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4. STUDY 2

4.9 S UMMARY AND D ISCUSSION OF R ESULTS

Identificados os PCs e as escolas em que atuavam, após um primeiro telefonema solicitando um encontro, nosso procedimento com todos eles incluiu um primeiro contato, realizado nas escolas em que eles trabalhavam. Neste momento, apresentamos nossa trajetória pessoal e relatamos sinteticamente a pesquisa que estávamos desenvolvendo, apresentando seus objetivos e alguns resultados da primeira fase das entrevistas com os professores, salientando as indicações que eles haviam recebido por parte dos entrevistados. Também conversamos sobre a importância da participação deles na segunda etapa da pesquisa que envolveria, além de nossas visitas à escola, algumas sessões de entrevistas densas.

As duas mulheres (PCs de Jaú e Bauru) ficaram felizes com a indicação pelos colegas, mas ao mesmo tempo se surpreenderam com a opinião dos pares em relação ao trabalho que faziam nas escolas. Tanto uma, como outra, afirmaram que faziam menos do que deveriam e que se sentiam continuamente angustiadas porque não acreditavam que exerciam adequadamente as atividades destinadas à função. Na opinião de ambas, elas deixavam a desejar e poderiam ter feito mais pela escola:

“Eu fico surpresa. Nunca imaginei que o grupo de professores lembraria do meu

trabalho depois da minha saída. Sempre me esforcei para fazer o melhor, mas acho que a escola e os professores mereciam mais” (J)39.

“Eu fico contente com a indicação. Quem não gosta de ser reconhecido pelo que faz? Mas eu não esperava por isso”. (B)

Já o PC de Araraquara não se mostrou surpreso e afirmou que tinha realmente um bom trabalho, o que, segundo ele, o diferenciava em relação a outros PCs da Diretoria a que pertencia.

A professora coordenadora de Bauru era a única que, no momento da investigação, continuava a ocupar a função, pois entre o momento da transcrição e o início das

investigações com os PCs, dois deles haviam deixado a função para realizar outras atividades. O PC de Araraquara havia deixado recentemente a coordenação e estava ocupando temporariamente a função de vice-diretor na mesma escola em que atuava anteriormente. Já a PC de Jaú havia retornado há poucos meses para a sala de aula, pois em função da redução do número de classes em sua escola havia sido suprimida a coordenação do curso noturno. Por terem saído recentemente da função, os PCs de Jaú e Bauru foram mantidos entre os investigados.

Neste contato inicial, os professores foram bastante receptivos e se esforçaram em nos atender muito bem. Todos eles procuraram mostrar a escola e nos apresentar aos professores e a Direção, num ato de satisfação e de demonstração ao outro do reconhecimento externo do trabalho realizado. Neste dia, marcamos um outro encontro para a realização da primeira parte da entrevista.

O roteiro para entrevista com os professores coordenadores (APÊNDICE 5) foi elaborado para ser aplicado em, no mínimo, duas etapas. A primeira parte do roteiro era focada na pessoa do professor coordenador e trazia questões relacionadas à apropriação do capital cultural. Nesta primeira parte, procurávamos conhecer a origem social, os hábitos e costumes, a experiência escolar e a experiência profissional dos três indicados. O segundo foco da entrevista trazia questões relativas ao trabalho na escola e na coordenação pedagógica, visando obter informações sobre as características de um trabalho bem sucedido, as dificuldades da função e as formas de enfrentamento das mesmas.

A realização da primeira parte da entrevista permitiu observar que a separação entre o eu-pessoal e o eu-profissional praticamente não existia para os entrevistados. Quando falavam da trajetória escolar eles também faziam relações com a trajetória profissional e vice-versa. Em nossa opinião, a maneira como os professores analisam o próprio trabalho se aproxima da

visão de Tardif (2002) sobre a origem dos saberes profissionais que provém de fontes diversas:

Os saberes profissionais dos professores parecem ser, portanto, plurais, compósitos, heterogêneos, pois trazem à tona, no próprio exercício do trabalho, conhecimentos e manifestações do saber-fazer e do saber-ser bastante diversificados e provenientes de fontes variadas, as quais podemos supor também que sejam de natureza diferente. (TARDIF, 2002, p. 61)

Assim, as perguntas a eles remetidas nem sempre seguiam a linearidade do roteiro e muitas vezes as perguntas iam e voltavam em função da maneira como os PCs conduziam as suas respostas. Portanto, partimos de um roteiro semi-estruturado, mas as entrevistas foram muito além dele.

Todas as entrevistas foram gravadas e realizadas dentro das escolas em que os professores trabalhavam e onde exerceram/exercem a coordenação. O fato de fazer as entrevistas nas escolas nos permitiu conhecer melhor o cotidiano de trabalho dos PCs, seus imprevistos, suas realizações e dificuldades40. Por serem realizadas nas escolas, as entrevistas apresentaram uma série de interrupções e o número de encontros superou nossa previsão inicial. Foram quatro encontros com a PC de Bauru, três com o PC de Araraquara (um deles com duração de 6 horas) e dois encontros com a PC de Jaú. Nestes encontros participamos de conversas entre os entrevistados e os pais, alunos e até mesmo com outros professores da escola41.

Com exceção da PC de Jaú que retornou para a sala de aula, os demais atuam em funções designadas na mesma escola, e, por isso eram constantemente interrompidos para

40 Em uma das escolas chegamos no horário de entrada dos alunos. Dado o sinal para início das aulas, a

coordenadora ficou na porta da escola e controlou a entrada dos alunos, bem como verificou se eles estavam ou não com o uniforme escolar. A hora da entrada era bastante complicada para a PC, havia pais que queriam falar com ela sobre formatura, professores que pediam materiais para as aulas, telefone tocando e ninguém para atender, inspetor querendo entregar o dinheiro da APM que ele havia recolhido, alunos levando dinheiro da formatura e o policial responsável pela Ronda Escolar esperando para assinar o livro de visitas. A coordenadora ficou visivelmente atrapalhada com a situação e só se acalmou mais de uma hora depois quando todos foram embora após serem atendidos por ela.

41 Em mais de uma ocasião permanecemos na sala junto com os professores enquanto eles atendiam outras

pessoas e resolviam problemas da escola. Nessas ocasiões, éramos normalmente solicitados a dar alguma opinião sobre a conversa.

falar com pais, atender alunos, falar ao ou até mesmo para fritar pastéis42... São muitas as emergências que eles precisam atender no dia-a-dia da escola e percebemos que eles são muito respeitados pela comunidade escolar, o que também justifica a constante solicitação em relação ao trabalho, mesmo no caso da PC que retornou para a sala de aula, mas é sempre solicitada pela Direção para tirar dúvidas (até mesmo de aspectos legais) ou para falar com pais.

Apesar das várias “paradas” durante as entrevistas, conseguimos concluir os trabalhos de coleta de dados no final do mês de dezembro de 2007 e iniciamos logo a seguir a transcrição das mesmas, que foi a base para as análises e interpretações que serão apresentadas no CAPÍTULO 5.