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2. Conducting the studies

2.3. Study III

2.3.7. Summary of the third manuscript

O Quadro dos Sujeitos da Linguagem criado por Patrick Charaudeau é uma esquematização que compõe a teoria semiolinguística, desenvolvida pelo teórico e abordada em várias de suas obras. Nesta pesquisa, utilizaremos a obra de 2008.

Segundo a pesquisadora Ida Lucia Machado (2010), embora estabeleça uma relação direta com os estudos fundadores da Análise do Discurso, a teoria semiolinguística está mais relacionada com os papéis sociais assumidos por um sujeito polifônico, munido de identidade, ao mesmo tempo comunicativo e social.

A autora pontua que o sujeito da teoria semiolinguística é, então, tido como uma entidade abstrata, ao mesmo tempo individual, porque é único no seu dizer, e coletivo, já que está inserido em um contexto social regido por “contratos comunicativos” dos quais não pode ser separado.

Outro ponto que destaca a pesquisadora é a necessidade de considerar esse sujeito como munido de identidade e envolto em relações de força que se estabelecem

cotidianamente. “Falamos para influenciar o “outro”. Para fazer com que ele nos ouça, nos compreenda e, se possível, pense ou tente ver o mundo como nós o fazemos. Falamos para chamar sua atenção, para provar que existimos” (MACHADO, 2010, p. 205). Assim, o ato de falar desse sujeito é considerado pela teoria semiolinguística como uma tentativa de captação e adesão do interlocutor às ideias e visões de mundo. Toda enunciação é perpassada de estratégias e de intencionalidades.

Em seu esquema comunicativo, Charaudeau (2008) propõe o desdobramento dos sujeitos do ato de linguagem dispostos nos circuitos externos, onde estão os sujeitos comunicante e interpretante; e no circuito interno, onde estão os sujeitos enunciador e destinatário. Machado (2010) destaca que o êxito do jogo comunicativo depende, entre outros pontos, que o sujeito interpretante, que está na extremidade receptora do ato de linguagem, reconheça os esforços e a intencionalidade nos discursos dos sujeitos comunicantes/enunciadores. Há, ainda, uma série de fatores psicossociais e culturais que modulam a produção/recepção desses atos de linguagem e que estão implicados nas relações entre esses sujeitos desdobrados.

Outra importante consideração feita por Machado (2001) acerca da teoria semiolinguística é que o discurso é visto como um jogo comunicativo entre o extralinguístico e a comunicação linguageira. Já o sentido é construído por meio de uma relação forma- sentido, passível de acontecer sob diversas formas semiológicas de expressão, que está sob a responsabilidade de um sujeito movido por uma intencionalidade, uma visada.

A pesquisadora fala ainda sobre o termo mise-en-scène utilizado por Charaudeau na sua teoria semiolinguística. Em geral, todo ato de linguagem tem uma teatralidade necessária para que o sujeito tenha sucesso nas suas comunicações cotidianas. Essa encenação é construída a partir das condições do sujeito enquanto ser sócio-histórico e deve ser adequada às representatividades exigidas pelas próprias circunstâncias, que exigem que esses sujeitos se comuniquem e assumam seus papéis de sujeitos da palavra.

Machado (2008) entende que a teoria analítico-discursiva se apresenta como um modelo dividido em três competências do sujeito, especificamente: competência situacional, que exige que os parceiros da troca comunicativa sejam capazes de construir um discurso em função da identidade de seus parceiros, da sua finalidade discursiva, relacionado ao tema que a troca convoca e às circunstâncias materiais ali envolvidas; competência discursiva, relacionada à exigência de que os parceiros da comunicação estejam aptos para captar e reconhecer os procedimentos discursivos da situação de troca, a mise-en-scène linguageira e, por fim, uma competência ligada à compreensão dos sentidos. Esta terceira competência exige

que os interlocutores convoquem saberes de conhecimento e crença para que a compreensão mútua aconteça. Segundo explica a autora, os saberes de conhecimento estão ligados às percepções de mundo oriundas das experiências compartilhadas. Já os saberes de crença estão ligados aos sistemas de valores atrelados a um dado grupo social, que imprime neste sua identidade.

Machado (2008) explica que a teoria semiolinguistica considera que todo sujeito que se comunica e que interpreta um ato de linguagem precisa estar apto para utilizar e reconhecer a forma do signo linguageiro, suas regras de combinação e seu sentido inserido em um dado contexto.

Acerca desse processo de construção de sentido, Charaudeau (2010b) postula que o sentido de um ato de linguagem não reside somente em sua manifestação linguageira e nem somente no sentido explícito expresso em seu enunciado.

Assim sendo, o ato de troca de cunho psicológico e social entre os parceiros, tal como a teoria semiolinguistica o concebe, estaria ligado a um jogo de expectativas vinculado ao ato de significar. Um enjeu, segundo o termo utilizado pelo autor.

Charaudeau (2010b) explica que a interpretação de um ato de linguagem é feita a partir de enunciados produzidos em relação a esse “jogo de expectativas”, que supomos ser daquela troca.

Assim sendo, o sentido oculto é construído por aquilo que o autor chama de inferências: processo mental pelo qual um sujeito relaciona o não expresso com qualquer outra coisa que encontra em seu ambiente; um exterior à linguagem que é, contudo, pertinente para construir esse implícito.

Para Charaudeau (2010b), as palavras e enunciados produzidos pelos sujeitos em interação não significam por si mesmos, ou seja, só são interpretáveis a partir de uma relação com um lugar de condicionamento que deve ser partilhado entre esses parceiros de troca. O enunciado, assim, é resultado dessa co-construção do sentido efetuada pelos parceiros.

O autor alerta que é no espaço de produção que se define o “jogo de expectativas” de efeitos a serem produzidos no “outro”. No entanto, trata-se de efeitos visados, desejados, uma vez que o locutor não pode ter certeza que esses efeitos de sentido serão percebidos pelo seu interlocutor.

Isso porque, entende Charaudeau (2010b), no espaço da interpretação está um sujeito que possui sua própria autonomia em sua ação de interpretação, realizada em função de sua identidade social e da identidade social de seu parceiro atribuída por ele, das intenções que ele faculta a esse parceiro e de seu conhecimento de mundo e crenças.

Para o estudioso, o locutor não tem total domínio sobre seu interlocutor, e tampouco sabe se este interpretará seu ato de linguagem conforme suas expectativas. O interlocutor, acrescenta, constrói o sentido a seu modo.

A partir dessas considerações, entendemos que há uma relação assimétrica entre os efeitos visados pelo locutor e os efeitos de fato construídos no processo de significação na troca linguageira.