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2. THEORETICAL BACKGROUND

2.6 Sustainable Consumer Behavior & SHIFT

APROPRIAÇÕES, CONSUMO

E

IDENTIDADES

SOCIAIS1

Juliana do Prado

Introdução

Este artigo discute os resultados de pesquisa realizada a partir da gravação e análise de alguns capítulos da telenovela Belíssima, exi- bida no horário nobre da Rede Globo, no ano de 2009. Para tanto, enfocamos diversos temas envolvidos na telenovela e suscitados na pesquisa de campo, tais como a inserção de merchandising dentro da telenovela em questão, a influência (identificação/ projeção) dos personagens na vida cotidiana dos telespectadores, bem como a dis- cussão sobre a construção de gênero.

Cabe, antes de tudo, lembrarmos que a telenovela constitui-se em um produto cultural que resulta de uma modificação de um gênero que se desdobra desde o folhetim francês do século XIX até as radio- novelas e cinema latino-americano: o melodrama, que nas palavras de Jesus Martín-Barbero (2003, p.279) é “[...] o gênero capaz de estruturar qualquer tema ou situação ao mesmo tempo encarnando mitos e massificando comportamentos”. Geralmente, afirma-se que sua introdução no Brasil data de 1963; entretanto, a história parcela-

da ou o folhetim eletrônico foi descoberto na década de 1950. Inicial- mente produzidas como comercial de companhias multinacionais de sabão, como a Colgate-Palmolive, tendo as soap operas americanas como referências, as telenovelas não eram exibidas diariamente. A introdução do videoteipe em 1962 permitiu a exibição diária.

O papel da TV Globo na produção de telenovelas foi e ainda é importantíssimo para sua consolidação como produto cultural de massa, embora as produções de telenovelas em outras emissoras te- nham aberto concorrência desde a década de 1990 e venham se acen- tuando atualmente. O que diferencia a TV Globo na produção de telenovelas é o fato de ela ter constituído ao longo dos anos um ver- dadeiro star system hollywoodiano, consolidando um cast de profis- sionais (autores, diretores, produtores, elenco, profissionais técni- cos etc.) capaz de mobilizar outras mídias, exportar telenovelas para o mundo todo.

Nesse sentido, podemos afirmar que a TV Globo pôde criar o hábito de assistir televisão em família. A simultaneidade das ima- gens é o que torna possível uma relação de familiaridade com o telespectador. O contato diário com a telenovela faz que os telespec- tadores procurem alguma forma de identificação carismática ou iden- tificação de repulsa. Edgar Morin (1992, p.115) verifica que tal fato é produto da própria cultura de massa:

como toda cultura, a cultura de massa elabora modelos, normas; mas, para essa cultura estruturada segundo a lei de mercado, não há prescri- ções impostas, mas imagens ou palavras que fazem apelo à imitação, conselhos, incitações publicitárias.

A compreensão fica mais clara quando a televisão é analisada como um meio que inaugura – nos termos de Jesus Martín-Barbero – novas “estratégias de comunicabilidade”. Tais estratégias se efetua- rão por meio da simulação do real que tem como função orientar o comportamento dos indivíduos nas sociedades modernas. Como co- loca Muniz Sodré (1987, p.47), “parte do sistema organizador, a tele- visão é o espelho, no qual, narcisicamente, a ordem tecnocapitalista

se reflete e indica as suas grandes linhas de constituição de identida- des sociais”.

Na cultura de massa, os modelos de representação tradicionais são substituídos – nos termos de Edgar Morin – pelos novos “Olimpianos”, que no Brasil são os atores e personagens de teleno- velas. As telenovelas possuem uma capacidade de orientar o com- portamento e o consumo da sociedade como nenhum outro produto cultural brasileiro. O culto ao corpo tem sido muito representado já há algum tempo, entretanto, tem sido mais enfatizado em telenove- las atuais. Nas sociedades modernas as identidades sociais depen- dem de uma definição que se efetuará basicamente no âmbito da aparência pessoal. Assim, o culto ao corpo, compreendido como a busca de distinção por meio da moda e do uso de produtos de bele- za, torna-se uma das temáticas mais trabalhadas, configurando-se em eficiente estratégia de comunicabilidade das telenovelas.

O caso da telenovela no Brasil é importante nesse debate, visto que há toda uma mobilização da imprensa especializada em beleza em torno dos personagens que expõem o corpo. Exemplo claro dis- so pode-se verificar nas revistas femininas, que, na maioria das ve- zes, trazem na capa atrizes de telenovelas como modelos a serem se- guidos ou até mesmo em capa de revistas masculinas para que possam ser objeto de admiração. Além disso, é possível notar que campa- nhas publicitárias de cosméticos, roupas, produtos de higiene pes- soal e acessórios são patrocinadoras ou são inseridas dentro do enre- do da telenovela.

Partindo, portanto, do pressuposto de que a telenovela é o prin- cipal produto cultural de massa no Brasil, na medida em que atinge a maioria da população, e considerando-se que o culto ao corpo (cui- dados com a beleza) vem ganhando espaço crescente, propomos o estudo da forma como a temática corpo é retratada nas telenovelas brasileiras, tendo como eixo de discussão questões como: o sexo e a nudez são recursos para elevação de audiência? A exposição do cor- po nas telenovelas orienta o comportamento e o consumo da socie- dade? De que outras formas o corpo (tanto feminino, quanto mas- culino) é utilizado?

Para nos orientarmos no sentido de buscar respostas para essas questões, lançamos mão de duas hipóteses. A primeira diz respeito ao fascínio provocado com a exposição do corpo e do erotismo; que a telenovela, por abordar temas privados, ligados à família e à intimi- dade, em âmbito público, possa orientar o comportamento das pes- soas, especificamente no que diz respeito aos cuidados com o corpo e com sua apresentação.

Cristina Costa (2000, p.185), ao analisar a abordagem de temas familiares em telenovelas constata que

ao enfatizar a organização familiar da sociedade, ao estabelecer oposi- ções binárias irredutíveis, ao criar conflitos providenciais, a telenovela da atualidade infantiliza a vida social e reduz a ação dos personagens às relações de alcova.

Para a compreensão de como funciona o mecanismo manipula- dor da publicidade de produtos de beleza, lançamos mão de uma outra hipótese. Esta gira em torno da ideia de que o poder panótico atua de forma vigilante no culto ao corpo, tendo como referência modelos das telenovelas, com a finalidade de controlar-estimular o público.

O autocontrole engendrado pelo panopticon atua sobre a cons- ciência individual. Nas sociedades modernas, esse controle se efetu- ará por meio dos novos modelos de representação. Trabalhamos com a hipótese de que ocorreria uma inversão do mecanismo clássico do

panopticon, pois quem controla não é o observador, mas o objeto

observado, que olha e controla sem ser visto. Exemplo disso pode- se verificar nas pesquisas de mercado realizadas pela publicidade e no monitoramento da audiência, em que há uma observação dos hábitos do público. De forma sutil, a televisão, particularmente a telenovela, sugestiona e, ao mesmo tempo controla e vigia o com- portamento da sociedade por meio de seus modelos.

O culto ao corpo é um comportamento muito enfatizado pelas telenovelas, e é possível perceber que sua repercussão também se dá por relações de poder. A consciência do próprio corpo só pôde ser

adquirida pelo investimento do próprio poder. Como nos lembra Foucault (2000, p.146),

a ginástica, os exercícios, o desenvolvimento muscular, a nudez, a exaltação do belo corpo... tudo isto conduz ao desejo de seu próprio corpo através de um trabalho insistente, obstinado, meticuloso, que o poder exerceu sobre o corpo das crianças, dos soldados, sobre o corpo sadio.

Foucault ainda observa que com a liberalização do corpo dos poderes houve um aproveitamento da economia, de maneira que ela trouxe à tona produtos de beleza e erotismo: “como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimu- lação: ‘Fique nu...mas seja magro, bonito, bronzeado!’” (idem, p.147).

Nesse sentido, o poder panótico atua de forma vigilante no culto ao corpo, tendo como referência modelos das telenovelas, com a fi- nalidade de controlar-estimular o público a partir de um redirecionamento do discurso: “Fique nu...mas seja magro, bonito, bronzeado, como o protagonista da novela das oito!”.

Embora não seja possível estabelecer uma relação entre as cenas eróticas e que exploram o corpo com os índices de audiência coleta- dos junto ao Ibope, os dados que indicam a liderança de audiência da novela do horário nobre são muito explorados pela própria emis- sora, como veremos mais adiante por meio de um boletim informa- tivo para publicitários publicado pela Direção Geral de Comerciali- zação da Rede Globo, indicando os perfis dos telespectadores, e as vantagens de se anunciar em programas da emissora. Desse modo, a Rede Globo mantém informados os profissionais do meio da publi- cidade sobre seus programas e as possibilidades de anúncio.

Na primeira discussão, procuraremos fazer uma análise de como o receptor se apropria das mensagens transmitidas pela telenovela para formar sua identidade social tendo como eixo de discussão a influência dos personagens da novela analisada na aparência pes-

soal do receptor. Com isso, discutiremos os mecanismos de identi- ficação-projeção trabalhados por Morin, assim como temas relacio- nados à construção de gênero, como masculinidade e feminilidade, muito suscitados na novela Belíssima.

Como segundo ponto de discussão, faremos uma análise de como a sexualidade é tratada na telenovela e de como ela pode orientar a vida íntima das pessoas, a partir da transmissão de noções contem- porâneas de comportamento.