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Outro paradoxo vivido intensamente por Dehon é que a burguesia francesa do início do século 19, com seu laicismo anticlerical, herdeiro do iluminismo revolucionário, aparentemente realizara o velho projeto de Napoleão Bonaparte, de submeter a Igreja ao Estado. Porém, o sentimento ultramontano de parte dos católicos franceses alimentava uma verdadeira veneração pela figura do Papa, fato que aproximou, cada vez mais, a Igreja francesa de Roma, afastando-a do Estado francês. Esta situação atingirá seu ápice no pontificado de Pio IX (1846-1878), quando a perda dos Estados Pontifícios gerou, na França, um intenso sentimento popular de solidariedade com o bispo de Roma9. Dehon será um ultramontano convicto, apesar de ser um patriota ufanista.

A burguesia foi a grande força que tornou possível a monarquia constitucional de Luís Felipe, inaugurada em julho de 1830. A Igreja perde novamente sua força oficial perante o Estado e é mantida sob um ambígüo olhar de respeito, desprezo e incredulidade por parte de governantes, filósofos e burgueses. O anti-clericalismo, inicialmente, toma a forma da indiferença religiosa, mas aos poucos avança em direção à perseguição religiosa. É neste contexto que surgem católicos militantes como Henri de Lacordaire, Alfred Falloux, Charles de Montalembert e Fréderic Ozanam10, mas principalmente Félicité Robert de Lamennais. Este último, com seu pensamento forte, prenunciou a infalibilidade papal, a queda do poder temporal, a liberdade religiosa e de ensino, a separação entre a Igreja e o Estado, o triunfo da democracia, a abertura à classe operária e, em outras palavras, a “Ação Católica”11. Merece destaque, também, o bispo de Orléans, Félix Dupanloup, citado freqüentemente por Dehon.

9 Note-se que o pontificado de Pio IX é, até o momento, depois de Pedro, o mais longo da história. Seu início,

em 1846 praticamente coincide com o nascimento de Léón Dehon (1843). Quando Pio IX morreu Dehon tinha trinta e cinco anos.

10 Fréderic Ozanam (1813-1853) é um dos fundadores da Sociedade São Vicente de Paulo. Foi beatificado

por João Paulo II, em 1997.

11 Cf. G. MANZONI, Leone Dehon e il suo messaggio, p. 25. Dehon estudou os livros de Felicité de

Lamennais. Seu pensamento liberal foi condenado implicitamente pelo Papa Gregório XVI, em 1832, na Encíclica Mirari vos, que o classificou como “indiferentismo”, Acta Gregorii Pp. XVI, vol. I, pp. 126-132. A reação de Lamennais foi o livro Paroles d’un croyant (1834), que recebe a explícita condenação do Papa na carta Singulari Nos, de junho de 1834. Acta Gregorii Pp. XVI, vol I, pp. 433-434. Em seu extremismo, Lamennais buscava a difícil síntese entre Estado e Religião, sendo “mais monarquista que o Rei e mais papista que o Papa”. F.TULOUP, Lamennais et son époque, p. 12. Sobre o ideal de “restauração” de Lamennais: Cf. M. CLÉVENOT,

A estas idéias se alinhava a parcela do jovem clero e uma elite de leigos, na tentativa de reconciliar a Igreja Católica com a cultura moderna. Era muito cedo para que isso fosse adequadamente compreendido, mas esta tentativa acabou por abrir um canal de diálogo com a burguesia, que resultou na reivindicada liberdade de associação e de ensino. É neste contexto otimista que tem início o pontificado de Pio IX, em 1846. Os católicos franceses estão divididos entre uma minoria liberal, que propõe a mudança estrutural12; e uma maioria conservadora, que já não acredita na possibilidade de uma real reconciliação com a burguesia e prefere propor soluções caritativas e paternalistas. Esta solução acaba por produzir a aliança entre monarquistas e católicos, que culmina na revolução de 1848, que garantiu o trono a Luís Napoleão e deu início à Segunda República (1848-1851). Nova ambigüidade: Igreja e burguesia tornam-se inimigas e aliadas ao mesmo tempo. Diante da massa de proletários ambas são vistas como mantenedoras da ordem estabelecida. Um dos resultados desta aliança foi, certamente, em 1850, a Lei Falloux que concedeu à Igreja Católica liberdade de ensino nas escolas secundárias, garantindo certa influência sobre a juventude burguesa. Sob o pretexto de salvar a França do socialismo e da ruína total, Luís Napoleão inicia o Segundo Império (1852-1870), sendo coroado como Napoleão III, numa aliança com a Igreja que irá durar quase vinte anos. Este tempo é fundamental em nossa pesquisa, pois marca exatamente a juventude e o período escolar de Léon Dehon vividos, portanto, sob a euforia da aliança do Estado francês com a Igreja Católica Romana. Os grandes sonhos educacionais de Léon Dehon foram cultivados neste terreno propício à fé e ao surgimento de escolas católicas.

Em 1853, com a Encíclica Inter multiplices, Pio IX apoia as idéias do catolicismo intransigente de L. Veuillot, que afirmava a liberdade como privilégio da verdade e defendia que a Igreja deveria se utilizar do poder para combater os “erros” do mundo moderno. Os católicos liberais, na linha de Montalembert, ao contrário, professam que a liberdade é um direito de todos, e que a Igreja precisaria se reconciliar com o mundo moderno. Para esses é publicada, em 1864, a Encíclica Quanta cura, que elenca os “erros” do mundo moderno. Dehon vive intensamente toda essa realidade como jovem estudante universitário de direito,

12 Estão reunidos em torno do jornal L’Ère nouvelle, entre outros: Henri Lacordaire e Fréderic Ozanam. K.

em Paris (1859-1865)13. As conferências do jesuíta Pe. Félix, na Catedral de Notre-Dame confirmavam sua adesão a Roma e ao Papa14.

Está em plena efervescência a complexa Questão Romana, que coloca em conflito armado o poder temporal do Papa sobre os Estados pontifícios e a luta pela unificação italiana15. Em 1867, Garibaldi tenta conquistar Roma, mas é impedido pelos exércitos de Napoleão III que dão apoio ao Papa. Em 1870, aproveitando a ocasião da guerra franco- prussiana, as tropas de Vittorio Emanuele (1849-1878) entram em Roma e se instalam no palácio pontifício do Quirinal. O Papa se declara prisioneiro do Vaticano. O Concílio Vaticano I, iniciado em 1869, é bruscamente interrompido16. É preciso lembrar que este período de crise coincide com o tempo que Dehon permaneceu em Roma, no seminário francês Santa Clara (1865-1870). Ordenado em dezembro de 1868, permaneceu em Roma e participou como estenógrafo do Concílio17.