5. Møtet
5.7 Sunnmøre – kristendomens rike i ein historisk kontekst
Como é conhecido, um dos elementos fundamentais para entrar na cultura de um povo e atingir o seu imaginário é dominar seu código de comunicação.
Por isso, os missionários passaram não só a se interessar pela língua como instrumento fundamental da catequese, como também a estudá-la e a produzir material catequético. Como diz Melià, “todo el desconocimiento y desconfianza del misionero frente a lo religioso indígena se volvió al estudio y admiración tratándose de la lengua”792.
Entre os jesuítas, o debate sobre o aprendizado das línguas nativas vinha se fazendo havia um certo tempo, explicitado por alguns missionários, como José de Acosta, na América hispânica, e por José de Anchieta, no Brasil. O primeiro, embora fosse muito severo em relação às culturas indígenas793, percebia a importância do aprendizado do idioma para se transmitir a doutrina cristã, pois “nossa compreensão de suas idéias os convencerá a acreditar nas nossas”, escrevia ele no final do século XVI 794.
Desde o contato inicial, o domínio do idioma em vista à evangelização, mostrou-se fundamental. Encontra-se esta preocupação, já em 1549, com o Pe. Leonardo Nunes, recém chegado a São Vicente, quando sentiu a necessidade de ter companheiros que soubessem a língua da terra. Assim, admitiu na Companhia de Jesus, como Irmãos Leigos, portugueses que falavam tupi ou que teriam facilidade em aprendê-lo, como Pero Correa e Manuel Chaves 795. Não sem razão, estes dois, considerados “grandes línguas”, além de alguns
791 Entre os Tapirapé Wagley presenciou episódios de reprimenda pública, mas dá a entender que não era usual e nem freqüente (Lágrimas de boas vindas, 1988, p. 150).
792 El Guarani conquistado y reducido, 1993, p. 126.
793 Historia Natural y moral de las Indias, L. 5, c. 11, 23 e 24 (Ap.: SUESS, A conquista espiritual da América
Espanhola, 1992, p. 614-621). 794 Id., ib. (Ap. SUESS, ib., p. 620).
795 “(...) para melhor acudir também os índios, que pereciam em sua gentilidade, começou o Padre Leonardo
a receber alguns noviços, dos que sabiam bem a língua brasílica, ou a podiam aprender facilmente. Admitiu em primeiro lugar a Pero Correa e Manuel de Chaves, homens principais, moradores da terra, de muitos
mestiços, faziam parte do grupo inicial que participou das experiências missionárias de São Paulo e de Maniçoba. E o Ir. José de Anchieta logo se destacará como o grande tupinólogo, buscando colocar o tupi dentro das regras gramaticais latinas796.
Pe. Manuel Viegas, colaborador de Anchieta e missionário junto aos Maromomi, fazendo uma comparação entre a teologia (“letras”) e o falar a língua indígena, em carta dirigida ao Superior Geral, em 1585, revelava um debate que ocorria entre os jesuítas a respeito do aprendizado dos idiomas nativos:
(...) para esta gente do Brasil poucas letras bastam. E quem nesta terra sabe a língua dela é aqui teólogo. E muitos padres, que vêm de lá teólogos, nos dizem que, se pudesse ser, dariam metade de sua teologia pela língua. E eu digo a V.P. que não darei a minha língua por toda sua teologia, e folgaria que eles ficassem com a sua teologia e soubessem também a língua. Agora, todos os que são para isso [para a missão] se dão a saber a língua, e desta maneira haverá agora muitos línguas na terra e os índios não perecerão à mingua de línguas, porque nós os línguas antigos já somos velhos, e é necessário que venham outros em troca e lugar de nós 797.
Como diz Burke, “a língua é uma força ativa na sociedade, um meio pelo qual indivíduos e grupos controlam outros grupos ou resistem a esse controle, um meio para mudar a sociedade ou para impedir a mudança, para afirmar ou suprimir as identidades culturais”798.
anos no Brasil, e muito grandes línguas: e logo após estes, alguns moços pequenos, assim europeus, como mestiços.” (CCJ, L.1, n.70, p. 209).
796Um ano depois de sua chegada, Anchieta, de certa forma, já dominava o tupi, como revelava a seus confrades de Coimbra: “Quanto à língua, eu estou nela algum tanto adiante, ainda que é muito pouco para
que o soubera, se me não ocuparam em ensinar gramática [aulas de alfabetização na Casa dos Meninos]. Todavia tenho toda a maneira dela por arte [regras gramaticais], e para mim tenho entendido quase todo o modo dela. Não a ponho em arte, porque não há a quem aproveite. Somente aproveito-me eu dela, e aproveitar-se-ão os que de lá vierem, que souberem gramática” (Carta aos Irmãos enfermos de Coimbra, 20.03.1555, CAP, p. 88).
797 Carta ao P. Geral Acquaviva, 21.03.1585 (HCJB, T 9, apênd. B, p. 542). 798 A arte da conversação, 1995, p. 41.
Ao contrário das reduções paraguaias, que no século XVII conseguiram ter uma produção lingüística própria, voltada para um “cristianismo não espanhol”799, no Brasil todo o esforço para sistematizar a língua tupi foi em vista de uma imposição do catolicismo lusitano. Neste sentido, a língua tupi, codificada por Anchieta na sua gramática e nas várias produções catequéticas800, contribuiu para maior dominação das populações indígenas.
Era o que observara Lévi-Strauss, ao dizer que a entrada da escrita junto a muitos povos tradicionais contribuía para “facilitar a servidão”801.
Captando o idioma do outro, o missionário captava seus códigos e valores, traduzindo-os por conceitos cristãos. Com razão, ponderavam os antropólogos que criticavam esta maneira instrumentalizadora dos atuais missionários fundamentalistas estadunidenses do Summer Institute of Linguistic-SIL (Instituto Lingüístico de Verão):
el lenguaje indígena no se restringe solamente al idioma verbalizado, sino que implica también las formas de actuar, los sistemas organizativos, así como los procedimientos de elaboración de manifestaciones culturales materiales y no materiales 802.
Alguns jesuítas que dominavam a língua tupi conseguiram desenvolver também uma oratória no estilo indígena, como foi o caso do Ir. Pero Correia, que
entrava pelas casas dos índios, pregando como entrara pela sua, que fossem gentios. A pregação era comumente de noite, e sucedia
799 Id., ib.
800 Ver a Arte de grammatica da língua mais usada na costa do Brasil. Sobre a capacidade de Anchieta como lingüista escreveu seu biógrafo: “E tanto de raiz a aprendeu que não somente chegou a entendê-la e falá-la
com toda perfeição, e compor nela e transladar as coisas necessárias para a doutrina e catecismo: mas veio a reduzi-la a certas regras e preceitos e compor arte [gramática] dela, com que os nossos que aprendem a língua muito se ajudam” (CAXA, Q., Breve relação da vida e morte do Padre José de Anchieta. In: CAXA & RODRIGUES, Primeiras biografias de José de Anchieta, 1988, p. 18).
801 Tristes trópicos, 1998, p. 283.
802 Declaración la política colonialista del ILV. Encuentro de Barbados, julho de 1977. Civilización, México- DF: CADAL, 1983, v. 1, p. 66-69.
começar antes do meio dela e acabar alta manhã, sem que alguém dormisse” 803.
O Pe. Nóbrega, mesmo sem saber o “brasil” ou a “língua brasílica”, estimulava as pregações neste idioma, mesmo daqueles “que não fossem sacerdotes”804. Chegou mesmo a chamar o tupi de “latim da terra”, o que mostra a importância que dava a esta língua805.
Entretanto, o estudo do tupi entre os jesuítas começou de forma mais efetiva apenas quando o Pe. Luís da Grã assumiu o provincialato, em 1559, exigindo que. na Bahia, todos o estudassem. Certamente, sua experiência nas aldeias de Piratininga deve ter mostrado o benefício para a catequese.806.
Convém assinalar a elaboração do Vocabulário na Língua Brasílica, iniciado por Anchieta e concluído pelo Pe. Leonardo do Valle, que foi de grande valia para os missionários e que, até hoje, é uma grande referência no estudo do tupi.
Além desta língua, os jesuítas da primeira fase procuraram conhecer o idioma dos Ybirajara do atual Paraná, chamados também de Bilreiros e que seriam os ancestrais dos Kaingang. Por terem “bons costumes e ter já bom caminho andado ” despertaram a atenção dos missionários, que se dispuseram a ir até eles. Pero Correa, o grande língua tupi, a partir de um indígena desta etnia que ficara cativo entre os Tupi, fizera um pequeno vocabulário e captara “os modos de falar desta gente”807.
Alguns anos depois, o Pe. Manuel Viegas, chamado de “pai dos Maromomi” pela dedicação que mostrava a este povo, estudou-lhe também a língua, tendo elaborado um
803 VASCONCELOS, VVJA, v. 1, p. 47.
804 ANCHIETA, História da Companhia de Jesus, TH, p. 134. 805
“Manoel de Chaves hé boom filho e mui humilde (...) e a milhor lingoa que temos: trabalhei de o
emcaminhar a ser clerigo pois sabia o latim da terra” (Carta ao Pe. Manoel Torres, 2.09.1557. CPJ, v. 2, p. 418).
806 “Logo que o Padre aquy chegou, ordenou que em casa se lesse a arte da lingoa brasílica, que compôs o
Irmão Joseph [Anchieta], e o mesmo Padre [Luís da Grã] he o mestre e estaa tam exercitado e instruído nella que leva avantajem nas cousas da arte aos mesmos lingoas. Desta liçam nem Reytor [Francisco Pires], nem pregador, nem nehuma outra pessoa esta isenta” (Carta do Pe. João Melo ao Pe. Gonçalo Vaz de Melo, 13.09.1560, CPJ, v. 3, p. 283). Ver o texto de SUESS sobre o domínio das línguas indígenas por parte dos jesuítas (A catequese nos primórdios de S. Paulo, 2004).
vocabulário, uma pequena gramática e a versão do catecismo tupi, mas infelizmente todas estas obras se perderam808.
Nesta prática catequética, não só os conceitos religiosos foram mudados, como também os nomes tradicionais, tanto das pessoas como dos lugares.
O dar nome a alguém ou a algum acidente geográfico sempre esteve ligado ao exercício do poder, seja político, seja religioso. Este hábito aparece nos conquistadores, que marcavam sua passagem colocando nome nos rios, enseadas ou ilhas, como vemos na expedição de Martim Afonso de Sousa, entre os anos 1530-1532, quando se nota esta prática809.
Entre muitos povos, tanto da antiguidade como em nossos dias, havia este procedimento. Nimuendaju, que viveu entre os Guarani Apapokuva do oeste paulista, no início do século passado, ao referir-se sobre o nome que o pajé dava às crianças, escrevia que este nome
tem uma significação muito superior ao de um simples agregado sonoro usado para chamar o possuidor. O nome, a seus olhos, é um pedaço do seu portador, ou mesmo quase idêntico a ele, inseparável da pessoa. O Guarani não ‘se chama’ fulano de tal, mas ele ‘é’ este nome” 810.
Os Tupi davam também grande importância ao nome.
Ao dar nomes cristãos aos indígenas por ocasião do batismo, os jesuítas entraram também neste universo cultural e simbólico, como novo pajé com poder de nominar.
Colocando o nome de um santo e, sobretudo, de algum português importante, o missionário recuperava o tradicional sistema tupi, mostrando que este novo nome deveria
808
RODRIGUES, Vida do Pe. José de Anchieta. In: CAXA & RODRIGUES, Primeiras Biografias..., 1988, p. 66
809 Ver Naveguaçam q’ fez Pero Lopez de Sousa... “(...) estas duas ilhas a que puz o nome de Sant’André, por ser hoje seu dia” (PLMH, v. 1, parte V-VIII, p. 5509).