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3. METHODOLOGY

3.6 D ATA COLLECTION

3.6.2 Field activities

Alguns dias depois fui embora, sem poder acompanhar o processo do fim ou restauração do mundo Arara.

Encontrei Motjibi na Casa do Índio, em Altamira, antes de pegar o voo, onde estava resolvendo algumas questões relativas a Belo Monte. Contei o episódio pra ele, mas não tive uma resposta direta. Contou que não quis se tornar pajé, “porque ele faz tanto coisas de Deus quanto coisas do Diabo”. Começou a me contar sobre a formação para ser pajé. Os ensinamentos são instruídos por um pajé já experiente, que dá remédio do mato para o iniciante. “Dá um cipó, que faz vomitar, e uma batatinha, que é a

amiantjibyly. Dizem que é bem amargo.” Contou que seu pai tomou, “que fez

aprendizado, que era bom para se proteger dos outros, porque ele tinha que cuidar dele mesmo e da família, e era muito perigoso naquele tempo.” A reclusão é importante e o jejum também. “Depois que toma esse remédio do mato a pessoa não pode se mexer, e ele atrai todos os tipos de bichos e insetos. Se vier cobra, tem que ficar parado, não pode

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fazer nada, senão ele lambe a pessoa, e pode matar. Todos os velhos sabem desse ensinamento, é só perguntar que eles contam,” disse.

Tal como é recorrente em outros povos indígenas, entre os Arara, o xamã aparece como um ser entre o bem e o mal. Sendo um iniciado, ele tem o poder de curar as pessoas, mas também 34sabe fazer preparados do mato e usar seus conhecimentos para gerar o mal – ser um feiticeiro. Mas, por que fazem o mal? Como fazem o mal? Que mal eles fazem?

De acordo com Teixeira-Pinto (1997), todos os homens Arara passavam pelo ensinamento xamânico, o que dizem já não ser mais frequente hoje em dia. Como me contaram, alguns homens que estavam fazendo ensinamento, tiveram que abandonar pois estavam fazendo o mal aos outros. Certo dia, enquanto andava com algumas crianças, uma delas acusou o pai da outra que ele tinha jogado tjano em um homem, que era por isso que ele estava doente ainda, ao que o outro negou, falando que seu pai não faz maldade, que isso era coisa de um outro homem. Tjano são flechinhas que todos os xamãs experientes têm, que guardam no corpo, e sugam as energias do outro. Isso sei pelas crianças, os adultos não falam desses assuntos comigo. Sempre escondem essas questões conflituosas que são explicadas pela cosmologia Arara, como se tivessem vergonha frente a crença do outro. Em meio à perturbação, um começou a falar do outro, culpando sempre o outro pela doença. É a velha história de que um xamã nunca se diz tal. Parece então que a questão não é por que fazem o mal, mas quem desvendou a doença ou o mal causado, remetendo o problema às relações sociais entre pessoas, entre famílias, entre as casas residenciais. Impossível saber se de fato foi o outro que fez isso, que jogou feitiço para deixar o outro doente, mas, o que gera a acusação? A resposta poderia ser encontrada na vida social, em alguma negatividade advinda das relações. A doença parece ser apenas o estopim para o problema, onde são supostos os culpados, são elencados nomes.

34 Homem Arara que se casou com uma mulher Xipaya e foi morar com ela. Ficou um tempo trabalhando na extração de cacau e morando na cidade. Também passou um tempo na aldeia Xipaya, mas a maior parte do tempo ficava ou na cidade ou no acampamento onde tiravam o cacau. Às vezes ligava para a aldeia e falava com sua mãe, pedindo dinheiro, dizia um de seus irmãos.

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Diante dos culpados, fica marcado o pensamento de vingança, gerando uma relação de negatividade de uns com os outros. A origem do problema é variada, mas a culpa frequentemente recai em um xamã ou em algum descumprimento ético-moral – que para ser acusado, agiu de modo egoísta, marcado por um roubo, pela não divisão, pela vagabundagem de não trabalhar (há homens que tentam separar a relação de seus filhos com filhos de outros homens por serem acusados de não trabalhar), enfim, por individualismo em benefício próprio frente a momentos que devem ser solidários e generosos, ou por preferenciação de sua rede de relação. Tais acusações veem de outros grupos residenciais, não do que este indivíduo pertence. Por isso, tal como Gallois (1988) mostra entre os Wajãpi, a acusação de um xamã parece marcar a rivalidade entre grupos locais diferentes, parecendo com uma modalidade de “guerra invisível”.

Num longo percurso quanto àl magnificação do xamã, Sztutman resume:

“Em uma ponta, estão os Parakanã, entre os quais vige um xamanismo inconfessado; na outra, os Guarani, em que os xamãs representam a pessoa modelar, pois que se assemelham aos Deuses. Em uma ponta, um poder agressivo tamanho que deve ser silenciado e que atua fortemente no desenho de uma política faccional; na outra, a salvaguarda de uma moralidade que tende a se aproximar da constituição e da representação de um domínio público.” (2012, 457).

Nos Arara, o xamã é quem se relaciona com os donos dos animais, abrindo a possibilidade de caça para os Arara e, ao mesmo tempo também um risco, visto seu acesso a outros mundos.

O xamã, um ser que se relaciona com a realidade metafísica tem dois atributos principais, de um lado um mediador entre à socialidade e as potencias metafísicas que controlam os animais e que causam as doenças, um negociador astuto e necessário, por outro, por se exceder a esse domínio, um potencial feiticeiro – “Ora, o que produzia um “feiticeiro” era, como em tantas paisagens atuais, sempre um rumor, um boato, uma tentativa de desqualificação moral” (Sztutman, 2012, 431), hoje é também associado ao Diabo. Alguém que pode ser perfeito na ética da generosidade e da solidariedade, mas que de algum modo acaba sendo acusado ou desacreditado – controlado, de modo que não seja um excesso frente a socialidade, próprio da maquinaria social que impede que o indivíduo seja um poder separado. Enfim:

133 “Em linhas gerais, podemos afirmar que o xamanismo é um modo de mediação entre humanos e não-humanos, uma tentativa de restabelecer uma comunicação perdida, retratada nos mitos. Tal comunicação não é apenas desejável, mas necessária, visto que dela depende a apropriação de agência para a produção das pessoas e coletivos. Nesse sentido, os xamãs emergem como mediadores por excelência, como os agentes de uma cosmopolítica e, sobretudo, como aqueles que dispõem de certas capacidades de ação e transformação, potencializadas pelas relações que eles mantêm com os agentes – não humanos, invisíveis – do cosmos. O que muitos autores denominam de “poder xamânico”, ou ainda “saber-poder xamânico”, prefiro denominar simplesmente agência, capacidade de agir e produzir efeitos sobre o mundo e sobre outrem, capacidade de intensificar relações, dispor de outros agentes”. (Sztutman, 2012, 454)

Estar entre o bem e o mal é próprio da posição desse sujeito que se relaciona com seres um pouco mais distantes, com quem nem todos tem acesso. O bem de ser um negociador é questionado pelo potencial de gerar doença – é preciso muita cautela. Hoje, não só entre o bem e o mal, está também entre Deus e o Diabo – sendo associado ao Diabo, o equilíbrio da balança acaba pendendo, visto a exaltação de sua potencial negatividade, visto que agora está em jogo outra concepção cosmológica que é exaltada pelos missionários, por “outros” que passam pela aldeia (Pastor Levi e sua barca), por outros indios e pelos Arara que foram batizados. No entanto, em Do fim do mundo, ou de

um possível recomeço mostro que os Arara continuam se encontrando com seres

maléficos com os quais precisam de um mediador: e então é solicitado novamente o xamã de maior prestígio da aldeia Laranjal, contrabalanceado novamente o peso do Diabo com o potencial de criar o recomeço do cosmo ameaçado.

3.9 A liderança, o xamã e o múltiplo: da contenção da magnitude do sujeito Arara