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1. CHAPTER: INTRODUCTION

2.2 Sustainability defined by the Brundtland Commission

Foi nesse contexto que James Watson foi atraído para participar do grupo, sob influência de Salvador Luria. Watson já tinha terminado um curso em zoologia, com apenas 19 anos. Depois que terminou seu PhD, Luria o ajudou a conseguir uma bolsa de estudos na Europa e depois lhe arranjou um trabalho no Laboratório Cavendish, de Cambridge. Nesse laboratório, Watson encontrou Francis Crick, um físico de 35 anos que ainda não tinha achado um tema interessante para sua tese de doutorado.

Em 1953, J. D. Watson e Francis Crick identificaram o DNA como material genético, tornando o gene, pela primeira vez, uma entidade concreta. A história dessa descoberta é provavelmente uma das mais controvertidas e comentadas das descobertas científicas, e o livro publicado pelo próprio Watson despertou calorosos debates (McELHENY, 2003; STENT, 1980).

ligações (bonding) simples de hidrogênio estavam na base do segredo como os genes se reproduzem, e sequências de acido nucléico revelavam como este produzia enzimas. Como Watson e Crick discretamente escreveram, numa molécula, diferentes permutações são possíveis, e parece provável que a sequência exata da base é o código que carrega a informação genética. Tudo que alguém deveria conhecer era o “código” e, brevemente, este também se revelaria.

Geneticistas e biólogos moleculares eram eufóricos: aqui, certamente, deveria estar a resposta! O DNA carrega a “informação genética” (ou o programa) e os genes “produzem seus efeitos”, oferecendo as “instruções” para a síntese das proteínas. O DNA faz o RNA, o RNA faz proteínas e proteínas nos fazem. Mas, alguém ainda poderia perguntar (embora poucas pessoas o fizessem naquele tempo) que tipo de resposta é essa? O que, seja informação, programa, instrução e até o verbo fazer, de fato, significam? (KELLER, 1995a, p.18).

Portanto, a noção de informação genética que Watson e Crick invocaram não era literal, mas metafórica. No entanto, era extremamente poderosa. Embora não permitisse medidas quantitativas, tornou possível a expectativa – antecipada na noção de ação genética – de que a informação genética não aumentasse no curso do desenvolvimento do organismo,

pois já está contida no genoma. Esse movimento, mais a aproximação das metáforas como informação com programas e instrução, fortaleceu o conceito de ação genética (KELLER, 1995a, p.19).

Aqui Keller (1995a) faz uma pausa:

Mas, o que eu quero dizer quando afirmo que o discurso da ação genética – agora fortalecido com as metáforas de informação e instrução – exerceu uma força crítica na pesquisa biológica? As palavras podem ter força em si e fora de si? Certamente que não. Elas adquirem força simplesmente por meio da sua influência nos atores humanos. Por sua influência nos cientistas, administradores e agências de financiamento, as metáforas oferecem fortes argumentos e incentivos para mobilizar recursos, para identificar agendas particulares de pesquisa, para enfocar as nossas energias e atenções científicas em determinadas direções. O discurso da ação genética tem trabalhado dessa maneira, e seria inútil achar que não tem funcionado. A história da biologia do século XX é uma história de sucesso extraordinário. A genética – primeiramente, clássica, e depois a molecular – tem levado a alguns dos maiores triunfos da ciência moderna (…). Durante os últimos anos, a biologia molecular tem alcançado um sucesso extraordinário na elucidação de como é que (como se costuma dizer) os genes controlam o desenvolvimento (KELLER, 1995a, p.21-22).

O uso metafórico da informação também levou a perspectiva de pesquisa baseada na concepção da causalidade unidirecional. Em 1958, a formulação, por Crick, do dogma central, repudiou a possibilidade de uma influência significativa sobre os genes, seja de fora, seja do ambiente intra ou intercelular. Ao invés de feedback circular, promoveu uma estrutura linear de influência causal. Assim, Keller (1995a, p.97) enfatiza que embora ciberciência e biologia molecular possam ter sidos produtos do mesmo momento histórico, em relação aos seus modelos de estrutura causal, percorriam dois caminhos distintos, em direções opostas. Enquanto o primeiro usava o organismo para ilustrar um novo modelo de máquina, o outro procurava modelar o organismo segundo as máquinas do passado. Essa observação é muito importante para perceber que o processo de demarcação do campo científico da genética já se encontrava bem avançado, marcando a dinâmica própria que o diferenciava de outros campos.

No entanto, a circularidade era assegurada via metáfora da informação: “a informação – seja como metáfora, seja como inscrição material (ou tecnológica) – não podia ser contida” (KELLER, 1995a, p.103).

É importante destacar que embora a história oficial da descoberta do código genético destaque o papel de Watson e Crick, muitos cientistas contribuiram para a série de descobertas que se seguiram. Por exemplo, em 1961, um jovem pesquisador do National Institut of Health, Marshall Nirenberg, e Heinrich Matthaei, um pós-doutorando alemão, finalmente revelaram a intrica bioquímica do código genético. Kay (2000) analisa a trajetória do que ela denomina de “escrita dos códigos genéticos nos anos 1960”. Para a autora, centenas de cientistas de diversos ramos contribuíram para a solução do código genético, “no entanto, narrativas heróicas levaram à inescapável conclusão de que ‘depois do Oitavo Dia, Francis Crick descansou’” (2000, p.293).

A solução do código genético nos anos 1960 foi um processo social e cultural que representou a convergência de tecnologias discursivas, materiais e sociais. Como um imaginário tecnocientífico, foi constituído por meio de uma contínua dialética de mudanças de (e) pelas práticas de laboratório, pelo deslocamento das reconfigurações disciplinárias e das estruturas institucionais, e da patronagem que apoiavam a pesquisa das ciências da vida no decorrer do contexto de mudanças políticas dos anos 1960 (KAY, 2000, p.293).

Ela conclui (2000, p.294):

O código genético foi constituído como objeto científico e tecnologia, acompanhando a emergência e a disseminação do discurso da informação. Junto com a comunicação das tecnociências da era pós-guerra – cibernética, teoria da informação e ciências da computação – o antigo Livro da Vida adquiriu seu significado, historicamente situado, como transferência da informação genética. A especificidade biológica não era mais capturada na materialidade viscosa (viscous) do padrão biológico. Agora, as messagens transmitidas eram constituídas pela escritura alfabética, como uma forma de “hereditariedade verbal”. O novo discurso emergiu como pura representação.

Em resumo, o campo discursivo da informação (trans)forma o “conteúdo” (a própria especificidade) do objeto específico, ao mesmo tempo em que a “descoberta” desse conteúdo (o código) encontra sua possibilidade de emergência, sua condição de aparecimento nesse contexto discursivo. A figura 13 ilustra essa dinâmica.

Figura 13: Discurso da informação e concretude dos genes

Fonte: Elaborado pela autora

Devo relembar que esse mesmo discurso baseado na metáfora da informação desencadeou mudanças em instituições, alterou valores, papéis e práticas em outros campos além do complexo industrial-militar-acadêmico. Já foi igualmente destacado que uma vez que seu objeto de estudo (os genes) se tornou “concreto”, a biologia molecular ganha em termos de produtividade e prática. Sua permeabilidade em outros campos torna-se ainda mais forte, o que será objeto de análise.