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1. Introduction

1.5 Challenges and strategies to improve Norwegian goat milk quality

Ainda durante o período que residiu no sul, Cassiano parece ter trabalhado em dois livros de poemas. Jardim das Hespérides (1920) contém alguns poemas de Dentro da

Noite (1915), a maior parte dos poemas de Evangelho de Pan e outro tanto de inéditos. Nota-

se também nessa obra um certo “excesso” de epígrafes, demonstração da preocupação constante do autor em identificar a base filosófica de seu pensamento poético panteísta.

Cassiano Ricardo abre seu segundo livro com uma epígrafe da obra Visão dos

Tempos, de Theophilo Braga, sobre um anacoreta velho que, ao voltar para sua gruta, exalta a

condição privilegiada da natureza como “evangelho”, ou seja, como manancial de preceitos e de ensinamentos.114

112 No final de 1918, Panoplia é vendida. A qualidade da publicação cai mais ainda nessa terceira fase, que passa

a ter como subtítulo “Magazine Mensal Ilustrado”. A revista se mantém, entretanto, como um espaço alternativo para os mundos artístico e literário veicularem suas informações e divulgarem as últimas novidades. Uma seção sobre cinema é incorporada, além de flagrantes do mundo político e de eventos sociais ocorridos na capital paulista. No ano seguinte, Menotti Del Picchia continuaria a contribuir com poemas para a revista, que, de outro lado, sintetizava e fazia a propaganda da segunda edição de Juca Mulato (1919), com prefácio de Júlio Dantas.

113 “Havia me tornado amigo de Arthur na Universidade, e seu admirador por uma atitude que ele assumiu no Correio Paulistano, a cujo diretor, Carlos de Campos, se apresentara como recomendado de Rui Barbosa”

(RICARDO, 1970: 9). Arthur Caetano dirigiu, inicialmente, o movimento revolucionário de 1923, no Rio Grande do Sul, contra a ditadura de Borges de Medeiros. Vale lembrar que Getúlio Vargas, como deputado do mesmo partido, apoiava Medeiros na época.

114 É bom ressaltar que Theophilo Braga, além de poeta da chamada “Escola coimbrã do parnaso”, é um teórico

literário português bastante influenciado por H. Taine, que vê a literatura como expressão dos organismos sociais vivos, influenciada pelo meio, raça e momento. Braga, em sua leitura positivista da literatura, considera como elementos literários dinâmicos as criações espontâneas e a presença dos escritores de gênios. A raça, a tradição, a língua e a nacionalidade são considerados elementos estáticos. Braga considera ainda existir uma dependência

“É para mim um livro a Natureza

Que de todos os outros me dispensa” (1920:3).115

A concepção poética de Cassiano Ricardo torna-se clara no conjunto da obra. Em sua percepção, toda a matéria parece portadora de uma determinada forma de consciência, a terra é considerada mãe comum de todos os seres e o autor concebe o homem como uma síntese do universo. Por outro lado, uma forma fetichista de consciência é associada ao homem primitivo.

Compreendi que tudo quanto existe tem consciência dum íntimo destino. a matéria não é passiva e inerte, como os cegos filósofos declamam; não tem a bruta irracionalidade, que lhe atribuem pecos moralistas. Quando vivia o homem inconsciente, nessa mudez da primitiva graça, ele adorou os animais, as plantas,

necessária entre atividade intelectual e meio social. Os gênios, para ele, são aqueles que conseguem representar uma civilização em sua profundidade, assentada sobre bases étnicas e tradicionais. Visão dos Tempos Epopéia da humanidade (1894) é uma obra em quatro volumes que contém toda a produção poética do autor de 1864 a 1894. São os seguintes os tomos: I. Ciclo da Fatalidade; II. Ciclo da Luta; III. Segundo Ciclo da Luta; IV. Ciclo da Liberdade. Inspirado no pensamento de Augusto Comte, os quatro ciclos respectivamente corresponderiam, do ponto de vista poético: ao período inicial e “ante-histórico” da humanidade, quando a espécie não conheceria a imutabilidade das leis naturais; ao período de universalismo helênico e romano; ao terceiro período do regime católico-feudal; e, por último, à dissolução do regime católico-feudal, com o surgimento do Estado Moderno. Afirma o autor: “A epopéia da humanidade, não tem somente por fim o consagrar todas as civilizações do passado, conciliando-as na obra da solidariedade que produziram; não visa proclamar o triunfo do presente, pela supremacia da razão sobre as forças da matéria, pela liberdade sobre o prestígio da tradição; compete-lhe dar corpo, universalizar a esplêndida Utopia do futuro, a que Augusto Comte chamou a idade normal, e que Herder estabelece com um vigoroso argumento de dedução. ‘Se lançarmos um olhar para trás, se notarmos que todos os seres inferiores parecem dirigir-se para a forma humana; que, de mais a mais, não achamos no homem senão o primeiro gérmen apenas esboçado do que ele deve ser no seu destino real, é então necessário convir que o homem, seja por que modo ou por que via for, deve elevar-se a um destino mais alto, ou então, que toda a conexão ou plano da natureza, não passam de sonho e engano’. Se o homem se separou da animalidade, a que está ligado morfologicamente, as forças que o transformaram subsistem, e sob a ação d’elas, é hoje apenas o esboço do organismo superior que realizará a existência normal, afetiva, especulativa e prática, tanto individual como coletiva” (1894:XXI).

115 Na seção “A Lenda de Pan”, repete-se a longa epígrafe de abertura do Evangelho de Pan, de Victor Hugo,

seguida por outro trecho de Theóphilo Braga, localizado também na obra Visão dos Tempos, que associa poesia popular e primitivismo.

O princípio de Grimm, que não há mentira na poesia do povo é a luz que faz compreender melhor

fez de tudo miríficos Fetiches. (1920: 87)

Em “Oração à Pedra”, Cassiano expressa a sua admiração pelo “sofrimento” silencioso da pedra, numa comunhão que irmana ambos, já que o poeta anseia o dia da sua transmutação em poeira.

Sofres, como a alma sofre, e conténs o teu grito; não como eu, que derramo, em ais o sofrimento,

sobre as negras paixões deste mundo maldito [...] (1920:68).

Com o poema “Homo Sapiens”, o autor imagina uma cadeia evolutiva, iniciada por Pan, mas que acabaria por alcançar o mito de Édipo. De forma análoga a Pan, que corria atrás das ondinas ou dríadas, o homo sapiens correria atrás da glória, assim como Édipo buscaria um ideal enganoso, atrás de terras inexistentes.

A seção “Microcosmo” tem também como motivo de abertura uma série de epígrafes, dentre elas: “És tudo: oceanos, rios e florestas” (1920:189), do parnasiano Olavo Bilac. Jardim das Hespérides contém ainda o poema “Atalanta”, nome que dará título ao seu próximo livro, a surgir em 1923, articulando a cadeia que formarão essas obras iniciais do autor na chamada “fase parnasiana”.

No período que transcorre em Vacaria, Cassiano Ricardo não abandona uma perspectiva parnasiana com traços de melancolia. A ambiência poética criada pelo autor permanece marcada por traços críticos e pessimistas com relação à existência, pelo menos do ponto de vista poético.

O autor abre Atalanta, a Mentirosa de Olhos Verdes (1923) com um poema sobre a luz da alvorada, cuja tônica, contudo, é a noite passada, a “ressurreição do que se foi depressa”, isto é, a lembrança da perda e do sofrimento de ontem.116

O jogo com as cores se acentua nessa obra em metáforas que buscam traduzir os fenômenos naturais, principalmente por meio de analogias em relação a processos relativos ao corpo. A passagem do período “noturno” para o amanhecer, por exemplo, é traduzida por

as concepções primitivas do homem. (1920:15)

116 São três as epígrafes que abrem a obra: uma de Emerson, sobre a importância do pensamento grego,

associado à natureza, à perfeição dos sentidos e à expansão espiritual e artística, considerado como “estado” (etapa no sentido evolucionista) pelo qual todos os homens passariam em determinado momento da vida; a segunda cita Ibsen, sobre a poesia assumida como direcionamento, mas não como moldura; e a terceira é de

meio de metáforas, como o “sangue que escorre” e “montanhas que surgem grisalhas”, em alusão ao embranquecer dos cabelos. Também uma certa dramaticidade em torno das cores é criada por meio de expressões como “cor de treva”, “monstruosa e negra”, “nódoas de sangue”, etc. A luz do dia comunga-se com o branco; o amarelo, o louro, o ouro, as chamas. À alvorada associam-se o vermelho e o sangue.

Figura 11: Desenho de Cassiano Ricardo para o poema de Amadeu Amaral em Panoplia (n. 1, junho de 1917).

A “Tarde” é representada como uma personagem feminina, na mesma linha de personificação dos fenômenos naturais, seguida pelo autor em seus poemas da fase parnasiana. Acervo da Biblioteca Mario de Andrade.

O autor lamenta o sentimento de tédio e de saudade a que se encontra condenado.

Alba! noiva do sol, o teu rúbeo sorriso, qual de uma flor vermelha o botão indeciso, (Ah! eu não sei dizer toda a poesia deste pudor primaveral do oriente, róseo instante!) tem o virgem rubor do sangue, que bebeste nas feridas de luz da noite agonizante... (1923:11).

Schopenhauer. Diz o filósofo alemão citado por Cassiano Ricardo: “Se foi um Deus que criou o mundo, eu não queria ser esse Deus...”.

A própria natureza, por vezes dúbia, negra e ensolarada, criadora de um mundo glorioso e torpe, parece não satisfazer aos anseios de perfeição do poeta, que a descreve como ambígua e cheia de mistérios e expressa seu ímpeto de morte em diversos poemas.117

Ó Natureza! são teu sonho aquelas rosas que sangram no verdor das redouças gloriosas. Sonho grego e divino! A Terra, com certeza, guarda o sangue do Olympo em taças de beleza! Pela negra razão de tudo quanto existe,

pelo mundo abismado em chagas cancerosas, pela dúvida atroz em que o mundo consiste, pelos brancos rosais com que a vida apoteosas, ó Natureza! Tu, que és mãe e me traíste;

tu, que és luto e esplendor, que és luxúria e avareza, que és glória e sofrimento, ó mãe bárbara e triste; pela negra razão de tudo quanto existe,

dá que eu possa morrer um dia, ó Natureza! esquecido do mundo e de tanta torpeza, sob a palpitação destas frondes gloriosas,

neste abismo vermelho e esplêndido de rosas! (1923: 26,27).

Na entrada de um bosque a visão misteriosa de uma loura de olhos verdes impressiona um andarilho, que se confunde com a própria figura do poeta. A loura desaparece, sem que ele possa alcançá-la. Em seguida vem o crepúsculo, com suas manchas de dor, e com a noite e as estrelas, a dúvida. O relâmpago ruge, a terra brame em cólera. O

117 Muitas vezes, os poemas de Menotti e Cassiano parecem receber influência de reminiscências de versos

famosos de Baudelaire em “Fleurs du mal”:

“La nature est un temple où de vivants piliers Laissent parfois sortir de confuses paroles ; L’homme y passe à travers des forêts de symboles Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent Dans une ténébreuse et profonde unité,

Vaste comme la nuit et comme la clarté,

poeta ferido, “a alma uivando de bruços” (1923:38), persiste em perseguir a ilusão, bate à porta de um velhinho, que decifra o enigma.

O destino do peregrino é comparado ao de uma árvore: quanto mais avança seu sonho em direção ao céu, mais suas raízes descem em direção à terra (1923:63). A morte surge na fala do velho como algo que não existe em verdade, pois seria proveniente do ilusório sentimento do “eu”.

Vives como um reflexo: e morres, porque a vida não é tua! É da Terra. É de todas as cousas.

É da flor que vermelha a corola incendiada (1923:65).

Toda busca por uma existência gloriosa seria, ela mesma, uma ilusão. Atalanta, metáfora da ilusão perseguida, mesma quando alcançada e vencida na corrida, ofereceria ao vencedor as mãos vazias, pois na vida o bem não alcançado seria a própria razão do viver.

Foge, adiante de ti, ó encantada virtude, e quando na amplidão da vida a julgas perto, vês que o azul da distância os teus olhos ilude, vês que o teu coração continua deserto... (1923:68).

O poema “A dança das borboletas” é um desfile de metáforas com cores e pedras preciosas: purpurina, “rubis mais vivos que brasas”, safiras, folha amarela, chuva de ouro, topázio, chuva de tinta, desenho policrômico, arco-íris a dançar etc. Aqui, constata-se a importância atribuída por Cassiano Ricardo aos materiais, concepção cara ao estilo parnasiano.

Começa a dança, corriqueira, Purpurina;

vem a primeira bailarina,

vem outra mais, outra vestida de amarelo, outra de branco, nívea loura buliçosa, e, no delírio, airoso e belo,

No entanto, no fim da descrição do baile de borboletas a solução poética de Cassiano, como em tantos outros momentos, caminha para metáforas fúnebres, mediadas por imagens sangüíneas, associadas às tragédias.

E, última borboleta enormemente preta, vem estoutra, por fim, rajada de carmim. Vem da noite, talvez, toda luto e viuvez. [...]

Mas o bando gazil, fragílimo quedou-se, numa palpitação purpurina de brasas,

como si o surpreendesse o sangue que ela trouxe borrifado nas asas... (1923: 97).

Toda busca por uma existência gloriosa seria uma ilusão. Atalanta, metáfora da ilusão perseguida, mesmo quando alcançada e vencida na corrida, ofereceria ao vencedor as mãos vazias, pois na vida o bem não alcançado seria a própria razão do viver.118

O autor retorna ao culto pagão da natureza e ao do deus Pan, internalizados nas vivências humanas. Assim como no pensamento de Menotti Del Picchia, flama e argila, alma e corpo tornam-se dois pólos inseparáveis da matéria, seja ela inorgânica ou orgânica.

Lama e estrela, perfume e escória, fogo e argila, húmus, seiva, luxúria, espasmo, clorofila, tudo o que a natureza unigênita encerra,

sonha em meu coração exilado da Terra (1923:123-126).

118 Atalanta é descrita em Ovídio como uma donzela encantadoramente bela e veloz que vivia sozinha na

floresta. Só se casaria com quem pudesse vencê-la numa corrida. Caso derrotado, o candidato ao casamento seria punido com a morte. Hipomenes, bisneto de Netuno, por ela se apaixona e decide enfrentá-la na competição, pedindo auxílio à deusa Vênus para o intento. Invocada pelo belo e corajoso jovem, Vênus o ensina a vencer Atalanta, arremessando maças de ouro pelo trajeto demarcado para a corrida. Atraída pela beleza dos frutos, Atalanta se atrasa e perde a competição. O vencedor recebe seu prêmio, porém esquece de prestar a Vênus as

Não por acaso Cassiano Ricardo constata em “A Voz das Cousas” existir um vozerio humano dentro da floresta, algo como a “poesia subterrânea da matéria...” (1923:127).

Nada resta ao viajante senão alimentar a esperança, fazer de cada ideal um fruto não merecido, mas que permita uma razão para a existência e embeleze a vida, função de todo sonho. O olhar pessimista e mórbido do autor, freqüentemente simbolista, que reúne o grandioso e o ínfimo como dimensões inseparáveis da vivência humana, é uma constante que acompanha, sem tréguas, o poeta de São José nesta fase. O jogo impressionista de cores é também um artifício poético permanente.

Como para Menotti Del Picchia, mentir, cantar, sorrir e pensar são os remédios poéticos para as traições e enganos, as desilusões, as ânsias de felicidade não satisfeitas; enfim, para a “noite” apavorante e a dúvida que “ensangüenta o horizonte da vida”. A fuga pela esperança é a chave para o cárcere da existência, o outro lado do passado sombrio que se abre para o futuro.

Dentro da vida, tu serás a árvore presa pela raiz, com que agrilhoa a Natureza,

livre a fronde, a cantar sobre a própria torpeza!

Terás tudo! a ilusão, o esplendor da saúde. Mas, no horror do teu ser, cultiva esta virtude:

não desencantes nunca o céu que ora te ilude (1923:140).

No final do livro, quando Cassiano apresenta as críticas publicadas sobre suas obras anteriores, Augusto de Lima esclarece sobre o significado do panteísmo em um poeta nascido nos trópicos, como Cassiano Ricardo.

Para os gregos, Pan era uma existência real e pessoal a que o antropomorfismo emprestava as qualidades humanas. Para os modernos, desaparecida a fábula da figura humana, Pan ficou sendo a Natureza na sua generalidade mais ampla. De um ente real e pessoal passou a ser uma fórmula poética. O poeta do ‘Jardim das Hespérides’ pertence à segunda categoria dos cultores do helenismo. De Hellade aproveitou as fórmulas para

devidas ações de graça. Tomada de cólera, a deusa provoca no jovem um súbito desejo e o casal profana um templo sagrado. Ambos, como castigo, são transformados em leões.

vazar em versos de ardor tropical, todo o seu panteísmo, não mitológico, mas vivo e animado de uma filosofia substancialmente naturista, sacudida e agitada pelas incertezas e paixões do nosso tempo. (in RICARDO, 1923: 151) (Grifo nosso.).

Na região Sul, enquanto se dedicava às atividades poéticas e amadurecia o repertório parnasiano revisitado, Cassiano Ricardo envolveu-se com o jornalismo e a política partidária, freqüentou residências de coronéis e assumiu certas alianças ao defender, como advogado, pessoas que se contrapunham politicamente ao general Firmino Paim, partidário de Borges de Medeiros, a quem Cassiano faria também oposição ostensiva por meio do jornal

Pátria, que dirigia ao lado de seu amigo André Carrazoni, gaúcho e maragato, com quem

travara contato quando estudante de direito.119

Entre “maragatos” e “pica-paus”, apoiou os ideais políticos dos primeiros. Nessa época, apoiou também e tornou-se amigo de Assis Brasil, o candidato que se opunha à ditadura “borgista”, havia vinte e cinco anos no poder.120 Temendo represália e aconselhado

por companheiros, seu retorno para a capital paulista deu-se quando se iniciou a revolução no Rio Grande do Sul contra Medeiros.

Cassiano recordará mais tarde a “luta áspera” que travara no sul a “duras penas”. Por duas vezes fora quase assassinado pelos opositores políticos.121

Não sendo político-partidário, sempre fui um participante, como há pouco disse, de ideais políticos. [...]

O certo, porém, é que esse idealismo besta sempre me perseguiu. Podia eu viver muito bem no Rio Grande, já que era estimado e lá deixei depois grandes amigos, corajosos, acolhedores e leais, mesmo entre os borgistas. Não há brasileiro de coração mais aberto que o gaúcho. Pra quê e por que (auto-critico-me agora) fui mexer com os pica-paus? (Revista Manchete, 17 de junho de 1967).

119 Cf. RICARDO, 1970:13-16.

120 Assis Brasil foi um dos fundadores do Partido Republicano Rio-grandense. Com uma vasta experiência em

lutas políticas, participou, em 1923, do movimento armado no RS, que teve fim com a assinatura do Tratado de Pedras Altas. No movimento de 1930, apoiou Getúlio Vargas e fez parte do Governo Provisório, como ministro da Agricultura, mas depois renunciou ao cargo.

121 O envolvimento de Cassiano Ricardo com a crítica político-social parece datar do início de sua carreira

jornalística em São José dos Campos, pois em suas memórias afirma que quando fundou Quatro Paus acabou atingindo “certas figuras” da cidade.

O poeta nascido em São José dos Campos faleceu em 14 de janeiro de 1974. Na “Sessão de saudade dedicada à memória do acadêmico Cassiano Ricardo”, promovida pela Academia Brasileira de Letras, dentre vários nomes que discursaram em pesar por seu falecimento, um merece ser, desde já, destacado: Aurélio Buarque de Holanda. O depoimento do conhecido lexicógrafo brasileiro é importante por reavivar o aspecto panteísta da obra de Cassiano Ricardo, em sua relação com o que ele denominará “panteísmo étnico”, por sua vez, correlacionado com a concepção de democracia racial que o poeta desenvolverá alguns anos depois, já na década de 1930. Afirma o filólogo:

Pois bem, há traços muito curiosos em Cassiano. Eu observaria na sua poesia três fenômenos que eu caracterizo com três palavras talvez criadas por mim mas em cuja criação não existe maior mérito. Eu diria que ele foi um poeta pancrônico, porque todas as épocas, todas as idades figuram na sua poesia, desde a Antigüidade, sua presença constante em a “A Frauta de Pã”. [...] Nos seus cinqüenta e tantos anos de poesia, de fazimento de poesia, nos seus cinqüenta e tantos anos de fazer poético, Cassiano passa por todas essas experiências e, revelando-se o poeta pancrônico, ele será ao mesmo tempo um poeta – digamos – pan-étnico, porque todas as raças, todas as etnias estão presentes em seus versos.

São traços curiosos esses que estou apontando e creio que não estarão errados. É um poeta ecumênico. Poucos haverá no mundo com tanta amplitude de território. É o latifundiário do livro. [...]

Mas, ao mesmo tempo assinalo outro fato que indicarei por outra palavra