3. METHODOLOGY
3.1 Exploratory Research
Para a constituição de uma rede de contatos composta por teles- pectadores de telenovelas, partimos estrategicamente da observação de um salão de beleza, localizado na cidade de Araraquara. A esco- lha desse espaço justificou-se pelo fato de ser privilegiado para se compreender as mediações entre telenovela e sociedade no que se refere à temática corpo, devido não somente ao levantamento de co- mentários e impressões sobre o tema, como também aos possíveis comportamentos relacionados à aparência pessoal, orientados pelos personagens das telenovelas.
Quando fora iniciada a pesquisa de campo, uma das inquieta- ções iniciais era como escolher o salão de beleza. Logo que iniciei a pesquisa, inquietava-me a questão de encontrar uma maneira ideal para a inserção no ambiente a ser observado, sem perder a credibili- dade e, de modo, a conquistar informações dos sujeitos. Isso, pois, sem mencionar a diferença existente entre o pesquisador, que ainda está iniciando suas atividades, e o meio pesquisado.
A primeira parte da pesquisa de campo primou pela observação dos salões, que foram escolhidos baseados em dois parâmetros: ní- vel socioeconômico do salão e localização. Foram escolhidos dois salões que se situam no centro da cidade de Araraquara, sendo um salão mais popular, que atendia um público de classe baixa cujo nome é Cabelos Etc., e outro salão mais requintado, que atendia público de classe média-alta cujo nome é New Look clínica de Beleza.
Frequentei os salões durante um mês, registrando tudo em diário de campo; onde pude observar claramente que a maioria das pessoas realmente se orienta para formar seus estilos, de acordo com a apa- rência e personalidade dos personagens da telenovela Belíssima,do horário nobre da Rede Globo. Foi de extrema relevância poder aliar a teoria à práxis, isto é, conhecer o que se passa realmente no cotidiano do receptor, com os quais trabalhamos, assim como os processos que orientam o consumo e – partindo da reflexão de Michel de Certeau – as medidas astuciosas tomadas pelos consumidores, que traçam tri- lhas de diferentes formas de usos das mensagens televisivas, as quais escapam aos olhos da estatística.
Nos dois salões verifiquei que a frequência do público feminino atinge uma escala bem maior em relação ao público masculino, o que não significa que os homens não frequentam salões, eles frequentam, porém em uma escala menor. O salão mais popular, Cabelos Etc., tem como característica marcante a frequência de um público vasto e bas- tante variado, tendo assim como clientela pessoas de várias faixas etá- rias. Em geral, é frequentado por mulheres acima de 25 anos, com os perfis de donas de casa e estudantes. Dentre o pequeno público mas- culino, destacam-se homens acima de 25 anos também. Trata-se de um salão muito frequentado, principalmente nos finais de semana, onde os serviços referentes a cabelo, manicure e pedicure, depilação, sobrancelha e limpeza de pele são oferecidos à clientela. Dentre os serviços prestados, os que têm maior procura são corte de cabelo, cujo preço é seis reais e manicure e pedicure, cujo preço é dez reais e é também nesses serviços que o cliente procura seguir as tendências de moda apresentadas na novela.
O salão que atende ao público de classe média-alta caracteriza- se por ser um salão que oferece maior variedade de serviços dentre os quais, destaco: cabeleireiros unissex, estética facial e corporal, depilação, maquiagem social definitiva, podóloga, escova definiti- va e atendimento especial para noivas. Trata-se de um salão mais sofisticado em todos os sentidos, desde a arquitetura até os recursos de atendimento; salienta-se que o público masculino tem local ex- clusivo de atendimento no salão. O salão é muito frequentado por
mulheres de várias idades, em sua maioria profissionais liberais e estudantes universitárias. Foi verificado que homens não frequen- tam muito o salão, frequentam mais aos finais de semana, geralmente são estudantes universitários e profissionais liberais. Assim como no salão mais popular, foi verificado que há uma procura grande por seguir tendências de moda apresentadas na novela, principal- mente no que diz respeito ao corte de cabelo, cujo preço gira em tor- no de 25 reais – o corte feminino, e 15 reais o corte masculino, e ma- nicure e pedicure, cujo preço gira em torno de 21 reais.
É evidente que existem diferenças entre os dois salões, tanto no que diz respeito ao público quanto ao espaço propriamente dito. Enquanto o salão mais popular tem um espaço restrito, não muito confortável, o salão de classe média-alta possui um espaço amplo e confortável, diferença esta que pôde ser percebida com o auxílio do recurso fotográfico. Outra diferença importante constatada foi o tipo material colocado à disposição do cliente para se distrair en- quanto aguarda a oportunidade do atendimento. O salão popular possui revistas em sua maioria de novelas, tais como Tititi, da Edi- tora Abril e TV Brasil, da editora Escala, revistas especializadas em beleza e revistas de assuntos gerais, como a revista Veja, da Editora Abril. Já o salão de classe média-alta possui revistas e jornais locais e revistas de celebridades, tais como Contigo, e de comportamento em geral, tais como Cláudia e Nova, todas da Editora Abril. Esses exemplos ilustram bem que as diferenças não são apenas diferen- ças econômicas e sociais, mas também o que difere os dois salões se situa no âmbito cultural.
Depois da observação, realizada durante um mês, foram reali- zadas vinte entrevistas com os clientes do salão, com o auxílio do gravador. O critério utilizado para a seleção dos entrevistados foi primeiramente o sexo, depois a faixa etária. Para compor uma amos- tra adequada ao objetivo do projeto, foram formados quatro gru- pos em cada salão. Um grupo formado por três mulheres de idades acima de 25 anos e outro formado por três mulheres de idades abaixo de 25 anos, resultando em um total de seis mulheres entrevistadas por salão. Como já foi citado que a frequência de homens em salões
de beleza é baixa, eles foram divididos em dois grupos formados por dois homens com idades acima de 25 anos e dois homens com idades abaixo de 25 anos, resultando em um total de quatro homens entrevistados por salão. O roteiro de entrevistas foi semiestrutura- do com algumas perguntas fechadas e perguntas abertas em sua maioria. Perguntas estas que visam identificar o padrão cultural do entrevistado e sua opinião sobre alguns contextos da telenovela ana- lisada. Foi utilizada uma linguagem de fácil acesso, para que os en- trevistados pudessem entender as perguntas e para evitar uma hie- rarquia entre entrevistadora e entrevistado.
Foi uma etapa muito difícil, de vários dias infrutíferos, sem con- seguir uma entrevista, inquietava-me a ideia de uma possível recusa e até mesmo de um estranhamento com a minha presença. As entre- vistas foram realizadas geralmente nos finais de semana, no período da tarde. Para me aproximar dos entrevistados, eu me apresentava primeiramente, mencionando a faculdade e o curso que faço; assim como apresentava a proposta de minha pesquisa e o motivo da reali- zação da entrevista. No salão mais popular, elas foram realizadas com mais facilidade, visto que se trata de um salão mais movimen- tado, onde a abordagem foi mais fácil. Houve apenas duas restrições para realizá-las, em função de utilização do gravador; além de se cons- tituir um ambiente mais familiar para mim, pelo fato de o público frequente pertencer à mesma classe social que eu, reduzindo-se as dificuldades de abordagem.
Esse salão tem como clientela pessoas de várias faixas etárias. Em geral é frequentado por mulheres acima de 25 anos, com os per- fis de donas de casa e estudantes. Dentre o pequeno público mas- culino, se destacam homens acima de 25 anos também. O público que frequenta o salão é composto por pessoas que concluíram o se- gundo grau e que são donas de casa, servidores públicos e profis- sionais liberais; em uma escala menor estão estudantes universitá- rios e pessoas que já concluíram o ensino superior. São pessoas que têm hábitos de leitura não muito frequentes, destacando-se a leitu- ra de jornais e revistas perante a leitura de livros. De um total de dez entrevistas realizadas, seis pessoas têm o hábito de assistir a te-
levisão, dentre elas, dois homens e quatro mulheres. Das pessoas que não assistem, ou que assistem pouco, constam dois homens e duas mulheres. Geralmente, a justificativa das pessoas que não as- sistem está relacionada ao tempo. Mas a amostra de pessoas esco- lhidas para se realizar as entrevistas não pressupunha que elas de- vessem assistir à telenovela analisada, uma vez que o roteiro tratava de verificar se as pessoas se orientam de acordo com os persona- gens, no que diz respeito à aparência pessoal, assim como alguns temas tratados na novela que estavam relacionados aos problemas de pesquisa, principalmente com relação às cenas de sexo e de nu- dez, bem como a temas relacionados a construções de gênero que são muito abordados em telenovelas atuais. Embora muitos entre- vistados alegaram não assistir à Belíssima, estes apresentavam uma relação de familiaridade com os diversos estilos de vida propaga- dos pela novela, e até mesmo com a própria trama. Pode-se desta- car aqui a grande quantidade de revistas no salão; como já salienta- do, revistas especializadas em celebridades e em beleza que traziam modelos baseados na telenovela em questão, que orientavam os frequentadores. Na Belíssima, a presença de vários estilos de vida era marcante, e se expressava principalmente pela aparência, pela moda. Nesse sentido, podemos perceber que houve uma correspon- dência entre os frequentadores dos salões e os personagens, inde- pendentemente destes assistirem ou não à novela. Foi possível no- tar que a telenovela não orienta as pessoas apenas no que diz respeito à aparência, mas também no que diz respeito ao estilo de vida que é evocado pela aparência dos personagens. Como por exemplo, o es- tilo do personagem Narciso, de homem vaidoso, que é uma ten- dência marcante nos salões de beleza atualmente.
Das pessoas entrevistadas, seis assistiam à Belíssima; todas são mulheres, sendo que três assistem pouco (uma acima de 25 anos e duas abaixo). Ou seja, a maioria das mulheres que assistem é com- posta por dona de casa e acima de 25 anos. As mulheres com idade inferior a 25 anos que assistem pouco à novela são estudantes, cujo horário de estudo coincide com o da novela. Entretanto, foi possível entrevistá-las, levando em conta fatores mencionados acima.
No salão de classe média-alta, houve muita dificuldade na reali- zação das entrevistas, uma vez que os clientes geralmente estavam com pressa, dificultando a abordagem e, na maioria das vezes, rea- giam hostilmente com relação a minha presença, fato este que me inibiu durante algum tempo.
O salão caracteriza-se por estar sempre movimentado diariamen- te, com uma movimentação maior aos finais de semana. O público feminino geralmente é composto por mulheres donas de casa, estu- dantes universitárias e profissionais liberais. Já o público masculi- no, apresenta-se em escala menor, geralmente é composto por pro- fissionais liberais, estudantes, professores, advogados etc. A maioria das pessoas atendidas possui o grau superior de escolaridade. São pessoas que têm hábitos de leituras mais frequentes, principalmen- te de jornais e revistas locais, os quais se encontram disponíveis no próprio salão.
Das dez entrevistas realizadas, seis pessoas têm o hábito de as- sistir a televisão, sendo cinco mulheres e um homem. Quatro pes- soas assistem pouco ou não assistem, sendo uma mulher e três ho- mens. Nenhum homem assiste à novela Belíssima, somente quatro mulheres assistem (duas abaixo de 25 anos e duas acima).
Assim como no salão mais popular, havia uma procura grande por cortes de cabelo, tendências de beleza indicadas pela novela, prin- cipalmente das protagonistas, no salão New Look também se pode perceber essa procura, muito registrada pelos cabeleireiros também. As cabeleireiras afirmavam que cinco entre dez mulheres que fre- quentavam o salão diariamente queriam cortar o cabelo igual ao da Vitória ou deixar as unhas iguais às da Júlia, ambas personagens cen- trais na trama.
Entretanto, pode-se concluir que as entrevistas, de forma geral, foram muito importantes em todo o processo de pesquisa, e vieram acrescentar muito na análise do tema proposto. A pesquisa, como um todo foi muito estimulante, pois permitiu um jogo interativo entre as Ciências Sociais e outras ciências existentes, sobretudo as de comunicação, além de conectar o pesquisador a seu objeto de estudo.