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Summary and main tendencies

5. CONCLUSION

5.1 Summary and main tendencies

Holton mostrou-se sempre surpreendido com o reduzido número de themata que acredita existirem em ciência96. Como já vimos, conseguiu identificar cerca de uma centena. O espanto de Holton parece relacionar-se com o entendimento essencialmente psicológico dos themata: pois não seria de esperar que, sendo pressupostos e preferências (mesmo crenças) individuais, entidades muito pessoais, associadas à perceção individual e à criação individual, os themata fossem abertos a infinitas possibilidades, apresentando-se com grande diversidade e em número muito elevado? Ora, os muitos casos estudados por Holton revelam themata comuns, recorrentes e

96 Ainda em 2005, Holton se mostrava impressionado com o reduzido número de themata. Cf. Holton,

53 pouco numerosos, o que se afigura, pois, como mais uma razão para relativizar a natureza subjetiva dos themata e reforçar a sua objetividade.

Como já vimos atrás, uma grande parte dos themata funciona aos pares, numa relação interna de antítese, díades de thema-antithema (Θ, antiΘ). Assim, por exemplo, finito constitui par (ou díade) com infinito, simples com complexo, unidade com níveis hierárquicos, contínuo com descontínuo, constância com inconstância, acaso com necessidade, ordem com caos, estático com dinâmico, causalidade com probabilidade, determinismo com indeterminismo, reducionismo com holismo, análise com síntese… Por vezes, embora mais raramente, os themata funcionam em tríades como, por exemplo, evolução / estado estacionário / involução ou mecanicismo / materialismo / formalismo matemático.

Exemplos como estes são por diversas vezes apresentados por Holton lado a lado e indistintamente, mas é importante fazer uma ressalva. Por exemplo, os pares finito/infinito ou contínuo/descontínuo referem-se claramente ao objeto de estudo, enquanto os pares reducionismo/holismo ou análise/síntese, embora relacionados com o objeto de estudo, remetem claramente para formas possíveis de conhecimento desse objeto. Os dois primeiros são conceitos thematicos (ou themata conceptuais) e os segundos são atitudes thematicas (ou pares de themata metodológicos).

Sejam conceptuais ou metodológicos, os themata apresentam-se como possibilidades – possibilidades quanto às propriedades do objeto de estudo e possibilidades quanto às formas de o estudar. Assim, compreende-se que sejam em número relativamente reduzido: os processos mentais de construção de mapas thematicos não se podem abrir a infinitas possibilidades imaginativas mas são, pelo contrário, dupla e simultaneamente constrangidos pela realidade do objeto estudado e pelas possibilidades da razão. Acresce que, e no que se refere aos themata conceptuais, as propriedades a que estes se referem são propriedades fundamentais, estruturantes, o que justifica um pequeno número de possibilidades. Por exemplo, o universo ou é finito ou infinito (quanto ao espaço ou quanto ao tempo), os seus constituintes ou são contínuos ou descontínuos… Ou seja, para cada propriedade fundamental as possibilidades são reduzidas e, no final,

54 as possibilidades são ainda reduzidas para o conjunto de propriedades que forem fundamentais para as questões estudadas.

Ora, pares de conceitos como, por exemplo, finito/infinito, simplicidade/complexidade, contínuo/descontínuo, causalidade/probabilidade, constância/invariância, acaso/necessidade, ordem/caos, correspondem a determinações metafísicas. Ou seja: os themata conceptuais estão associados a determinações metafísicas.

Por vezes, a estes conceitos estão associados conceitos estéticos, como perfeição, harmonia, equilíbrio, beleza, elegância. Em alguns casos, a associação da estética à metafísica é tão íntima que podemos mesmo reconhecer themata conceptuais que parecem ser simultaneamente metafísicos e estéticos, como é o caso da harmonia ou da simetria ou da simplicidade ou mesmo da perfeição.

São bem conhecidas diversas situações do passado em que metafísica e/ou estética tiveram um relevante papel thematico. Por exemplo, quando se acreditou que a perfeição na natureza residia na simplicidade e na constância e que, assim, um movimento simples com velocidade constante, como o movimento circular uniforme, seria o movimento mais perfeito que poderíamos esperar para as órbitas dos astros. Veja-se o caso da «estética da necessidade» de Copérnico e o caso da resistência de Galileu à elipse de Kepler, dois casos analisados por Holton97.

No passado, quando as explicações científicas do mundo não excluíam (pelo contrário, incluíam) uma causalidade divina, as dimensões metafísica e estética dos themata conceptuais estavam imbuídas de carácter religioso. Ora, como sabemos, a ciência (pelo menos, a ciência canónica) viria a excluir radicalmente qualquer traço religioso do seu campo de trabalho98, mas isso não significa que tenha cortado com a metafísica (tout

court) ou com a estética, embora os cientistas possam não ter consciência disso.

97 Cf. Holton, Gerald (1998a), pp. 75-76 e pp. 117-122.

98 Há exceções recentes. Veja-se o caso do físico e cosmólogo Franck Tipler, com obras como The Physics

of Immortality – Modern Cosmology, God and the Ressurrection of the Dead, 1994 (tradução portuguesa: Física da Imortalidade – Cosmologia Moderna, Deus e a Ressurreição dos Mortos, trad. de Carlos Sousa de

Almeida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2003). Nesta obra, Tipler pretende demonstrar «que a teologia é um ramo da física, que os físicos podem inferir a existência de Deus através do cálculo e a probabilidade da ressurreição dos mortos para a vida eterna exactamente da mesma forma como os físicos calculam as propriedades do electrão» (ed. port., p. 19.).

55 A acreditar no papel dos themata em ciência, a metafísica e a estética continuam bem presentes no labor científico, ainda que não sejam conscientes. Por exemplo, no que se refere à estética, há exemplos que mostram de forma explícita, verbalizada até pelos próprios cientistas, a sua presença e a sua força nas ciências físicas do séc. XX99.

Por sua vez, os themata metodológicos, enquanto elementos orientadores práticos do trabalho científico, são de carácter lógico e epistemológico, mas alguns também têm revelado uma componente estética. Por exemplo, os cientistas da atualidade têm, em geral, uma certa tendência para reconhecerem valor estético na parcimónia lógica e na unificação teórica, que são themata metodológicos de carácter lógico ou epistemológico.

As proposições thematicas (ou hipóteses thematicas) apresentam, ou podem apresentar, de igual modo, um carácter metafísico ou estético, na medida em que são hipóteses assentes em themata conceptuais e se reportam ao mesmo objeto. Um exemplo recorrentemente referido por Holton é o postulado da constância da velocidade da luz, apresentado por Einstein ao arrepio da física do seu tempo, assente no thema da constância, um dos themata conceptuais a seu ver mais importantes no pensamento einsteiniano.

Estamos, pois, perante uma pluralidade dos themata. Quanto ao objeto a que se reportam, os themata podem ser metafísicos ou estéticos. Quanto ao conhecimento do objeto, os themata podem ser lógicos, epistemológicos e também estéticos.