Segundo o artigo intitulado De Olho no Tempo, publicado em 2007 na edição de nº 30 do periódico O Sulco da John Deere, o homem do campo sempre se valeu da intuição para inter- pretar e prever as variações do tempo, mas a globalização dos mercados e a intensificação da produção aumentaram as exigências do agricultor, que já não pode mais ficar sujeito somente às observações empíricas da natureza.
De fato, por muito tempo, as informações sobre o tempo e sobre o clima ficaram longe do alcance do usuário rural. Poucos agricultores tinham acesso a elas e entendê-las exigia a inter- pretação de profissionais especializados. A situação começou a mudar no início desta década com a implantação de serviços públicos baseados na internet para a divulgação de informa- ções meteorológicas úteis ao planejamento da agricultura e da pecuária (JOHN DEERE, 2007).
Hoje, os sistemas disponíveis já somam mais de uma dezena, com abrangência nacional ou estadual, que utilizam como base os estudos feitos pelo Instituto Nacional de Meteorologia – INMET – e pelo Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos – CPTEC, uma unidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE.
Essas iniciativas vieram num momento em que as informações da agrometeorologia tornaram- se fundamentais para a tomada de decisões dos produtores. Afinal, segundo PINTO (2008) 90% das perdas de produção estão associados a eventos climáticos e os 10% restantes a doen- ças e pragas, como informam as análises feitas pelo Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura – Cepagri – da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp.
As informações meteorológicas são, cada vez mais, levadas em conta nos sistemas oficiais de apoio à agricultura. Financiamentos agrícolas, recursos do Pronaf e o seguro do Proagro só são liberados para quem segue o Zoneamento Agrícola do Ministério da Agricultura, que de-
fine para cada município do país as culturas propícias e os períodos de semeadura conforme o regime de chuvas, as exigências bioclimáticas da planta, os tipos de solos e os cultivares re- comendadas (JOHN DEERE, 2007).
Um bom exemplo de informações meteorológicas disponibilizadas pela Internet no país é o Agritempo – www.agritempo.gov.br – Sistema de Monitoramento Agrometeorológico, que funciona como uma cooperativa nacional de dados climáticos desenvolvida pelo Cepagri e a Embrapa Informática desde 2001, com o objetivo de reunir em uma base de dados única o trabalho de 41 instituições de todas as regiões brasileiras. O Agritempo é um sistema compu- tacional capaz de avaliar a qualidade e padronizar os dados coletados por 1.100 estações me- teorológicas de superfície e outras 4 mil de chuva, a fim de fazer as previsões de tempo e de clima que interessam à agricultura.
O Agritempo também é fonte importante para quem deseja saber as indicações das 40 culturas contempladas no Zoneamento Agrícola, podendo observar, para cada um dos 5.564 municí- pios brasileiros, a correlação entre as datas-limite para o plantio e os tipos de cultivares e so- los, a fim de obter sucesso com a lavoura e evitar perdas com eventos climáticos extremos. A tarefa de ficar literalmente de olho no tempo ganhou impulso com o Agritempo à medida que seus profissionais passaram a criar produtos com informações meteorológicas e a oferecê- los gratuitamente na internet. No site, há um leque de dados nacionais atualizados continua- mente sobre estiagem agrícola, porcentagem de água disponível no solo, condições de mane- jo, aplicação de defensivos, épocas e condições de colheita, temperaturas diárias, evapotrans- piração, dias com chuva e alertas de geadas. O detalhamento é tanto que há informações espe- cíficas para cada município do país, permitindo ao produtor saber, por exemplo, qual é a pre- cipitação média quinzenal ou mensal em sua localidade e, assim, programar melhor sua safra. Além disso, como informa Hilton Pinto, pesquisador do Cepagri – www.cpa.unicamp.br, os responsáveis pelo sistema procuram sempre acrescentar novos serviços para atender a novas necessidades dos agricultores. Exemplos disso a inclusão de doze novas culturas na base de dados do zoneamento, o desenvolvimento de modelos relacionando a incidência de pragas e doenças ao clima e os trabalhos em curso sobre conforto ambiental para calcular as perdas causadas por ondas de calor nas criações de bovinos e suínos.
O cardápio de dados disponível na internet já é amplo, mas o público-alvo do serviço ainda não é atingido em sua plenitude, mesmo com o registro de oito mil acessos mensais ao site. Como o uso de computadores e o acesso à internet ainda é restrito entre os produtores rurais, o Agritempo utiliza outros canais para divulgar suas informações. Boletins analíticos com linguagem jornalística são divulgados nos meios de comunicação e a extensão rural da Emater bem como o atendimento telefônico também são usados para fazer a informação chegar até o agricultor (JOHN DEERE, 2007).
Ainda segundo o artigo publicado pela John Deere (2007), os produtores podem contar ainda com os sistemas regionais de informação, com a vantagem de ter os dados climáticos mais detalhados para sua localidade. O diferencial se deve ao fato de que centros mundiais e nacio- nais de meteorologia utilizam modelos numéricos (softwares que simulam os fenômenos cli- máticos futuros) com dados atmosféricos globais, processando-os para áreas muito extensas, e considerando que as condições do tempo são iguais em toda a área. Já os centros estaduais regionalizam esses modelos, rodando-os com células menores e levando em conta as caracte- rísticas específicas da área coberta pela análise.
Os trabalhos realizados pelo Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidromete- orologia de Santa Catarina – CIRAM – são vistos como referência nacional, já que é uma das poucas entidades estaduais com rede de coleta de dados, capacidade computacional e pessoal técnico para rodar modelos regionais diretamente dos modelos de grande escala. Isso é fun- damental para o estado onde as condições climáticas mudam radicalmente a cada 30 quilôme- tros devido a declives e montanhas, exigindo o refinamento dos modelos globais para se obter uma previsão mais precisa.
A escala empregada hoje é de 15 km por 15 km para previsões de tempo, mas pode ser pro- gramada para quilômetro a quilômetro, dependendo da necessidade. A excelência técnica do CIRAM acaba se refletindo na elaboração de informações preparadas especialmente não só para a agricultura, mas para muitas outras atividades diferentes. Para a agricultura, são ofere- cidos dados como previsão de tempo e clima, boletins de alertas climáticos, disponibilidade hídrica do solo e índice de riscos de incêndio, além de ações específicas para produtores de uva, erva-mate e banana.
Já a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos – FUNCEME, que, apoiada em uma infraestrutura tecnológica moderna, tem contribuído para o melhor aproveitamento do
semiárido, ecossistema que ocupa grande parte da superfície do Ceará e é marcada por anos secos, curta duração da estação chuvosa e ocorrência de veranicos no período das chuvas. Para ajudar os agricultores a enfrentar a adversidade climática, a instituição vem desenvol- vendo produtos como previsões de tempo e clima, boletins diários de chuva, capacidade de uso dos solos, avaliações de desertificação, índices de aridez e umidade do solo.
As características regionais também levaram a FUNCEME a desenvolver produtos específi- cos para a realidade local, como o Sistema de Informações Meteorológicas para Irrigação – SIMIC. Com esta ferramenta com acesso na internet, os produtores podem saber o tempo de irrigação a ser aplicado, bastando informar o sistema adotado na propriedade e a cultura plan- tada.
O avanço tão grande nas características específicas demonstra que, mesmo tendo história re- cente no Brasil, os sistemas de informação meteorológica já se tornaram um recurso impres- cindível na busca da eficiência produtiva. A democratização do acesso aos computadores e à internet no campo vão permitir que ele passe a ser mais utilizado pelos agricultores, contribu- indo para tornar mais segura a tomada de decisões sobre o trabalho nas lavouras (JOHN DE- ERE, 2007).
Segundo Neto (2011), a importância de serviços de publicação de informação sobre a agricul- tura aumenta na proporção direta da quantidade de recursos eletrônicos disponíveis na área de interesse coberta. Ao analisar o panorama agrícola em Portugal verifica-se que, após uma fase inicial em que a internet estava fracamente povoada com informações sobre agricultura, atu- almente há um forte aumento da utilização da internet como via de comunicação para os mais diversos agentes do setor agrícola, pelo que estes serviços ganharam rapidamente um espaço próprio na web.
No entanto, ainda segundo o autor existe um longo caminho a percorrer, pois, quando analisa as possibilidades atualmente disponibilizadas pelas tecnologias existentes, bem como o pano- rama agrícola em nível internacional, se verificam que são escassos os recursos disponíveis na web que utilizam de forma consistente as possibilidades oferecidas, por exemplo, pelas bases de dados para suportar sistemas de informação dinâmicos, pela utilização de funcionalidades SIG on-line ou pela disponibilização de sistemas de apoio à decisão.
Segundo Neto (2011), outro conjunto de fatores que pode induzir um aumento do uso de sis- temas de informação sobre agricultura via internet são, sem dúvida as tecnologias de comuni- cação, como as novas infraestruturas de acesso (cabo, ADSL), a internet móvel, entre outras. Essa evolução irá culminar no que alguns denominam de internet invisível, isto é, ela fará parte integrante do nosso quotidiano como o fazem o rádio, a televisão ou o telefone.