É fácil concluir que tantas e tão diferentes iniciativas, unidas às tarefas normais de um sacerdote, tomassem quase todo o tempo do jovem sacerdote, fazendo dele um homem de congressos e reuniões16. Isto estava em claro contraste com a pastoral típica de seu tempo, centrada basicamente na administração dos Sacramentos e na prática de algumas devoções. Dehon, porém, começa a sentir-se cansado e vazio17. Faltava-lhe algo. Para suprir esta lacuna, juntamente com outros sacerdotes, em 1874, funda um “oratório diocesano”. Trata-se uma reunião mensal de estudos, silêncio e oração18.
Em todas estas iniciativas no início do seu ministério sacerdotal vai se consolidando a identidade de um homem muito atento às necessidades sociais do seu tempo e disposto a dar uma resposta de qualidade a partir de um estudo prévio. É a postura típica de um educador comprometido com a realidade. Mais tarde, já no auge do seu apostolado social Dehon reconhece: “Nous sommes des hommes d’obéissance”19. De fato, a obediência em sua acepção semântica original de disposição para ouvir, discernir e decidir é um valor estruturante da sua personalidade.
É preciso reconhecer essa dinâmica, da qual Dehon estava consciente, para entender o seu comportamento diante do novo bispo de Soissons, Dom Odon Thibaudier, que toma posse
15 Carta de 25.7.1875. AD.B. 21/7.
16 Escreve em 1897: “Participei de muitos congressos nos últimos vinte e cinco anos. Sempre os considerei
exercícios espirituais de zelo. No meu modesto parecer, atacar estes congressos, significaria trair a causa sagrada da Igreja”. OSC II, p. 370.
17 Temos uma ótima descrição da vida interior de Dehon nesse período em G. MANZONI,Leone Dehon e il
suo messaggio, pp. 215-218.
18 A. DUCAMP,Le Père Dehon et son œuvre, pp. 122-123. A primeira reunião, com outros cinco sacerdotes,
aconteceu na casa dos jesuítas, em Laon, no dia 28 de julho de 1874. NHV X, p. 175. O oratório era inspirado e ligado à obra do sacerdote A. Olichon Lebeurier, que tinha como finalidade criar laços de família entre sacerdotes diocesanos. Era conhecida como L’Union Apostolique des prêtes séculiers du Sacré-Cœur. Cf. A. BROU, “Associations de Prêtres” in Dictionnaire de Spiritualité, Tome I, pp. 1037-1045. Para um estudo
especializado sobre o tema em Dehon: E.DRIEDONKX, El Oratorio Diocesano de Soissons.
19 Esta afirmação é a propósito do Manuel social chrétien que terminara de ser redigido como resposta a um
em abril de 1876, e da Ir. Maria Uhlrich (1837-1917), fundadora das Servas do Sagrado Coração de Jesus. O bispo queria a fundação de um colégio católico em Saint-Quentin. A madre sonhava com a fundação de uma Congregação de sacerdotes dedicada ao Sagrado Coração de Jesus. Dehon ouve tudo com muita atenção. Ele já havia contemplado a realidade da cidade e da região por meio da pesquisa e concluíra que, de fato, se fazia necessário um colégio confessional. Também sentia um forte apelo de contemplação mística, vivida no “oratório”, que o fazia experimentar certa atração pela vida em uma Congregação. Deste modo, a estrutura contemplativa da personalidade de Dehon – quer voltada para a realidade exterior, quer para a dimensão interior – tornava interessantes tanto a propostas do bispo, quanto a da religiosa.
Através desta característica de escrupulosa atenção à realidade, alguns de seus biógrafos chegam a considerar Léon Dehon um homem indeciso, que ouve demais20. Porém, podemos vê-lo também como alguém contemplativo. É uma questão de ponto de vista. Seu lema de sacerdócio manifesta claramente esta dimensão pessoal: “Domine, quid me vis facere?”21. Hoje chamaríamos esta postura diante da vida de construtivismo, ou seja, a habilidade pedagógica de fazer perguntas e de ouvir as respostas.
As conversas com a Madre Uhlrich e com os diretores espirituais, Pe. Freyd e, depois, Pe. Dorr, acentuavam cada vez mais o antigo desejo de se consagrar como religioso22. A solução teria sido fácil se Dehon simplesmente tivesse aceito, em 1874, o convite de seu diretor espiritual e antigo Reitor do Seminário de Roma, Pe. Freyd, de entrar para sua Congregação dos Espiritanos e, depois, quem sabe, sucedê-lo como Reitor. A resposta de Dehon é clara e revela toda a sua complexa dinâmica interior: “Isto que me propõe seria para mim o paraíso. Estar em Roma, ter as vantagens da vida religiosa, estudar à vontade, tudo o que me atrai. Mas será a vontade de Deus?”23. É importante observar que, em sua nostalgia
20 Cf. por exemplo: Y. LEDURE,Un prete con la penna in mano, p. 82.
21 Isto pode ser verificado no lema pessoal de vida que escolhera já no tempo de seminário: “Domine, quid
me vis facere?”. NHV V, p. 2.
22 Escreve em suas Memórias sobre o retiro espiritual de 1872: “Conservava o desejo ardente da vida
religiosa. Temia perder a vida interior nas atividades do ministério e das obras”. NHV X, p. 28.
23 Esta carta é de 11.12.1874 e se encontra nos arquivos dehonianos. AD.B. 36/2. Dehon chega a ficar
incomodado com este convite. É possível que já estivesse consciente da dinâmica inaciana de acompanhamento na qual “o pior erro que um diretor pode cometer é conduzir o outro pelo seu próprio caminho”. Cf. R.GARCIA MATEO, S. Ignazio di Loyola, p. 41. O diretor espiritual escreve cartas a Dehon quase até a sua morte
pelo tempo vivido como seminarista em Roma, Dehon sempre recorda as dimensões do estudo e da oração. No momento em que decidir pela vida religiosa fundará, contemporaneamente, um Colégio e uma Congregação. Vemos aqui uma íntima ligação entre sua vida mística e intelectual como expressões da dimensão que chamamos de contemplativa. Este aspecto indica outra síntese de personalidade que caracteriza a Educação Integral presente nos seus escritos educacionais: contemplação e ação.
No início de 1877, Dehon viaja com Dom Thibaudier para Roma. Chega a pedir ao bispo para ficar ali durante um ou dois anos com a finalidade de estudar. Sabemos que, na verdade, a sua intenção era entrar para o noviciado dos Sacerdotes do Espírito Santo24. Ele afirma que “sofria na sua vida espiritual e intelectual” pelo ativismo exigido em Saint- Quentin. Desejava permanecer em Roma para rezar e estudar. É preciso estar atento ao modo como Dehon sempre une estas duas dimensões da vida contemplativa: estudo e oração. A dimensão intelectual estará sempre intimamente ligada à sua dimensão mística.
O bispo, rejeita categoricamente a proposta do jovem padre25. Não estava disposto a perder um de seus secretários mais bem formados. Além do mais, desejava iniciar um Colégio católico em Saint-Quentin e o jovem cônego era a pessoa mais indicada para este trabalho. Seguiu-se um longo diálogo entre Léon Dehon e o bispo. Por fim chegaram à conclusão de que era possível conjugar os dois desejos: de Dehon, por uma vida mais contemplativa e recolhida, dedicada aos estudos e à oração; e a necessidade de um colégio confessional na cidade de Saint-Quentin, conforme o desejo do bispo. Este, de certa forma, correspondia também ao antigo sonho de Dehon de dedicar-se à educação. Mas seu ideal estava mais voltado à pesquisa do que à docência. Já rejeitara sua participação na fundação de universidades. Porém, atende ao desejo do bispo. À sombra de um Colégio nascente, Dehon resolve fundar uma Congregação religiosa na qual espera viver seus ideais mais profundos.
24 Cf. Y. LEDURE,Un prete con la penna in mano, p. 92. 25 NHV XII, pp. 118-119.