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A rotina de trabalho diurno no Palácio Capanema, sede do Ministério de Educação e Cultura (MEC), onde Vicente Salles deu expediente até 1961, e depois na Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, levou-o a escolher o horário noturno para cursar a Faculdade Nacional de Filosofia, entre 1960 e 1964. Nas horas vagas, ele frequentava a Biblioteca Nacional ou o Arquivo Nacional, buscando as fontes para a sua tese, que, como já foi visto no primeiro capítulo, não se efetivou como um trabalho de conclusão de curso, pois, com o golpe militar de 1964, teve de esperar dois anos para receber seu diploma de graduação, sendo exigido dele apenas o cumprimento dos créditos das disciplinas. Com isso, continuou a levantar fontes, a fazer ajustes no texto que havia produzido e a publicar trechos do trabalho, como o fez, pela primeira vez, em 1966, na revista Cadernos Brasileiros, sob o título “Carta do Pará”.

Aqui, no Rio de Janeiro, eu encontrei uma oportunidade excepcional de trabalho na Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional e na Biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

A minha rotina de trabalho era cumprir e matar boa parte do trabalho burocrático – saía às vezes um pouco mais cedo para pegar os horários disponíveis na biblioteca. A Biblioteca Nacional, para mim, era fácil porque ia até as dez horas da noite na época. Já o Instituto Histórico e o Arquivo Nacional tinham certas [...]

Bom, foi esse o ambiente que eu encontrei no Rio de Janeiro, um ambiente de pesquisa que não tinha no Pará. Biblioteca e Arquivo Público do Pará, naquela época... Ela estava mal alojada num único prédio da [travessa] Campos Sales, né? Humilde, pequeno e que reunia biblioteca e arquivo. A biblioteca disponível para o público, e o que era importante para mim, na época, principalmente era a hemeroteca, né? As coleções dos jornais de Belém que... do final da Monarquia até a época presente, tinha bastante coisa. Mas nos da época da Monarquia havia pouca informação e pouca documentação, na época. Eu não aprendi lá a manipular arquivo, só jornais, em Belém. Eu vim a aprender arquivo no Rio de Janeiro frequentando o Arquivo Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Aí então eu encontrei um farto material, principalmente aquele material de imprensa do arquivo do império.

E a coleta era toda artesanal, manuscrita:

Então meu método de trabalho era lápis e papel. Um dia, fiquei humilhado no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, quando entra uma equipe de jovens louros, monta uma aparelhagem como esta que você está montando e começa a bater botões, e eu, com lápis e papel, copiando e preenchendo cadernos e cadernos de notas manuscritas. Essa diferença tecnológica me deu um certo choque de inferioridade, né? Complexo de inferioridade, mas eu não me detive no complexo e passei a constituir o meu trabalho lento e diário, quase diário. E lá [no IHGB] é que coletei muita coisa realmente.

Rascunhos dessa fase de anotações ainda estão em seu apartamento de Brasília, revela. Anotações telegráficas feitas com recursos da estenografia, técnica de escrita abreviada que agiliza o processo de documentação e que ele aprendeu ainda em Belém, quando adolescente. E lá se iam as palavras compridas, os sufixos dos advérbios de modo, por exemplo, virando traços, às vezes traiçoeiros, segundo ele, quando a palavra não era muito usual. A maioria dos rascunhos, confessa, foi descartada depois do fichamento, que era a parte complementar do trabalho de documentação.

Eu tinha um método de trabalho de fichar tudo; aprendi a trabalhar com ficha. Então eu classificava os assuntos e, dentro da classificação, eu fazia vários tipos de classificação: a ficha bibliográfica, a ficha de assunto, as fichas de personalidades, onde entravam, incluíam, biografias, e as fichas... eu não cheguei ao requinte de usar fichas topográficas, que a minha biblioteca tinha uma visão ampla dela; biblioteca pública, biblioteca de folclore, por exemplo, eu fazia muita ficha topográfica por causa da busca mais rápida do material, mas essa experiência de trabalhar com biblioteconomia me deu um instrumental muito prático de classificar e catalogar os livros e os assuntos.

Não há como deixar de mencionar Michel de Certeau (2006, p. 81), quando indica uma cadeia de significados no ato de organizar documentos e prepará-los para a futura tarefa interpretativa (Figura 25). Uma “distribuição cultural” pela qual o documento é retirado de um lugar instituído para compor uma combinação, na qual o próprio gesto de manipulação está inscrito na produção do conhecimento. “Em história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em ‘documentos’ certos objetos distribuídos de outras maneiras”, afirma.

Esta nova “distribuição cultural” também produz os documentos “pelo simples fato de recopiar, transcrever ou fotografar estes objetos mudando ao mesmo tempo o seu lugar e o seu estatuto”. A reorganização desse material, uma coleção, e todo o gestual de sua composição constituem um saber, modificando “uma ordem recebida e uma visão social”. “Instauradora de signos, expostos a tratamentos específicos, esta ruptura não é, pois, nem apenas nem primordialmente, o efeito de um ‘olhar’. É necessário aí uma operação técnica”.

Em se tratando de fontes de imprensa, os anúncios do século XIX, por exemplo, Salles reproduzia tudo dos microfilmes existentes nas instituições, até começar a colecioná-los. “Cheguei ao requinte de, com o tempo, adquirir microfilmes, na Biblioteca Nacional, no Instituto Histórico e no Arquivo Nacional. Então, eu tenho uma coleção de

Figura 25: Conjunto de fontes utilizadas por Salles para elaboração de "O negro no Pará", na biblioteca particular de Brasília, sugere processo artesanal. Brasília, agosto de 2013 © Rose Silveira.

rolos de microfilmes grandes, que eu mandei para o Museu da Universidade”, comenta. “Muitos dos jornais pesquisados estão lá microfilmados, acessíveis aos pesquisadores que queiram inclusive ampliar, não só verificar seus textos, com outras matérias de interesse”, complementa. A essa época, portanto, ele já gastava boa parte de seus ganhos na aquisição de acervos, gesto que ele manteria por toda a vida, de forma cada vez mais requintada, aventureira e cara. “Eu sempre apliquei meu capital, todo ele, em documentação. [...] pago com recursos próprios, porque nunca tive apoio de bolsa de estudo, nem apoio institucional. Naquela época não era comum, a não ser nas universidades”, arremata.

Continuei a lhe perguntar como era organizar o orçamento doméstico incluindo a prática do colecionismo.

Não, eu nunca planejei. Quando eu tinha dinheiro, eu pagava. Estava disponível, eu pagava mais ou menos, por isso eu acumulei cerca de... uns 90 jornais paraenses microfilmados em bobinas. Tá tudo lá no Museu da Universidade. Agora, é um tipo de material que não é qualquer biblioteca que dispõe de equipamento para você ler. Aquelas máquinas... Hoje tem umas tão sofisticadas. O Senado, por exemplo, tem uma máquina tão sofisticada que você pesquisa o Jornal do Commercio, você localiza a página, recorta o assunto que você quer e grava num CD diretamente, põe na memória do computador e vai lendo aquilo nas várias imagens, que acabam se transformando num CD único. Então, você leva pra casa um material que tá muito mais fácil de trabalhar comodamente do que na própria biblioteca. Eu fiz muito isso na Biblioteca do Senado.

Salles se referia à elaboração de O negro no Pará como uma “típica pesquisa de gabinete”, sem trabalho de campo. Realizou extenso levantamento bibliográfico, com ênfase em História do Brasil, História do Pará (da Colônia ao Império) e História do Maranhão (que durante a Colônia integrava o Estado do Grão-Pará). Passou pelos chamados estudos africanistas, estudos sobre relações raciais, estudos sobre fo lclore, crônicas de viajantes, estudos teóricos sobre antropologia, história urbana, linguística e muita literatura ficcional, autores paraenses, predominantemente.

É um trabalho inscrito na prática da volta aos arquivos que marcaria a prática historiográfica no século XX, rompendo, como já foi mencionado, com a interpretação feita pelos grandes modelos explicativos. É a revalorização das fontes escritas, sobretudo, da recorrência a uma ação interpretativa sobre os textos, seu processo de produção e pertencimento ao espaço sociocultural. Prática relacionada também ao chamado retorno da narrativa, outra característica das obras de Salles.

Entre as fontes primárias, pesquisou os Códigos de Postura da Colônia ao Império, relatórios de governo, mapas, desenhos de humor e, principalmente, jornais e revistas, a

imprensa do século XIX. Mais exatamente, os anúncios de jornais, que renderam farto material relacionado aos antecedentes do movimento da Cabanagem, à compra e venda de escravos, à fuga dos negros escravizados, a formação de mocambos, entre outros aspectos, dos quais pôde depreender o funcionamento do sistema escravista, as relações de poder institucionalizadas ou simbólicas, ou, ainda, como ele preferia, a luta de classes.

O uso dos anúncios e da literatura como fontes mereceu atenção em suas obras, pois foram elas que conduziram o trabalho do autor pela contramão da visão canônica sobre os estudos raciais no Brasil, desapegando-se das sobrevivências africanas e se voltando para a dinâmica da história, os movimentos sociais, a cultura popular, a história cotidiana, a história urbana, as linguagens da cidade e as relações simbólicas de poder. Foram essas fontes que lhe permitiram a reinterpretação da história da escravidão do negro na Amazônia, mostrando que ela não só existiu como teve importância para a economia, a composição do perfil étnico e a cultura da região.

Vieram de Gilberto Freyre a indicação e a inspiração da leitura e interpretação de anúncios de jornais como fontes para a história. Em O escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XX (primeira edição de 1963), Freyre sistematiza a leitura sociológica (ele também ressalta o seu valor antropológico) realizada sobre anúncios de compra e venda e fuga de escravos em suas pesquisas – material utilizado, sobretudo, em Sobrados e mocambos.

Trabalhando com uma equipe formada por vários colaboradores, ele recolheu anúncios publicados entre 1825 e 1888 no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, e no Diário de Pernambuco, do Recife. Desse material, pelo aspecto da linguagem, interessou- se pelas descrições físicas dos negros, que revelavam suas marcas tribais, de onde pôde avaliar a sua procedência; os castigos a eles infligidos a mando de seus senhores, o que lhe deu noção das relações estabelecidas na sociedade escravista; e ainda descrições sobre habilidades, modos de falar, aspectos valorativos dos sujeitos aos olhos dos seus senhores que, no fundo, conduziam à coisificação dos negros. Eram “peças”, objetos de leilão e “cabras”, comparados a animais.

Freyre deu publicidade ao seu estudo inicialmente em 1934 – um ano depois da publicação de Casa grande & senzala –, durante conferência na Sociedade Felipe d’Oliveira, publicada na revista Lanterna verde, no mesmo ano. Em 1937, ele fez uma comunicação no 1º Congresso Afro-brasileiro de Recife, incluída nos Novos estudos afro- brasileiros, informa Alberto da Costa e Silva (2010). E o próprio Freyre, no prefácio da primeira edição, cita como estudo pioneiro sobre anúncios de jornais, no campo da

História Social, o ensaio de H. Friedenwald intitulado “Some newspapers advertisements in the 18th Century”, no Some newspapers of the Jewish American society (Nova York, 1895). Também cita o ensaio “Newspaper advertisements and negro culture”, de Guy B. Johnson, no Journal of Social Forces (v. III, 1924–1925). Costa e Silva faz uma ressalva, mostrando que Joaquim Nabuco havia utilizado anúncios de jornais em uma página de O abolicionismo para atacar o regime escravista, mas afirma que “ninguém, no Brasil, havia, até então, sobre eles se debruçado como fonte histórica” (COSTA E SILVA, 2010).

Para Vicente Salles, conhecer a experiência de Freyre ajudou-o a retirar dos documentos impressos o estatuto da verdade sobre a desimportância da escravidão do negro no Pará. Os anúncios afirmavam “o que todos negavam até então”, segundo ele. A reprodução de uma parte dos anúncios pesquisados na seção “Documentário”, de O negro no Pará, reafirma a aposta de Salles: o tratamento quantitativo da importação de negros escravizados obscurece a história, pois tantos nomes e tantas remissões feitas às suas atividades cotidianas e a seus tipos físicos não poderiam cair no silêncio. Como comparação dessa visão falaciosa, é só relembrar o equívoco, vez por outro suscitado na imprensa brasileira, de que a ditadura militar no Brasil teria sido branda em comparação à da Argentina, pois lá houve muito mais mortos e desaparecidos do que aqui. Ou pensar na dimensão do holocausto judeu em termos de maior ou menor quantidade de pessoas executadas nos campos de concentração e de trabalho forçado.

Para a pesquisa que resultou no livro História invisíveis do Teatro da Paz,101 apurei grande parte das histórias relacionadas aos frequentadores daquele teatro considerado de elite, mas frequentado por um público bastante diversificado, fazendo a leitura de cartas de leitores e de anúncios de espetáculos publicados nos jornais do Pará, no século XIX. De fato, esses anúncios, na unidade e em conjunto – principalmente em conjunto – trazem as experiências vívidas do teatro como patrimônio edificado, artefato humano e compartilhado pela população de todas as classes sociais. Cartas de leitores e anúncios ajudam-nos a ver e até a ouvir a circulação de pessoas dentro e fora do teatro: como se vestem, o que falam, como se comportam, entre outros aspectos.

Pelos anúncios também foi possível perceber a presença de negros escravizados fazendo parte dos “espetáculos” das alforrias, quando os proprietários, em troca dos benefícios concedidos pelo governo, concordavam com a manumissão de seus “bens” e

101 Resultado de dissertação de mestrado homônima defendida em 2009, pelo Programa de História da

lhes faziam a entrega das cartas em meio a espetáculos teatrais – para chamarem a atenção para si mesmos, claro.

Quando a campanha abolicionista tomou força no Pará, na década de 1870, vários jornais da capital, pelo menos os maiores, assumiram o compromisso público de não mais publicar anúncios de fuga (ou captura), venda e troca de escravos. Mas A Constituição, um dos periódicos mantidos pelo Partido Conservador, ainda no ano de 1878 insistia nessa prática, assim como mantinha uma postura francamente discriminatória contra a população negra e pobre. Mas, neste ponto, fazia coro aos demais.102

Foi através da leitura de jornais que Salles acompanhou notícias da migração de barbadianos para o Pará, na passagem entre os séculos XIX e XX, um fluxo que reiterava a comunicação histórica entre a região amazônica e o Caribe. Para ele, foi uma descoberta. Eles chegaram à região contratados por ingleses que exploravam serviços no Pará e no Amazonas, e também para a construção da ferrovia Madeira–Mamoré. Em Belém, constituíram uma colônia e ainda hoje há remanescentes. Salles também informa em seu livro que o escritor J. Eustáquio de Azevedo mencionou cantos de trabalho de barbadianos empregados na Booth Line, companhia inglesa de navegação, em artigo publicado em 1932 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Pará.

Na década de 1960, quando trabalhava na Campanha do Folclore, ele conheceu uma atriz paraense descendente de barbadianos: Cléa Simões, batizada Clea Alexander. Em depoimento à produção do documentário O negro no Pará: cinco décadas depois..., Cléa contou que sua avó materna, Christina Miriam Taitt Whorton, nascera em Demerara, na Guiana Inglesa, casou-se com um homem de sobrenome Taitt e foi morar em Barbados. Abandonada pelo marido, a avó de Cléa resolveu se mudar para o Pará, de onde lhe chegavam notícias da fundação da Pará Electric. Levou a filha, mãe de Cléa, e uma irmã para Belém. Depois de várias tentativas de se firmar em um trabalho, conseguiu emprego de governanta do reverendo Arthur Milles Moss, da Igreja Luterana, trabalhando com ele por mais de 40 anos. Era o padrinho de Cléa.

Mais tarde, ela se mudou para o Rio de Janeiro, onde, contrariando as expectativas da mãe, mulher muito recatada, tornou-se atriz, integrando o célebre Teatro Experimental do Negro (TEN), de Abdias Nascimento,103 e foi recrutada por Edison Carneiro para trabalhar na CDFB. “O Edison Carneiro falou pra mim: ‘Eu tenho que arranjar um

102 Ver mais em SILVEIRA, 2010a, p. 148–149.

103 O paulista de Franca Abdias Nascimento (1914–2011) foi escritor, poeta, teatrólogo e famoso por seu

ativismo em favor dos direitos humanos. Fundou o Teatro Experimental do Negro (TEM) em 1944 e, em 2004, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

emprego pra você, porque fazer teatro e cinema é uma coisa assim: um mês você trabalha, outros seis meses você não trabalha. Pelo menos você pode fazer a sua arte’”.

E continuou:

Aí eu fui pra Campanha de Defesa do Folclore. Lá eu conheci o Vicente, o santo Vicente, né? Conheci. E ficamos amigos. Aí se tornou mais amigo meu, porque eu era paraense também. Quando ele descobriu que eu era paraense, aí ficamos muito ligados. Ele suporta tudo, o Vicente. Às vezes. Quando ele zanga, aí sai todo mundo correndo. Ele nem fala, ele só olha.

Conversando, descobriram que ela conhecia música e letra de um canto de trabalhador barbadiano registrado por Eustáquio de Azevedo nos navios da Both Line. E ela, com sua voz grave e muito afinada, deixou-o documentado em áudio. Também gravou uma cantiga lúdica, que não aparece no livro: o Bess it down, cantado e dançado pelas crianças, na época da colheita da abóbora. Elas deveriam rebolar até o chão, sem tirar as mãos da cintura. “Depois, esfregar o bumbum no chão e ficar esperando ser convidada pra Bess it up, que era pra levantar. Aí você também vai rebolando até ficar de pé. Quem aguentasse mais é que ganhava o presente, premiozinho, coisinha, boneca...”104

Aqui, o canto de trabalho, que também pode ser ouvido no DVD que contém o documentário:

Oh, the old man he is old Oh, the young man he is young The old man has a pot of gold Choo, choo, old man, get away Choo, fly, don’t bother me (Choo, fly, don bada me) Choo, fly, don’t bother me (Choo, fly, don bada me) The old man has a pot of gold Choo, choo, old man, get away. (SALLES, 2005a, p. 223)

Cléa Simões exerceu a profissão de atriz por 40 anos. Fez cinema, teatro e televisão. Foi contratada pela Rede Globo, onde atuou em diversas novelas. Quando concedeu as entrevistas para o documentário em homenagem a Vicente Salles, em 2005, já estava se tratando de insuficiência renal. Mesmo assim, viajou a Belém, onde mora parte de sua família, para participar das gravações. Infelizmente, a morte, em decorrência daquela doença crônica, a apanhou no dia 24 de fevereiro de 2006, aos 79 anos, pouco antes do lançamento do documentário no Rio, possivelmente seu último registro em vídeo.105

104 Esse depoimento de Cléa sobre a brincadeira do Bess it down foi registrado no documentário de 2005. 105 Cf. MORRE CLÉA SIMÕES. In: Jornal Nacional, 2006.

Da mesma forma que os anúncios, a associação entre história e literatura, tanto em O negro no Pará quanto em outras pesquisas de Salles, é uma recorrência. Em sua obra de estreia, combinam-se os relatos de viajantes brasileiros e estrangeiros à literatura regional amazônica e, por meio dessas fontes, registra como esses discursos legitimaram as ideias de presença, ausência ou negação veemente da presença do negro na Amazônia.

Por exemplo, no capítulo 4, quando trata dos aspectos étnicos da população negra na Amazônia, destaca o trabalho dos escritores Inglês de Sousa, José Veríssimo, Juvenal Tavares, Marques de Carvalho, Peregrino Júnior, Dalcídio Jurandir e Bruno de Menezes, como boas referências de informações sobre a cultura do negro. Mas neste capítulo, especialmente na seção “Alguns estereótipos e afins”, mostra que grande parte da literatura etnográfica, antropológica e sociológica “que os cientistas do passado nos legaram” assentou uma visão estereotipada e preconceituosa sobre o negro, difícil de ser suplantada, uma vez carregada de “verdade” científica.

Daí ressalvar, em relação à produção literária regional, que ela “não oferece muitos subsídios ao estudo da interação social do negro”. Essa afirmativa de Salles parece um pouco contraditória diante de tudo o que ele argumentará, com exemplos, sobre a