo fato de que essa classe de palavras carrega a substância própria dos nomes, ou na definição clássica dos pronomes como aquela classe de palavra que substitui o nome;
D.2.3. Didático – quando a propriedade diz respeito à atividade específica do gramático, como se vê em proposições como palavra de que nos servimos para dar a conhecer os casos.
As variações observadas nas definições e classificações das partes do discurso, tal como apresentadas na tipologia acima, obedecem, por fim, segundo o autor, a certa funcionalidade epistemológica, isto é, sistematizam diferentes motivações epistêmicas que levam os gramáticos a suas escolhas, e é dessa perspectiva que tais variações devem ser analisadas. Não se pode simplesmente compreendê-las como desvio em relação a um modelo estrutural que, na verdade, é incapaz de organizar-se de modo rígido:
Os linguistas modernos criticaram fortemente a teoria tradicional [...] mas vendem barato um certo número de características que asseguraram durante vinte séculos e até hoje, a despeito das críticas, o sucesso desse modo de apreensão da linguagem. Inicialmente o caráter de termos teóricos que revestem as classes de palavras permite a formulação econômica de um grande número de informações gramaticais [...] Em seguida, sua variabilidade permite uma importante flexibilidade de utilização [...] Enfim, a relativa estabilidade de seus termos teóricos assegura à gramática uma incontestável unidade no quadro descritivo e, por conseguinte, não é preciso conceber este quadro como uma estrutura rígida, um conjunto de leis intangíveis como o acreditaram certos teóricos da gramática geral: trata-se de uma estrutura unificadora nas ciências da linguagem, mas se não é, de modo algum, uma ‘estrutura mole’, é ao menos uma estrutura de dimensões variáveis”. (Auroux, 1992a, p. 108)
De fato, a Teoria das partes do discurso, ou das partes da oração, como modelo de descrição gramatical tradicional do Ocidente, organiza, de ponta a ponta, a produção
linguística efetivada sobre a língua quéchua, no domínio hispano-americano, como veremos nos Capítulos posteriores. Trata-se de um instrumental teórico-metodológico vigoroso, que serviu, a partir do Renascimento, à descrição de línguas ameríndias, africanas e asiáticas, no contexto da primeira mundialização, e permaneceu, durante o século XIX, como estratégia descritivo-normativa dos idiomas nacionais. As palavras, “os átomos da expressão linguística” (cf. Auroux, 1992a, p. 102), nesse contexto, mantêm-se como unidade essencial de análise e sistematizam as estruturas básicas do discurso (ou da oração).