A cidade deve ser aqui entendida como espaço das necessidades
humanas, que reflete as formas como os indivíduos são capazes de organizar
e desenvolver seus modos de vida. Daí afirmar que os homens e a cidade se
refletem de alguma forma, modificando-se com o decorrer das novas
exigências da história.
Em nome do desenvolvimento, lembranças do passado, acorrentadas na
paisagem urbana são destruídas. Casas, que são verdadeiras relíquias de um
tempo – com seu desenho, imagens na fachada, data da construção gravada
no alto da porta - guardam memórias de uma época. A paisagem urbana,
contudo, vai sendo alterada e com ela a sociedade e sua cultura.
Não há mudanças, econômicas, políticas, sociais, culturais e urbanas
que não gerem conflitos. Como consequência, a cidade nasce e cresce em
tensões, entre o “novo” e o “velho”, desenvolvimento e tradição.
Segundo Halbwachs
O lugar ocupado por um grupo não é como um quadro negro que se escreve e depois se apagam números e figuras. [...] Assim se explica como as imagens espaciais desempenham esse papel na memória coletiva. Todas as ações do grupo podem ser traduzidas em termos
126 MONTEIRO, Charles. História e memória da cidade nas crônicas de Aquiles Porto (1920-
1940). História Unisinos, v. 8, n.10, jul./dez. 2004. p. 83.
127 SOUZA, Margarida Neves. História da crônica: a crônica da história. In: RESENDE, B.
espaciais, o lugar por ele ocupado é apenas a reunião de todos os termos.128
A memória da cidade pode ser encontrada em uma viela, beco ou casa
abandonada. Mas também naqueles que a vivenciaram e recordam os fatos,
lugares e acontecimentos de forma emocional que ela parece fazer parte do
próprio corpo, mutilado com a destruição imposta pelas emergências da
modernidade.
Cidade e memória se eternizam no tempo em fotografias, poesias,
romance, contos ou crônicas, o que equivale a dizer que é um campo vasto
para ser pensado, pesquisado e recriado pelas artes. A crônica, nesse quesito,
desempenha papel preponderante, pois se constitui fonte inesgotável para
melhor conhecermos a história e a cultura de determinado lugar.
A crônica, afirma Margarida Neves, “como a história, de modos
certamente diversos, se constituem numa escrita memorialística[...]”.
129A
crônica, enquanto lugar de memória, surge com o estranhamento perdido no
espaço cultural da cidade grande, onde os conflitos entre campo e cidade,
mulher e homem e entre classes sociais se materializam. O ato de registrar em
palavras o cotidiano configura-se como uma forma de perpetuar experiências
vividas. Embora apontada como narrativa efêmera, que relata episódios
passageiros de uma dada comunidade, a crônica não deve ser pensada
apenas como
um simples eco da “memória coletiva”, mas uma seleção, com cortes, silêncios e ênfases sobre certos sujeitos, lugares e tempos da experiência coletiva que produzem uma imagem do passado, uma explicação sobre a passagem do tempo, as transformações sociais, culturais, econômicas e da paisagem urbana.130
Diante do exposto, compreendemos que a cidade e a crônica se
entrelaçam, tornando-se um só corpo, onde não só fatos, mas sentimentos de
toda a ordem são trabalhados pelo cronista. Como diria Paulo Barreto,
conhecido como João do Rio:
128 HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Editora Vértice, 1990. 2011, p.159 129 NEVES, Margarida de Souza, Histórica da crônica. Crônica da História. In: RESENDE,
Beatriz (Org). Cronistas do Rio. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora. 2001. p. 27.
130 MONTEIRO, Charles. História e memória da cidade nas crônicas de Aquiles Porto Alegre
Há ainda uma rua, construída na imaginação e na dor, rua abjeta e má, detestável e detestada, cuja travessia se faz contra a nossa vontade, cujo trânsito é um doloroso arrastar pelo enxurro de uma cidade e de um povo [...].131
Assim, a cidade do cronista é a cidade letrada, possuidora de uma carga
de subjetividade; é onde ele expõe suas ideias, opiniões, sentimentos e
críticas. Para isso, ele precisar perambular, “vagabundear” pelos seus becos e
ruas, conversando com os diversos personagens e tipos humanos que fazem o
cotidiano do urbano.
Para Rama existe um
labirinto das ruas que só a aventura pessoal pode penetrar e um labirinto dos signos que só a inteligência raciocinante pode decifrar, encontrando sua ordem. Esta é obra da cidade letrada. Só ela é capaz de conceber, como pura especulação, a cidade ideal, projetá-la antes de sua existência, conservá-la além de sua execução material, fazê-la sobreviver inclusive em luta com as modificações sensíveis que introduz incessantemente o homem comum.132
A crônica é essencialmente a cidade que tomou para si a
responsabilidade de descrevê-la, quer seja de forma objetiva, humorada ou
lírica, usando as páginas dos jornais para comunicar ao leitor a visão crítica e
sentida da cidade.
A cidade e a crônica formam uma parceria advinda do progresso, da
indústria, da velocidade do tempo corrido. Nessa insólita parceria, constituem
“um regime mais ou menos fiel de comunhão de bens e de males, essa palavra
que vem sendo escrita pela caligrafia das ruas”.
133Nessa comunicação com a cidade, o cronista interage com ela, traz na
sua narrativa múltiplas histórias dentre tantas das quais ele faz parte; aparece,
se revela, dialoga com pessoas de classes sociais diversas e assume posições
políticas. Isso porque o cronista não é neutro: onde está a subjetividade, a
neutralidade axiológica torna-se impossível.
131 Apud CALADO, Luciana. A Belle Époque nas crônicas de João do Rio: o olhar de um
flâneur. 1997. p. 82. Disponível em: http://www.brasa.org/Documents/BRASA_IX/Luciana-
Calado.pdf, acesso em 7 fev. 2011.
132 RAMA, Angel. A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense,1985. p. 53.
133 PORTELLA, Eduardo. A cidade e a letra. In: Dimensões I. Rio de Janeiro: José Olympio
A cidade está, portanto, na alma do cronista, revelando sensações e
emoções causadas pelas mudanças que a atinge como também a ele.
Discursos diversos fazem da cidade lugar para se viver, trabalhar, rezar, observar, divertir-se, misturando-se os laços comunitários e étnicos, criando espaços de sociabilidade e reciprocidade, no trabalho e no lazer, em meio às tensões historicamente verificáveis.134
Refletir e estudar as imagens presentes na cidade significa entender a
dimensão histórica na qual essa está incluída. Dentro dela, fazem parte
elementos do ontem justapostos ao presente, ou seja, à contemporaneidade.
É nela e através da escrita, que se registra a acumulação de conhecimento. Na cidade escrita, habitar ganha uma dimensão completamente nova, vez que se fixa em uma memória que, ao contrário, da lembrança, não se dissipa com a morte. A cena escrita da cidade permanece. E não são somente os textos que a cidade produz e contém (documentos, registros, mapas, plantas baixas, inventários etc.) que fixam essa memória: a própria arquitetura urbana (ou se preferem, a escrita enigmática do texto urbano) cumpre também este papel. O desenho das ruas e das casas, das praças e dos templos, além de contar a experiência daqueles que os construíram, revela o seu mundo.135
A cidade está dentro de nós e, consequentemente, temos uma relação
orgânica com ela. Em outras palavras, ela é uma construção do sujeito
histórico e nela tudo é possível criar, modificar e imaginar. Através dela,
extraímos do cotidiano experiências que podem ser representadas pela
literatura. Pensar e refletir sobre a cidade é questionar suas representações:
Nesta perspectiva, indagar sobre as representações da cidade na cena escrita construída pela literatura é, basicamente, ler textos que leem a cidade, considerando não só os aspectos físico-geográficos (a paisagem urbana), os dados culturais mais específicos, os costumes, os tipos humanos, mas também a cartografia simbólica, em que se cruzam o imaginário, a história, a memória da cidade e a cidade da memória.136
Então, se a crônica registra um fato social ou um acontecimento que
aponte mudanças significativas ou que faça críticas a uma sociedade de forma
134 BOSI, Ecléa apud MATOS, Maria. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São
Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 35.
135 PINHEIRO, Délio; SILVA, Maria (Org.). Visões imaginárias da cidade da Bahia: um diálogo
entre a geografia e a literatura. Salvador: EDUFBA, 2004. p. 22.
136 PIRES, José Cardoso. Cidade: um corpo para ler. Revista Semear, Rio de Janeiro, PUC-RJ,
lúdica ou não, sem dúvida ela passa a se constituir como um documento que
serve para identificar e compreender uma época. Para Margarida de Souza,
nas crônicas produzidas na transição do século XIX para o século XX, no Rio
de Janeiro,
é possível uma leitura que as considere “documentos” na medida em que se constituem como um momento de transformação. “Documentos”, portanto, porque se apresentam como um dos elementos que tecem a novidade desse tempo. “Documentos”, nesse sentido, porque imagens da nova ordem. “Documentos”, finalmente, porque “monumentos” de um tempo social que conferirá ao tempo cronológico de novidade, de transformação, que cada vez mais tenderá a se identificar com a noção de “progresso.137
Assim a crônica é, por excelência, o seu tempo histórico, as relações
que se instalam no cotidiano, pois, filha do progresso e do desenvolvimento
das cidades, capta as mudanças dos seus espaços, o sofrimento de sua gente
no teatro vivo das ruas, onde dramas circulam todos os dias,
independentemente das estações do ano. Diante do exposto, endossamos a
seguinte afirmação:
O “tempo vivido” é o ideário do cronista. Ele estipula as estruturas narrativas de acordo com o se vive ou se viveu naquele dia de feitura do texto ou no dia anterior [...] ele escreve à medida que discute o seu dia-a-dia que nutre o discurso do tempo real, vivido ao longo do dia. Por isso, pensar o tempo na crônica é pensar o autor no tempo.138
O tempo histórico é aquele presente nas crônicas e, consequentemente,
vivenciado, observado e sentido pelo cronista. É esse cronos que direciona os
sentidos do narrador, ou seja, o tempo da construção da crônica é ditado não
pelo relógio, mas pelo ocorrido apreendido naquele instante pelo escritor.
No Brasil, a trajetória da crônica revela a representação dos grandes
centros urbanos, no olhar aguçado e particular dos nossos escritores.
137 NEVES, Margarida de Souza. Uma escrita do tempo: memória, ordem e progresso nas
crônicas cariocas. In: CANDIDO, Antonio, CASTELLO, J. Aderaldo et al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 76.
138 CARDOSO, Joselina Alves. Crônica literária no jornal: história, estrutura e funcionamento.
2008. 104 f. Dissertação (Mestrado em Letras) - Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2008. p. 31.