• No results found

Tal como o Projeto Documenta (Altman, 2006-2009; Coelho, 2010-2014), esta Investigação ocupa-se do período circunscrito entre os séculos XVI e XIX, período de emergência e desenvolvimento da produção gramatical quéchua no âmbito próprio da gramática tradicional, segundo objetivos descritos anteriormente. Nesse contexto, temos os seguintes trabalhos gramaticais produzidos sobre a língua geral andina, conforme levantamentos efetuados por esta pesquisadora:

1) 1560 - Grammatica o arte de la lengua general de los Indios de los Reynos del Peru, de Fray Domingo de Santo Tomás (1499-1570);

2) 1586 - Arte, y vocabulario en la lengua general del Peru llamada Quichua, y en la lengua Española: el mas copioso y elegante que hasta agora se ha impresso, texto anônimo, editado por Antonio Ricardo (1532-1605/1606);

3) 1607 - Gramatica y Arte de la lengua general de todo el Peru, llamada lengua Qquichua, o lengua del Inca, de Diego González Holguín (c. 1552-1618);

4) 1616 - Arte breve de la lengua quechua, de Alonso de Huerta (?-1640); 5) 1619 - Arte de la lengva qvichva, de Diego de Torres Rubio (1547-1638);

6) 1633 - Gramática de la lengua general del Cuzco, de Fray Diego de Olmos (s.d.); 7) 1648 - Arte de la Lengva General de los Indios del Perv, de Ivan Roxo Mexia y Ocón (s.d.);

8) 1690 - Arte de la lengua quichua general de Indios del Peru, de Juan de Aguilar (s.d.);

9) 1691 - Arte de la lengua general del Ynga llamada Qquechhua, de Esteban Sancho de Melgar (s.d.);

10) 1753 - Breve instruccion o Arte para entender la lengua comum de los indios segun se habla en la Provincia de Quito, de Tomás Nieto Polo (s.d.);

11) 1857 - Gramática de la lengua general del Perú llamada comunmente quichua, de Honorio Mossi (1819-1895);

12) 1864 - Compendio de la gramatica quichua, de Manuel María Montaño (s.d); 13) 1864 - Contributions towards a grammar and dictionary of Quichua, de Clements Markham (1830-1916);

14) 1872 - Elementos de gramática quichua ó idioma de los Yncas, de José Fernández Nodal (1822-?);

15) 1874 - Gramática Quechua ó del Idioma del Imperio de los Incas, de José Dionisio Anchorena (s.d.);

16) 1883 - Das Land der Inca, in seiner bedeutung für die urgeschichte der sprache und schrift, de Rudolf Falb (1838-1903);

17) 1884 - Die Ketchua-Sprache, de Jakob Von Tschudi (1818-1889);

18) 1886 - Grammaire et dictionnaire français-quichua, de Enrique Onffroy de Thoron (s.d.);

19) 1889 - Manual del idioma general del Perú. Gramática razonada de la lengua qíchua; comparada con las lenguas del antigo continente, de Don Miguel Angel Mossi (1819-1895);

20) 1889 - Compendio de gramática quichua, de Antonio Carli (s.d.);

21) 1890 - Worterbuch des Runa Simi oder Keshua Sprache, de Ernst W. Middendorf (1830-1908);

22) 1892 - Ensayo de gramática de la lengua quichua tal como se habla actualmente entre los indios de la República del Ecuador, de Julio Paris (s.d.);

23) 1894 - Breves nociones gramaticales concernientes al idioma quichua, de Luis Cordero (1833-1912).

24) 1896 - La lengua quichua: (dialecto de la República del Ecuador), de Juan María Grimm (s.d.)

Os quatro séculos que contextualizaram os textos gramaticais supracitados registraram, certamente, mudanças históricas profundas, no plano social, político e institucional.

A emergência da gramaticografia quéchua, em 1560, constituiu-se como instrumento de apoio efetivo à colonização sul-americana, depois da conquista do Peru, de 1531 a 1533, e da Revolução Pizarrista, de 1544 a 1548. De 1551 a 1552, desenvolveu-se, na cidade de los Reyes, o Primeiro Concílio Limenho, dirigido pelo dominicano Jerónimo de Loaysa O. P. (1543-1575). O Segundo Concílio Limenho, também dirigido por Loaysa, estendeu-se de 1567 a 1568. Esses dois primeiros Concílios marcaram, em Lima, os primórdios da política linguística espanhola para a América, traduzida na gramática quéchua de Domingo de Santo Tomás O. P., única gramática dominicana registrada sobre a língua geral andina.

O Terceiro Concílio Limenho (1582-1583), dirigido por Santo Toribio de Mogrevejo (1538-1606), alterou, substancialmente, a política linguística da coroa espanhola para as colônias americanas. Formalizado a partir das rígidas sanções do Concílio Tridentino (1545-1563), o fórum estabeleceu, em Lima, a liderança dos jesuítas no enquadramento das novas práticas linguísticas previstas para o período. Os preceitos do manuscrito De procuranda indorum salute, do Padre José de Acosta S. J. (1539-1600), publicado originalmente apenas em 1588, serviram de ordenamento geral para as tarefas catequéticas nesse novo contexto.

Desse modo, podemos evidenciar, no século XVI, dois momentos distintos marcados por políticas linguísticas específicas para o Peru colonial: o primeiro, de herança dominicana, encontrou um paralelo na Polêmica de Valladolid (1550-1551), na qual Bartolomé de Las Casas O. P. (1543-1575) e Ginés de Sepúlveda (1490-1573) disputaram o estatuto jurídico do nativo americano; o segundo, de herança jesuítica, encontrou seu paralelo nas discussões finais promovidas pela Polêmica de Auxiliis (1528-1604), em que Luis de Molina, S. J. (1535-1600) e Domingo Bañez, O. P. (1528- 1604) confrontaram-se sobre o problema do livre-arbítrio relativamente ao tema da redenção humana.

Como produto da herança dominicana, vimos emergir a gramática de Santo Tomás, tal como se afirmou anteriormente. Como produto da herança jesuítica, sob os auspícios do Terceiro Concílio Limenho, vimos eleborarem-se novas gramáticas: Anônimo (1586), González Holguín (1607), Alonso de Huerta (1616), Torres Rubio (1619), Olmos (1633), Roxo Mexia y Ocón (1648), Juan de Aguilar (1690), Sancho de Melgar (1691) e Nieto Polo (1753). Em 1767, o soberano espanhol Carlos III (1716- 1788) publicou a Pragmática Sanción, segundo a qual restaram proibidas as publicações de quaisquer gramáticas de línguas indígenas em terras coloniais.

As gramáticas quéchuas ressurgiram, então, apenas no século XIX, no contexto da independência americana. Embora a América do Sul não se tenha envolvido diretamente no contexto do neocolonialismo do século XIX, que, como se sabe, voltou- se para conquistas de terras na África e na Ásia, foi possível registrar, nesse período, no continente sul-americano, um bom número de expedições europeias que dariam a medida do novo modelo político-econômico vigente a partir de então: o capitalismo industrial, conhecido também como o segundo processo de mundialização (ou globalização). Nesse período, no quadro naturalista e cientificista que animou os expedicionários europeus, destacaram-se importantes viagens a regiões sul-americanas, das quais resultaram reflexões significativas sobre a língua geral andina: a viagem de Alexander Von Humboldt (1769-1859), de 1799 a 1804; a viagem de Jakob Von Tschudi (1818-1889), em 1838; e a de Clements Markham (1830-1916), de 1852 a 1853.

Com efeito, tendo em vista esse contexto geral (a ser explicitado nos Capítulos posteriores), estabelecemos, como critério de periodização dos nossos materiais de análise, três períodos fundamentais que, do nosso ponto de vista, circunscrevem o contexto de produção e circulação das fontes primárias selecionadas:

1º - o primeiro período corresponde aos primeiros movimentos do colonialismo espanhol sobre a América, marcado pela herança dominicana e pelos dois primeiros Concílios Provinciais Limenhos;

2º - o segundo período está circunscrito pelas atividades do Terceiro Concílio Limenho, de um lado - representado pela herança jesuítica do colonialismo espanhol - e, de outro, pelos processos de independência das colônias sul-americanas, a partir do século XIX;

3º - o terceiro período corresponde ao contexto do neocolonialismo e da segunda mundialização, no século XIX, caracterizado, na América do Sul, pelas lutas de independência e pela organização dos estados nacionais americanos.

Embora a periodização aqui estabelecida possa indicar, à primeira vista, uma linearidade ininterrupta dos contextos de produção e circulação das gramáticas quéchuas, editadas entre os séculos XVI e XIX, lembramos, uma vez mais, que a metodologia empregada nesta Investigação postula, fundamentalmente, a complexidade e a não linearidade como forma de apreensão da mudança histórica (cf. Swiggers, 2004). Assim, na gramática do padre italiano Honório Mossi (1857), por exemplo, observa-se, ainda, no contexto republicano, a recorrência de um discurso providencialista que remonta, certamente, ao período colonial, tal como demonstraremos nos Capítulos posteriores. A despeito das profundas transformações sociais e políticas vivenciadas no século XIX, há que se reconhecer uma continuidade significativa, nesse caso, de certa retórica salvacionista, dominante desde o século XVI, matizada, nesse novo período, por valores republicanos e liberais.

De qualquer maneira, a periodização aqui determinada organiza-se a partir dos três períodos descritos anteriormente, nos limites de nossas opções metodológicas direcionadas pela hipótese da circularidade e pelo multiperspectivismo historiográfico.