6 Ethical principles and practices
6.2 Ethical practices
“Mas, eu acredito que vocês não estão pensando nisso, não é? Eu acredito em Papai Noel ainda”. Ao ouvirem essa frase, todos/as riem muito como se quisessem mostrar que pensam sim (DC, 13/06/2011, p.61). Apesar de muito se falar em sexo e os modos que se deve exercê-lo, o quereres que desejou seres evolutivos no currículo investigado entende que a sexualidade atrapalha a aprendizagem no fazer experimental, desejando que a sexualidade só seja despertada na fase adulta. Resultante da “noção de que sexo per se é prejudicial aos jovens” (RUBIN, 2003, p. 2), fala-se de sexo para “gerir, inserir em sistemas de utilidade, regular para o bem de todos, fazer funcionar segundo um padrão ótimo. O sexo não se julga apenas, administra-se” (FOUCAULT, 2010, p. 31). Tal administração não consiste só em ensinar sobre reprodução, controle da gravidez, prevenir doença ou primar por diversidade da espécie. Administrar sexo no currículo experimental é entendê-lo como tendo um momento certo, adiando-o “para mais tarde, para depois da escola, para a vida adulta” (LOURO, 2010, p. 26). Afinal, aprendemos com o discurso cristão que “o tempo entre a puberdade e o casamento é cheio de perigos” (CORBIN, 2008a, p. 74). Caso o sexo seja praticado nesse tempo, formas de regulação são acionadas.
Em uma experimentação sobre microrganismos, instrui-se: “Carlos tosse na placa e vocês anotam. Na próxima aula, vocês vão ver o que tem na boca dele e Aninha vai pensar se quer ficar mesmo assim tão pertinho dele”. Todos riem nessa hora, mas o aluno e a aluna referidos/as ficam sérios/as (DC, 24/08/2011, p.6). Carlos e Ana são namorados e
têm o hábito de sentarem-se juntos nas aulas experimentais observadas. Utilizando-se da técnica de inflação do pânico pelas doenças, uma inflação que faz o sistema de controle funcionar (FOUCAULT, 2008a), emprega-se o experimento em prol do discurso que regula a sexualidade. Afinal, sabe-se que “todos devem se encarregar continuamente desse germe sexual perigoso e arriscado, perigoso e em perigo” (FOUCAULT, 2010, p. 115). Por meio dessa técnica de dominação e de si, no currículo experimental, deseja-se um ser dosado: aquele que, além de conhecer o sexo evoluído, sabe dosar sua sexualidade para que ela não se torne perigosa pelos riscos de não ser considerado um ser adequado aos ensinamentos do currículo experimental.
Essa dosagem da sexualidade não corresponde, apenas, à ameaça de uma sexualidade “sitiada pela doença, pela morte e pela violência” (LOURO, 2006, p. 94) ou pela gravidez não planejada como comumente é debatida em forma de problema nos currículos (LOURO, 1997) ou pelo prazer como “campo da morte e do mal” (FOUCAULT, 2006f, p. 23). Por estar sempre em suspeita, o controle da sexualidade é requisitado, também, porque pensar em sexo precocemente atrapalharia o desempenho na experimentação. Em um dia de observação, Ângela, por exemplo, pergunta à Sabrina por que Lamarck estava errado em suas considerações. Percebo que nesse momento, todos/as passam a olhá-la, sendo que muitos/as riem. Senti que havia um clima de que os/as alunos/as e professora já esperavam que ela fosse errar a resposta. A cada pergunta feita, a aluna se embaraçava, balbuciava algumas palavras, mas não conseguia concluir o pensamento. E todos/as riam sem parar (DC, 01/04/2011, p.59).
Depois da saída de todos/as ao final da aula, vejo Ângela conversar com a bolsista sobre o caso da Sabrina: “ela é muito adulta em relação a esses meninos. Vocês podem ver como ela já tem o corpo de mulher, já está aflorada, né? Aí, é difícil trazer ela para aula. A cabeça dela fica em outro lugar. Ela acha isso aqui muito bobo para ela. É uma pena que ela já tenha aflorado isso. Mas, os pais às vezes incentivam, acham bonito. Ela é bonita, né? Então, quando a sexualidade está assim aflorada é difícil concentrar na aula” (DC, 01/04/2011, p.60). Produz-se, então, o ser aflorado no currículo investigado: que possui sexualidade aflorada, inadequada e que afronta o que se pensou e estipulou para sua idade. Por conta de uma sexualidade fruto de amadurecimento fisiológico, afloradas poderiam estar “‘caindo no rendimento’, ficando distraídas, não concluindo tarefas, deixando de prestar atenção à aula para falar sobre namorados” (CARVALHO, 2001, p.564), tornando-
se “ovelha infectada” (CORBIN, 2008a, p. 75) e “alvo de sanções morais por viver abertamente seus desejo” (MAKNAMARA, 2010, p. 111).
No currículo experimental, produz-se o sexo como algo natural e necessário à evolução das espécies e, ao mesmo tempo, como aquilo que deve ser dosado e regulado para não se tornar um perigo ao futuro das gerações ou um problema pedagógico. Ou seja, opera-se considerando o sexo “‘natural’ e ‘contra a natureza’” (FOUCAULT, 2010, p.115). Mais uma vez, reduz-se “o sexo à sua função reprodutiva, à sua forma heterossexual e adulta e à sua legitimidade matrimonial” (FOUCAULT, 2010, p. 114). Seria uma aliança entre o dispositivo da sexualidade com o dispositivo da infantilidade para agir sobre crianças e jovens, governando-os/as como sujeitos do desejo por meio, no currículo, de discursos das pedagogias modernas. Seria “o poder moralizador que pedagogiza, infantilizando” (CORAZZA, 2004, p. 292). Assim, as relações envolvendo sexualidades entre os/as estudantes só seria permitido quando não fosse possível atrapalhar as atividades na escola, as demandas do dispositivo da experimentação. Pude observar isso quando, por exemplo, ouço a recomendação da professora ao final da aula após ser perguntada por uma aluna se havia atividade para casa: “não, não, paquerem muito” (DC, 26/08/2010, p.12).
Além disso, o dispositivo da sexualidade agiria de modo a considerar que “o sexo é necessariamente feminino” (BUTLER, 2010a, p. 165) e que o corpo feminino é “saturado de sexualidade” (FOUCAULT, 2010, p. 115). Porém, todos os corpos produzidos nesse currículo são potencialmente vistos como sexuados. Afinal, por meio da sexualização dos corpos, deseja-se produzir e governar um sexo que é biológico-moral, que consiste em “um uso especificamente político da categoria da natureza, o qual serve aos propósitos da sexualidade reprodutora” (BUTLER, 2010, p. 164). Nas aulas experimentais, ao se produzir e naturalizar o sexo como estritamente biológico, busca-se, de modo culturalmente situado, gerar uma “sexualidade economicamente útil e politicamente conservadora” (FOUCAULT, 2010, p. 44).