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Overall evaluations of the varieties by teacher respondents

4. RESULTS AND DISCUSSION

4.4 Part 2: Label evaluations

4.4.3 Overall evaluations of the varieties by teacher respondents

Holton reconhece aos themata uma natureza psíquica no momento em que coloca o problema da sua origem em termos exclusivamente psicológicos. Falar da origem dos themata é, para Holton, falar da origem psicológica dos themata, ou seja, do processo pelo qual a mente forma os seus pressupostos e os cristaliza como orientações para o futuro, sendo o sujeito cientista «o principal depositário dos themata»75.

75 Holton, Gerald (1975a), p. 334.

46 Mas, como veremos já de seguida, esta sobrevalorização da natureza subjetiva dos themata, já denunciada por certos autores76, parece ser de conciliação difícil com diversas outras formas de caracterização dos themata amplamente reconhecidas e mesmo enfatizadas pelo próprio Holton, nomeadamente a partilha dos themata pelos membros de uma comunidade77, a longevidade histórica dos themata78, os ciclos de ascensão e declínio dos themata79 e o domínio de certos themata numa certa época ou num certo contexto cultural80, o carácter universal (transversal) dos themata81.

Na mente de cada cientista, os themata podem constituir-se e cristalizar-se, mas antes da intimidade deste processo subjetivo já os themata existem enquanto elementos dotados de uma certa exterioridade objetiva e cristalizados na história, na cultura, nas disciplinas, isto é, dotados de uma certa perenidade cuja origem é difícil, se não mesmo impossível, de descortinar. Por outro lado, a persistência histórica dos themata mostra que os mesmos continuam e continuarão a existir para além da sua existência efémera na mente do cientista. Ou seja: nesta perspetiva, em geral, o cientista não cria os seus themata; em geral, os seus themata já foram de outros, são de outros e serão de outros. O cientista faz parte de uma cadeia de partilha thematica.

Como compatibilizar estas duas teses opostas? Uma solução que Holton não explicita, mas que me parece legítima, é pensar que a origem psíquica dos themata é um processo de construção e de cristalização de «preferências thematicas»82 que passam a ser psicologicamente estruturantes na forma de ver a realidade e a relação de conhecimento com a mesma, funcionando como duradouros «compromissos thematicos»83. Mas estas preferências e estes compromissos correspondem à ligação a possibilidades pré-existentes e não à criação (voluntária ou involuntária) de

76 É o caso de Julian Jesús Martínez López (2006), no artigo «Sobre el concepto de thema en la obra del

filósofo de la ciencia Gerald Holton», p. 8.

77 Cf. Holton, Gerald (1975a), p. 334. 78 Cf. Ibid., p. 331.

79 Cf. Ibid., p. 334. Holton considera que estes mecanismos de ascensão e declínio dos themata deviam

ser estudados detalhadamente.

80 Cf. Holton, Gerald (1998a), pp. 116-123. 81 Cf. Holton, Gerald (1975), pp. 149-150. 82 Holton, Gerald (1998a), p. 183.

83 Holton, Gerald (1975a), p. 334. Apesar do significado mais comum de compromisso, os compromissos

thematicos podem ser involuntários se forem inconscientes e assim parece ser na maior parte dos casos, a começar pela sua origem.

47 possibilidades que passam depois a ser defendidas. No fundo, é como se a origem psíquica dos themata fosse uma questão de atualização subjetiva de possibilidades objetivas, como se os themata fossem entidades potenciais que se atualizam na mente de um sujeito, num processo que pode ou não ser consciente e com resultados que podem ou não ser conscientes.

Embora Holton não tematize esta solução, há algumas passagens que apontam nesse sentido. Assim, e relativamente à presença dos mesmos themata nos membros de uma comunidade, afirma Holton:

Os themata são partilhados pelos membros de uma comunidade, com pequenas variações de cientista para cientista, principal depositário dos themata.84

Dois elementos devem ser assinalados. Em primeiro lugar, quando Holton fala de partilha, fator de construção da comunidade ou consequência desta (ou ambas as coisas), está a revelar a natureza coletiva dos themata. Em segundo lugar, a expressão «principal depositário», remete para uma exterioridade, para algo que existe (e pré- existe) fora do sujeito e que, de alguma forma, se deposita e se desenvolve neste. Relativamente à historicidade dos themata, são muitos os exemplos de ascensão e declínio assim como de longevidade themática. Há themata que persistem desde a Antiguidade (passando eventualmente por ciclos de ascensão e declínio sem, contudo, desaparecerem) e que têm assumido diversas formas ao longo da história da ciência, atualizando-se em cada época e em cada cientista aderente. Por exemplo, a questão da dualidade onda-partícula, em física quântica, é apenas uma nova e fascinante expressão da milenar disputa thematica entre contínuo e descontínuo. Preferir o contínuo ou, pelo contrário, o descontínuo enquanto thema estruturante para a compreensão do real, corresponde, nesta perspetiva, ao atualizar de um thema pré-existente e que, no processo histórico de desenvolvimento do conhecimento científico, como que aguardava novos contextos e novos sujeitos para se manifestar em novas formas de expressão e em novas formas de disputa com o thema antitético.

84 Ibid., p. 334. Numa passagem de outro texto, que carece de esclarecimento mas que vai ao encontro

desta ideia de partilha thematica, Holton considera que «a maioria dos especialistas num dado campo partilha mais ou menos a mesma epistemologia e a mesma ideologia» - Holton, Gerald (1998a), p. 115.

48 Ainda relativamente à persistência histórica dos themata, notemos que, considerar, como Holton, que os ciclos de ascensão e declínio de um thema têm a ver com a sua «utilidade contemporânea» ou com a «moda intelectual»85 é reconhecer aos themata uma dinâmica exterior ao sujeito, como uma vaga de fundo em que este flutua na contingência do seu “aqui e agora”. Por um lado, a utilidade depende das questões que cada época ou cada cientista coloca e das ferramentas conceptuais necessárias – para explorar certas questões, certos themata são mais apropriados do que outros. Por outro lado, a moda intelectual remete para as questões e conceções características de uma certa época. «Cada época é formada por certas conceções características, que lhe conferem a sua inconfundível modernidade»86, afirma Holton, que por vezes identifica moda intelectual com «estilo de pensamento da época»87.

Este estilo associado à moda intelectual é um «estilo de pensamento pessoal e social contemporâneo»88 e ao longo da história podemos, segundo Holton, reconhecer que «os critérios de pré-seleção [de factos, hipóteses e métodos explicativos] mudam, os interesses básicos deslocam-se, mas a existência de uma relação estilística entre os diferentes trabalhos de um certo período mantém-se constante.»89

Ora, os themata, enquanto modeladores de estilo (recordemos que esta é uma das definições que Holton lhes atribui), podem modelar o estilo pessoal e social. E estando os themata sujeitos a ciclos históricos, de modo que cada época tem os seus themata dominantes, enquanto os respetivos themata antitéticos persistem, mas dominados e como que adormecidos, o estilo de pensamento dos cientistas de uma certa época é assim modelado pelos themata que dominam essa mesma época.

A moda intelectual está, portanto, fortemente associada aos themata, nomeadamente aos themata dominantes numa certa época e aos respetivos ciclos de ascensão e declínio. 85 Cf. Holton, Gerald (1975), p. 62. 86 Ibid., p. 115. 87 Ibid., p. 93. 88 Ibid., p. 101. 89 Ibid., p. 95.

49 Notemos igualmente que, além da época, a moda intelectual remete igualmente para o contexto geográfico e social do indivíduo, na medida em que, numa mesma época, diferentes contextos geográficos e sociais poderão ter diferentes modas intelectuais. A influência do meio cultural em geral (promotor de certos themata dominantes) na definição do mapa thematico individual dos cientistas revela, pois, uma exterioridade objetiva dos themata (relativamente ao cientista e também relativamente à sua disciplina científica) que pode ser subjetivamente captada e transformada numa orientação muito pessoal mas que, contudo, pode ser muito semelhante às orientações de outros indivíduos que cresceram e vivem no mesmo meio, um meio que se manifesta, assim, como um meio thematico que projeta os seus themata dominantes nos indivíduos que nele crescem e vivem.

A dicotomia entre objetividade e subjetividade dos themata apresenta-se igualmente problemática quando Holton lhes reconhece um carácter universal, ou seja, uma transversalidade disciplinar e cultural. O mesmo thema pode atravessar diversos domínios científicos, tão distintos como a física e a psicologia, por exemplo; mas pode também atravessar todos os domínios do saber e da cultura, da arte às ciências da natureza, da religião à política, das ciências sociais à vida quotidiana, assumindo em cada domínio uma forma de expressão muito específica. Esta universalidade thematica, repetidamente referida por Holton, faz dos themata realidades que transcendem qualquer subjetividade.

Segundo Holton90, um thema (Θ) é o somatório de todas as suas manifestações em cada disciplina ou, mais em geral, em cada área da cultura (Θn):

Θ = ∑ Θn 𝑛=𝜔 𝑛=𝛼

Um thema é aqui uma entidade universal (transversal). Mais: é uma entidade abstrata e potencial que se concretiza ao atualizar-se em cada domínio numa forma específica. E poderemos dizer igualmente: um thema é uma entidade abstrata e potencial que se

90 Cf. Ibid., pp. 149-150.

50 concretiza em cada sujeito ao atualizar-se como conceito orientador da atividade cognitiva desse sujeito.

Esta tensão entre objetividade e subjetividade de um thema pode ser entendida como uma espécie de jogo entre conceito e conceito orientador91. Por exemplo, o conceito de contínuo é objetivo enquanto conceito, mas, se um cientista o adota como conceito

orientador no seu trabalho, liga a esta objetividade um entendimento subjetivo.

E, assim, quando Holton fala da origem dos themata, está, pela forma como coloca o problema, a falar do processo em que um conceito se torna conceito orientador na mente de um futuro cientista. E se o cientista não está consciente dos seus themata é porque não está consciente de que certos conceitos com que trabalha não são apenas conceitos, mas conceitos orientadores, estruturantes de todo o seu trabalho.

Seja como for, consciente ou inconscientemente, cada cientista é orientado por diversos themata. E o mais pessoal, ou seja, o mais específico e único para cada cientista, é o seu conjunto específico de themata, que Holton designa «mapa particular dos vários themata»92, «espectro de themata»93, «conjunto específico de themata separáveis»94. Mais do que em cada um dos themata a que o cientista se liga, a subjetividade reside então no conjunto pessoal de themata, um conjunto específico que define um mapa muito pessoal, um mapa de «estrutura consideravelmente fina»95 e cujas diferenças relativamente ao mapa de um outro cientista podem ser muito finas (como finas são as diferenças entre «impressões digitais» de diferentes indivíduos) mas suficientes para distinguir um cientista do outro.

Em suma, a pertinência e quase exigência de reconhecer que (e de compreender como) o problema da origem e o problema da natureza dos themata extravasam largamente o plano psicológico é sugerida e mesmo impelida por estas diversas questões envolvidas na análise thematica e reconhecidas pelo próprio Holton.

91 Ou entre noção e noção orientadora (ou entre ideia e ideia orientadora). 92 Holton, Gerald (1998a), p. 184; Holton, Gerald (2005), p. 142.

93 Holton, Gerald (2005), p. 145.

94 Each member of the group is apt to operate with a specific set of separable themata. Ibid., p. 145.

Itálico original.

51 Verificamos assim que a partilha dos themata pelos membros de uma comunidade, a longevidade histórica dos themata, os ciclos de ascensão e declínio dos themata, o domínio de certos themata numa certa época ou num certo contexto cultural e o caráter universal dos themata são características irredutíveis a uma natureza subjetiva dos mesmos.

Ora, Holton considera, pelos estudos de caso por si realizados, que quando um cientista começa a sua atividade científica já tem o essencial do seu mapa thematico constituído, fruto da sua experiência de vida na infância e na juventude. Assim, ainda que não compreendamos os processos psicológicos desta constituição, é razoável admitir que tais processos não podem ser alheios àquelas características objetivas dos themata. Ou seja: na fase de constituição do seu mapa thematico, o indivíduo está em inegável contacto com os themata presentes no seu meio e das condições específicas deste contacto dependerá o seu mapa thematico. Se o mais determinante na constituição desse mapa thematico é o meio ou é o conjunto de características psíquicas do próprio indivíduo (cognitivas, emotivas, de personalidade…), eis novamente uma questão para a psicologia. Mas, independentemente desta questão, não há razões para duvidar de que a constituição de um mapa thematico particular resulte da interação entre o indivíduo e o meio.

Neste sentido, é possível dizer que a persistência histórica (essencialmente expressa na longevidade e nos ciclos de ascensão e declínio) e a universalidade são características thematicas de natureza filogénica. Por outro lado, a existência de mapas thematicos individuais é uma característica thematica de natureza ontogénica.

Se representarmos estas três características fundamentais num eixo temporal, poderemos dizer, grosso modo, que a persistência histórica é um elemento longitudinal, a universalidade é um elemento transversal e os themata inscritos nos diversos mapas individuais são elementos pontuais.

As componentes longitudinal e transversal são objetivas – correspondem à persistência dos themata e à sua presença potencial ou concreta (expressa e registada de múltiplas formas) no corpus cultural. Por sua vez, a componente pontual é subjetiva – corresponde à presença dos themata na mente dos sujeitos.

52 Desta componente subjetiva dos themata decorre uma certa objetividade quando os mapas thematicos individuais se manifestam (implícita ou explicitamente) em ideias e teorias tornadas públicas, ficando assim acessíveis a outros indivíduos e passando a fazer parte das componentes longitudinal e transversal (ou seja, da história e do corpus conceptual das diversas disciplinas).

A questão da objetividade/subjetividade dos themata joga-se, então, entre filogenia e ontogenia. Fica, contudo, por resolver não apenas o problema da origem ontogénica (a que Holton tantas vezes se referiu) mas também da origem filogénica, ou seja, da origem histórica dos themata e da origem nas diversas áreas do saber e da cultura (embora o estudo de alguns casos como, por exemplo, o dos processos que conduziram Bohr ao thema da complementaridade em física quântica nos deem pistas sobre o aparecimento de um thema numa certa disciplina).

Podemos e devemos, pois, reconhecer aos themata uma natureza simultaneamente subjetiva e objetiva; ontogénica mas também filogénica. Esta dualidade refere-se à origem e à existência dos themata. Mas convém analisar também a questão no que se refere ao objeto de estudo e às formas de o estudar, pois não esqueçamos que os themata são elementos orientadores que se referem a um certo objeto (a realidade em geral ou um domínio em particular) e aos métodos utilizados para o estudo desse objeto.