Jorge Sá, discorrendo sobre a crônica no Brasil
139, toma como referência
a carta de Pero Vaz de Caminha, que informa a D. Manuel sobre o
descobrimento do Brasil e as riquezas aqui encontradas. Para o autor a Carta
“é recriação de um cronista no melhor sentido literário do termo, pois ele recria
com engenho e arte tudo o que ele registra no contato direto com os índios e
seus costumes”.
140Constitui-se, pois, como a primeira crônica em terras
brasileiras feita por um lusitano. Desse modo, “oficialmente, a Literatura
Brasileira nasceu da crônica”
141.Diante essa afirmativa, faz jus a afirmação de Antonio Candido quando
diz que a crônica
ela não nasceu propriamente com o jornal, mas só quando este se tornou cotidiano, de tiragem relativamente grande e teor acessível [...] No Brasil ela tem uma boa história, e até se poderia dizer que sob vários aspectos é um gênero brasileiro [...] Antes de ser crônica propriamente dita foi “folhetim”, ou seja, um artigo de rodapé sobre as questões do dia – políticas, sociais, artísticas e literárias142.
Para Candido o gênero surgiu no Correio Mercantil, de 1854 a 1835.
143Segundo Arrígucci, os escritores desse século viam a crônica com um
ar de aprendizado de uma matéria literária nova e complicada, pelo grau de heterogeneidade e discrepância de seus componentes, exigindo também novos meios lingüísticos de penetração e organização artística: é que nela afloravam em meio ao material do passado, herança persistente da sociedade tradicional, as novidades burguesas trazidas pelo processo de modernização do país, de que o jornal era um dos instrumentos [...]144
No começo do século XX, Rio de Janeiro e São Paulo possibilitaram
novas formas de comunicação como o rádio, revistas e jornais para uma
sociedade ávida pelo novo. A cidade passou a exercer uma fascinação pelo
139 SÁ, Jorge de. A crônica. São Paulo: Ática, 1985. p. 5. 140 Ibid.
141 Ibid., p. 7.
142 CANDIDO, Antonio, CASTELLO, J. Aderaldo et al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas
transformações no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 15.
143 Ibid.
144 ARRÍGUCCI JÚNIOR, Davi. Enigma e comentário ensaio sobre literatura e experiência. São
seu excesso de luzes, cores, lojas, cinemas e modas. Na cidade movimentada
e veloz está a matéria-prima para diversos escritores em busca da novidade
para transformá-la em livro ou matéria de jornal. Dentre eles Paulo Barreto,
tendo como pseudônimo João do Rio. A obra desse cronista:
Representa a mais ousada tentativa para elevar a crônica à categoria de um gênero não apenas influente, mas também dominante. Tinha ele a impressão de que a crônica podia ser “o espelho capaz de guardar imagens para o historiador futuro [...] Produzir história social, através da crônica, foi contudo a sua diuturna preocupação [...] Paulo Barreto foi o iniciador da crônica mundana.145
João do Rio deu à crônica uma nova roupagem. Observou o cotidiano
para mais tarde revelar os fatos citadinos através de suas matérias, com a
intenção de transformá-las em história social para a posteridade. Viveu
intensamente o progresso e a modernidade, o que causava estranheza e
euforia ao cronista. João do Rio, em 1915, afirmou:
que nada de novo houve no mundo depois da descoberta da América e da expansão do jornal- duas utopias iluministas. Como instituição social, o jornal aparece, a seus olhos, como a mais salutar delas: farol de opinião nas democracias [...]146
Outros escritores-jornalistas, contemporâneos a João do Rio, se
destacaram na arte de fazer crônicas dentre eles: João Luso, José do
Patrocínio, Humberto de Campos e Oestes Barbosa.
O Movimento Modernista de 1922 fortaleceu e inaugurou um novo
momento para a crônica e o cronista, a começar por Álvaro Moreira, Olegário
Mariano (João da Avenida), Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e
Rubem Braga, expoente maior desse gênero.
O jornalista Álvaro Moreira tomou o Rio de Janeiro como fonte de
inspiração, lançou seu olhar sobre a cidade e encontrou nela diversos fatos e
acontecimentos, que se fizeram crônicas. A história do cotidiano da mulher
carioca foi um dos temas sobre os quais Moreira se debruçou, demonstrando
seu lado sensível, o que terminou desembocando na obra A cidade mulher.
145 COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, Niterói:
Universidade Federal Fluminense, 1986. p. 128.
146 ANTELO, Raúl. João do Rio, Salomé. In: A crônica: o gênero, sua fixação e suas
transformações no Brasil. Campinas/Rio de Janeiro: Ed. da Unicamp/Fundação Casa de Rui Barbosa. 1992. p. 153.
Olegário de Matos, sob o pseudônimo de João Avenida, em 1923 foi o
escritor artista que juntou texto e imagens nas suas
crônicas mundanas em forma de versos [...] essas crônicas foram, em 1924, reunidas em livros [...] intitulada Ba-ta-clan [...] o volume traz, em suas 176 páginas, 52 crônicas, em versos, todas com ilustrações –“figurinhas de J. Carlos” [...] A maior parte das ilustrações de Ba-ta- clan compõe-se de figuras femininas isoladas, que traçam um amplo painel de figurinos da moda da época. Outra parte compõe-se de cenas carregada de humor [...]147
Considerado expoente maior como cronista, Rubem Braga sofreu toda a
influência das tensões políticas entre a esquerda e a direita no país,
concomitantes ao Movimento Modernista de 1922 em São Paulo, que marcou
toda uma geração de artistas e escritores brasileiros.
Rubem Braga, sob o glamour da ideia de nacionalidade e da valorização
da cultura popular, usando uma maneira bastante coloquial, e até se mostrando
antigramático, tornou-se o maior cronista brasileiro, no sentido de construir uma
relação de representação e mediação entre ele e seu público leitor.
Desenvolveu uma maneira particular
feita com a mescla de elementos variados, vindos até onde se pode perceber, da antiga tradição do narrador oral ( no caso do contador de causos do interior) e da bagagem do cronista moderno [...] experimentado na labuta das grandes cidades do nosso tempo [...]148
A preocupação em retratar o cotidiano das grandes cidades não era
apenas de Rubem Braga, mas de tantos outros cronistas de sua época como
Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, Lourenço Diaféria, Paulo Mendes
Campos, dentre outros. Embora tivessem essa mesma preocupação cada
cronista possui estilos particulares de escrever sobre a realidade observada e
vivida.
Fernando Sabino valorizava as pessoas na vida diária como se elas
pudessem trazer para ele, e para todos que o lessem, o cotidiano mais
humano, “descobrindo a beleza do outro, ainda que expressa de forma
simplória, quase ingênua, mas sempre numa dimensão que ultrapassa os
147 LYRA, Helena Cavalcanti. BA-TA-CLAN. In: A crônica: o gênero, sua fixação e suas
transformações no Brasil. Campinas/Rio de Janeiro: Ed. da Unicamp/Fundação Casa de Rui Barbosa. 1992 p. 243.
limites do egocentrismo.”
149Desse modo, o cronista, de maneira lúdica,
apreendia o pitoresco, ficando mais “à vontade para explorar o humor das
situações que melhor exemplificam o lado tragicômico da realidade urbana,
quase sempre em contraponto ao espaço rural.”
150Uma outra característica desse autor foi o olhar sobre tipos humanos
que foram se somando em muitos momentos de suas crônicas, porém, sem
perder a criticidade do fato narrado. Segundo Jorge Sá, “essa ligação com o
real aproxima a crônica da estrutura dramática, o que permite ao cronista de ‘A
companheira’ explorar o confronto de caracteres de diálogos engraçados,
irônicos, sem agressividade – afinal, ele não esquece que está compondo um
texto cuja característica básica é a leveza -, mas sempre com visão critica.”
151Os tipos urbanos construídos por Fernando Sabino nas crônicas “A
longa viagem de volta” e “As coisinhas do poeta” “abordam o contraste entre o
homem obediente aos padrões sociais e o artista rompendo com esses
mesmos padrões.”
152Os contrários e os conflitos se perfilam, porém, com
humor.
Quanto ao paulistano Lourenço Diaféria, a grande metrópole brasileira,
São Paulo foi a sua musa inspiradora. Debruçando sobre as suas
particularidades cotidianas, imprimiu um tom próprio as suas narrativas
cronísticas, ao se prender “ao humorismo, ao banal, o social e o efêmero.”
153Os marginalizados tinham uma atenção especial nas suas crônicas, oferecendo
ao leitor “a emoção como fator predominante”
154, porém, em muitas narrativas,
o autor termina por se envolver com o relato, criando no leitor um
posicionamento diante do fato descrito. Como nas famosas cincos crônicas
chamadas “Os gatos pardos da noite”, que fazem parte da obra Um gato na
terra do tamborim. Na apresentação “ele afirma que vai “tentar decifrar as
besteiras que todos os dias se cometem por aí”, atingindo “os desvalidos, os
chutados, os amofinados, que se equilibram nos muros da vida [...] – que não
149 SÁ, Jorge de. A crônica. São Paulo: Ática, 1985. p. 22. 150 Ibid., p. 23.
151 Ibid., p. 24. 152 Ibid., p. 25. 153 Ibid., p. 39. 154 Ibid., p. 40.
têm tempo, nem saco, nem dinheiro para fazer masturbação mental em frente
de um copo de uísque”
155Os cronistas citados acima nos remetem a Jehová de Carvalho: há
semelhanças com João do Rio, Rubem Braga, Fernando Sabino, Lourenço
Diaféria e em especial com Paulo Mendes. Este
vê a cidade com os olhos de um bêbado ou de um poeta: vê mais do que aparência, e descobre, por isso mesmo, as forças secretas da vida [...] esse caçador de imagens esmagado pelo tédio do asfalto e sempre reanimado pelas lembranças de um paraíso perdido (mas não irrecuperável) situado nos campos da infância.156
Jehová é um saudosista, um tradicionalista, assim como Carlos
Drummond de Andrade, que possui um livro de crônicas intitulado Cadeira de
Balanço, que pode ser explicado pelo “o vaivém gostoso transita entre o
repouso e o movimento, permitindo que o prazer da vida serena se instale onde
antes era só o tédio do asfalto.”
157Assim é possível, acredita Drummond, que o
ser humano possa constituir uma relação entre o pretérito e o hoje se
constituindo como ponto de equilíbrio impossível de ser alterado, ou seja, a
tradição percorre inexoravelmente a sociedade.
As crônicas de Jehová possuem uma linguagem coloquial muito
direcionada, ou influenciada pela tradição cultural de Salvador, que vai alterar a
maneira de ver o mundo desse cronista. As suas crônicas distanciam-se de um
estilo literário intelectualizado.
A partir do panorama apresentado sobre a crônica – origem, conceitos,
classificações, relação com a história, com o jornalismo, com a cidade, no
contexto dos cronistas brasileiros - focaliza-se a obra de Jehová de Carvalho,
escritor baiano que se dedicou a escrever crônicas sobre temas diversos, mas
sempre preocupado com as mudanças urbanas e culturais da Salvador das
décadas de 1970-1980.
155 SÁ, Jorge de. A crônica. São Paulo: Ática, 1985. p. 39. 156 Ibid., p. 48.