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Ao retratar a história dos indivíduos ou um simples acontecimento

datado, situado em determinado espaço, o cronista constitui-se no historiador

117MEDEL, Manuel Angel Vázquez. Discurso literário e discurso jornalístico: convergências e

divergências. In: CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex (org.). Jornalismo e literatura: a sedução da palavra. 2. ed. São Paulo: Escrituras Editora, 2002. p. 15.

118 VIEIRA, Cunha Liberato. O que é crônica? Vox, Porto Alegre, ano 1, n. 4, fev. 2001. p. 50. 119CANDIDO, Antonio, CASTELLO, J. Aderaldo et al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas

transformações no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 14.

do dia a dia e do indivíduo. Conforme Agnes Heller “a vida cotidiana não está

‘fora’ da história, mas no ‘centro’ do acontecer histórico: é a verdadeira

essência da substância social.”

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Assim, o cronista constrói discursos, comportamentos; externa opiniões

das mais variadas, pinçando o circunstancial e transformando-o em histórias,

enfim, fazendo a crônica do cotidiano. Trabalhar com o cotidiano das pessoas

no espaço da cidade é mergulhar, muitas vezes, na sua intimidade e também

na cultura de uma sociedade, buscando, por vezes, o passado que se fixa no

presente e se reconstrói, recriando-se e transformando-se. Nesse sentido é

que a crônica deve ser considerada como importante material para a história,

uma vez que constitui importante documento de registro. Desse modo,

configura-se, como uma narrativa histórica:

Ao assumir a condição de relato histórico, com alguns matizes literários, a crônica volta, novamente, a ter seu significado ampliado. Assim, vamos ter uma nova noção de crônica que não se legitima apenas através da organização cronológica dos eventos, mas na forma de relatá-los. O indivíduo encontra, agora, uma maneira de tratar os eventos sociais que se sucedem ao seu redor, adequando- os de acordo com as normas sociais e a tradição de seu povo.121

É fato que os métodos do cronista não são os do historiador, que tem

caminhos próprios para buscar a verdade; o cronista narra o acontecido não

como este ocorreu (o que até para os historiadores constitui-se em árdua

tarefa), mas como foi recordado por ele, imprimindo suas impressões, suas

opiniões, seu colorido.

Da mesma forma, o cronista, diferentemente do historiador, é livre, não

estando engessado em teorias históricas ou sociológicas para explicar fatos

cotidianos, como também não está preso ao passado, mas ao presente, o

agora vivido. Machado de Assis, fazendo um contraponto entre o historiador e

senso-comum dirá: o “historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado

humanista; o contador de história foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito

Lívio e entende que contar o que se passou é só fantasiar”.

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120 HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Tradução Carlos Nelson Coutinho e Leandro

Konder. São Paulo: Paz e Terra, 1992. p. 20.

121 PEREIRA, Wellington. Crônica: a arte do útil e do fútil: ensaio sobre crônica no jornalismo

impresso. Salvador: Calandra, 2004. p. 18.

Embora apresentem diferenças notáveis aproximam-se historiador e

cronista, principalmente porque as crônicas oferecem fontes, pistas, retratos,

para o estudioso da história, apresentando-se como rico material para a

compreensão e análise dos fatos passados.

Buscando-se uma proposta heterodoxa, como também

Fraterna e inclusiva, arriscamos dizer que se a literatura e a história, compreendidas respectivamente como espaços próprios do texto e do contexto, constituem hoje empreendimentos extemporâneos, por outro lado, é em razão dessa maneira extemporaneidade que podem os dois campos ter a sua “chance”.123

O cronista, a crônica e a história são lugares de memória que se

misturam e se confundem, pois trabalham com a realidade em constante

mudança, fazendo com que a memória seja elaborada, reelaborada e

interpretada de acordo com o momento vivido. Se a crônica busca “estabelecer

ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas”

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dentro do cotidiano,

isso se faz pela memória, ou seja, ela se constitui no próprio trabalho da

memória. Portanto, o

esforço de reordenação das imagens passadas é condicionada pelo presente de quem lembra [...] Não sem razão, Ecléa Bosi escreveu que o trabalho da lembrança não é um afastar-se para reviver o passado tal como ele se deu, como se pudéssemos guardar em estado puro [...] Tal qual o historiador cujo trabalho é o de reconstruir significações pretéritas a partir de seus condicionantes presentes, a relembrança é uma reconstrução orientada pela vida atual, pelo lugar social e pela imagem daquele que lembra [...].125

A crônica é um documento vivo, oriundo das lembranças, captando fatos

dos mais diversos que, por vezes, entraram em contradição com a história

oficial, contrariando os interesses políticos e ideológicos de uma época. Assim,

história e crônica se interligam, percorrendo caminhos da memória ao ouvir e

conviver com diversas vozes, dos mais diferentes grupos sociais presentes na

cidade. Charles Monteiro, abordando à relação entre crônica e história, afirma:

123 SEIXAS, Jacy; MUYLAERT, Joana. Introdução. In: CAMILOTTI, Virginia Célia. João do Rio:

ideias sem lugar. Uberlândia: EDUFU, 2008. p. 15.

124 CANDIDO, Antonio. A crônica: o gênero sua fixação e suas transformações no Brasil

Campinas SP Editora da Unicamp RJ: Fundação casa de Rui Barbosa, 1992. p. 14.

Crônica e história são formas de escritas que elaboram a passagem do tempo e a memória de um grupo ou de uma sociedade por meio da seleção proposta pelo filtro do presente. Cronista e historiador desempenham o papel social de interpretes da memória coletiva [...] Ambos produzem uma memória social, a partir da ótica e dos interesses de determinado grupo [...].126

Já Margarida Neves de Souza aponta para a possibilidade de ambas –

história e crônica – construírem memória, e “se é verdade que a memória

construída pela história tem como referência principalmente o recorte nacional,

aquela que é tarefa mais eminente da crônica é, sem dúvida, a memória da

cidade.

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É, pois, na cidade que a crônica nasce e se fixa com laços de

identidade com as ruas e as experiências nelas vividas.