4 Background
4.2 Surgeons
“Ué, falando de sexo nessa aula?”. “Não é sexo, Paulo. Isso faz parte da ciência”, responde a professora Ângela (DC, 27/05/2011, p.61). Antes de travarem esse diálogo, professora e alunos/as discutiam a função biológica e evolutiva do sexo na reprodução e perpetuação das espécies. Porém, “não é [qualquer] sexo” que se discute. É o sexo que “faz parte da ciência”. É o sexo que permite à espécie ter a “característica bem relacionada” por reprodução. É a reprodução que é definida como aquela para “perpetuar a espécie, passar o gene específico” (DC, 10/06/2011, p.62). Reprodução não é “ter potência sexual não. Potência é o ato sexual. Reprodução é estar apto a engravidar” (DC, 27/06/2011, p.64). Afinal, é preciso rapidamente esclarecer “os que podem e os que não podem falar, que tipo de discurso é autorizado ou que forma de discrição é exigida a alguns e outros” (FOUCAULT, 2010, p. 34). Nesse processo de autorizar certos discursos, por meio da
tecnologia do gênero, define-se que existem aqueles/as que podem falar, estabelece-se aquilo que pode ser dito e os modos de se dizer sobre o sexo.
O sexo que ali é discutido, analisado e decifrado é o sexo que está a favor da evolução das espécies. É o sexo natural, normal e perfeito. É o sexo para o progresso. É o sexo evoluído90. Um sexo que, se praticado sob as verdades científicas sobre ele, trará normalidade e perfeição aos/às seus/as praticantes. Um sexo entendido como inerente a todos os seres de qualquer espécie, como algo, portanto, natural e biológico, “expressando as necessidades fundamentais do corpo” (WEEKS, 2010, p. 39). Por entender que “através de processos culturais, definimos o que é – ou não – natural; produzimos e transformamos a natureza e a biologia e, consequente a transformamos em históricas” (LOURO, 2010, p. 11). Assim, vejo essa verdade científica sobre o sexo não como algo “‘pré-discursivo’, anterior à cultura” (BUTLER, 2010a, p. 25), mas sim como uma produção cultural em torno do biológico, como uma construção produtiva. Isto é, o sexo produz efeitos e “ser sexuado é estar submetido a um conjunto de regulações sociais, é ter a lei que norteia essas regulações situada como principal formador do sexo, do gênero, dos prazeres e dos desejos” (BUTLER, 2010a, p. 143). O sexo torna-se mais que uma característica biológica dada. O sexo é uma categoria reguladora que governa sujeitos.
Ser sexuado/a é ter um sexo, um desejo. É ver sexo em tudo. É ver um tubo com um balão bem cheio e vibrar na aula experimental. É, também, ouvir, logo em seguida: “já estão pensando besteira”, ao se referir à aparência de pênis apresentada por tal balão com ar. É ser, igual e novamente, repreendido/a: “parem de pensar besteira meninos, isso é só um balão com ar, calma” (DC, 30/09/2010, p.36). Ser sexuado/a é ouvir a frase “é preciso derramar o leite meu filho” – quando a professora quer mandá-lo/a escrever muito e mostrar que sabe – e brincar com o que ela o/a faria lembrar de sexo. É, ainda, não parar de rir sobre isso com os/as colegas e ouvir, mais uma vez, que são “bobos” (DC, 13/06/2011, p.63). Ser sexuado/a é, portanto, ver sexo em tudo e ser repreendido/a, não por ser sexuado/a, mas por ver o sexo da forma errada. A partir do século XVI, com a “‘colocação do sexo em discurso’, em vez de sofrer um processo de restrição, foi, ao contrário, submetida a um constante processo de incitação; [...] de disseminação e implantação das sexualidades polimorfas” (FOUCAULT, 2010, p. 19).
90 No discurso biológico, evoluir é sinônimo de transformação. Aqui, utilizo essa denominação por querer
Desse modo, falar de sexo não é evitado ou repreendido no currículo experimental. Sobre ele, muitas verdades são construídas, disseminadas como corretas e utilizadas para determinar o sexo correto, natural e evoluído. Na máxima de que “a Biologia, nesse ponto, é muito dura: se não reproduzir, não tem evolução!” (DC, 27/06/2011, p.64), o quereres do currículo estudado estabelece como finalidade do sexo evoluído a reprodução. Nessa norma, “o casal, legítimo e procriador, dita a lei. Impõe-se como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade” (FOUCAULT, 2010, p. 9). Um casal de cristãos que “realizam o ato carnal em prol da procriação” (CORBIN, 2008a, p. 79). Quando se institui o normal e o natural, os/as procriadores/as têm a função de representar “como não-natural, como anormal ou desviante todos os outros arranjos familiares e todas as outras formas de exercer a sexualidade” (LOURO, 1997, p. 134).
Nesse currículo em que quereres de reprodução são produzidos, institui-se para a mulher um destino reprodutivo em que “se exige do corpo feminino que ele assuma a maternidade como essência do seu eu e lei de seu desejo” (BUTLER, 2010a, p. 138). Se da mulher é retirado o prazer – afinal, já lhe foi ensinado que deve “procurar evitar o prazer” (CORBIN, 2008a, p. 80) – e colocada a obrigação de gerar os descendentes, ao homem caberia o prazer regulado. Tal concepção foi observada em uma aula em que se discutia mecanismos de evolução da espécie humana e, ao chegar na sexualidade dessa espécie, atentou-se para os/as alunos/as o fato de que “quem engravida é porque é burra! Quem pega AIDS é porque é burro. Todo mundo avisa o que tem de fazer, se pega é porque vocês não levam isso para a vida de vocês. Prestem atenção, gente” (DC, 13/06/2011, p.61). Os cuidados da reprodução, a prevenção da gravidez caberia às meninas. Regular o prazer desenfreado caberia aos meninos, que “devem ser ativos no que se refere às manifestações sexuais” (CARVALHAR, 2010, p. 39).
A partir do final do século XIX, imperou o modelo reprodutivo que “enfatizava a existência de dois corpos marcadamente diferentes, a radical oposição das sexualidades masculina e feminina, o ciclo reprodutivo automático da mulher e sua falta de sensação sexual” (WEEKS, 2010, p. 57). Ao serem chamadas de burra, alunas são incitadas a governarem-se, a conduzir suas condutas para saber lidar corretamente com sua sexualidade e reprodução. Uma técnica de vigília é, então, acionada e direcionada para seres possuidores de útero e potencialmente férteis. Uma mulher “direita”, de “família”, de “casa”, “boa mãe” só deve preocupar-se em reproduzir-se ou não, estando isenta das doenças do sexo. Por outro lado, se gravidez é discutida como preocupação de meninas, a
atenção dos meninos é direcionada às doenças que podem acometer seu prazer. Uma visão cristã de doença, entendendo-a como “mal enviado por Deus para punir os humanos” (GÉLIS, 2009, p. 128). Tida como a doença de “excesso (promiscuidade sexual), pecado (homossexualidade)” (SEFFNER, 1998, p. 410), a AIDS estaria ligada àqueles, machos da espécie, que exercem seu prazer desenfreadamente e para fins muito além da reprodução (RUBIN, 2003). Afinal, “geralmente, quem se dá mal é a mulher, pois o casamento lindo de retrato não acontece de fato. E o homem que tem dez mulheres? Passa [a doença] para todas não é?” (DC, 13/06/2011, p.60).
Instituir e autorizar o modelo reprodutivo, dizer que o sexo é mecanismo de evolução, destinar meninas à reprodução, permitir prazer somente aos meninos são formas pelas quais seres florzinhas e espinhos continuam aprendendo no currículo experimental seus papéis como sujeitos binários e complementares em relação um/a ao/à outro/a. Aí, “cada sexo vê, portanto, que lhe atribuem um papel exato e expressões autorizadas da sexualidade” (SOHN, 2009, p.119). Porém, sexo evoluído não significa apenas aquele com fins de reprodução e perpetuação da espécie. Para ser, de fato, um sexo evoluído é necessário que se garanta a diversidade e normalidade biológicas. Ainda ao se discutir o tema mecanismo de evolução em humanos, dá-se o exemplo de um grupo de portadores da Síndrome de Down e pede que os/as alunos/as imaginem uma situação em que tal grupo seria isolado geograficamente por séculos. Ela conclui: “isso se tornaria normal, formaria- se um tipo de população. E isso é prejudicial para nós, não é?” (DC, 13/06/2011, p.60).
Em outro episódio, afirma-se que o burro e o portador masculino da referida síndrome podem transar e ejacular, “mas na hora de reproduzir, ele não consegue porque seu gameta tem problema” (DC, 27/06/2011, p.64). Produz-se, assim, a diversidade como perfeição no sexo evoluído e reprodutor. Por conseguinte, doenças na atual espécie e problemas genéticos que comprometem as gerações futuras colocam o sexo como “origem de todo um capital patológico da espécie” (FOUCAULT, 2010, p. 129). Mais que isso, institui-se a monstruosidade nesses corpos. Se, nos primórdios, o monstro é visto pelo discurso religioso como “milagre, malefício, sinal, fruto do pecado ou acidente de concepção” (COURTINE, 2009, p. 491), após o século XVII, ele cairá na jurisdição da ciência ao adentrar seus laboratórios e passar pelos crivos de sua observação. Aí, monstro continuará a ser entendido como “sinal de desordem do mundo, próximo das catástrofes naturais” (COURTINE, 2009, p. 491). Isto é, seres não naturais, não normais, que servirão, desde então, como instrumento para clamar por ordem e razão.
Nesse discurso de sexo evoluído, pela tecnologia do gênero, governa-se seres por meio da técnica de vigília. Convida sujeitos a conduzir seu sexo e prazer de modo a continuar a longa história da vida: evolução e perpetuação das espécies. No currículo experimental, portanto, a verdade do sexo define, fixa e posiciona seres evolutivos quando cada um/a pensa seu sexo a partir do corpo biológico que possui, distingue funções de machos e fêmeas, controla reprodução ou prazer, prima pela diversidade dos espécimes. Uma forma de governar sujeitos que produz os/as incluídos/as e exclui as “sexualidades não-reprodutivas” (MISKOLCI, 2009, p. 163). Isto é, “a associação da sexualidade ao prazer e ao desejo é deslocada em favor da prevenção dos perigos e das doenças. Nesse contexto que centraliza a reprodução, os/as “homossexuais ficam fora da discussão” (LOURO, 1998, p. 41). Institui-se, desse modo, uma “polícia do sexo: isto é, necessidade de regular o sexo por meio de discursos úteis e públicos e não pelo rigor de uma proibição” (FOUCAULT, 2010, p. 31).