O Observatório do Clima é uma rede de OSCs criada em 23 de março de 2002 com o objetivo de contribuir com a construção de políticas públicas na área climática. O Observatório conta com a participação de 31 organizações, sendo que pelo menos nove delas foram analisadas por esta pesquisa148. Atualmente, a coordenação está a cargo de André Ferretti, da Fundação Grupo Boticário. Conta também com a colaboração do Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CES).
Nos anos de 2008 e 2009, o foco central do Observatório do Clima foi contribuir com a formulação de uma Política Nacional de Mudança do Clima. Em novembro de 2008, o Observatório entregou à Câmara dos Deputados uma proposta de anteprojeto de lei, como parte do documento "Elementos para Formulação de um Marco Regulatório em Mudanças Climáticas no Brasil: Contribuições da Sociedade Civil". Em 2009, o Observatório promoveu uma série de debates sobre o tema, contribuindo para a construção da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), sancionada pelo ex- presidente Lula em 29 de dezembro de 2009.
Ao longo de 2010, o Observatório participou ativamente do processo de regulamentação da política, garantindo a participação da sociedade civil nos grupos de trabalho promovidos pelo Fórum Brasil de Mudanças Climáticas (FBMC) responsáveis pelo desenvolvimento dos planos setoriais para cumprimento da PNMC, inclusive os
148 Entre as organizações analisadas por esta pesquisa, somente a Vitae Civilis não faz parte do
planos voltados para redução das emissões de GEE por desmatamento e degradação de florestas.
André Ferretti aponta que uma das estratégias adotadas pelo Observatório do Clima para manter uma boa interlocução com outros setores da sociedade, como setor privado e governo, foi adotar estratégias de diálogo e cooperação, por meio, por exemplo, da parceria com a FGV, uma instituição acadêmica reconhecida no Brasil e no exterior. Ele explica:
Outro desafio grande era conseguir um bom diálogo com outros setores da sociedade, pois a gente era um grupo de ONGs. Em alguns casos era visto como um pessoal que só queria reclamar, agitar e não queria fazer nada. Então uma das estratégias que a gente usou foi não confrontar, cair de porrada em cima e sempre buscar o diálogo, a troca de ideias. A gente procurou se aproximar de grupos como a FGV, o CES, em São Paulo, justamente porque era uma instituição que tinha como sua missão fazer o diálogo entre os diferentes setores da sociedade. Tinha um bom relacionamento tanto com o terceiro setor, como com o primeiro e o segundo. Tinha projetos com empresas, governo e com as ONGs. Então a gente achou que seria interessante estar próximo deles para mostrar que o nosso objetivo era somar esforços, dialogar e não sair brigando com ninguém. Tanto é que até hoje o FGV - CES que faz a nossa secretaria executiva149.
Com relação ao processo de tomada de decisões no Observatório do Clima, um dos princípios adotados é o de só se manifestar oficialmente quando há consenso de posições entre os membros da rede. Interessante notar que uma das razões para a adoção dessa diretriz foi uma discordância inicial entre os membros sobre o tratamento do tema de florestas no âmbito das negociações sobre mudanças climáticas. André Ferretti conta que no momento de criação do Observatório, algumas ONGs internacionais, como o WWF, Greenpeace e Amigos da Terra eram contrárias à discussão sobre florestas no âmbito das negociações sobre mudanças climáticas. Dessa forma, as representações nacionais dessas ONGs tiveram que adotar posição semelhante, mesmo sabendo da importância dessa discussão no Brasil. Ao mesmo tempo, havia outras organizações no Observatório que eram a favor da discussão sobre florestas. Ferretti conta como esse dilema foi solucionado:
O tema de florestas sempre foi muito forte. Desde a sua criação em 2002, o foco principal além de reduzir emissões, era florestas. Todos os membros fundadores eram ligados ao tema de florestas desde a sua fundação (...). Inclusive na carta de princípios do Observatório do Clima já falava sobre florestas (...). O problema é que quando a gente criou o Observatório havia um problema relativamente grande no Brasil, mas muito maior lá fora, que eram algumas ONGs muito atuantes que eram contra o envolvimento desta temática florestal dentro daquelas discussões, dentro do MDL (...). Para a gente conseguir equacionar isso, a gente colocou algumas regrinhas dentro dos princípios do Observatório que a gente só podia se manifestar oficialmente pelo grupo em temas que tivesse consenso. A gente colocou isso justamente para poder agregar estas instituições que tinham um papel importante na discussão geral, mas que eram contra florestas naquele momento. Então desde a sua criação, a gente teve essa preocupação. Aí, mais nesse segundo momento do Observatório, de 2007, 2008 para frente, a gente já contava com a participação de todos e já não existia mais este problema de alguns atores serem contra florestas nessa temática. Como a gente estava focado em organizações com atuação no Brasil, o que sempre agregou era que nessa discussão sobre mudanças climáticas, o papel do Brasil tinha muito a ver com florestas150.
Entre 2005 e 2010, o Observatório do Clima se envolveu diretamente com o tema de florestas no âmbito da discussão sobre mudanças climáticas, reconhecendo que o mecanismo de REDD possibilitará que países detentores de florestas tropicais recebam compensação pela manutenção dessas florestas, contribuindo para a mitigação da mudança do clima (OBSERVATÓRIO DO CLIMA, 2009).