4. STUDY 2
4.3 E XPERIMENTAL D ESIGN
4.3.4 Survey and Measures
estruturadas com trinta professores de escolas públicas estaduais pertencentes a três diferentes Diretorias Regionais de Ensino do interior do Estado – Araraquara, Bauru e Jaú. O objetivo final desta fase da investigação era obter a partir do ponto de vista docente, sob o cenário de um cotidiano escolar impactado pelas reformas, uma avaliação do trabalho do professor coordenador nas escolas públicas paulistas através da caracterização de indícios de um trabalho satisfatório na função e, ao mesmo tempo, obter indicações de PCs que desenvolviam um bom trabalho no cotidiano das escolas.
Como não havia trabalhado anteriormente com pesquisa empírica, já que a investigação realizada no mestrado baseou-se em pesquisa bibliográfica-documental, recorremos a algumas orientações iniciais que incluíram diversas leituras27 e atividades sugeridas pela orientadora. O primeiro passo sugerido foi o contato com alguns professores da rede para realização de um primeiro exercício de entrevista não estruturada28, um pré-teste, que servisse de base para a definição posterior de um roteiro de perguntas. Recorrendo a quatro professores/colegas com quem mantemos algum tipo de contato profissional ou pessoal, realizamos (em meados de 2006) essa primeira atividade. As entrevistas realizadas foram objetos de discussão com a orientadora e, com sua ajuda, estabelecemos um novo roteiro (APÊNDICE 1) de entrevista semi-estruturada com perguntas bastante focadas para serem utilizadas posteriormente com os demais professores29.
27 As leituras tiveram como base os trabalhos de Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (2002), André (1983),
Biasoli-Alves e Dias-da-Silva (1992), Zago (2003) e Brandão (2000 e 2002).
28 De acordo com Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (2002, p. 168), “nas entrevista não-estruturadas, o
entrevistador introduz o tema da pesquisa, pedindo que o sujeito fale um pouco sobre ele, eventualmente inserindo alguns tópicos de interesse no fluxo da conversa. Este tipo de entrevista é geralmente usado no início da coleta de dados, quando o entrevistador tem pouca clareza sobre os aspectos mais específicos a serem focalizados, e é frequentemente complementado, no decorrer da pesquisa, por entrevistas semi-estruturadas”.
29 Durante a discussão do roteiro, recebemos orientações sobre como nos comportar diante do entrevistado, posto
que a entrevista não era uma conversa, mas um instrumento valioso de coleta de dados que deveria ser explorado adequadamente.
Além da elaboração do roteiro, também foram estabelecidos os critérios para a seleção dos professores participantes da pesquisa, a saber:
1) Que os professores tivessem dez anos ou mais de experiência no magistério paulista, pois, além do amadurecimento profissional dos entrevistados, tratava-se de professores que teriam maiores condições, em função do tempo de experiência de trabalho, de analisar a escola pública paulista antes e depois das reformas educacionais ocorridas na segunda metade da década de 90, reformas essas que introduziram nas escolas a figura do PC; 2) Que os professores apresentassem um comprometimento profissional reconhecido pelos pares e pela comunidade escolar. Nosso objetivo não era apenas ouvir um professor, mas pretendíamos com as entrevistas conhecer a opinião de sujeitos que realizam um trabalho bem sucedido nas escolas e que são identificados por outros professores, alunos, pais e funcionários como profissionais comprometidos com a educação pública. Ainda que sempre passíveis de críticas pela dificuldade em sua caracterização, tais características oferecem, em nossa opinião, maior legitimidade e credibilidade em relação às opiniões emitidas, sobretudo num cenário em que os reformadores educacionais culpabilizam o fracasso das reformas pela incompetência dos professores;
3) Que os professores trabalhassem em diferentes escolas e preferencialmente em diferentes cidades. Este critério foi estabelecido com o objetivo de garantir maior abrangência dos dados para possibilitar o enfrentamento de críticas relativas à validade das pesquisas educacionais empíricas de base qualitativa, notadamente quando há, por parte dos críticos, a utilização de argumentos pautados no regionalismo e/ou no reduzido número de sujeitos investigados.
Além destes critérios, tendo em vista que entrevistamos professores ‘secundários’ (licenciados que atuam no ensino de diferentes componentes curriculares tanto nas séries finais do ensino fundamental quanto no ensino médio), na composição do grupo de
entrevistados consideramos também a necessidade da diversidade em relação à formação/atuação, ou seja, atentamos para o fato de não incluir professores de uma única disciplina30 do currículo escolar. Por outro lado, não impusemos nenhuma restrição ao fato do professor ter ou não (uma segunda) formação em Pedagogia, bem como ser ou não formado em instituições públicas de ensino superior.
Estabelecidos os critérios, elaboramos uma relação de prováveis entrevistados, e para isso contamos com a ajuda de várias pessoas. Em Bauru e Jaú (cidades/regiões em que mantemos muitas relações pessoais com os professores por conta da nossa atuação anterior como docente e PC) as indicações de possíveis entrevistados ocorreram com mais facilidade, afinal conhecíamos muitos professores que se encaixavam nos critérios que havíamos estabelecido. Apesar disso, visando não enviesar as escolhas e ampliar o grupo a ser entrevistado, solicitamos ajuda a outras pessoas que estavam cotidianamente vinculadas às escolas públicas. Nestas duas Diretorias obtivemos a ajuda de professores, vice-diretores e secretários de escolas.
Já na cidade/região de Araraquara, a relação de possíveis entrevistados foi feita a partir do contato com outros membros do nosso grupo de pesquisa e de professores do Departamento de Didática da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, que indicaram bons professores que haviam participado de projetos colaborativos e/ou cursos de formação continuada oferecidos pela Universidade. Também obtivemos indicações através de uma mestranda, docente da rede estadual,e de uma doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar que havia recentemente deixado a rede pública de ensino.
A partir da relação inicial dos professores, fizemos, por opção própria, um contato pessoal inicial com os prováveis entrevistados que estavam arrolados na nossa lista. Nestes encontros iniciais, fazíamos uma breve descrição dos objetivos da pesquisa, de nosso trabalho
30 É sempre tentador querer ouvir os professores da disciplina em que somos formados, pois é entre eles que
conseguimos mais facilmente reconhecer os bem sucedidos e também é com eles que mantemos maior vínculo pessoal.
de pesquisa e docência na rede estadual (podemos garantir que isso é avaliado positivamente pelos professores, eles consideram que estão dialogando com um “igual”), da maneira como havíamos chegado até eles31, da metodologia que seria utilizada na entrevista, do tempo previsto para a realização da mesma, da necessidade de gravação das respostas e apresentávamos a garantia de absoluto sigilo. Esse primeiro contato com os professores foi muito importante, pois ouvimos - mais de uma vez - no segundo encontro, quando marcávamos para a realização da entrevista, referências do tipo “vou falar a verdade, pois
percebi que posso confiar em você”.
Feito o contato inicial com os professores, foram marcados os encontros para a realização das entrevistas que tiveram início no final do segundo semestre de 2006 e se estenderam até os meses iniciais de 2007. Preocupava-nos as várias atribuições dos professores, por isso procurávamos deixá-los livres para a escolha do melhor dia e horário para a realização das entrevistas. Em alguns momentos, precisamos fazer alguns acordos em relação aos horários para facilitar o agendamento de outras entrevistas, já que na maioria das vezes precisávamos nos deslocar até a cidade do professor e, por questão econômica, procurávamos concentrar os encontros em dias e horários próximos.
Com o objetivo de dar voz a professores de diferentes diretorias e de diferentes cidades, percorremos vários quilômetros, gastamos um bom tanto com combustível e pedágio32 e dispensamos muitas horas à coleta dos dados. Apenas no final, quando fomos fazer o perfil dos sujeitos, é que nos demos conta de que havíamos entrevistado professores de vinte e duas escolas diferentes pertencentes a nove cidades da região centro-oeste do estado de São Paulo.
31 O nome do profissional que havia indicado o professor era normalmente lembrado, pois nossos informantes
também eram pessoas reconhecidamente comprometidas com o trabalho e com a defesa da escola pública.
32 Parte dos recursos disponibilizados pela reserva técnica da bolsa FAPESP foi utilizado para o pagamento de
Ao longo do processo de realização das entrevistas, procuramos respeitar o tempo do professor frente às demandas apresentadas pelo cotidiano escolar. Neste caso, nos ajudou muito o conhecimento do calendário escolar e das atividades burocráticas que dele fazem parte e que consomem o tempo e a tranqüilidade dos professores. Assim, procuramos concentrar as entrevistas em períodos de maior tranqüilidade nas escolas, evitando encontros em períodos de provas ou finais de bimestre. As entrevistas tiveram duração média superior a 60 minutos, sendo que a mais longa durou três horas e meia.
A escolha do local para a realização das entrevistas ficou a cargo dos professores que optavam sempre pela facilidade. Nas Diretorias de Jaú e Bauru a maior parte das entrevistas foi realizada fora do ambiente escolar, principalmente nas residências dos entrevistados. Houve também encontros em escolas, em uma Secretaria Municipal e na sede do sindicato dos professores (APEOESP).
Já na Diretoria de Araraquara, apenas uma professora, por opção pessoal, foi entrevistada no campus da UNESP, enquanto que os demais foram entrevistados no próprio local de trabalho.
Nas entrevistas que foram realizadas fora da escola, era possível notar que o entrevistado se sentia mais à vontade para expor suas opiniões. Mas, por outro lado, as entrevistas realizadas nas escolas também trouxeram vantagens, pois permitiram a observação do cotidiano escolar enquanto elas se realizavam ou mesmo durante os momentos de espera. Nas escolas pudemos observar a relação dos entrevistados com os alunos e com os colegas e até mesmo a atuação dos PCs. É necessário afirmar que durante a realização das entrevistas houve uma relação de identificação e proximidade entre entrevistador e entrevistados e isso facilitou a disponibilidade dos sujeitos em contribuir com a pesquisa.
Concluídas as entrevistas iniciamos o trabalho de transcrição dos dados. Inicialmente, nossa intenção era fazer as transcrições logo após as entrevistas, mas isso se mostrou quase
inviável em função de outras tarefas que também continuavam a exigir a nossa atenção: precisávamos fazer as leituras necessárias e continuar os contatos com os demais professores.
Desta forma, o processo de transcrição se acelerou e findou no mês de junho de 2007. Apesar das entrevistas não serem tão longas e das questões serem focadas, o número de sujeitos envolvidos era elevado, eram trinta professores e a atenção que tínhamos que dispensar a eles era tão importante quanto aquela dispensada a uma entrevista em profundidade feita com poucos professores. Com a preocupação de fazer as transcrições de forma fidedigna, procuramos nos dedicar profundamente a este trabalho, até porque, como afirma Brandão (2000, p. 182) “a transcrição das entrevistas, entretanto, costuma ser uma
das fases menos cuidadas diretamente pelos pesquisadores, o que é um erro”.
Apesar da possibilidade de poder contar com outras pessoas para fazer as transcrições, fizemos uma opção de cuidar pessoalmente do trabalho de transcrição. Trabalho pesado, definido por Bourdieu (1998) como “uma verdadeira arte de transmutar um texto oral em
escrito preservando, até onde é possível, o clima, significados e conteúdos colhidos do entrevistado”. Porém, não nos arrependemos e acreditamos que este é o melhor caminho para
se mergulhar nos dados obtidos. A transcrição não é um mero serviço técnico que possa ser transferido para uma outra pessoa ou até para uma máquina, ela é uma forma potencial de envolvimento do investigador com o objeto de pesquisa.
Temos convicção de que boa parte dos dados que estão em nós impregnados resultaram da dedicação a esse trabalho. O resultado não teria sido o mesmo se nós não tivéssemos cuidado pessoalmente desta tarefa. Foi trabalhoso, mas muito gratificante reconstruirmos mentalmente o encontro com os professores. À medida que ouvíamos as entrevistas, relembrávamos gestos, olhares e sentimentos expressos pelos professores. Em alguns momentos, nos divertimos com as lembranças e em outros chegamos a chorar quando a fala remetia a fatos melancólicos ou a situações emotivas expressas pelos entrevistados.
É uma pena que não podemos colocar tudo o que observamos durante as entrevistas no papel. Pessoas, lugares e caminhos acabam por não ser representadas e muitas coisas podem ser minimizadas durante o processo de transcrição, mas não escapam, com certeza, da marca que deixaram em nossas lembranças. Lelis (1996, p. 30) também lamenta a impossibilidade de registrar a totalidade do processo de entrevista na passagem do oral para a escrita, já que:
Nesta passagem, silêncios, ênfases, lágrimas, sorrisos, gargalhadas, expressões faciais foram diluídas para a escrita, mesmo que cuidadosa, possui uma outra lógica que escapa ao trabalho de transcrição diversa da narrativa, enquanto linguagem e cultura. (Lelis, 1996, p. 30)