1. Introduction
1.1 Milk in human nutrition – a historical perspective
Em 1917, Cassiano Ricardo publicou O Evangelho de Pan, obra poética com a qual obteve sucesso.97 Também em 1917, já exercia a profissão de jornalista, com algum
prestígio.98 Dividiria com o proprietário, Pedreira Duprat, nesse mesmo ano, a direção da
elegante revista Panoplia, em São Paulo, adquirindo maior experiência nessa atividade.99
Em O Evangelho de Pan (1917), Cassiano Ricardo seguiu uma linha de aprofundamento de suas concepções poéticas panteístas e parnasianas. A começar pelo título, o autor já anuncia o caráter preceptivo e doutrinal da natureza na filosofia que adotará, ao mesmo tempo em que demonstra afirmar seu interesse e a importância que atribuirá aos mitos, agora preponderantemente ligados a um imaginário greco-romano, ao classicismo e ao parnasianismo. De outro lado, inquietações humanistas tomam o lugar de pano de fundo na poesia do autor, pois se percebe sua preocupação em formular e reafirmar uma orientação cosmológica naturista, em pleno contexto da Primeira Guerra Mundial.
Por meio da descrição de uma natureza generosa, em que estão associados, em alusão ao éden, amor, fertilidade e frutos, verificam-se metáforas que mobilizam variadas cores e materiais. Ao éden é também associado o louro, ou a cor dourada. Da mesma forma, aos vegetais são atribuídas metáforas de uma vida sexual ativa.
desse mundo florido, em que aos beijos e aos estos da seiva, o pólen gera os pomos; o Éden louro
em que o outono, em seu flavo escrínio, aos ventos lestos, derrama, do jardim da lenda, os frutos de ouro... (1917:8)
97 Muitos são os autores que apresentam pareceres elogiosos ao livro de Cassiano Ricardo, dentre acadêmicos e
não acadêmicos. Nas páginas finais de Atalanta (1923), Cassino reúne críticas de vários autores aos seus livros anteriores, dentre eles Augusto de Lima, Osório Duque Estrada, Medeiros e Albuquerque, Clovis Bevilaqua, Hermes Fontes e João do Rio, dentre outros. Esses autores estão atentos para os processos de deslocamento de sentido pelos quais passam os mitos quando tomados de um contexto e transportados a outro. Alguns enfatizam certas dimensões universalistas dessas criações mitológicas, validando os procedimentos poéticos de Cassiano Ricardo.
98 Além disso, nasce o primeiro filho de Cassiano Ricardo, em outubro de 1917, homônimo do pai.
99 É difícil imaginar como Cassiano conseguia conciliar os estudos na Universidade Livre de Direito no Rio de
Janeiro com a direção de Panoplia, em São Paulo, em 1917. Provavelmente o autor trabalhava à distância ou o fato de ser um curso “livre” de direito possibilitava uma maior flexibilidade.
Dentre os mitos gregos, a “Lenda de Pan” é selecionada por Cassiano como fórmula poética, força omnímoda presente em todos os seres. Pan é o mito que personifica as forças naturais; é o deus das florestas e a expressão da terra, re-elaborado pelo autor joseense para exprimir o resgate de seus ideais, tanto humanos quanto poéticos. Na sua concepção, o homem compartilha da mesma unidade fundamental que anima todas as coisas. Homem e matéria seriam da mesma natureza. Daí a identificação do próprio autor com a terra, o mar, o céu...
A selva florida, ou o bosque sagrado, aparece como o templo do culto à vida, à natureza e ao seu deus Pan. “Ó Natureza, sois o excelso evangelho em que cultuo Pan!” (1917: 18). Assim como o homem contém, ao mesmo tempo, alma e matéria, fogo e treva, bem e mal, a árvore desempenhará, sob a pena de Cassiano Ricardo, o papel de mediador simbólico entre o céu e a terra. Homem e universo natural, sangue e seiva encontram analogias: o homem surge dividido em uma alma voltada para o céu e os pés descendo como raízes presas à terra.
Homem, síntese viva, em que tudo se espelha sinto, dentro em meu ser, o resumo de tudo: na alma o fogo eu transmudo em divina centelha, num oceano de treva as lagrimas transmudo.
O sangue, que as paixões acende e o ódio estimula, dentro em meu coração, em que a maldade humana blasfema, é o mesmo sangue ou fluido, que circula num tronco; é a seiva em flor, que as frondes engalana.
Posto entre o céu e a Terra, invejo o áureo destino de uma árvore voltada à luz, que o azul encerra, pelo caule subindo a algum sonho divino,
pela raiz descendo às entranhas da Terra... (1917:11)
Assim, o autor recria em versos a lenda grega do deus Pan, da Arcádia antiga, que é desenvolvida em diversos poemas no decorrer do livro. Pan é descrito como um fauno, entre o divino e o horrendo, com mãos e corpo de homem e patas de animal, envoltas em pêlo, com chifres de ouro cravados no crânio, a amedrontar os seres da floresta. Esse ser mítico permite
ao poeta a reflexão sobre os contrastes e, assim, novamente, sobre a mediação entre o céu e a terra, entre o divino e a matéria.100
Dizia-se também que eram seus pés a imagem do universo inferior: os animais, as plantas, a Terra. E quem o visse, indômito, selvagem, caprípede, a correr, no bosque, sobre tantas escarpas, pelo vão das pedras, dentre as fur- nas, certo um deus o não cria (1917:17).
No poema “O ideal de Pan” (1917:21), o deus árcade persegue a ninfa Syrinx, que, ao ser alcançada pelo fauno, metamorfoseia-se em planta. Torturado pela perda de seu ideal amoroso, Pan corta a planta e faz dela uma flauta, que passa a tocar, produzindo a “música” da natureza.101
A flauta de Pan passa a chorar sobre a terra, nos sons da natureza, os bárbaros lamentos do deus. A dor e as lágrimas de Pan se espalham e transmudam em fontes e rios. A terra chora a morte do deus extinto e é também sacralizada pelo poeta.
Na seqüência, o livro celebra a terra, o mar e o céu, em diversos poemas, cujas imagens se associam aos temas: “Oásis Verde”, “Éolo”, “A Montanha”, “Magnólia”, “Nereida”, “Coral”, “Sereias”, “Pérola”, “Tarde”, “Noite”, “Estrela cadente”, “Estrela D’Alva”, “Hino ao Sol” etc.
Cassiano descreve a vida dos “seres” da floresta utilizando todos os seus recursos panteístas. O movimento do rio, no interior da selva, é expresso por meio de metáforas sentimentais: suas águas são comparadas a lágrimas, que descem sussurrando até palpitarem pelo sertão bravio. Os minerais, os vegetais e os animais, que adquirem nos poemas vida e alma, são associados à faculdade de amar. O contraste entre o céu e a terra, o amor e a impossibilidade (ilusão) são uma constante nos poemas. É o que se constata, por exemplo, no
100 Pan é o filho de Hermes (Mercúrio) e da ninfa Dríope. Além de personificar o deus dos rebanhos e da
natureza, o prefixo pan entra na composição de muitas palavras, exprimindo a idéia de “tudo”, “universal”. Segundo Cândido Motta Filho, no discurso de sua recepção à Academia Paulista de Letras, Pan “é a divindade nascida na argila informe e que assim solidariza o Céu com a Terra” (MOTTA FILHO, 1936: 29).
101 Representações do fauno serão esculpidas por Victor Brecheret, no início da década de 1940. Uma das
versões, em granito, que expõe os pés animalescos do deus emergindo da terra, foi alocada no parque Tenente Siqueira Campos (Trianon), na cidade de São Paulo. “A peça é um exemplar em torno de um tema que, pela associação sensual e bucólica que sugere, se torna predileto do escultor, reaparecendo no vocabulário de suas obras desde 1910” (PECCININI, 2004:135). A imagem esculpida por Brecheret do deus que emerge do solo, pode ser interpretada como uma referência à discussão sobre o problema da autoctonia, ao representar um ser com os pés imersos na argila.
monólogo da rã, prisioneira entre o amor de uma estrela e um coração mergulhado na lama, situação que a coloca numa posição irreconciliável entre o ideal e o real (1917:115).
Um dado a assinalar em O Evangelho de Pan é o conjunto formado pelas epígrafes do livro, que parecem ter sido selecionadas a dedo por Cassiano.102 Um longo trecho
de Victor Hugo (Le Satyre) abre O Evangelho. A seção “Terra” (1917:53) é também aberta por um pequeno trecho de Le Satyre, seguido de perto por um pequeno extrato de exaltação da natureza e da terra florida.
O dieux! l’arbre est sacré, l’animal est sacré, l’ homme est sacré; respect á la terre profonde!
Novamente, a seção “Mar” é aberta com a epígrafe de celebração da terra, do oceano e da natureza, “... Terra florida, verde oceano! ó natureza, sois o meu Evangelho!” (1917:131), assim como a seção “Céu”, que se inicia pela exaltação dos astros e fenômenos celestes, associados à luz, ao branco, à prata e ao ouro.103
Na metade do livro, Cassiano Ricardo já havia destacado um trecho de seu próprio poema “A Lenda de Pan”, que figura isolado (como epígrafe) e sugere uma concepção hierárquica inserida na própria natureza por meio da representação do corpo do Deus Pan, presente no pensamento do autor.
... eram seus pés a imagem
do universo inferior: os animais, as plantas, a Terra. (1917:83)104
Com o mesmo prefixo “pan”, a revista Panoplia (pan = tudo, todos; e plio = mais numeroso, em maior número) começou a circular em junho de 1917, como “Mensário de Arte,
102 O Evangelho de Pan é dedicado ao Dr. Eduardo Guimarães, fundador e reitor da Universidade de S. Paulo,
como foi visto. Mais uma vez são muitos os homenageados no livro, em grande parte, colaboradores de
Panoplia. Nenhuma mulher foi incluída na lista. São eles: Wenceslau de Queiroz, Julio Ruas, André Carrazoni,
Octavio de Alencastre, Francisco de Souza Carvalho, João Pedreira Duprat (proprietário de Panoplia), Dr. César Netto, Fabio Luz, Antunes Vianna, Aristêo Seixas, Gustavo Teixeira, Paulo Labarthe, Alfredo de Assis, Licinio Machado, Theodoro Mascarenhas, Raymundo Reis, Dr. Adalberto Garcia, Rangel do Amaral, Dr. Armando Prado e Dr. Mario Galvão.
103 A seção “Céu” é dedicada ao Dr. Armando Prado.
Sciência e Literatura”. Fazendo jus ao significado da palavra “panóplia”105, a apresentação da capa
da revista foi feita inicialmente com a estampa de um escudo e um elmo, ou seja, com a parte superior de uma armadura de cavalheiro da Idade Média e duas penas cruzadas no plano posterior, com motivos decorativos florais em estilo art-nouveau, logo abaixo, em torno do sumário de cada número localizado na própria capa. Esse tipo de símbolo aponta, provavelmente, para a pesquisa incipiente de uma identidade artística, que procura, pelo menos do ponto de vista formal, reunir todas as vertentes literárias de São Paulo106.
Figura 6: Capa da revista Panoplia, ano I, n. 4, setembro de 1917.
Exemplar pertencente ao acervo da Biblioteca Mario de Andrade.
Em uma espécie de editorial de abertura, no número 1 ficam expressos os objetivos da revista, de independência e desejo de reunir e contar com a colaboração de todos os grupos cultos da capital, sem considerar tendências divergentes.
Esta revista não se filia, outrossim, a nenhum dos grupos literários ou simplesmente jornalísticos, que porventura existam no Estado de S. Paulo, máxime nesta capital. Quer a todos, em geral; a todos aprecia, acata e respeita na medida dos seus merecimentos, e não se põe, todavia, ao serviço submisso de nenhum deles. “Panoplia” compõe-se, imprime-se e,
105 Panóplia [Do gr. Panoplia] 1. Armadura de cavaleiro da Idade Média.2. Escudo no qual se põem diferentes
armas e com que se adornam paredes. 3. Troféu. 4. Casa de Armas. 5. Obra que versa sobre armaduras antigas. (Cf. dicionário Aurélio).
106 Não é difícil deduzir, nesse contexto, no qual o regionalismo e o parnasianismo despontam como duas das
principais linhas literárias, que a proposta de uma “panóplia” remeta à heráldica, relacionada por sua vez, à origem dos brasões e das famílias e, por extensão, ao tema da identidade histórica, por meio da criação literária. Não é o caso de aprofundar a discussão sobre o tema neste trabalho, mas de chamar a atenção para o fato de que a
ao depois, circula para agradar ao público, como repositório, do que ela de melhor puder colher nos três ramos intelectuais de que cogita. E, no desempenho dessa tarefa, não medirá sacrifícios, nem desperdiçará suas forças em selecionar inteligências de determinada grei, nem malbaratará tampouco o tempo em tecer loas e cantar hossanas aos que, no pináculo arenoso do seu orgulho, se julgam em plano inatingível. Para “Panoplia”, entre os que merecem ser considerados acima da poeira terrena da mediocridade, não existe o maior; existem apenas inteligências superiores e espíritos solidamente cultos, para quem, sem os preâmbulos que os de real valor dispensam, ela franqueia desde já gostosamente as suas páginas. (n. 1, p.1-2).
Agrupados nos três domínios que a revista pretendia abranger, surgem na última página os nomes dos muitos colaboradores que a revista conseguiu agregar (número crescente no decorrer da seqüência das publicações), muitos dos quais tinham o privilégio de ter a fotografia publicada após a crônica ou o artigo de sua autoria.107 Além disso, Panoplia se
prestava a apresentar retratos de membros destacados da elite paulistana (freqüentemente na seção “Homenagem de Panoplia”), incluindo fotografias de moças de famílias prestigiosas, assim como de certas personalidades do interior do Estado.
Figura 7: Retratos de elite veiculados em Panoplia.
1- Homenagem de Panoplia: Dr. Eduardo Guimarães, Digníssimo Reitor da Universidade de S. Paulo (n. 2, julho de 1917).
2- Vida Social Senhorita Esther Reichert, gentilíssima filha do Sr. Dr. Theodoro Reichert, ilustre advogado do nosso foro (n. 2, julho de 1917).
Acervo da Biblioteca Mario de Andrade.
questão da identidade estava colocada no plano simbólico nesses termos para Cassiano Ricardo, na direção da revista. A revista opta, pelo menos do ponto de vista do discurso formal, por reunir e harmonizar todos os grupos literários.
107 No número 3, por exemplo, o barão de Duprat, Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, tem a sua
Aliás, a primeira página do número 1 abre a série de exibições das figuras de elite com a fotografia de duas filhas de Campos Salles, netas de Bernardino de Campos, conforme assinala a legenda. No mesmo número, é também homenageado Dr. Altino Arantes, “Digníssimo Presidente do Estado”.108 Além de várias páginas com essas fotografias das
personalidades de relevo, artistas, acadêmicos e poetas parnasianos, como Olavo Bilac e Alberto de Oliveira, têm igualmente veiculados os seus retratos, acompanhados ou não de suas biografias ou comentários de obras.
Figura 8: Homenagem de Panoplia ao poeta Alberto de Oliveira (n. 5, outubro de 1917).
Acervo da Biblioteca Mario de Andrade.
Cassiano tinha também em Panoplia um espaço para publicação de seus próprios poemas, muitas vezes, acompanhados de seus expressivos desenhos. Seu estilo parnasiano e sua predileção pelas formas ideais e bem acabadas ficam expressas nas escolhas da revista em seus números iniciais. Está explícita também a admiração do poeta joseense pelas referências consideradas cultas e eruditas, e a importância por ele atribuída ao discurso cientificista na época.109 Esses parâmetros, que orientavam a feitura da revista sob sua direção, acabam por
revelar a irrelevância de certa realidade social brasileira não só para o autor como também para grande parte dos membros da elite letrada na época.
No número 5, sai também publicada uma comunicação do presidente da República, Wenceslau Braz, logo abaixo de sua fotografia, em torno da entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial. O presidente apela aos cidadãos para que, em momento tão
108 Altino Arantes presidiu o estado de 1916 a 1920.
109 Escritores românticos, como Castro Alves e José de Alencar, têm suas biografias e obras estudadas, por
Spencer Vampré e Arthur Motta. Spencer Vampré (1888-1964), advogado, jornalista e jurista que, em 1917, ingressou na Faculdade de Direito como professor substituto de Filosofia e Direito Romano, tornando-se catedrático em 1925. Foi também membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia
delicado, reduzam gastos e intensifiquem a produção. Assim, a Revista era imbuída do caráter oficial de utilidade pública e social.110
Figura 9: Ilustrações de Cassiano Ricardo para Panoplia.
“A Noite”, em azul (n. 1, junho de 1917) e “Alva”, em verde (n. 2, julho de 1917). São figuras femininas associadas aos fenômenos da natureza. Acervo da Biblioteca Mario de Andrade.
No número 2, Gomes dos Santos, principal redator no primeiro ano da revista, relembra a sua participação e o surgimento da Revista Nova, em Portugal, por volta de 1900, expressão das novas reivindicações literárias na virada do século. O jornalista compara os objetivos e ideais de Nova com os de Panoplia, a seu ver, menos imbuída de anseios de transformação.
A Panoplia, como a maior parte das revistas de hoje, corresponde a outras preocupações. A geração atual é mais serena e mais construtiva; tem residência na Torre de Marfim e não desce à rua a envolver-se nas paixões do século. Faz arte, mas não faz sistemas. É de índole branda e, ao mesmo
Paulista de Letras. Arthur Motta era advogado. No campo das letras, dedicou-se à área de história literária. Em 1929, Motta assumirá o cargo de primeiro secretário da APL.
110 Armando Prado colabora nessa fase em alguns números de Panoplia, com seus escritos do livro Sem Rei, Nem Roque, ainda inéditos na época. Panoplia apresenta artigos de tão variados escopos e estilos que, por vezes,
lembra os almanaques, comuns em São Paulo na segunda metade do século XIX. Análises em torno do Código Civil Brasileiro misturam-se a crônicas do cotidiano e cenas da vida social da elite paulistana, com descrições de espaços e costumes urbanos. Na página 68 (n. 2) há um artigo intitulado “Tradições e reminiscências paulistanas”, de Afonso de Freitas, que versa sobre os costumes e terminologias raciais paulistanas na segunda metade do século XIX: “[...] em qualquer das classes sociais paulistanas, rapaz e rapariga, eram invariavelmente filhos de negro, bem como em menino ou menina, moço ou moça, presumia-se sempre o pigmento branco, pouco importando se em dose variável. Indiferente à coloração da pele era o termo moleque, indistintamente aplicado a branco, preto e mulato. Em compensação, garotos nunca existiram em S. Paulo, não havendo, portanto, em nossa boa terra, notícia das chamadas – maltas” (Grifos do autor). A seção “Momento Literário” tinha por função apresentar pequenos informes sobre as últimas novidades sobre os autores e o mundo das letras na cidade.
tempo, de processos vigorosos. Desassociou-se das realidades, para se ligar mais intimamente à perfeição. Quase perdeu de vista o mundo e o objetivo de sua aspiração para a beleza radiosa. O equilíbrio social da época permite- lhe cultivar a idéia pura, sem que a perturbem os ecos das paixões políticas (n. 2, jul. 1917, p.48).
Cassiano Ricardo permanece no cargo de diretor da revista por pouco tempo. No final de 1917, os dois últimos números da revista saem condensados em um só exemplar e sob a direção unicamente de Pedreira Duprat. Nas páginas finais, Panoplia comunica ao público a saída da direção da revista “do jovem poeta do Evangelho de Pan”, ao mesmo tempo em que anuncia a remodelação do periódico com a entrada de uma nova diretoria, formada pelos “nomes aureolados” de Homero Prates, Guilherme de Almeida e Di Cavalcanti, o último incumbido da parte artística na próxima fase. Panoplia promete promover em seu novo momento o mesmo “triunfo com que foi recebido o primeiro pelos espíritos cultos e superiores de nossa terra” (n. 6 e n. 7, de dez. 1917).
A partir do segundo ano (janeiro de 1918), a revista torna-se um mensário de arte e literatura somente. De fato, modifica-se e passa por um processo de modernização. Mas a qualidade da publicação cai um pouco e, na prática, deixa de ser mensal. A estampa da nova capa se inspira na anterior, surgindo com um outro desenho de elmo e um grande número de armas que se cruzam em diagonal, tendo na parte central o sumário.
A nova diretoria procura a modernização por meio da modificação do conteúdo da revista e da proposição de novos temas. A começar pelo editorial de Homero Prates no primeiro número da nova fase. Com o título “Arte regional”, procura discutir a relação entre nacionalismo e universalismo em arte. É fácil, porém, perceber que a discussão do autor permanece engessada em certas concepções idealistas sobre arte, demonstradas ao argumentar sobre os limites de uma prática artística que se alimente unicamente de motivos regionais ou brasileiros.
Precisamos criar as nossas letras, proclamam, a nossa independência artística, como se um país – maravilhoso não há dúvida – mas ainda em formação e composto na sua quase totalidade de analfabetos, pudesse inventar, do dia para a noite, uma entidade espiritual (consciência, personalidade moral ou que melhor nome tenha).
Antes de tudo, é necessário que se saiba que a Arte é e sempre foi uma preocupação de iniciados, uma recreação de eleitos. Existe como existe o