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6. Analyse

6.6 Svakheter ved modellen

Aos dez anos de idade, Karlheinz Stockhausen foi colocado em uma

Oberschule na vila de Burscheid, que no sistema educacional alemão é o

equivalente ao nosso ginásio. Em seguida, seu pai desejou ingressá-lo em uma escola de elite com enfoque nos estudos da política e, para tanto, pes- quisou seus ancestrais germânicos, chegando a uma contínua linhagem de camponeses até a época da Guerra dos Trinta Anos. A seleção para tal carreira estudantil, conforme o regimento vigente do partido nazista, ba- seava-se não apenas na demonstração de inteligência e boa condição física do aluno, mas também na comprovação rigorosa da legitimidade racial do candidato. Por causa da condição mental de sua mãe, considerada “impró- pria”, Stockhausen não foi aceito (ibidem, p.19).

Em janeiro de 1942, Karlheinz ingressou no internato da academia na- cional de formação de professores na cidade de Xanten, para onde os me- lhores estudantes da região do Ruhrgebit (Vale do Ruhr, sendo este um afluente do rio Reno) que optavam pela carreira do magistério eram enca- minhados para receberem um programa de cinco anos de instrução. Apesar de sua intenção de tornar-se professor, com a Alemanha em plena guerra, o local tratava-se sobretudo de uma escola para jovens em treinamento militar. Os horários eram rigorosamente controlados e preenchidos com atividades. Acordava-se às 6 horas da manhã com a chamada do trompete para uma corrida matinal e, na sequência, realizavam-se reuniões diárias com o propósito de informarem sobre o andamento da guerra, com dados que em sua grande maioria eram falsamente manipulados pelas agências de

39 “[...] He married again; God knows why. He had no money, being paid the equivalent of thirty

pounds a month, so not being able to find anyone else he took a succession of peasant girls as housekeepers to cook and to take care of my sister and myself. These girls were notoriously dull witted and very neurotic. I think he married just to solve the problem of having someone in the house, because otherwise she would have left after three months, like all the rest.”

propaganda do Estado. A maior parte das atividades no campo de treina- mento concentrava-se nos esportes. As aulas de música também eram obri- gatórias para que a banda marcial pudesse se apresentar semanalmente aos domingos de manhã pelas ruas da cidade, como uma forma de manutenção da confiança da população na força da estrutura militar do regime direitista. Karlheinz estava entre os mais jovens dos estudantes que aos poucos eram recrutados para o Front.

No outono de 1944, restavam apenas dois entre todos os seus colegas com quem inicialmente havia ingressado no sonho de se tornarem profes- sores. Stockhausen revisitaria suas memórias dessa época na peça Kinder-

-Krieg (guerra das crianças), composta em 1994, sétima cena de Freitag aus Licht (sexta-feira de Luz).

No último ano da resistência alemã, Stockhausen passaria por situações ainda mais dramáticas ao ser transferido para um hospital militar improvi- sado no Castelo de Bedburg, a poucos quilômetros da linha de frente. Con- viveria diariamente com a morte e com os horrores da guerra, cuidando dos feridos ou realizando quaisquer tarefas que lhe fossem designadas, como podemos ler em sua declaração abaixo:

Uma vez eu trazia nas mãos dois baldes cheios de batatas assadas da cozinha ao hospital do acampamento, através do pátio do palácio. Então, de repente, iniciou-se um ataque aéreo ruidoso, e as bombas explodiam à minha volta gerando barulhos e estilhaços. Eu fechei os olhos e permaneci quieto, até que o barulho cessasse; depois, abri os olhos e vi os buracos abertos pelas bombas ao meu redor – eu tinha me safado... Eu estava precisamente num hospital de guerra, a cerca de 25 km do fronte ocidental. Nós ajudávamos os soldados a cuidar dos feridos e a enfaixá-los. Muitos dos feridos estavam feito espuma de borracha, pois, naquele período, os americanos e os ingleses estavam atacando com bombas de fósforo. A cabeça da maioria deles era como bolas de espuma de borracha, e frequentemente eu tentava, com um canudo, encontrar ali algum buraco pelo qual se lhes pudesse fazer chegar algum líquido à boca, de maneira que se alimentassem – as suas cabeças eram mesmo somente uma massa ama- rela e redonda, já sem nenhum sinal de rosto. Assim era o cotidiano. Não havia mais tempo para enterrar os mortos. Eles eram depositados numa pequena capela bombardeada, e todos os dias nós jogávamos mais uns 30 ou 40 novos corpos sobre os que lá já se encontravam. Alguns ainda estavam vivos. Como

não havia espaço no pátio do hospital, nós os jogávamos uns sobre os outros a fim de ganharmos lugar para os que não paravam de chegar. De vez em quando, chegavam 500 numa só manhã. Assim decorreram os últimos seis meses da guerra. (idem, 1978, p.589, tradução nossa)40

Simon Stockhausen, como a grande maioria das pessoas que ocupava posição mais humilde na sociedade, acreditava piamente no discurso e nas promessas do Partido Nazista, frutos de um ardiloso programa de ma- nipulação da informação e controle de massas, tanto antes quanto durante a guerra. Logo em 1939, quando da crise numa região da Checoslováquia, Simon apresentara-se voluntariamente às forças aéreas alemãs. Mandado de volta ao final do conflito, disponibilizar-se-ia novamente, ainda naquele mesmo ano, durante a invasão na Polônia. Stockhausen recorda-se desse patriotismo que cegou muitos indivíduos naquela época: “Meu pai tinha uma compulsão para ir embora e se alistar. [...] Eu não conseguia com- preender. Dizia-lhe: ‘Por que você vai? Isso é ridículo, fique aqui!’ E ele me respondia: ‘Não, não. Tenho que ir, precisam de mim por lá’” (idem, 1989a, p.19, tradução nossa).41

Simon morreu em abril de 1945 em algum lugar na Hungria. Como era membro ativo do partido e responsável pela coleta de dinheiro para os na-

40 “Einmal hatte ich zwei Eimer mit dampfenden Kartoffeln in den Händen und ging von den

Feldküche über den weiten Schlosshof zum Hauptgebäude des Lazarettes, als plötzlich dieses gellende Sausen des Jagdbombern einsetzte, es um mich herum knallte und prasselte und spritzte, ich die Augen zukniff und steif stehen blieb, bis ich diese Hornissen abpfeifen hörte, die Augen öffnete, die aufgeschossenen Rasendlöcher um mich herum sah – und mir nichts passiert war... Ich war nämlich in einem Kriegslazarett ungefähr 25 Kilometer direkt hinter der Westfront. Wir halfen den Soldaten, die Verwundeten zu verpflegen und zu verbinden. Viele der Verwundeten waren wie Schaumgummi, denn die Amerikaner und Engländer warfen zu der Zeit Phosphor- bomben. Die Köpfe der meisten waren wie Kugeln aus Schaumgummi, und oft habe ich versucht, mit einem Strohhalm ein Loch bis zum Mund zu finden, um etwas Flüssigkeit hineinzugiessen, um solch einen Menschen, der sich noch bewegte, zu ernähren – aber da war nur eine gelbe kugelförmige Masse ohne Zeichen eines Gesichtes. Das war das tägliche Leben. Es gab keine Zeit mehr, die Toten zu begraben. Sie lagen in einer kleinen, zerschossenen Kapelle, und jeden Tag warfen wir 30 oder 40 Körper einen über den anderen. Einige waren noch lebendig. Es war aber nicht genug Platz auf dem Lazaretthof, und so haben wir sie übereinandergeschmissen, um Platz zu machen für die anderen, die ständig gebracht wurden. Manchmal kamen 500 an einem Nachmittag. So ging es mir die letzten sechs Monate des Krieges.”

41 “My father had a compulsion to get away and enlist. [...] I couldn’t understand, I said, why do

zistas em sua região, caso fosse capturado pelas Forças Aliadas enfrentaria certamente um tribunal, seria preso e possivelmente torturado. Poucos meses antes da morte de seu pai, Stockhausen pôde encontrá-lo pela última vez, ocasião em que teria escutado as seguintes palavras: “Eu não voltarei, agora tome conta das coisas...” (Kurtz, 1992, p.19, tradução nossa).42

Ao final da guerra, Stockhausen encontrava-se órfão com apenas 17 anos e trabalhava em uma fazenda para ajudar sua pequena irmã e a ma- drasta. Praticava o piano assiduamente e, nas horas vagas, dedicava-se ao estudo do latim com o objetivo de ser aceito em uma escola na cidade de Bergish-Gladbach, onde poderia concluir sua formação, uma vez que seu certificado relativo aos anos despendidos na escola militar não havia sido reconhecido como válido.

Mesmo enquanto filho de ex-combatente, encontrou fortes resistências quando tentou ter acesso ao seu direito à pensão de órfão, que deveria ser fornecida pelo Estado. Eventualmente, graças à ajuda de seu antigo pro- fessor de piano, ensaiava um coral amador e apresentava operetas junto à Sociedade para o Teatro na cidade de Blecher. A princípio atuou como pianista repetidor e logo depois como diretor musical. Em 1947, terminava seus estudos e dirigia-se para Colônia, onde almejava conseguir uma vaga na Musikhochschule, o conservatório superior de música.