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2. Conducting the studies

2.2. Study II

Charaudeau (2008) discorre que as noções de gênero para a AD coexistem em diferentes propostas que testemunham os posicionamentos teóricos aos quais se filiam. Essa diversidade, justamente, mostra a complexidade da questão do gênero, incluindo as próprias denominações.

O que o autor nota é que a definição dessa noção ora leva em conta a ancoragem social do discurso; ora sua natureza comunicacional; ora as regularidades composicionais dos textos; ora as características formais dos textos produzidos.

Considera, assim, que esses aspectos estão ligados, criando uma rede de afinidades em torno de duas orientações principais: uma mais voltada para os textos, que justifica a denominação “gênero de texto”; outra mais voltada para as condições de produção do discurso, que justifica a denominação “gênero de discurso”.

Diante desse quadro, optamos pela proposta de Charaudeau (2004), que postula, a partir de Bakhtin (1984)12, que na configuração de um gênero de discurso é preciso dar ao sujeito falante referências para se inscrever no mundo dos signos, significar suas intenções e comunicar através de um processo de socialização do sujeito através da linguagem e da linguagem através do sujeito, ser coletivo e individual.

Charaudeau (2004) levanta a hipótese de que existem no sujeito três memórias que testemunham, cada uma, sobre as maneiras pelas quais se constituem as comunidades: uma memória dos discursos, a qual são construídos saberes de conhecimento e crença sobre o mundo; uma memória das situações de comunicação enquanto dispositivos, que normatizam as trocas comunicativas, e uma memória das formas e signos que servem para troca, não enquanto sistema e sim enquanto empregadores dessa ou daquela forma, através de seu uso. É preciso, assim, afirmar que os participantes de RMD recorreram a essas memórias para procederem com sua empreitada discursiva de cunho documental.

Assim, uma teoria do gênero deve se apoiar em uma teoria do fato linguageiro, em uma teoria do discurso na qual possamos conhecer os princípios gerais sobre os quais ele se funda e os mecanismos que os coloca em funcionamento.

O autor parte do entendimento de que, no nível dos princípios gerais, especificamente sobre o que chama de “princípio de influência”, é onde está o princípio de certas visadas13 que determinam a orientação do ato de linguagem como atos de comunicação, em função da relação que o sujeito falante que instaurar frente ao seu destinatário.

No caso de RMD, classificaremos a intencionalidade dos comunicantes como correspondentes à uma visada de “documentação”, visto que o enunciador deve estabelecer hipóteses sobre seu outro e tentar prová-las a partir do que afirma/documenta e, do outro lado, seu coenunciador, o “tu”, deve receber e validar aquelas hipóteses do que foi documentado. Essa intencionalidade, acreditamos, está vinculada à expectativa de que a construção do “outro” seja aceita pelo público ideal projetado.

Já o nível dos mecanismos de funcionamento compreende, por um lado, um conjunto de situações de comunicação que ordenam a discursivização: conjunto de procedimentos sociodiscursivos.

12 BAKHTIN, M. Esthétique de La création verbale. Paris: Gallimard, 1984

13 Visadas, segundo o autor, correspondem a uma intencionalidade psico-sociodiscursiva que determina a

expectativa do ato de linguagem do sujeito falante e, assim, da própria troca linguageira. Essas devem ser consideradas do ponto de vista da instância de produção, que tem em foco um sujeito destinatário ideal e que devem, evidentemente, ser reconhecidas pelas instâncias da recepção. Essas são definidas por um duplo critério: a intenção pragmática do eu em relação à posição que ele ocupa enquanto enunciador na relação que estabelece com o “tu”; a posição que, da mesma forma, o “tu” deve ocupar.

Acerca desse ponto, Charaudeau (2004) retoma a noção de situação de comunicação como lugar onde se instituem as restrições que determinam a expectativa da troca. Tais restrições são provenientes da identidade dos parceiros e do lugar que eles ocupam na troca. Ao mesmo tempo, da finalidade que os liga em termos de visadas, do propósito que pode ser convocado e das circunstâncias materiais nas quais a troca se realiza.

A discursivização seria, então, o lugar onde se instituem as diferentes “maneiras de dizer”, sob o efeito das restrições discursivas que são ligadas ao ordenamento do discurso (os modos discursivos), que não pode ser automaticamente determinado; e das restrições formais, que correspondem a um emprego obrigatório das maneiras de dizer, que são encontradas em todo texto pertencente a uma dada situação.

O autor parte da noção de contrato de comunicação enquanto domínio que propõe a seus parceiros certo número de condições, que definem a expectativa da troca comunicativa de forma que, sem o seu reconhecimento, não haveria possibilidade de intercompreensão entre os parceiros.

Em RMD, o contrato é definido pelas regras do documentário-jogo. Especialmente por ser uma situação em que todos os participantes se submeteriam (assumindo ora o papel de invasor da casa alheia, ora o papel de anfitrião ausente), o reconhecimento do estatuto do gênero documentário-jogo era a premissa para que a intercompreensão entre os sujeitos acontecesse e para que os discursos correspondessem à visada que orienta o ato de linguagem. É essa noção que permite reunir textos que participam dessas mesmas condições situacionais, permitindo a construção de corpus pelo contrato global de comunicação - como uma produção documental; ou textos em torno de variantes específicas, como um documentário-jogo.

No entanto, para Charaudeau (2004) tal tipologia não é o único princípio de classificação dos textos, sendo necessário debruçar-se sobre alguns aspectos no nível da construção discursiva.

Em relação às restrições discursivas situacionais do ato de comunicação, essas devem ser consideradas como atos externos, tendo por finalidade a construção do discurso através de uma relação de causalidade que deve responder à pergunta “estamos aqui para dizer o quê?”. É necessário observar, assim, o que os dados de finalidade, pelo viés das suas visadas, determinam a partir de certas escolhas do modo enoncivos (descritivo, narrativo e argumentativo) que o sujeito deve empregar, o que em RMD está associado à proposta de construção de uma narrativa que se vale da descrição e que possui uma dimensão argumentativa.

Também há de se considerar os dados das identidades dos parceiros nos quais eles devem se engajar, os dados do propósito que determinam certos modos de tematização, a organização dos subtemas a serem tratados e os dados das circunstâncias materiais que determinam os modos de semiotização do ato de comunicação.

Vale aqui pontuar que, no entendimento de Charaudeau (2004), tais restrições não podem corresponder ao emprego de uma ou outra forma textual – o que, justamente, acontece em RMD. Trata-se de um conjunto de comportamentos discursivos possíveis, entre os quais o comunicante escolhe aquele que lhe parece mais suscetível a satisfazer às condições dos dados externos. Não há, assim, a determinação exata de um tipo de discurso final.

Acerca das restrições formais, retoma a ideia de “rotinização” como apropriação progressiva das “maneiras de dizer”, que ecoam nas exigências das restrições situacionais via restrições discursivas. São normas de uso mais ou menos codificadas, cujas formas que as exprimem podem ser objetos de variantes.

Todos os componentes da situação de comunicação condicionam as formas via restrições discursivas, mas as restrições materiais são, talvez, as que influenciam mais diretamente as formas. O que já começa pela definição do uso da oralidade ou da escrita. Em seguida, os papéis de interlocução atribuídos aos diferentes parceiros e que predispõe que a tomada de fala e as situações enunciativas não sejam as mesmas.

Acreditamos que os discursos de RMD não são tão influenciáveis por essa rotinização pelo seu caráter de documentação de experiências subjetivas. Então, não há uma obrigatoriedade na construção desses discursos embora a proposta do jogo estabeleça um roteiro do que deve ser feito pelos participantes.