É importante ressaltar que as mídias alternativas aparecem como uma das formas de “trapacear” o sistema de mercado formal. Ao apropriar-se da tecnologia, o movimento tecnobrega não só assume uma autonomia na produção e realização de seus eventos, mas in- corpora todo mercado de arte e lazer no que diz respeito à produção no universo bregueiro. A efetivação desse consumo materializa-se por meio da ritualização herdada dos grandes espetáculos do teatro circense, que, transmutados para as festas de aparelhagens, ganham eco e são ressignificados a partir dos barulhos urbanos, dos ruídos das oficinas mecânicas, dos gritos dos vendedores ambulantes.
O computador – instrumento principal para realizar as festas de aparelhagens – é utilizado pelo DJ para executar as músicas e tam- bém para fazer as mixagens. Porém, durante toda a festa, outro com- putador fica ligado o tempo todo, gravando tudo que acontece na- quele evento. Ao término da festa, a produção da aparelhagem já disponibiliza cópias em CD (pequena quantidade) que contém tudo que “rolou” durante a festa. É comum, nas festas de tecnobrega, pessoas fazerem fila para comprar aquele CD que acabara de sair do
“forno”. Feita a compra, essas pessoas saem exibindo o CD como se tivessem ganhado um troféu; pois aquele CD, para o comprador ou a compradora, vale mais que qualquer troféu, visto que seu nome encontra-se gravado, ou seja, é um registro, é a prova de que esteve na festa e foi saudado pelo DJ como um personagem ilustre e que todos vão poder reconhecê-lo melhor. Os DJs utilizam esse artifício ao intercalar sua voz durante a execução da música. No dizer de Hermano Vianna, que também pesquisou esse fenômeno:
essas pessoas acabam comprando o CD, pois, além de conter a seleção musical que acabam de dançar, ainda trazem a prova de que são respei- tados pelo DJ. É como comprar o jornal porque sua foto está publicada na coluna social.6
Porém, o valor material do CD atualmente é muito menor. Esse sistema de mercado revela-se como capital imaterial na medida em que sua valoração só adquire sentido a partir do momento em que as redes de relacionamentos se efetivam em um processo circular; de modo que a produção, a criação e a socialização de conteúdos não se configuram em objetos materiais – o CD ou o DVD, por exemplo – , mas em um contínuo processo criativo que inclui a valoração e a circulação do conhecimento.
Quanto à produção dos CDs, não resta dúvida que, em geral, é de alta qualidade, porém, a rede de distribuição é considerada como “primária”, mas é bastante eficiente em resultados. Sendo “inde- pendentes” (artesanal), em sua maioria, a divulgação e o comércio ficam a cargo dos vendedores ambulantes. Portanto, o universo se- dutor do “marketing popular” concentra-se não apenas no preço, mas também na identificação com o vendedor, que é frequentador das festas de brega.
O tecnobrega é um fenômeno que movimenta milhões de reais, abrangendo a organização de eventos e a gravação de CDs e DVDs,
6 Hermano Vianna. Disponível em: <http://www.overmundo.com.br/ download_banco/paradas-do-sucesso-periferico>. Acesso em: 13 de junho de 2009.
que chegam ao consumidor sem a intervenção do lojista, pois os CDs e os DVDs são gravados e reproduzidos cotidianamente. Logo, as camadas populares apropriam-se da tecnologia e projetam um novo tipo de mercado no campo da indústria do entretenimento cultural. Ao concluir essa análise, observa-se que a longa trajetória da música brega paraense demonstra a forte presença de uma cultura regional que ultrapassa fronteiras. Antes obscurecida pela distância física, geográfica, em função da inexistência de meios de comunica- ção e transporte, bem como da ignorância da sociedade nacional em relação à existência dessa cultura regional. Prevalece uma cultura nacional também em termos do mercado de bens simbólicos:
[...] somos penetrados pela modernidade-mundo; ela nos acompanha em “todos” os lugares. [...] Hoje, deparamos com uma singularidade de costumes. Calças jeans, sapatos, tênis, jaquetas, casacos, fast-food, be- bidas e comida industrial denotam a imanência de um padrão civiliza- tório mundializado. (Ortiz, 2003, p.40)
Nesse sentido, os estilos brega e tecnobrega criados em Belém do Pará estão em sintonia com o universo da “modernidade-mundo”, apontado pelo estudioso. São transformações e costumes que se re- modelam a partir das referências da cultura tradicional, como a no- menclatura Tupinambá, por exemplo, que identifica a aparelhagem de som mais famosa e potente do estado. Porém, não se trata apenas de um nome típico, mas também de uma referência e identificação com os povos da floresta. Ou seja, o termo é uma expressão de con- vívio com a cultura dos povos locais, seus irmãos indígenas, retrata- da por meio de objetos como o arco e flecha e o cocar, utilizados como adornos pelo DJ principal (DJ Dinho) e seus seguidores du- rante a festa de aparelhagem e em apresentações públicas.
Essa singularidade se expressa por meio da música e da dança tradicionais (o carimbó) e o estilo brega, que, refeitos sob os incre- mentos dos arranjos eletrônicos, configuram-se em uma nova mo- dalidade: o tecnobrega. Em outras palavras, tem-se uma cabana ele- trônica, haja vista que, na logomarca da Aparelhagem Tupinambá,
o destaque está em ser o guerreiro da Amazônia. Percebemos um orgulho explícito por parte dos apreciadores desse estilo musical em comparar-se com seus antepassados. Assim sendo, poderíamos di- zer que a exaltação em torno da expressão guerreiro seria uma espé- cie de representação imaginária, isto é, uma louvação aos rituais in- dígenas, quando se pintam e dançam noite adentro, preparando-se para enfrentar o inimigo.
Vale dizer que a Aparelhagem Tupinambá usa, com bastante pro- priedade, palavras e gestos que são corriqueiros na linguagem dos po- vos da Amazônia e na cultura popular paraense, tais como “seus arcos e flechas”, “o guerreiro que veio salvar sua tribo”, “a noite da tribo”, “DJ Dinho, Toninho fazem a tribo estremecer” etc. Esse jogo de pala- vras sintetiza e caracteriza o estilo tecnobrega que, entre outras parti- cularidades, transforma a batida do pé e a dança indígena em uma manifestação musical popular contemporânea. Podemos, então, afir- mar que estamos diante de uma festa urbana travestida de um ritual tradicional que se caracteriza pelo uso de recursos tecnológicos.
Ao nos apropriarmos da expressão modernidade-mundo, verifi- camos que, nesse universo, existem dois fatores relevantes: um refe- re-se à desterritorialização, em que o sujeito torna-se conhecido e conhece novos costumes e lugares sem precisar sair de seu local. O outro diz respeito à reterritorialização, sendo que “uma cultura mun- dializada só faz sentido quando enraizada em nossos hábitos mais prosaicos” (Ortiz, 2003, p.42).
Nesse sentido, o espaço está além das fronteiras físicas. Ele en- volve outras culturas e povos, ou seja, brega e tecnobrega, em pri- meira instância, conectam-se com a cultura caribenha – que se inte- gra com a batida da música eletrônica oriunda de outras partes do mundo, porém, não abandona os aspectos da cultura regional.
Referências bibliográficas
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. Festa na cidade: o circuito bregueiro de Belém do Pará. Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.
LEMOS, R., CASTRO, O. Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2008 (Tramas urbanas; 9). ORTIZ. R. Um outro território: ensaios sobre a mundialização. São Pau-
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SILVA, E. L. Do bordel às aparelhagens: a música brega paraense e a cultura popular massiva. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009. VIANA, H. Tecnobrega consolida uma nova cadeia produtiva, ampa-
rada em bailes de periferia, produção de CDs piratas e divulgação feita por camelôs. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 out. 2003.
. Tecnobrega: a música paralela. Disponível em: www.bregapop.com/historia/index_hermano.asp. Acesso em: 6 ago. 2005.