4. Methodological considerations
4.1 Cultured cells as an in vitro model
Caso “Longra/Daciano Costa”: Entrevista a operário da Metalúrgica da Longra.
José Afonso Matos (na presença do irmão, José António Afonso Matos) : Da sala de desenho da fábrica. Local: Guimarães, no Café Óscar.
Duração: 35’52’’
Momento: 28-10-08, pelas 17:00H.
Victor Almeida – Estou a fazer um doutoramento e uns dos temas e a entrada do design na indústria
portuguesa. A certa altura aparece a Longra como um caso de uma “empresa design”. Nos anos 60 com a introdução de novos métodos de produção suscitados pelo design de uma figura importante como o Daciano da Costa. [Entretanto chega o irmão, José António] O caso da relação do design com a Longra parece paradigmático não só porque trabalhou lá o Daciano mas também porque se jun- taram um conjuntos de factores determinantes para que isso acontecesse. A ligação ao INII (o Eng. Ferreira de Oliveira), a alteração da metodologia de produção, as parcerias com outras marcas, etc.
Sr. José Afonso Matos – O Daciano entrou em 965. VA – No início de 60. A data da linha é de 1962/63.
JAM – Talvez estivesse mais em Lisboa no apoio à administração e na parte comercial. Eu entrei na
Longra em 1962 e fui para a tropa em 1964.
Sr. José António Afonso Matos – Na altura não havia administração em Lisboa. JAM – Que eu me lembre houve sempre administração em Lisboa.
VA – Nas conversas que fui tendo convosco fui vendo que a administração é bicéfala. Ora aqui ora
em Lisboa. e com ideias diferentes na maior parte das vezes.
JAM – Na altura havia também o ar condicionado. Tínhamos oficina em Lisboa, embora se fabricas-
sem aqui algumas coisas mas era lá que se montava. Hotel Ritz e outros eram grandes montagens de ar condicionado da responsabilidade da Longra.
VA – Gostava de vos ouvir falar sobre o Daciano da Costa. Como aparece ali na Longra?
JAM – Agora não me recordo se ele apareceu como designer. Eu era desenhador e este (o irmão)
também. O meu irmão trabalhou comigo e depois foi para a produção. Comecei nas oficinas (“come- çámos todos” diz o irmão) mas depois fui para a sala de desenho.
VA – Essa sala de desenho antes do Daciano e das alterações introduzidas pelo Fernando Seixas? JAM – Já existia embora diferente. Funcionava com o Goes e o Guimarães e depois começou a evo-
luir consoante as necessidades. O Fernando Seixas coincide com a entrada do Daciano e do Carlos Costa.
VA – e qual foi essa grande alteração?
JAM – Foi no design com a apresentação de novas linhas. Além disso houve a formação de métodos
VA – Isso foi posteriormente.
JAM – Era paralelo. Estava a andar. Eu ia dar umas aulas de desenho aos trabalhadores. Quando o
Daciano vem a Longra tinha uma linha que ele chamava a “Panzer”, era a MIT antiga. Quando apa- rece a Cortez passa a partir daí a ser tudo dele.
VA – A oficina-piloto já existia?
JAM – Não. Penso que é só por volta de 1968. Mas não sei porque quando regresso nessa altura já
estava em funcionamento. Eu não assisti às grandes revoluções na fábrica.
VA – A oficina-piloto suscitava outro tipo de trabalho à sala de desenho?
JAM – Sim e havia o acompanhamento do desenho, as alterações e ouvir o professor que era o Da-
ciano da Costa quando a parte técnica ali na fábrica apresentava os problemas da produção. A peça só era exequível se se procedesse às alterações.
JAAM – e ver os processos de fabrico mais rentáveis.
JAM – Isso era por em prática o método. O Daciano da Costa acompanhava todas as alterações pro-
postas por nós e pelo Fernando Pinto. Todos colaborávamos. Por exemplo os dois bancos de comboio reversíveis de 1ª classe que fizemos…
VA – O Daciano não teve participação nisso? JAM – Teve. Tinha em tudo.
VA – Mas essas encomendas não vinham já com os desenhos técnicos?
JAM – Não. Havia uns esquiços e era preciso transpor para desenho técnico. Desenhos de fabrico
com as operações e as fases todas marcadas. Mas isso já na fase de apuramento. Mas era preciso fazer estudos. Ir ao mercado consultar preços. Ver a qualidade dos acessórios. Era um processo complexo onde todos colaboravam, desde o carpinteiro — o Daciano não era estofador, era designer, e dizia ao estofador que queria isto assim e este fazia e mostrava. Se não alterasse muito o que ele pretendia, aceitava.
VA – Vinha muitas vezes à fábrica. JAAM – Constantemente.
JAM – Vinha. e acompanhava este processo. VA – Ou enviava o Sr. Carlos Costa.
JAM – Mandava-se uma alteração em desenho e o Carlos Costa, que estava mais ligado ao Daciano,
via e geralmente aceitava. Houve sempre muita colaboração e daí ter havido aquela quantidade de objectos.
VA – e a participação nos projectos de interiores?
JAM – Por exemplo os tectos falsos, etc. Na altura em que se montou o tecto falso do Casino Park
Hotel eu fui lá porque houve um vendaval e aquilo caiu tudo. Fui ver de quem era a culpa. Por acaso não foi nossa, mas… Era um tecto metálico de cor púrpura. Andávamos sempre de um lado para o outro. O Daciano era uma pessoa que sabia ouvir bem, sabia explicar e integrou-se bem naquilo. Saiu daqui a saber muito de mobiliário.
ANEXOS 11
JAM – e para nós.
VA – Chegou aqui muito novo. Com mais ou menos 30 anos.
JAM – Na altura recordo-me do Raul Solnado quando foi do Teatro Villaret. Foi o Daciano que o
trouxe e acompanhei várias vezes esses trabalhos. Quando foi da Gulbenkian, o grande auditório e todas aquelas cadeiras…
VA – O LNETI.
JAM – A Biblioteca Nacional. Na altura foi espectacular. VA – Na sala de desenho trabalhavam quantas pessoas?
JAM – Ficou o Goês quase sozinho a trabalhar. Eu era da parte técnica e dava apoio ao exterior. No
norte tínhamos o departamento comercial do Porto. Íamos aos hospitais, Nós sempre fizemos mobi- liário hospitalar. havia os concursos e eu é que acompanhava a produção. Ia a Lisboa. Nos comboios era preciso ver determinadas situações. Concorríamos a tudo.
VA – O comboio que falam é o foguete? JAM – Não sei.
JAAM – Não era o foguete.
JAM – Era um que tinha 1ª classe. Carregava-se num pedal e quando chegava a Lisboa dava a vol-
ta. Tinha um botão para reclinar em várias posições. Era um sistema de banco de avião. Tinha uma cremalheira. Em látex e com produtos ignificos. Exigia andar atrás desses produtos todos. O desenho era o desenho.
VA – Saiam do pais? JAM – Não.
VA – Tinham necessidade de copiar alguns modelos?
JAAM – Não. A Longra era tecnicamente a empresa mais evoluída. VA – A Longra, por sua vez, também era copiada.
JAM – Sim. Havia aquela de material escolar, a FOC, de Osório de Castro. A Longra era, na meta-
lurgia, uma empresa/escola como foi nos têxteis a Coelima, ou no calçado, o Campeão Português e como foram outras empresas. Em determinadas altura eram as únicas escolas deste pais. Não havia mais nada. Os daqui da escola foram quase todos para Felgueiras. Eu fui em 1962.
VA – Deslocavam-se todos os dias?
JAM – Não. Havia uma vivenda alugada pela empresa. Nos primeiros anos tínhamos lá uma barra-
ca…
JAAM – Um pavilhão que era um dormitório.
JAM – Quando eu fui tinha que ir na camioneta de domingo à tarde e vinha ao sábado. Era com-
plicado. Eu trabalhava anteriormente na Coelima. Nunca tinha trabalhado em desenho e foi lá que comecei nesta actividade.
JAAM – O desenho que tu tinhas era da Escola Industrial.
VA – Trabalhar na Longra na altura era como trabalhar para o Estado.
de Notícias (Porto). Aquele edifício enorme. O mobiliário era da Longra. Eu trazia os projectos e falava com os arquitectos, com os desenhadores, e explicava-lhes qual era o esquema de funciona- mento. Havia um gabinete do chefe com um equipamento tipo, etc. Havia uma hierarquia nas empre- sas. Nos Bancos e em todo o lado. Eu dizia “olhem mete-se aqui a linha Cortez e aqui a Dfi,…” Era depois entregue no departamento comercial em Lisboa com a quantidade. Eles só punham os preços e ganhavam dinheiro. Nós ali é que trabalhávamos. Era assim. O Banco do Brasil que abriu no Porto e que depois acabou, também fui eu. O mal da Longra foi ter um mercado alto e, com o 5 de Abril e o período revolucionários, os trabalhadores começaram a mandar nas empresas e nos Bancos e tal e não deixavam comprar material da Longra porque uma secretaria custava 50 ou 60 contos.
JAAM – Uma cadeira custava 15 ou 20 contos.
JAM – Nós numa certa altura, nunca me esquece, aqui na Têxteis Manuel Gonçalves correram com
o patrão, e passado um anos, em 1975 ou 76, quando pediram para ele regressar (depois de terem corrido com alguns) o que fizeram foi instalá-lo num gabinete com a linha Cortez em jacarandá ou pau-santo, com a cadeira maior… É para ver que desapareceu o cliente da Longra e as tentativas de Daciano da Costa e Carlos Costa para dar a volta com as linhas mais económicas mas sem hipóteses. Ainda chegámos a ter um protótipo que acompanhámos.
Depois começou a haver uma convulsão grande dentro da Longra entre os sócios.
JAAM – E, a partir de 1978, começou a sair muito pessoal. Os melhores.
JAM – Todos os técnicos e planificadores saíram. A indústria do calçado de Felgueiras beneficiou
com isso.
VA – É o caso do Sr. Abílio Moreira.
JAAM – Também foi desenhador. Foi para o Campeão Português. Vinha de Fafe.
JAM – O Abílio Moreira começou a aprender os Métodos e todos eles arranjaram trabalho depois
do 5 de Abril.
VA – Quanto à formação, esta era também feita em Lisboa.
JAM – Não. Em Lisboa não fazíamos. Todas as vezes que fui a Lisboa foi para trabalhar com o Sr.
Carlos Costa.
VA – O Sr. Domingos Teixeira disse-me que esteve na COPRAI a fazer formação.
JAAM – Esteve a fazer em manutenção. Esteve na Alfa e quando foi para a Longra fez uma for-
mação. Foi numa altura em que andava a estudar de noite, e eu até lhe dei umas explicações,… Tu estavas na tropa nessa altura. Ele então fez uma formação não sei aonde e aplicou nos Serviços de Manutenção da Metalúrgica da Longra. Ainda tenho lá gráficos feitos por ele.
JAM – Eu ia a Lisboa só às reuniões com o Sr. Daciano Costa. ou ao gabinete do Sr. Luís Barbosa,
o Presidente do Conselho de Administração, na Av. da República. Depois do 25 de Abril naquele período pós-revolucionário.
JAAM – Foi em 80. Tu já não estavas lá.
JAM – Foi no tempo dos Godinhos. Íamos muitas vezes, eu, o Daciano e o Godinho almoçar ao
Albano.
ANEXOS 1
JAM – Depois fui para uma empresa que nasceu de lá, dum colega meu que já morreu, que era pla-
nificador e ele com mais dois serralheiros montou uma fábrica de móveis.
JAAM – Isto é de lá (a mesa e cadeiras onde estávamos sentados). Isto é da Sotubos.
JAM – Ele precisou de mim e criámos uma sociedade comercial. Enveredei mais pelo comércio.
Estraguei-me porque nunca mais desenhei e hoje tenho pena. Agora estou reformado e gostava de qualquer voltar ao desenho. Ainda não entrei na era dos computadores. Se não tivesse saído da fábri- ca em determinada altura, depois não saía.
JAAM – Era complicado porque em certa altura a fábrica estagnou. Parou.
VA – Os restantes trabalhadores aceitaram bem as alterações de produção da fábrica, nos anos 60? JAM – Quando foi dos tempos e métodos faziam manhosices para demorar mais tempo e assim se-
rem melhor remunerados. Só que não sabiam que havia métodos para descontar (risos). A maioria do pessoal tinha a 4ª classe. Depois de ir para lá houve vários que vieram estudar.
JAAM – O Sr. Domingos Teixeira deu-me muitas vezes boleia porque vinha à noite estudar a Gui-
marães.
JAM – Fui para a sala de desenho porque estive a dar explicações de matemática ao meu chefe de
desenho.
VA – O Sr. Goes.
JAM – Não. Era outro que já lá não estava. O Sr. Goês também estava lá, mas outro era mais despa-
chado e tratava de tudo. Esse indivíduo era um tipo esperto, inteligente e eu admirei-o sempre. Fez o curso industrial e o preparatório para entrar no Instituto. Tirou o curso de engenharia e com aquelas histórias todos conseguiu ir para o Porto e montou uma empresa. Foi para o Brasil. Era avançado demais.
depois do 25 de Abril — o Sr. Goes não sei se foi para a reforma? Não. Foi o Sr. Jaime. e nós en- tendíamos, da mesma forma que sentimos problemas quando íamos para outras empresas, que por termos um curso industrial (e éramos vistos pelos outros trabalhadores assim de lado) havia de existir outras pessoas, engenheiros e outros, que nos viessem ajudar. Que tivessem outro cometimento. Aí começaram a entrar os engenheiros e fomos nós, os chefes, que pedimos que viessem essas pessoas. Não tivemos sorte com aquilo que veio. Mas também não foi por culpa nossa que eles foram porque ajudámos sempre. Entraram numa fase em que a Longra e o pais não tinham controle. O pai do De- odato (Júlio Martins) já não tinha a força nem o apoio do Fernando Seixas. Não havia ninguém, por mais inteligente que fosse, que conseguisse segurar aquilo.
JAAM – No tempo dos Godinhos os engenheiros estavam lá mais para fiscalizar. Dos engenheiros
que vieram o Brotas de Melo era o único. Veio da Fapobol, da indústria de pneus.
JAM – A falta de hierarquia e de poder acabava com tudo.
VA – Em jeito de conclusão o que fica deste relacionamento com o Daciano?
JAM – Para mim foi espectacular. Da mudança que fiz. Foi pena ter acabado. Era um cartão de visita.
O Daciano continuou a trabalhar na Longra. e a Sotubos, empresa onde fui sócio, também fez vários projectos do Daciano. Tínhamos um agente na Madeira, o Canha, que também trabalhava com ele. Apesar de não ter entrado na universidade, o Daciano provocava em mim algum desejo de o fazer.
JAAM – Alguns de nós depois da Longra voltámos a estudar…
JAM – Tinha uma for de ver… uma sensibilidade. e muita experiência. Era de facto um designer.
Foi um percursor. Na altura tínhamos o Sena da Silva. Chegámos a trabalhar com ele e, na altura a Longra recebia muitos alunos das universidades. O Sena da Silva chegou a vir com uma escola e também fizemos uma cadeira que serviu para umas escolas. A Longra teve oportunidade de trabalhar com estas pessoas. Na altura falar de design era estranho. O quê? A Longra era uma empresa aberta à inovação.
VA – e abre-se com o Fernando Seixas.
JAM – Foi o administrador que deu a volta aquilo. Penso que terá sido ele a trazer o Daciano. Nós
não tínhamos muito contacto com ele. Vinha cá quase só em dias de festas. Quando era o lançamento das linhas vinha o esquema e depois era tudo desfeito. Há uma peça que vem e que trás outras por dentro. Era tudo desmembrado. Nós fazíamos milhares de desenhos, pecinha a pecinha,… e o espí- rito nunca foi estanque. Havia um grupo de pessoas que funcionavam.
JAAM – Não se escondia nada.
JAM – Ainda hoje nos reunimos, alguns, num almoço. Agora eu faço em Novembro. Tu em Janei-
ro… Foi uma empresa que marcou.
ANEXOS 1
Anexo 6.10