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Caso “Longra/Daciano Costa”: Entrevista a operário da Metalúrgica da Longra. Abílio Pedro: Contabilista da Longra.

Local: Hotel Horus, em Felgueiras. Duração: 30’.

Momento: 27-10-08, pelas 21:30H.

Victor Almeida – Estou a fazer um estudo sobre a actividade do designer Daciano da Costa na Me-

talúrgica da Longra. A escolha da Longra acontece porque é uma fábrica exemplar porque introduziu novos processos de fabricação onde o design estava presente. O aparecimento do Daciano coincide com essas alterações na fábrica. O Eng. Deodato Martins aconselhou-me a falar consigo porque, apesar de não ter trabalhado directamente com o designer Daciano da Costa, é conhecedor da sua actividade e das suass relações profissionais dentro da Metalúrgica. Como se desenvolviam essas relações?

Sr. Abílio Pedro – São os próprios operérios que traziam as ideias. Esses operários conseguiam dar

a volta ao aço que, até hoje, e com as tecnologias existentes, parece impossível. Dobrar o aço, por exemplo, era para esses operários uma tarefa importante. Moldavam-no e ele ficava bem feito. Fui para a Longra com 13 anos e recorda-me um homem a dobrar 2 ou 3 cadeiras e a dizer: “Isto não presta, não tem o tempero necessário”. Foram devolvidas várias toneladas porque não tinham a qualidade que a Longra exigia. A Longra foi longe. Os produtos tinham qualidade.

Estamos a falar de 1970. Fui para lá em 1966, com 13 anos. Fui para a parte de escritório porque tinha o 2º ano. Trabalhar na Longra foi como entrar na Faculdade. Em 1966 o Daciano da Costa estava em plena actividade. Eu era responsável pelo café. Por receber as pessoas.

VA – Naquele contexto quem era o Daciano da Costa?

AP – Era um magnata. Era o professor. Na sala de desenho eu passava horas com eles. (Havia, tam-

bém, a oficina-piloto). O Daciano vinha da sala de desenho e via acompanhar o moldar do aço. Re- cebiam-no como “o professor”. Mas era capazes de o contestar em função dos seus conhecimentos. O Fernado Pinto, o Manuel Valente, o António Valente, o Abílio Moreira,…

VA – A chegada do designer provocou alterações no processo de fabrilização? Quais?

AP – Aí vem precisamente o design, o estilo dos móveis apresentados. A concorrência que em fun-

ção das linhas apresentadas criaram grande impacto, sobretuddo na área bancária. As linhas Cortez e TL criaram um ambiente completamente diferente nas empresas. Obrigou a dar mais atenção aos trabalhadores, mais dedicação ao produto que se queria fazer. Às vezes era difícil, mas com as mãos conseguiam fazer de modo a que o produto fosse diferente.

Ele apresentava o projecto, aceitava o diálogo com os operários e, a seguir, ia fazer as alterações su- geridas. A Longra teve que adquirir nova maquinaria, balancés, enquinadeiras, postos de soldadura, etc.. Eu era aquele que ia buscar as guias de produtos e introduzia no “computador” (na altura havia

umas fichas com banda magnética).

VA – Havia receptividade do designer a alterações propostas pelos operários?

AP – Inicialmente havia uma certa resistência. Por exemplo: ao nível da marcenaria onde estavam

3 ou 4 a polir um tampo isso (a introdução de alteraçãoes na produção) obrigava-os a acelerar o trabalho e os operários não estavam habituados a fazê-lo. Havia uma certa resistência. Mas com a en- trada de maquinaria nova houve que melhorar o desempenho. A certa altura chegou um invisual das Oficinas de S. José (Porto) que arrebentava com os tempos de produção. Não se distraía com nada e marcava uma diferença com os operários visuais existentes. Houve que proceder à especialização de alguns deles feita na fábrica.

No que respeita à formação técnica, para lá daquela que recebiam dos chefes e encarregados, os próprios vendedores de materiais e acessórios traziam novos conhecimentos que chegavam a todos os operários. Por exemplo, se um vendedor de tintas trazia algo de novo (até novas instruções da sua fábrica) chegava à secção de pintura e explicava aos operários como tinham de fazer neste ou naque- le processo. Era assim que eram transmitidos os conhecimentos técnicos. Havia uma actualização permanente.

VA – Além das relações profissionais havia relações pessoais?

AP – A Metalúrgica da Longra era o coração económico da região. Dali dependia a vida dessas

pessoas. No fim do trabalho na fábrica alguns ainda iam para as terras. A saída às 18H. eraqualquer coisa de espectacular. Era um formigueiro. Os próprios merceeiros de Felgueiras e arredores viviam dos trabalhadores da Longra. Quando não havia pagamentos havia uns vales que os merceeiros re- cebiam em troca da mercadoria. Quando havia pagamentos os merceeiros deslocavam-se à Longra e trocavam os vales por dinheiro.

VA – O designer estava presente? Com que frequência? e o que fazia?

AP – O Sr. Daciano da Costa vinha mais ou menos 1 vez por mês. Vinha com ele o Sr. Carlos Costa

e um administrador.

O Daciano foi o restaurador. Saiu-se de uma actividade muito antiga a produzir conforme as enco- mendas vinham do mercado. e a partir do Daciano da Costa nós é que dizíamos ao cliente o produto que tínhamos. O cliente começou a ficar deslumbrado. O cliente ficava agradado com o que via e adquiria.

Tínhamos agentes em todo os distritos. Havia da parte desses agentes uma enorme receptividade do produto. O design impunha-se face a outros proddutos que existiam nas outras empresas.

VA – Como acaba tudo isto?

AP – Foi um conflito de famílias. e geracional. Fernando Seixas retira-se e entra a família Godinho

de Oliveira. Começou aí o fim.

ANEXOS 149

Anexo 6.9