Cinco anos mais tarde, a chegada de Fernando Collor de Mello à presidência da República, com todas as medidas drásticas na área econômica que afetaram a vida do país, marcou a retirada de Vicente Salles da administração pública. Ao serem extintos todos os órgãos da área da Cultura – incluindo o próprio Ministério da Cultura e a FUNARTE –, Salles foi colocado “à disposição”. Aos 59 anos de idade, pela primeira na vida estava sem função institucional. À deriva. A solução, para ele, foi pedir a contagem de seu tempo de serviço e encaminhar o pedido de aposentadoria, o que ocorreu em 1991.
Se, por um lado, isso representou o fim de sua carreira como funcionário público, por outro significou o início de um ciclo de dedicação integral às suas pesquisas, à publicação de livros e a outros projetos fora de Brasília. Além disso, foi a oportunidade de a família adquirir o apartamento funcional em que morava. Isso foi possível porque, ao congelar os rendimentos da caderneta de poupança dos brasileiros, o governo federal fez, por outro lado, algumas concessões para acesso àqueles recursos, uma delas a venda dos
imóveis residenciais de propriedade da União situados em Brasília.79 A família usou todos os recursos disponíveis e comprou o imóvel. Neste apartamento, ao longo dos anos, Salles erigiu sua biblioteca particular, contendo um acervo de fontes imenso em meios impresso, sonoro, audiovisual e imagético.
Em 1993, a Universidade Federal do Pará adquiriu grande parte desse acervo para o Museu da UFPA. A Coleção Vicente Salles foi abrigada na biblioteca do MUFPA e, entre 1996 e 1997, quando dirigiu o museu, Salles pôde organizá-la. São partituras manuscritas e impressas, discos, fitas, imagens, recortes de jornais, livros, folhetos, entre outros que foram incorporados à biblioteca, tornando a coleção referência em folclore, música, cultura afro-brasileira, história, teatro e literatura.80
Avançando a década de 2000, problemas de saúde fizeram-no transitar entre Brasília e Rio de Janeiro, 81 para onde já haviam retornado seus filhos Marcelo e Mariana,
no início da década de 1990. Apesar disso, manteve até o fim da vida sua rotina de leituras, pesquisas e colaborações em publicações, ainda que as limitações físicas o fizessem reduzir também as horas dedicadas às atividades diante do computador. Ele tinha pressa em concluir inúmeros trabalhos e sabia que o tempo, que fora matéria de sua obra, já lhe era escasso. Tinha muita consciência desse limiar que se impunha à vida.
Também viajou inúmeras vezes ao Pará a trabalho, ora contratado por instituições, como o Instituto de Artes do Pará (IAP), ora por conta própria, sempre atrás de um documento raro escondido em algum porão – como ocorreu na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, onde pesquisou partituras de compositores paraenses. Uma curiosidade sem fim e bons informantes levavam-no a procurar e encontrar. Nessas viagens, ele também aproveitava para tentar articular a publicação de suas obras inéditas ou reedição das que estavam fora de catálogo.
Nas viagens a Belém, jamais deixou de ir à biblioteca do Museu da UFPA, onde sua presença era sempre muito aguardada por jovens pesquisadores em busca de uma conversa com ele, uma orientação, entrevistas. Invariavelmente, levava material novo para ampliar o acervo, ainda que permanentemente enviasse pelo correio recortes de jornais e revistas para enriquecer a hemeroteca de sua coleção. Um dos termos de doação de sua
79 Lei nº 2.085 de 12 de abril de 1990: “Dispõe sobre a alienação de bens imóveis residenciais de
propriedade da União, e dos vinculados ou incorporados ao FRHB [Fundo Rotativo Habitacional de Brasília], situados no Distrito Federal, e dá outras providências”. Cf. BRASIL, 1990.
80 Cf. COLEÇÃO VICENTE SALLES. In: Museu da Universidade Federal do Pará.
81 Em 1999, o pesquisador foi submetido a uma cirurgia para colocação de três pontes de safena. No mesmo ano
foi descoberto um aneurisma abdominal. Em 2004, recebeu o diagnóstico de câncer no intestino e, em 2007, de câncer na próstata. Submeteu-se a cirurgias e tratamentos para controlar as doenças.
biblioteca ao museu era de que apenas ele poderia alimentar o acervo. Da mesma forma, colaborava com as atividades do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), no Rio de Janeiro, especialmente com o Museu Edison Carneiro. Em 2011, por exemplo, nas atividades de preparação do Centenário Edison Carneiro, celebrado em 2012, fez seu depoimento para uma plateia e assinou um texto na publicação impressa realizada pela instituição.
Em 2012, a decisão de retornar definitivamente ao Rio de Janeiro para se juntar aos filhos, deu-se, sobretudo, por causa da saúde fragilizada. A família não se desfez do apartamento de Brasília, onde Vicente empreendeu a façanha de remontar sua biblioteca quase nos mesmos moldes da que foi doada ao Museu da UFPA, incluindo as raridades que, como bom colecionador, ele se dispôs a ir atrás de novo. Como ele contou nessa parte da entrevista, já residindo novamente no Rio.
Vicente Salles: Meu arquivo, minha biblioteca têm um espaço bastante... Tem um quarto lá só de estantes de aço. Chegou um momento em que eu empilhei como se fosse uma biblioteca. Depois, conquistei o espaço doméstico, os corredores, a sala de visitas, um canto aqui, outro ali [risos], de maneira que o apartamento ficou quase que uma biblioteca inteira [risos]. Até o quarto de empregada está ocupado hoje em dia.
Rose Silveira: Ele continua dessa forma, todo ocupado?
VS: Continua, porque uma parte foi para Belém, para o museu, mas aí a coisa continua, porque, continuando a pesquisar, eu repeti grande parte da biblioteca que eu tinha mandado para Belém [risos].
RS: Mas com os mesmos títulos?
VS: Os mesmos títulos: [Henry] Bates, [Alfredo Russel] Wallace, aqueles viajantes. Eu tinha mandado tudo para lá e eu tenho duplicata de tudo hoje em dia, em Brasília [risos]. Não tenho, por exemplo, da coleção da [Madame Otille] Coudreau. Só encontrei uma na vida, uma coleção que foi adquirida de modo muito interessante através do Carlinhos Ribeiro, de um sebo famoso aqui do Rio de Janeiro, amigo da Eneida, que eu conheci desde o primeiro ano em que estive aqui, no Rio de Janeiro.
Neste acervo de Brasília, Salles também manteve uma preciosidade: um livro, todo escrito em latim, cuja tradução é Ritual da Sagrada e Real Ordem Militar de Nossa Senhora das Mercês, da Redenção dos Cativos, para uso dos frades da mesma ordem, residentes na Congregação do Pará, por mandado do R. P. Pregador Fr. João da Veiga, Comendador da mesma ordem, na cidade do Pará. Trata-se de uma obra do século XVIII, do cantochanista paraense João da Veiga, o documento musical do Pará mais antigo já encontrado, segundo as palavras de Salles, o que “situa a documentação da música sacra praticada no Grão-Pará na contemporaneidade, por exemplo, do barroco mineiro, o maior
foco da criação artístico-musical remanescente no continente americano” (SALLES, 2003b).
A história desse achado é interessante. Como bom colecionador, Salles tinha por hábito visitar sebos, manter contato com colecionadores e consultar os catálogos de antiguidades. Em janeiro de 1992, soube da existência do livro no Boletim nº 46 do alfarrabista lisboeta J. A. Telles da Sylva, que o oferecia por 1.500 dólares (SALLES, 2003b). Alucinado pela descoberta e sem dispor do recurso para a aquisição, tentou, em vão, convencer dirigentes de órgãos da área da cultura no Pará a comprar a obra e, assim, fazer o livro retornar ao estado. Foi então que resolveu juntar dinheiro para, depois de algum tempo, adquirir a relíquia, que pretendia doar à seção de Música da Biblioteca Nacional.
Para trazê-la ao Brasil, mobilizou seu irmão, José Jacaúna, que era comandante de navio, e, parando em Portugal, foi realizar a transação. Na volta, seu navio passou no Rio de Janeiro, onde Marcelo Salles o esperava para pegar o livro.
Em 2003, a Secretaria de Cultura do Pará produziu o CD O cantochão dos mercedários do Grão-Pará, com 12 dos 83 documentos encontrados no livro, que possui 495 páginas e tem toda sua composição em caracteres romanos, impressos em vermelho e preto (SALLES, 2003b).
Assim, o apartamento de Brasília parece ter-se tornado uma espécie de nova Maiandeua, um lugar de plantar sonhos e concretudes de uma vida inteira. Ou a Ítaca de Odisseu, um lugar para onde, depois de todas as viagens e aventuras, é preciso retornar. Brasília está dentro deles. Clarice Lispector, revisitando sua crônica, talvez dissesse que eles se tornaram os “seres de Brasília”, aqueles que ainda não existiam quando ela por lá esteve. A biblioteca é uma das chaves desse pertencimento até o dia em que a família resolver doá-la, como era a intenção dele.82 A biblioteca particular se cumpriu, porque ele se cumpriu através dela.
Walter Benjamin (2009, p. 234–235), ao escrever sobre a relação do colecionador com seus livros, reconhecendo que esse tipo estava em extinção já na primeira metade do século XX, afirma que “o fenômeno de colecionar perde seu sentido à medida que perde seu agente”. A seu ver, ainda que uma coleção particular se torne pública, o objeto livro só tem razão de ser no âmbito privado. Benjamin está se referindo, claro, aos vestígios de uma prática burguesa da modernidade; ao sujeito do século XIX; da relação subjacente ao
82 Até o momento em que esta pesquisa estava sendo realizada, havia a proposta de incorporação da
sentimento de posse que se estabelece antes, durante e depois da aquisição dos livros, às aventuras da compra neles impressas, mas só perceptíveis ao dono da coleção, para quem o pertencimento, afinal, tem significado.
Recorrendo a uma pintura, O bibliófilo (Der buecherwurm), de 1850, do alemão Carl Spitzweger, na qual se vê um homem libidinosamente emparedado ou possuído por estantes abarrotadas de livros, Benjamin percebe nesse homem “espíritos ou geniozinhos” que fazem com que “a posse seja a mais íntima relação que se pode ter com as coisas: não que elas estejam vivas dentro dele; é ele que vive dentro delas”. Para completar: “E, assim, erigi diante de vocês uma de suas moradas, que tem livros como tijolos, e agora, como convém, ele vai desaparecer dentro dela”.
Vicente Salles mora na sua biblioteca (Figura 21), e também se tornou um livro vivo.
Figura 21: A biblioteca de Vicente Salles, em Brasília, na década de 1990, antes de ser adquirida pela UFPA. Fotografia cedida por Marena Salles. Reprodução: Rose Silveira
2. A PELEJA DO CIDADÃO PARA ESCREVER UMA HISTÓRIA DO NEGRO NO