• No results found

Ao contrário de Menotti Del Picchia, durante a Semana de Arte Moderna de 1922, Cassiano Ricardo ainda não havia se instalado na capital paulista. Após sua passagem pelo Sul, e já de volta a São Paulo, segundo as memórias do próprio Cassiano, o autor estabelece- se como advogado, em parceria com Francisco Pati, e entra também para a redação do jornal governista Correio Paulistano, onde passa a atuar como jornalista, até 1930, ano em que o jornal seria fechado pelos revolucionários.123 No Correio Paulistano já trabalhavam seu

cunhado Arthur Caetano, além de seus futuros companheiros do grupo Verde-amarelo, Menotti Del Picchia, Cândido Motta Filho e Plínio Salgado.124

123 (Cf. RICARDO, 1970:33-35) Francisco Pati nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Amparo.

Desenvolveu uma longa carreira de escritor e jornalista na capital. Na década de 1920, tornou-se também redator do jornal Folha da Noite. Foi eleito para a Academia Paulista de Letras em 1941.

124 Cândido Motta Filho integrou o grupo do movimento modernista desde o período que antecedeu a Semana de

1922. Era filho de um jurista envolvido com o partido perrepista. Formou-se em direito em 1918 e exerceu, principalmente, atividades ligadas ao Poder Judiciário e ao jornalismo. Na literatura, centrou seus trabalhos na área de crítica literária. Além de redator e, posteriormente, redator-chefe do Correio Paulistano, foi diretor, no final da década de 1920, do São Paulo Jornal, empastelado com a Revolução de 1930. Na década de 1930, trabalhou para os Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Plínio Salgado, por sua vez, tornou-se escritor e jornalista sem realizar curso superior. Talvez seja o autor do grupo à enfrentar maiores dificuldades financeiras, por ter perdido o pai aos 16 anos. Nasceu no interior de SP, em São Bento do Sapucaí. Foi colega de Menotti e de Guilherme de Almeida

Nessa época, em 1923, o Movimento Modernista já estava em andamento. No final daquele mesmo ano, Cassiano Ricardo funda a revista Novíssima, também em parceria com Francisco Pati e José Lannes – mais um advogado que também trabalhava como jornalista no jornal do PRP –, o que permitirá o trânsito desses escritores entre diversas correntes literárias da época.125 A revista terminará por desempenhar papel fundamental para a

história do movimento nos anos seguintes, apesar de Cassiano resistir inicialmente às idéias modernistas.126

Segundo Menotti Del Picchia, ele conheceu pessoalmente Cassiano exatamente quando o poeta de São José dos Campos dirigia a Novíssima, revista literária com a qual ele e outros modernistas colaborariam. A partir de então, Menotti e Cassiano considerar-se-iam amigos inseparáveis (DEL PICCHIA, 1932:29; RICARDO, 1970: 33,138)127.

Menotti Del Picchia e Plínio Salgado já haviam ficado amigos anos antes, após a conciliação entre os dois em virtude dos conflitos em torno de suas diferentes posturas literárias. Na época, Menotti defendia inovações na literatura e criticou em sua coluna a obra

no curso ginasial em Pouso Alegre. Trabalhou como professor e agrimensor e fez política interiorana. Desde jovem, iniciou a colaboração em jornais, até ser convidado por Nuto Santana, orientador da seção literária do Correio

Paulistano, para trabalhar na Capital, inicialmente como revisor. O outro integrante do grupo, freqüentemente citado,

Alfredo Ellis Júnior, tem uma trajetória com muitos pontos em comum com Menotti Del Picchia, sobretudo na década de 1920, pois igualmente se inseriu no Correio Paulistano, onde também encontrou Cassiano e Plínio. Formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo e foi também deputado estadual, pelo PRP, no período de 1925 a 1930. Era filho de um senador. Suas principais pesquisas foram centradas na área da história de São Paulo.

125 Em suas memórias, escritas na década de 1970, Cassiano assim descreve sua entrada para o Correio Paulistano: "Como vim a ser redator do Correio Paulistano? Redigindo-lhe a secção judiciária, e sentando-me

no Tribunal de Justiça, ao lado de Noé Azevedo que redigia a do O Estado de São Paulo. Encontro feliz esse” (RICARDO, 1970: 35). O autor de Evangelho de Pan relembra em sua autobiografia os nomes que freqüentavam o Correio Paulistano, durante o movimento modernista, onde igualmente trabalhou de 1923 a 1930. “Alguns episódios do Correio Paulistano que eu já ia esquecendo: o jornal do P.R.P. se tornou o quartel- general nosso, na ‘Revolução sem Sangue’. O secretário Antônio Carlos da Fonseca e mais Agenor Barbosa, Brasil Gerson, Fausto de Almeida Prado Camargo, Francisco Pati, Genolino Amado, Hélio Silva, Hermes Lima, Alcides Cunha, João Raimundo Ribeiro, José Lannes, Vítor Azevedo, Nóbrega da Siqueira, Osvaldo Costa, formavam o grupo intelectual do P.R.P. e alguns deles se puseram ao lado dos guerrilheiros verde-amarelos. A redação era freqüentada por elementos da velha guarda partidária, como Washington Luís (que tão bem compreendeu Brecheret), Júlio Prestes, Ataliba Leonel e outros políticos da situação vigente, mas nenhum deles estranhava que o órgão conservador virasse revolucionário” (RICARDO, 1970: 41). Ataliba Leonel, formado também na Faculdade de Direito, participava da política tanto no interior como na capital. Júlio Prestes era filho de Fernando Prestes, vice-presidente de São Paulo e homem de confiança de Washington Luís. Como é sabido, J. Prestes venceria G. Vargas nas eleições de 1930, mas Washington Luís foi deposto por Getúlio.

126 Para um estudo mais completo sobre o periódico, ver o trabalho de Maria Lúcia Guelfi, Novíssima Contribuição

para o Estudo do Modernismo (1987). A revista será inicialmente impressa pela Rossetti e Rocco, “uma importante gráfica que havia em São Paulo nessa época” (GUELFI, 1987:20). Segundo Yone Soares de Lima (1985): “Tratava-se de uma revista de grande efeito gráfico, executada na Tipografia de Rossetti e Rocco, cujo titular, José Rossetti, era já então considerado um técnico capacitado” (1985:40). A partir de meados de 1925, será impressa pela “Editorial Hélios”, de propriedade dos irmãos Del Picchia e de Cassiano Ricardo, de acordo com as memórias do último.

127 “O Sr. Menotti Del Picchia, assim se expressa: [...] Cassiano está ligado à minha vida mental de uma maneira

íntima e absoluta, porque foi com ele que, em São Paulo, levantei, em 1923 e 1924, depois da Semana de Arte Moderna, a bandeira da revolução literária, iniciando o movimento de idéias que atingiu a todos os setores da vida intelectual brasileira” (Revista da ABL, 1956, julho a dezembro, p. 170).

neoparnasiana de estréia de Plínio, Thabor (1919). Posteriormente, Plínio aderiu ao movimento modernista e participou da Semana de Arte Moderna de 1922, mas nunca seria adepto dos “excessos” vanguardistas.128

O primeiro número de Novíssima viria a público em dezembro de 1923.129 A

participação de Cassiano na direção desse periódico se confunde com o processo de sua adesão ao modernismo e de revisão de sua postura poética, assim como permitiu a consolidação de seu envolvimento com os integrantes do Movimento Modernista que já trabalhavam no jornal do PRP.

A resistência inicial de Cassiano ao modernismo parece estar diretamente ligada a sua visível preferência na época, pelas formas poéticas parnasianas e pelo perfeccionismo métrico que cultivava (provavelmente associado por ele às exigências de um certo ideal de “culto à pura beleza”), resultado do aprendizado sobre os ideais poéticos que desenvolvera desde a sua infância e adolescência com dificuldades, a despeito do contexto de decadência financeira de seu pai.

A trajetória do autor se constitui como um caso paradigmático da transição de uma estética parnasiana para uma poesia modernista e nacionalista no Brasil. Seus poemas da segunda metade da década de 1920 situam-se exatamente nessa transição, momento sugestivo para apreciação dos problemas gerados pela crise do estilo poético parnasiano e de um saber associado às prerrogativas de padrões estéticos, que acabaram por ficar associados ao “passado” e a serem “substituídos” por formas mais livres de expressão.130 Essas serão

convencionalmente ligadas ao chamado “modernismo renovador” e, por extensão, às necessidades de desenvolvimento de uma poesia nacionalista do período.

128 Segundo Plínio Salgado, ao relembrar o cotidiano do jornal na década de 1920, Menotti Del Picchia

funcionava como uma espécie de “centro-avante da turma” do Correio Paulistano. Além de encabeçar a seção das crônicas sociais com os escritos de “Hélios”, era quem manipulava a nota política, após reunir as informações no Salão Nobre, onde o presidente do Estado trocava idéias com nomes importantes, como Júlio Prestes, Ataliba Leonel, Carlos de Campos e Flamínio Ferreira. O texto era conferido pelo próprio Washington Luís. A sala dos jornalistas era freqüentada por políticos de todos os locais, interior e capital. Cada pasta tinha seu encarregado, mas todos os jornalistas trocavam idéias constantemente e discutiam, desde as apresentações artísticas até relatos policias sobre os crimes hediondos de cada dia (cf. SALGADO, Obras Completas, v. XX, 1956:343-353, Editora das Américas).

129 Maria Lúcia Guelfi já constatou que a revista Novíssima tinha muitos pontos em comum com a antiga Panoplia, não só visualmente, como na forma, no conteúdo e até pela presença dos mesmos colaboradores, como

Alberto Seabra, Armando Prado e Afonso de E. Taunay. “Entre os colaboradores de Panóplia contamos, por alto, vinte e seis que também colaboravam em Novis. Além de diretor, Cassiano Ricardo colaborava com seus poemas parnasianos e com desenhos. A revista prima pelos ornamentos: desenhos, fotos, cercaduras, iluminuras, papel brilhante e as homenagens a figuras de destaque do mundo social, político e artístico, com a dedicatória ‘Homenagem da Panóplia’. Até o subtítulo do primeiro ano se parece com o de Novis. ‘Mensário de Arte, Ciência e Literatura’” (1987: 155).

O problema da especificidade da função do poeta e do conhecimento exigido ao seu desempenho e excelência teve que ser repensado. Colocou-se em risco o prestígio social vinculado a essa função e a identidade do próprio sujeito do fazer poético. As dificuldades em realizar a difícil passagem para uma maior liberdade de expressão poética em um autor como Cassiano, cujo domínio bem sucedido da técnica parnasiana era notório e socialmente reconhecido, podem ser vislumbradas tanto por meio do enfoque da mudança ocorrida em suas obras na época como pela apreciação de sua atuação na direção e no decorrer da história de Novíssima. Tal publicação elitista assumiu como objetivo primeiro promover o culto “ao bom gosto”, por meio de uma ampla cobertura das modalidades de manifestações artísticas.131

As marcas da direção de Cassiano Ricardo em Novíssima podem ser conferidas pelas semelhanças entre as diretrizes das duas revistas sob sua direção na capital paulista. Assim como Panoplia de 1917, Novíssima é voltada às camadas elevadas da sociedade e nasce com o discurso de “integrar” todas as vertentes literárias de mérito na Capital. Cassiano parece ter sido também o responsável pela articulação dos mais diversos colaboradores para o periódico, sem considerar injunções de tendências políticas ou estéticas, o que contribuiria para a inserção, a incorporação e a propagação da “nova” estética modernista em ambientes mais resistentes.

Da mesma forma que Panoplia, Novíssima prima pela qualidade dos materiais e pelo “bom gosto” das imagens visuais, selecionadas segundo os padrões da época, sinais inegáveis do público-alvo da revista. Permanece também o espaço para o destaque de certos membros da elite paulistana, seja para a divulgação de fotografias das filhas moças pertencentes à “elite social”, seja para a presença de personalidades de prestígio, como o presidente do Estado Carlos de Campos, cuja foto é exibida no terceiro número.

131 A partir do número 3 (fev.1924) a revista terá como subtítulo: “Revista de Arte, Sciência, Literatura,

Sociedade, Política”. Saíram oito números no ano I, quando a produção foi conjunta entre Rio e São Paulo. No ano II, a revista se restringe a São Paulo. No número 2, aparece o nome do diretor no Rio, Bittencourt de Sá. A partir do número 6 (jul.ago 1924) a sociedade se constitui em editora (“Edições Novíssima”). No número 7, o subtítulo da revista passa para “Modernismo. Nacionalismo. Ibero-Americanismo”. A partir do número 11(ago.set.1925), anuncia-se o surgimento da “Editorial Hélios”, que passa a imprimir Novíssima.

Figura 1: Retratos de elite veiculados em Novíssima.

1- O Exmo. Snr. Dr. Carlos de Campos, presidente do Estado de São Paulo.

2- Dina Giordano, gentilíssima filha do Sr. Nicola Giordano e de sua Exma. esposa, Sra. Elisa Silvia Giordano, da nossa “elite” social (n. 3, fev. 1924).

Exemplar pertencente ao acervo da Biblioteca Mario de Andrade – S.P.

Para o número de estréia, Cassiano parece ter restabelecido em São Paulo os antigos contatos do círculo social presente na revista Panoplia. Estarão entre os colaboradores de estréia, entre outros: Armando Prado, Affonso d’E. Taunay, Vicente de Carvalho, Alberto Seabra, Alberto de Oliveira, Batista Pereira, Plínio Salgado, Altino Arantes e Amadeu Amaral.132 O editorial de abertura equivale a uma carta manifesto, no sentido de assumir o

projeto de integração de todas as tendências da capital, tal qual se propôs Panoplia.133

NOVISSIMA, porquê? NOVISSIMA não será, como se lhe podia inferir do nome, destruidora do passado e da tradição. Oscula as mãos à velhice, cujos ensinamentos encerram a poeira dourada dos séculos, a sabedoria dos

132 Como se vê, a revista procurou inicialmente conciliar acadêmicos tradicionais, com parnasianos e outros

nomes influentes na sociedade paulistana da época, além de abrir espaço para determinados escritores entre os “novos”. Alberto Seabra foi um médico de renome, que procurava conciliar os estudos em medicina com conhecimentos sobre a alma e o inconsciente. Em 1911, fundara uma tradicional farmácia de homeopatia. Na década de 1910, foi também professor de medicina na universidade dirigida pelo médico Eduardo Guimarães. João Baptista Pereira nasceu no Espírito Santo, mas exerceu a profissão de advogado no foro de São Paulo. Na década de 1930, foi presidente do conselho deliberativo da Sociedade Metapsíquica de São Paulo (extinta). Durante o Estado Novo, tornou-se membro do Conselho Administrativo da Caixa Econômica Federal.

133 O nome “Novíssima” parece ter sido escolhido em referência à Revista Nova, publicada em Portugal na

virada do século, como se viu no capítulo anterior, pelo artigo de Gomes dos Santos em Panoplia. Posteriormente, muitos autores modernistas serão incorporados ao grupo de colaboradores, como Guilherme de Almeida e Oswald de Andrade, além de congregar Monteiro Lobato. A primeira capa da revista é uma ilustração feita por Paim. No número 4, a capa é ilustração de Lasar Segall.

milênios, o prestígio da eternidade. Mas não abjura de um credo renovador. É uma lei natural. A própria vida é renovação. Por outro lado, com ser a proclamadora dos novos valores, pelo culto do mérito, não segue a revolução dos novos espíritos; segue-lhe a evolução ascensional. Não abomina nenhuma escola, em assuntos de arte ou literatura; não faz seleção de capacidades, entre o maior e o menor, entre o mais novo e o mais velho, entre os deste e os daquele grupo. Basta-lhe o cunho da inteligência; seja nos laivos de ouro antigo, seja na iluminada esthesia do instante que passa. De uma coisa em particular é que NOVISSIMA se faz servidora: é da Beleza, que é o fito da arte, sejam quais forem a sua forma, o seu meio de expressão. (n. 1, dez, 1923, p. 1)134

No número inicial, a passagem de Cassiano Ricardo pelo Rio Grande do Sul fica assinalada por dois artigos em torno da “redenção” do Estado no extremo sul do Brasil: um sobre Baptista Pereira e suas conferências acerca do assunto e outro sobre Assis Brasil, “o mais alto representante da democracia brasileira”, ambos com retratos estampados nos artigos. Assis Brasil também assina um artigo de colaboração nesse número.

Nos artigos provenientes da própria redação da revista, aparece um discurso de exaltação dos valores republicanos e do direito, “que é a poesia da vida social”, de louvor à liberdade, “sereia dos oprimidos”, e da igualdade entre os homens. Aí estava um diálogo claro, apesar de indireto, com os acontecimentos que obrigaram Cassiano a abandonar o Rio Grande do Sul, ameaçado pelos partidários de Borges de Medeiros. Os objetivos de

Novíssima casam-se com os ideais de livrar o Sul da ditadura borgista.

“Novíssima” tem um credo de liberdade: detesta, por isso, os inimigos do povo. Ama o princípio da autoridade, aspira à felicidade da comunhão: odeia, por isso, os usurpadores de toda casta, os ambiciosos de governança, os falsos apóstolos da democracia. No altar do Brasil unido, pela grandeza dos seus destinos, pela imortalidade da sua glória, guardando uma herança ciclópica de tradições liberais – eis o programa político de uma revista que se inicia nas lides do pensamento e da cultura tendo por lema e princípio o evangelho da pátria (n. 1, dez, 1923, p. 7).

134 Este trecho será novamente reproduzido por ocasião do editorial no primeiro aniversário de Novíssima, em

Outra característica da fase inicial da revista é o incentivo ao incremento das relações entre Brasil e Itália, com destaque para os interesses literários da comunidade de imigrantes italianos em São Paulo. Aliás, é visível a preocupação da revista em mostrar a nova fase de prosperidade que a Itália estava atravessando após os problemas advindos da Primeira Guerra. O número 4 da revista dedica-se a restabelecer a imagem do país e favorecer as relações comerciais entre as duas nações.

São Paulo é produto da colaboração italiana, em harmonia com o nosso espírito de hospitalidade acolhedora. São Paulo, por isso mesmo, é uma prova eloqüente, maravilhosa, inexcedível, do quanto vale a fraternidade desses dois povos amigos, voltados ao mesmo sonho de grandes realizações em prol da finalidade humana (n. 4, mar./abr, 1924, p. 1)

As personalidades de Mussolini, “a figura da lei, varonil nas concepções da ordem, da lei expressão-humana, da lei revelação do direito”, e D’Annunzio, “o sentimento da raça latina”, “a encarnação da poesia dinâmica, que pulsa no coração coletivo”, o criador do símbolo do “poeta-soldado” – isto é, integrado nos ideais da estabilidade coletiva, no espírito da beleza e na majestade da lei –, são homenageadas e também “colaboram” com seus escritos em Novíssima.135

A mudança de Cassiano Ricardo em direção a uma estética modernista nacionalista ocorre paulatinamente, após o conhecimento das diversas vertentes literárias adversárias no cenário da época, quando a intenção de conciliar tendências conflituosas parecia um horizonte ainda possível ao autor. Certamente, sua aproximação com os colegas do Correio Paulistano levou o poeta neoparnasiano a uma procura por alternativas coerentes com suas vivências anteriores, de forma a não permitir que a ruptura com o passado comprometesse totalmente suas concepções estéticas e, mesmo, os laços sociais tão satisfatoriamente criados, mas que o possibilitassem fazer a transição necessária aos “novos tempos”.

135 Menotti Del Picchia iniciou sua onda de elogios à figura de Mussolini no início da década de 1920, com as

Figura 2: Capa de Novíssima, com ilustração de Belmonte, ano I, n. 2, jan. 1924.

Acervo da Biblioteca Mario de Andrade.

No artigo “A nova concepção de Beleza no credo literário de ‘Novíssima’”, assinado por Cassiano e Francisco Pati, discute-se o problema da renovação estética. A busca da beleza permanece em suas concepções como um ideal ao qual o poeta não deve renunciar, ainda que a forma e o meio de expressá-la possam ser renovados, assim como os seus motivos. O artigo defende a renovação estética como necessidade humana e social do espírito, mas, a um só tempo, procura preservar as virtudes do parnasianismo por ter restabelecido a necessidade da forma no “domínio das letras”. Mais interessante é assinalar nesse mesmo artigo a preocupação dos autores com os “efeitos colaterais” da renovação literária, como a ameaça de “vulgarização” que formas mais livres de expressão poderiam gerar e proporcionar ao ofício renovado, o que confundiria a legitimidade da prática poética.

A graça do espírito, a originalidade da concepção, não colidem com a segurança da técnica, com o desvelo da forma, que é uma obediência às leis fundamentais. O que não se coaduna com a missão da Beleza é a insubmissão daquele que se subleve por não ter adquirido a segurança da técnica, que se subleva para mascarar a penúria dos seus recursos; porque, neste caso, é isso que queríamos dizer, a libertação resulta da incompetência. A desordem, que no primeiro caso seria graça, passa a ser mero refúgio de

poucas luzes. Não se deve confundir a insubmissão do iluminado com a