5. General discussion
5.1 SENP2-KD in primary human myotubes and adipocytes
Caso “Longra/Daciano Costa”: Entrevista a operário da Metalúrgica da Longra. António Costa: Chefe do Gabinete de Cronometristas e de Métodos.
Local: Na Bomba de Gasolina da BP, em Felgueiras. Duração: 42’56’’.
Momento: 28-10-08, pelas 12:00H.
Victor Almeida – Estou a fazer um doutoramento em design e a certa altura deparo-me com o caso
do designer Daciano da Costa e a sua actividade na Metalúrgica da Longra. A relação do Daciano com a Longra torna-se paradigmática, ou seja, é exemplar na introdução do design na indústria atra- vés de uma método de produção, da necessidades de estudar todas as varáveis ligadas ao produto até a apresentação final. O que a Longra estava habituada a fazer antes da sua chegada era dar resposta a encomendas formatadas pelo cliente. A partir da entrada do Daciano da Costa a Longra vai ter as suas linhas próprias que o cliente pode escolher de acordo com as suas necessidades.
Para começar esta conversa gostaria de saber um pouco da sua actividade na Longra, para depois falarmos de como se entendeu com o Daciano da Costa.
Sr. António Costa – A minha actividade na Longra começou em 1949. Fui para lá como aprendiz,
tinha14 anos. Não foi naquela fábrica, foi na “fábrica velha”. Trabalhávamos em sociedade com Sanitas e fazíamos tudo o que fosse para os hospitais: camas articuladas,… Era tudo feito de modo rudimentar. Naquele tempo seria avançado, mas vendo as coisas hoje, estava muito atrasado. Foi passado 2 ou 3 anos, em 1951, salvo erro, que começou a funcionar a “fábrica nova” e que aquilo evoluiu. Evoluiu com a construção dos Hospitais de Sta. Maria; S. João, do Porto, e depois veio a Guerra Colonial e foi preciso fazer beliches e aquelas coisas todas. A fábrica evoluiu bastante e a quantidade de pessoas também. Até que o material hospitalar deixou de ser tão rentável e inclinaram- se para o material de escritório. Foi quando apareceu o Sr. Daciano da Costa.
VA – Quem o traz para a Longra?
AC – Julgo que foi por intermédio da família Cortez Pinto. A primeira coisa que me recordo fazer, e
as coisas evoluírem dessa maneira, foi a linha Cortez. Foi uma linha fora de série. Foi um sucesso. Alem disso na Longra formou-se uma oficina-piloto onde eram estudados os protótipos,…
VA – O Sr. Costa trabalhava em que secção?
AC – Primeiro trabalhei como soldador e serralheiro. Em 1963 passei para o Gabinete de Cronome-
tristas e de Métodos.
VA – Como é que esse Gabinete aparece? Foi o INII — o Instituto Nacional de Investigação Indus-
trial?
AC – Sim. Veio para aqui o Sr. Eng. Ferreira de Almeida, do INII (antes de vir para aqui tinha estado
na CUF) desenvolver a parte de produção com novos métodos e novas formas de ver o produto. De- ram cursos de formação (em 2 ou 3 anos) a pessoas que necessitavam…
VA – Não eram os cursos da COPRAI?
AC – Não. Eram cursos escolares na Longra com professores diplomados , da escola. Alguns não
tinham a 3ª ou a 4ª classes e fizeram-nas lá. Outros que tinham a 4ª fizeram mais 2 anos e outros conseguiram seguir para a escola industrial.
VA – O curso de cronometrista era tirado à parte? Como seleccionavam as pessoas? Como o esco-
lheram a si?
AC – Não sei. É muito difícil saber porque éramos escolhidos. Há muitas razões. O curso durou para
aí 3 anos e nem todos chegaram ao fim.
VA – O que faziam os cronometristas?
AC – Primeiro foi o treino do estudo do método. Treinar a actividade. Havia o treino de cavilhas. Um
indivíduo cronometrava e outro trabalhava para ver qual era o corte no cronometro. e no final fazia-se a diferença até acertarmos aquilo. Era muito rigoroso.
VA – Como é que os operários aceitavam essas novas regras?
AC – Aceitavam bem porque aquela gente não era estúpida. Aceitavam porque viam as coisas a
evoluir. Quando a linha Cortez foi lançada — foi feita uma apresentação na FIL — e depois aquilo entrou em produção. A produção começou a aumentar porque todos os Bancos e as companhias de Seguros queriam e foi nessa altura que começaram a aparecer os Métodos. Quando estes começam a entrar a sério, nas linhas, foi preciso simplificar muita coisa. Víamos uma secretaria e sabíamos que tinha uma estrutura, um tampo, os pés, as gavetas, o bloco, e tudo… e nós tínhamos de saber aquilo tudo desde os materiais em si — preparar os materiais certos e o seu aproveitamento (caso fosse necessário tirava-se mm do painel para aproveitamento de chapa ou aproveitar em função da dimensão da chapa)—…
VA – Fazer um melhor aproveitamento do material de forma a que o desperdício seja cada vez me-
nor.
AC – Aquilo não era feito ao acaso. Havia um estudo muito rigoroso das operações. Toda e qualquer
operação estava discriminada. Desde a parte de marcenaria, a serralharia que era o corte e a quina- gem, a estamparia, a montagem, a pintura, tudo estava descriminado. O pessoal aceitava bem porque via resultados daquilo. Houve casos, como na secretaria Cortez em que tinha um tampo e este era encaixado numa estrutura metálica. O tampo levava laminado por cima, outros eram em madeira folheada em mogno (conforme o cliente pedia) e eram forrados em toda a volta. A saída começou a ser tanta que a marcenaria não dava para as encomendas, ou seja, não faziam tampos em quantidade suficiente.
VA – Isso suscitou um novo alargamento da fábrica?
AC – Não. A Longra habituou-se um bocado a — isto agora fora do contexto — improvisar um boca-
do e as pessoas eram obrigadas a puxar pela cabeça. Havia máquinas que já existiam, mas comprá-las demorava e era complicado para eles.
VA – No que toca o comprar o Estado não permitia a importação de máquinas. Pelo menos dificul-
tava.
AC – Não. Havia fábricas, como a de Amarante, que já tinham essas máquinas. Na marcenaria fabri-
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corticite por dentro, depois era prensado e aparado num serrote e, mais à frente, era cortadas as forras e com uma grulopa afagavam isso tudo. Para colarem utilizavam uns grampos e estavam ali um dia inteiro para secar um tampo para depois o acabar…
VA – Eram técnicas rudimentares…
AC – Sim. Era aquilo que se usava em qualquer lado. e aquilo não dava saída. Isto vem a propósito
de um homem [nós nem sempre agradamos a todos] que era o Sr. Jaime Ribeiro, foi o chefe de pro- dução, um apoiante acérrimo daquilo. Acontece que nessa parte da marcenaria havia que dar resposta àquilo e recorda-me que o Sr. Jaime disse: Vamos todos lá para baixo (para a marcenaria) e temos que dar uma volta àquilo, não pode continuar assim! e o que nós fizemos? Abrimos uma secção que dava apoio aos métodos. Ainda é vivo o Luís Pinheiro da secção. Ela fazia tudo o que fosse preciso, os escantilhões, e tudo o mais para que fosse mais rentável a produção. Ele lá engendrava aquilo tudo. Improvisámos um serrote que lá estava com uma barras diferentes para aquilo ter um estrado para correr. Compraram-se uns serrotes com pastilhas de diamante. Deu-se mais rotação ao disco para ser mais rápido e não deixar marca. Comprou-se uma máquina para cortar as meias esquadrias. O Pinheiro fez uma máquina improvisada com macacos hidráulicos com uns tubos rectangulares de 50x20 ou 30 e umas cabeças e umas entradas/saídas para um esquentador que estava na parede e a água passava por ali e aquecia os tubos. O tampo era metido certo e os macacos apertavam aquilo e a cola em vez de ser de marceneiro (cola branca) era uma mais rápida, a cola de prensa.
VA – Tinham o apoio técnico dos fornecedores de materiais.
AC – Sim. Víamos com eles o que melhor se ajustava a cada situação. Os tampos aquilo aquecia,
estava um quarto de hora, tirava-se metia-se outro tampo.
VA – A Longra em termos locais/regionais era uma fábrica importantes.
AC – Não há dúvida em que dava gosto trabalhar. Pela pessoas, todos colaboravam. Não quer dizer
que fosse a 100%. Havia 2 ou 3 no meio de 200 pessoas, de resto era uma família autêntica.
Mas em relação à produção, aquilo evoluiu de tal maneira que de 20 tampos por dia, passou-se na marcenaria a fazer cento e muitos. Quase de 12 em 12 minutos saía um tampo. As pessoas começa- ram a ver aquilo e a dizer que afinal tínhamos razão. e recordo-me um grande marceneiro que lá tra- balhava, e que barafustava e eu dizia-lhe: ao Sr. Adelino vamos ter calma, vamos ver o que sai daqui. e ele mais tarde vem dizer-me que se tinha enganado. Convenceu-se. Estou a frisar esta parte porque havia muitas. A linha Prestígio, do Sr. Daciano Costa, as cadeiras eram curvadas numa máquina, metia-se um escantilhão nas pernas e aquilo era soldado e chegou a um ponto que aquilo evoluiu de tal maneira que funcionava já sem ser preciso empurrar. Trabalhava naturalmente.
VA – Trabalhava em série, como se queria.
AC – As pessoas estavam tão motivadas para aquilo que se não houvesse alguma coisa já diziam que
“se houvesse isto e aquilo já fazíamos assim e assado”…
VA – Quem fazia o controle de qualidade?
AC – Era feita na secção. As coisas eram estudadas pelo Sr. Daciano Costa e depois era preciso ver
as dimensões, ver tudo e, às vezes. Aperfeiçoar uma coisa ou outra. Na oficina-piloto fizeram um mo- delo com 2 milímetros e nós víamos que não era necessário tanto, bastava de 1,5 ou 1,6 milímetros. Fazíamos uma estrutura nova, e não sei que mais, aquilo era encaixado e víamos qual era a diferença
e ensaiava-se. A seguir o Sr. Daciano vinha, verificava e dava autorização para andar.
VA – Essa aprendizagem fazem-na todos juntos com o Daciano da Costa.
AC – Naquela altura tínhamos o apoio do Eng. Ferreira de Almeida. Era uma pessoa muito sabida
mas que vinha só de mês a mês. Vinha uma semana mas só trabalhava da parte da tarde. Ficava em Vizela e se viesse vinha às 11H e trabalhava até às 2H e depois um bocado da parte da tarde. Orien- tava as coisas e lá seguia. Em relação ao Sr. Daciano Costa, pouco contacto que tive com ele, nós só entrávamos na oficina-piloto para dizer que o produto estava pronto e para se aprovar e por em fabrico.
VA – Nessa fase ele reunia convosco?
AC – Reunia. Ou reunia o Fernando Pinto da oficina-piloto. Nós pegávamos na peça e levámo-la para
o Gabinete de Métodos e lá todos discutíamos e assentávamos como poderia ser. Depois passávamos para a Sala de Desenho e era tudo desenhado. Se hoje perguntar a um serralheiro qualquer como se mede com pequelis? Não sabe. Como se mede uma décima ou uma centésima no pequelis? Não sabem. Mas lá sabiam. Um milímetro numa chapa é uma coisa enorme. Lá trabalhava-se, às vezes a meio.
VA – O milímetro era grande demais.
AC – Tinha que ser feito assim. Trabalhava-se, também, em componentes que se iam fazendo e ar-
mazenando. O Sr. Sebastião Moreira fazia uns cálculos e determinava que de tanto a tanto se fizesse uma quantidade específica de tampos, ou de pés, etc. e depois se armazenassem. O Sr. Moreira fazia uns cálculos de saída do produto e via qual a frequência de saída.
VA – Há registos de que a Longra, neste período, tinha a melhor taxa de produtividade. Em termos
de empresa, eram incentivados a produzir mais?
AC – Pagavam, não era um ordenado exagerado. Mas as pessoas sentiam-se bem. Começou por
haver um prémio mas, como sabe, às vezes o trabalhador com o prémio começa a fugir um bocado. A perder-se na qualidade em favor da quantidade. Começou a fazer-se isso na estampagem e em mais situações que agora não me recordo.
O Gabinete de Métodos, no tempo do Eng. Ferreira de Almeida, chegámos a ter todas as secções, desde a pintura…
VA – Quantas pessoas trabalhavam no Gabinete de Métodos?
AC – Ultimamente [aquilo funcionou até 1974] trabalhava eu — passei a chefe — porque o anterior
(o Ferreira de Almeida) passou a encarregado geral, o Sr. Jaime a Chefe de Produção e eu a respon- sável do Gabinete de Métodos. Eram mais dois que estavam a fazer a planificação e mais três crono- metristas. Depois daquilo planificado e cronometrado nas secções, quer nos estofos, na serralharia ou na estampagem, começávamos então a elaborar um plano com a sequencia das operações. O Eng. Ferreira de Almeida inventou uma fichas, através de uns planix, mas tarde eram os planix que encai- xavam uma fichas nas secções, conforme o tempo gasto com cada máquina, e… A planificação dava resultado. Sabia-se que aquilo se fazia, que se cumpria. Depois veio 1974 e começou a perder-se… Depois de 1974 o Sr. Daciano ainda veio a criar a linha Mitnova mais económica. Essa linha não teve a saída que se esperava. Isto porquê? É como quem está habituado a comer num restaurante de luxo e depois lhe pedem que vá ali aquela tasca comer qualquer coisa. Os clientes olhavam para aquilo e
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aquilo era um bocado galvanizado, como se dizia na altura. Porquê? O tempo era de poupança e era necessário ir ao encontro de um mercado mais pobre. Agora não sei se aquilo foi criado por causa da politica que existia na altura e que até 1976 era de indefinição “o que vai ser? À esquerda ou à direita!” e muitas pessoas parece-me que trabalhavam mais à esquerda porque lhes dava jeito. Mas aquilo era um fiasco. Depois ainda criou outras linhas e a coisa lá foi funcionando enquanto pôde. São as contingências do tempo.
Sabe que quando as empresas, quase todas, quando atingem mais de cinquenta ou sessenta anos co- meça a raiz a faltar-lhes…
VA – Está a dizer que houve um envelhecimento que merecia ter sido substituído?
AC – Era muita gente da parte burocrática. Em Lisboa era por demais! Foi pena aquilo ter evoluído
daquela maneira porque as ideias do Daciano Costa — que incutiu na malta toda — o rigor da sala de desenho, os desenhos que acompanhavam a produção, tudo isso era feito com grande exigência. Mas o mal da Longra foi o 25 de Abril, foi o Sr. Seixas ter saído e eles encostarem-se aos Godinhos. Eram pessoas que não tinham amor pela fábrica. Quase que não a conheciam. Porque quando era o tio (Fernando Seixas) e quando ele vinha cá tudo tinha de estar tudo alinhadinho nos riscos, tudo limpo cá fora, parecia que vinha o Presidente da República. Entre famílias houve opções que não correram bem.
Nós na Longra corríamos tudo desde os estofos até à pintura e sabíamos com tudo era feito. Não quer dizer que soubéssemos fazer mas sabíamos como era feito. A certa altura aquilo começa a tremer e começaram os plenários e, então, uns começaram a fugir para aqui, outros para acolá. Eu não vivia com plenários. Tinha família para cuidar. Lembro-me de, a certa altura o Deodato Martins dizer “se vocês saírem daqui para fora não têm problema nenhum!” e eu dizia “vai-te lixar, estás a falar de cor.” Só acreditei que tínhamos valor quando decidimos sair. Saiu um para o Campeão Português, outro para não sei que mais, e eu saí para a Sotubos, que era uma fábrica derivada daquilo. Fundada por um funcionário da Longra.
Trabalhei na Sotubos dois anos e depois fui para o calçado porque cheguei à conclusão que a nossa vida está em primeiro lugar. Fizemos coisas incríveis na Sotubos. O Sr. Pedro era muito meu amigo. Trabalhava de dia e de noite mas não passava dos 20 contos por mês. Via por vezes que os traba- lhadores levavam 28 porque trabalhavam mais horas até à meia noite e eu com vinte ou vinte e dois contos, o chefe, e ainda tinha de vir a casa jantar. e então decidi ir para o calçado. Deram-me, na altura, mais 14 contos por mês.
Mas a Longra era um prestígio. Havia rigor, disciplina, embora esta hoje não fosse aceite. Isto pode não vir a propósito, mas de 34 anos que lá trabalhei só fui castigado meio dia. e porquê? Porque vinha de Salgueiros, lá de cima do alto, ao pé do cemitério, vínhamos a pé (eu e outro, quatro ou cinco) por aqui a baixo, palmilhávamos todos os dias cerca de 5 Km a pé para ir trabalhar. Com uma saca às costas com um tacho e um bocado de broa e nós antes do meio dia mandávamos aquecer e comíamos em cima de umas tábuas. Íamos nesse dia por aqui a baixo, éramos 3, e chegámos à entrada da fábri- ca [eles tinham um relvado) e como tínhamos que dar a volta à fábrica para entrar e aquilo estava a fechar (fechava 5 minutos antes) e nós saltámos (eram quase 2 metros). O Sr. Júlio Martins viu-nos e aplicou-nos um castigo: arrancar as ervas que estavam no meio do relvado até ao meio dia. Tivemos que nos sujeitar aquela humilhação.
VA – Para acabar esta conversa da sua relação com Daciano da Costa o que destaca?
AC – A minha relação com o Daciano não foi directa. Trabalhava com a oficina-piloto.
VA – Trabalhou com o Sr. Carlos Costa?
AC – O Carlos Costa primeiro foi desenhador ali e depois foi desenhador em Lisboa. Tenho a im-
pressão que antes de se criar o Gabinete de Métodos o Carlos Costa já tinha ido para Lisboa. Tudo isso evoluiu de maneira fantástica que ainda hoje as pessoas recordam.
VA – Há mais alguma coisa que queira referir?
AC – Vim-me embora porque aquilo era só engenheiros. Vinham, andavam meio ano, iam e vinham
outros. Não tinha pés nem cabeça. Depois havia aqueles indivíduos que se encostavam a eles e jul- gavam que aquilo era verdade. Não se importavam com as pessoas certas. e tudo somado contribuiu para me ir embora. Vim-me embora sem indemnização.
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Anexo 6.11