5. DISCUSSION
5.1 M ETHODOLOGICAL ISSUES
Em Abril, já em São Carlos, os membros do OEEI planejavam um encontro para reunir índios de todas as aldeias em que os pesquisadores do grupo estavam fazendo pesquisas para criar novos intercâmbios onde pudéssemos abordar o tema da educação. Para isso, liguei à aldeia Laranjal, perguntei por Motjibi, que até Fevereiro do mesmo ano era liderança da aldeia, e fiz o convite. Ficou contente com a proposta, mas se mostrou aflito com algumas situações que estavam ocorrendo. Contou que queriam tirar ele da liderança, que era o pessoal dos pescadores, protegidos pela outra liderança, visto que ele estava tentando proibir essa atividade de venda. Mas, disse de os idosos falaram que não poderiam tirar ele do nada, que antes tinha que passar a tarefa para outro. Além disso, disse Motjibi que “tem que fazer por escrito, só a palavra não vale nada”. Tem que passar rádio para a Funai explicando e tem que ser escrito”, enfatizou. “Agora, segundo confiança deles, quem vai ser liderança é Turu”, homem que estava casado com uma mulher Xipaya morando fora da aldeia Laranjal. “Isso tudo foi armado pelo meu cunhado antes de ir embora. Ele matou meu porco à noite. Acordei, ele estava morto. Ninguém viu, mas eu sei que foi ele. Ele não é crente, não é meu irmão? Irmão não pode falar mal dos outros pelas costas não, não pode fazer mal ao outro. Quando ele chegar na aldeia eu
35 O tópico é referência e atualização do tópico Socialidade ugoro´gmo: a questão do “outro” – constituição e problema, é a passagem de uma narrativa ouvida para uma em acontecimento.
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vou fazer-vergonha nele, porque ele se diz crente e fica fazendo isso com os irmãos”.
Voltando ao caso, Motjibi afirma que um irmão não pode tratar outro dessa forma, mas só o são no cristianismo evangélico. Na rede de relações Arara, Motjibi é filho do antigo headman Igoptji (falecido) com Tjipi, grupo residencial que estava afastado da rede de relações com os outros grupos Arara devido a algum tipo de desavença antes mesmo da construção da transamazônica – período em que se intensificaram os encontros Arara com os não indígenas. Por outro lado, Tatji é filho do headman Piput-geni, o qual é dito não ser Arara de sangue, tem traços de Assurini, conta, com sua mãe Peo, que compunham outro grupo residencial. Tatji casou-se e se firmou depois de ter se tornado evangélico com a ex-esposa de seu irmão Toitji, Wogaramium, irmã de Motjibi, Enquanto que Motjibi casou-se, segundo ele forçadamente, com a filha de Toitji (o qual desposou a irmã do pai de Motjibi), Tolektu, depois de ter ficado viúva do falecido marido Parata. De acordo com a terminologia parental Arara, Tatji é cunhado de Motjibi, por ter desposado sua irmã. Mas, no caso, antes de ter se casado com Tatji ela era a segunda esposa de Toitji, seu irmão, não contando com a regra uxorilocal. Nesse sentido, a relação de débitos e créditos com o grupo de Motjibi foi estabelecida por Toitji, que deu sua filha para ele. A relação de créditos e débitos de Tatji é então com seu irmão Toitji. Aqui, então, não parece ser a origem do problema.
A questão reside então na problemática relação entre potenciais ipari frente a rede de influência em relação ao coletivo. De acordo com Motjibi formou-se um complô contra ele, querendo tomar o cargo de sua liderança, “a qual só será validada pela Funai, depois de passada pro papel escrito.” Em oposição ouvi alguns dizerem que ele tinha tomado a liderança – “ninguém escolheu, ele foi lá com os brancos e falou que era cacique, e assim foi ficando.”. Tentando se livrar das acusações agenciou a relação de irmandade perante o cristianismo evangélico, o qual não se mostrou tão forte e eficaz quanto as relações que se estabelecem entre pessoas de um mesmo grupo residencial e das alianças que compõe com outros. Nesses casos, sabe-se que os críticos eram os outros, aqueles que são ipari potenciais.
Qual o motivo do conflito? Por que o desentendimento? Qual a origem da desavença? São potenciais ipari, mas isso não explica o que os fez brigarem. No mito de
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cosmogonia Teixeira-Pinto (1997) relata que foi o egoísmo. Sim, o egoísmo parece continuar sendo a origem do mal, que se caracteriza pelo modo diferencial de se relacionar. Não é pelo fato de não dar o que recebe, mas de privilegiar mais uns do que outros. A divisão não é igual, já que as relações são diferenciais, por isso a necessidade de viverem separados, longe uns dos outros, assim as relações talvez não sejam tomadas como egoístas, mas talvez, apenas potenciais. Por isso o clima de que tudo está sendo visto, ouvido e percebido na aldeia.
Em Socialidade ugoro´gmo: a questão do “outro” – constituição e problema
conto a narração de um velho Arara. Aqui, a problemática que se instaura parece ser a mesma, atualizada em um no contexto. O problema de Motjibi é a repetição dessa “velha” realidade. O “outro” continua estando entre, constituindo a socialidade Arara e ao mesmo tempo sendo o problema. Ao mesmo tempo que identifica, questionando se não é irmão perante Deus, ou talvez, em um momento passado, se não é ipari, diferencia e separa. A atualização desse conflito com o outro mostra que o tempo mítico acontece no presente, que está em atualização, em transformação, criando o ser ugorog´mo (nós todos, a gente), que remete não só ao grupo residencial, também aos seus aliados, aos outros grupos residenciais em relação. Em Arqueologia da Violência: a guerra nas sociedades primitivas, Clastres questiona:
“Por que uma comunidade primitiva tem necessidade de aliados? A resposta é evidente: porque ela tem inimigos. (...) uma comunidade nunca se lança na aventura guerreira sem antes proteger sua retaguarda por meio de iniciativas diplomáticas – festas, convites – que resultam em alianças supostamente duráveis, mas que devem constantemente ser reativadas, pois a traição é sempre possível e, com frequência, real.” (2005, 259).
E hoje, por que tem os Arara aliados? Estar junto frente às guerras virtuais com os não indígenas parece uma resposta. No entanto, os aliados que moram junto parecem mais se atrapalhar uns aos outros, visto a necessidade de lidar com o outro que mora junto frente as decisões com os não-indígenas. A tendência Arara parece ser a divisão, mas ao mesmo tempo parece que nem todos querem abdicar do território onde têm casa, escola, farmácia. Diante da ausência da guerra efetiva, essas alianças parecem cada vez mais frágeis entre uns e mais forte entre outros, deixando o conflito latente, o qual reproduz ainda certa história recente.
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Conta Teixeira-Pinto (1997) que na década de 60 a construção da rodovia transamazônica corta o território onde alguns grupos residenciais da rede intercomunitária Arara estavam assentados, aumentando o fluxo de pessoas e transformando o espaço, restringindo o acesso Arara a diversas fontes importantes de recursos. Na década de 1970 essa rede abrangia cerca de 4 subgrupos, mas na época do contato (fevereiro de 1981) eram apenas três os subgrupos, visto a morte de um headman, o mais velho do subgrupo, promovendo a dispersão dos membros em outros subgrupos. Um outro subgrupo estava mais afastado dessa rede, devido a algum conflito, apesar de haver uma mulher desse outro subgrupo casada com o headman deste. Hoje, na aldeia, ainda é recorrente a reprodução desse passado histórico em que um dos subgrupos estava ausente das relações.
Como mostra Teixeira-Pinto (1997) os casamentos se realizam com membros de outra casa, vigorando a uxorilocalidade e os cálculos de créditos e débitos matrimoniais. Tais operações ainda vigoram na aldeia Laranjal, apesar de hoje os jovens escolherem suas esposas sem levar em conta esses cálculos, visto a facilidade para o relacionamento que estar numa mesma aldeia propicia. Apesar disso, o passado histórico ainda reproduz um tanto da segregação do subgrupo com a grande rede. Vê-se que do grupo afastado da maior rede cerca de 20% dos homens se casaram com mulheres de outro subgrupo, dos quais, ambos são jovens, sendo casamentos recentes e uxorilocais, enquanto que nenhum homem foi morar junto desse subgrupo. Das mulheres, cerca de 30% saíram do território desse subgrupo, sendo que três delas foi recentemente e trouxeram o equivalente ao que “perderam”, sendo que metade são jovens.
Apesar de afirmarem-se todos ugorog´mo, há desavenças que se atualizam, mantendo o distanciamento e gerando novas disputas. O espaço da liderança da aldeia Laranjal demonstra claramente como ainda há problema e como a grande rede acaba tendo voz mais forte frente as decisões. Um dos lideres é desse subgrupo afastado, e é ele o alvo principal das críticas. Para ocupar esse papel, não foi escolhido, como afirmam que aconteceu com o outro, mas se intrometeu e se colocou como liderança frente as decisões com os não indígenas. Sabendo do risco, sempre tentou manter seu papel, mas era constantemente alvo das críticas, visto que invariavelmente acabava privilegiando os seus parentes mais próximos.
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Por mais que o indivíduo tente concentrar bens, tomar o poder, certa tendência centrifuga da socialidade impede. Apesar da autonomia e independência dos subgrupos, a vontade da aliança com o outro é marcante. Desse modo, ter aliados não é apenas uma necessidade para a guerra com o estrangeiro, como expõe Pierre Clastres (2005), é também uma vontade de estar junto, de compartilhar a bebida, a carne, é também um parâmetro para o um frente ao que se é, ao que se dá e ao que se produz, que estabelece uma informal competição, uma forma de guerra para ver quem é mais generoso, fazendo girar a roda da socialidade, dos casamentos, do comércio, da política. Assim não só se faz aliança, como também exalta o grupo que oferece, mostra sua potencialidade de produzir bebida fermentada, de caçar e oferecer a carne, exibindo a generosidade de quem “chama” a festa e seu grupo. Por meio da exaltação do um, o outro não só deve a contrapartida, como também quer exaltar o(s) Seu(s), mostrando que não é simplesmente uma relação de troca e aliança, mas de competição, que é o motor desse devir que cria o estar junto do ser ugorog´mo, sempre em risco de ser “traído”, perturbado, dividido, pois como diz
Zaratustra:
“No amigo devemos honrar também o inimigo. Podes aproximar-te o bastante do teu amigo sem passar para o seu lado?”, e responde: “- Devemos ter, no amigo, nosso melhor inimigo. Deves lhe ter o coração o mais próximo possível, quando a ele te opuseres.” (Nietzsche, 2011, 55- 57)
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