homens conversando. Fui me aproximando e percebi que eles conversavam numa mistura de português com expressões da língua Arara. Estava homens de casas diversas. Conversavam sobre Belo Monte, dos bens que estavam vindo, dos bens que outros índios estavam recebendo, dos projetos que seriam realizados pelo PBA e do instável Plano Emergencial, que estava prestes a acabar. Mumdeu e Motjibi, lideranças do momento, contavam novidades para os outros, que colocavam questões e outras situações que tinha
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ouvido ou visto. Quando cheguei, ofereceram-me amuru, ofertado por Tatji para a ocasião do encontro. Achei um lugar no agrupamentos disforme e fiquei de cócoras, ouvindo, comentando, e às vezes respondendo a questões que também me faziam. O encontro começou com um chamando o outro, para tentar esclarecer algumas questões que vinham ocorrendo. Usando as crianças de mensageiras, quem já estava por ali foi chamando o outro para beber junto e conversar, enquanto outros se aproximavam ao ver o aglomerado
Foi um encontro prévio a uma reunião que as lideranças estavam combinando para contar as novidades. Os Arara não têm um centro de poder bem definido, de modo que as lideranças variam em relação às atividades que são feitas e aos agenciamentos de cada um, criando esses espaços conforme a necessidade. Frente a Belo Monte, os Arara tem dois homens que os representam. Essa necessidade apareceu a partir do momento em que se viram reunidos em um espaço comum, chamado pelos não-indígenas de aldeia, e tiveram a necessidade de responder como se fossem um. Entendidos pelo não indígena como uma comunidade, desde o contato se depararam com questões de “quem é o cacique da aldeia?”, “quem é o chefe?”, “com quem a gente pode falar pra decidir sobre esse assunto?”, e etc. Em relação a tais acontecimentos, alguns homens Arara demonstraram interesse no não indígena e suas coisas. Sem buscar um consenso, ou discutir quem seria o representante – visto que os Arara não têm tais mecanismos de decisão – assume a tarefa quem se mostra capaz e interessado, quem toma a frente e tem a atitude, quem toma a liderança. Já faz certo tempo que os Arara lidam com essa necessidade, mas só agora, com a retirada do chefe de posto da aldeia e com a construção de Belo Monte, que essa função se tornou tão solicitada pelos não indígena.
Após a prévia, a reunião que planejavam foi marcada para o começo da noite, logo depois que fosse ligado o gerador de energia. Motjibi apareceu na farmácia para carregar uma carteira escolar até a oropta´g. Ofereci ajuda, já que ele estava com as mãos ocupadas. De banho tomado e perfumado, vestido com suas melhores roupas, carregando caderno e caneta, dirigiu-se até o lugar da reunião. Sentou-se na cadeira escolar que eu carreguei pra ele até lá e esperamos as pessoas chegarem.
Começando com um boa noite, já foi logo em seguida pedindo desculpas à comunidade, dizendo que não iria mais abandonar seu cargo, que ele sabia de suas responsabilidades mas que teve que sair para tratar de assuntos referentes a Belo Monte,
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que o Dsei não podia ter deixado sem enfermeira de jeito nenhum, que ele já reclamou na cidade e iria continuar falando para que não acontecesse mais isso. Essa parte foi dita numa mistura do português com a língua Arara. Foi falando por um bom tempo, desculpando-se e tentando mostrar à comunidade suas tarefas na cidade. Em seguida, fez uma pausa, liberando a cadeira para que eu me sentasse, solicitou que eu fizesse uma Ata referente ao processo de mudança de aldeia de algumas pessoas do Laranjal. Era preciso passar os nome da liderança principal e de uma vice liderança para a Funai, assim como os nomes das duas novas aldeias que tinham aberto, de modo que deixassem lá tudo registrado para os trâmites burocráticos.
Há certo tempo que a “comunidade” Arara, como eles se referem ao conjunto de grupos residenciais que vivem na aldeia Laranjal, é representada por duas pessoas que vão ficando nessa tarefa até aguentarem, ou serem expulsos, os quais são ipari. A instabilidade da posição da liderança remete ao passado e ao mito de cosmogonia Arara. De acordo com Teixeira-Pinto, a vida espacialmente separada na floresta lembra e evita a possibilidade de uma nova briga decorrente de ações egoístas e violentas que foi travada entre ipari, categoria que
“engloba os primos cruzados bilaterais nascidos em grupos residenciais diferentes.(...) O potencial de conflito entre os ipari, e a briga que os fez despencarem juntos do céu que romperam, levara-os a pensar que seria melhor resolver suas diferenças aqui no chão vivendo em lugares separados e, se possível, distantes. Esta separação entre os iparifunda e sustenta um princípio de ordenamento social tradicional: a divisão da população entre vários grupos locais diferentes, economicamente independentes e politicamente autônomos. O conteúdo da categoria ipari traz também um sentido importante para a articulação entre a idéia de ‘diferença’ e o princípio de “integração” entre os vários grupos locais. A aceitação da diferença entre os ipari, a virtualidade dos conflitos entre aqueles que uma vez já quebraram as cascas do céu, produzindo toda a tragédia que vigora no mundo, fez com que tudo na vida social passasse a ser regulado por princípios de comportamento que tentam a evitar a repetição dos eventos fundadores do cosmos atual e a tragédia que originou este lamentável mundo. A vida social Arara então passou a se regular por princípios e normas explícitas de comportamentos não egoístas, solidários, generosos, recíprocos: tudo para se contrapor às formas de comportamento e relação associados à categoria otisnme que dá sentido à nefasta história do mundo.” (1997, 201)
Apesar do alerta mítico, depois do encontro com os não-indígenas, passaram a viver todos na aldeia Laranjal, mantendo a autonomia política e econômica. A grande dificuldade perante a situação atual é lidar com os outros tal como se fossem um.
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Enquanto o xamã cria a socialidade com as potências metafísicas, as lideranças da aldeia criam a “comunidade” com os não indígenas. Enquanto o xamã é controlado por meio de acusações de feitiçaria, as lideranças são acusadas de roubo, de egoísmo, de mentiras. Ademais, as lideranças são frequentemente substituídas, não duram por muito tempo, é um “cargo”, um papel que assumem. Já o xamã dura por toda uma vida (?), não tem como tirarem seus “atributos”, mas podem tirar o “papel” que representa?
“(...) human sociality depends on the inversion of the cosmological determinants, which in turn depends on shamanic powers to create de conditions for living outside the violent cycle of predation that characterizes the whole, which are the same power that can reintroduce the harmful cosmological forces into human social existence”. (Teixeira-Pinto, 2004, 240).
Muitos dizem não acreditar no que diz o xamã, que é tudo inventado que ele fala com onça, com os espíritos, mas que ninguém nunca viu acontecer. Frente a Deus e ao Diabo, à função do xamã é dado pouco crédito na aldeia Laranjal, quando disso questiono. É o que acontece fora dos momentos de crise e necessidade, já que com a ameaça dos seres maléficos foi logo solicitados para a intervenção – mesmo estando o pastor na aldeia.
O descrédito ao xamã é fruto da cosmologia evangélica ou do controle de subjetividades Arara? A questão da ambiguidade do xamã é recorrente em outras paisagens etnográficas. Hoje, esse ser entre o bem e o mal é também alvo de investimento negativo pelos evangélicos, que condenam a cosmologia que ele, mas não só ele, atualiza frente aos “donos dos animais”. Se antes do evangelho o xamã era tomado como alguém que reafirma a socialidade com os seres metafísicos donos dos animais que liberam criação para a caça Arara, agora é confrontado pela cosmologia evangélica de que Deus criou tudo, e é Ele quem dá os animais. Antes o que gerava a transição entre o polo negativo e positivo era o poder do xamã, agora também conta muito a confialidade do que este fala – até que ponto é verdade? Tal questão, mesmo que não seja nova na vida Arara agora é reafirmada constantemente pelos evangélicos. No momento, tudo indica que ele continua entre o bem e o mal. Até quando – tendo em vista a ampliação do agenciamento Arara com o cristianismo? É uma questão para depois.
As semelhanças marcantes são que xamã e lideranças são solicitados e prestigiados quando as necessidades aparecem. A magnitude desses homens se cria frente as suas ações, são homens que estendem sua influência para além da esfera do parentesco. O
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xamã de renome Arara faz isso na relação com seres metafísicos, a liderança da comunidade faz frente aos não-indígenas. Ambos enfrentam um problema comum: o “outro” Arara, que é o elemento que fragiliza o poder de influência e prestígio desses “grandes homens”. Na ausência da necessidade, esses homens desaparecem, ou são alvo de críticas – a rede existe enquanto é agenciada. Estão sempre nessa posição entre o um e o múltiplo, aparecem como a possibilidade de algo a mais, mas transitam entre a exacerbação da individualidade ao repúdio, à desvalorização e humilhação social – transferindo o poder do indivíduo à socialidade, pelo fazer-vergonha, pela contenção, pelas moralidades, afirmando a ética da generosidade, do viver junto, do se relacionar.