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Após o levantamento, análise e apresentação dos resultados em torno dos substantivos-chave, a classe gramatical que apresentou o número maior e mais variado de palavras-chave foi a dos verbos. Nos TOs, foram 48 os verbos reportados como palavras- chave e, nos TTs, 36.

A Figura 4.4, a seguir, apresenta uma vista parcial dos resultados:

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Segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa (3.0), há duas acepções para o verbo assolar: ―pôr por terra; devastar, arruinar, destruir‖ e, por derivação, em sentido figurado, ―pôr em grande aflição; consternar, agoniar‖.

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Figura 4.4: Vista parcial dos verbos-chave

A partir da lista de verbos-chave, tanto nos TOs quanto nos TTs, pode-se observar a preponderância, por um lado, da 1ª pessoa do singular e, por outro lado, do tempo verbal Pretérito Perfeito: sentí/senti, tuve/tive, pensé/pensei, por citar algumas ocorrências. Em língua espanhola, ainda se observam as marcas do tempo verbal Pretérito Perfeito Composto, por meio do auxiliar haber, nas formas he, que registrou a maior chavicidade, e hemos. Esses auxiliares, seguidos de particípio, formam o passado composto em espanhol. Alguns verbos em tempo Presente também resultaram palavras-chave: recuerdo/recordo, tengo/tenho, creo (creio), sinto, penso, devo. Enquanto verbo, a palavra recuerdo, 1ª pessoa do singular em Presente de Indicativo do verbo recordar, significa lembro ou recordo, mas essa mesma palavra com idêntica grafia é também o substantivo que significa lembrança, em português. Das 70 ocorrências da palavra-chave recuerdo, 7 foram o substantivo e 63 o verbo. A partir dessas primeiras observações, depreende-se que as narrativas que compõem o corpus de estudo ocorrem, principalmente, em 1ª pessoa e no tempo passado.

Além dos tempos verbais citados, também resultaram palavras-chave algumas formas verbais no tempo Pretérito Imperfeito do modo Indicativo. Nos TOs, os verbos-chave nesse tempo foram era, había, podía e debía; nos TTs, somente a forma restava resultou

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chave nesse tempo verbal. A forma había, em espanhol, corresponde também ao auxiliar

haber, na formação do tempo Pretérito mais-que-perfeito composto do modo Indicativo

(Pluscuamperfecto, em espanhol). Nos TOs, a forma verbal había registrou 297 ocorrências, das quais 257 corresponderam ao auxiliar no passado composto e 40 ao passado simples do Imperfeito.

Os correspondentes a había, em língua portuguesa, tanto no Pretérito Imperfeito quanto no Pretérito mais-que-perfeito composto, são as formas havia e tinha. Nos TTs, as formas havia e tinha registraram 65 e 110 ocorrências, respectivamente. Das 65 ocorrências de havia, 35 aconteceram no Pretérito Imperfeito e 30 como verbo auxiliar na formação do Pretérito mais-que-perfeito composto. Das 110 ocorrências da forma tinha, 44 aconteceram como auxiliar, na forma composta do passado, e, nas outras 66 ocorrências, tinha não denotou existência, mas posse ou obrigação.

Portanto, a partir do contraste entre as formas había/havia ou tinha, como verbos auxiliares no Pretérito mais-que-perfeito composto do modo Indicativo, observa-se que as escolhas tradutórias divergiram na determinação dessas referências temporais, em relação aos TOs, uma vez que houve 74 ocorrências nos TTs (30 com as formas havia e 44 com tinha seguidas de particípio), ao passo que nos TOs foram constatadas 257. Dentre os recursos mais utilizados, o tradutor empregou principalmente a forma simples do Pretérito mais-que- perfeito, em lugar da forma composta utilizada nos TOs.

Segundo Travaglia (2006, p. 136-137), a forma simples do Pretérito mais-que- perfeito apresenta pouco uso em língua portuguesa e, com frequência, é substituída pela forma composta, haja vista que ambas as formas possuem o mesmo valor aspectual: perfectivo e acabado. Garcia (2002, p. 87) indica que o Pretérito mais-que-perfeito introduz um passado anterior a outro passado, mais distante, portanto, do tempo presente. Cabe destacar aqui que, à diferença do português, o Pretérito Pluscuamperfecto (mais-que-perfeito) existe em língua espanhola apenas enquanto tempo composto, nos modos Indicativo e Subjuntivo.

O próximo exemplo ilustra a variação estilística introduzida por Molina nos TTs, por meio da alternância entre as formas simples e composta do Pretérito mais-que-perfeito:

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Exemplo de diferenças na tradução do Pretérito mais-que-perfeito Composto

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Pero en seguida, al mirarme, se sonrojó tan intensamente, que comprendí me había reconocido. Una variante que jamás había pensado y sin embargo muy lógica, pues mi fotografía había aparecido muchísimas veces en revistas y diarios. (01A, nossa ênfase)

Mas logo em seguida, ao me olhar, ela corou tão intensamente que percebi que me reconhecera. Uma variante que eu jamais tinha pensado e, no entanto, muito lógica, pois minha fotografia aparecera muitíssimas vezes em revistas e jornais. (01B, nossa ênfase)

Nas três ocorrências presentes no exemplo anterior, observa-se que o tradutor opta por alternar entre as formas simples e composta do Pretérito mais-que-perfeito, e introduz uma sequência mais variada em relação à forma estabelecida por Sabato no TO, em que o autor marca a repetição do tempo verbal com había + participio. Considerando que não se estabelecem diferenças em termos do valor aspectual entre as formas simples e composta do tempo verbal, nem das referências temporais em relação ao TO, esse tipo de intervenção parece definir a presença estilística do tradutor no TT, neste caso particular.

Especificamente no tocante à semântica do conjunto dos verbos-chave, um aspecto importante a ser destacado é a supremacia de verbos que remetem a fenômenos mentais, sejam cognitivos (recordar, pensar), sensitivos (sentir) ou perceptivos (ver, ouvir), por um lado, e a fenômenos verbais (dizer, responder, perguntar), por outro, se comparados aos demais processos encontrados na lista de palavras-chave. Esta observação é pertinente e, além de justificar a análise da apresentação do discurso, feita no capítulo anterior, confirma aqueles resultados alcançados. Dessa maneira, os aspectos identificados por meio da análise das palavras-chave foram ao encontro do levantamento das diversas formas de apresentação da Fala, Escrita e Pensamento (AFE&P), justificando a perspectiva adotada para a triangulação dos dados.

A lista de palavras-chave também reportou, ainda que em menor número, alguns adjetivos: 09 palavras nos TOs e 10 nos TTs. Os adjetivos que resultaram chave em ambos os subcorpora foram: humano/a, grandes, atrozes e muitas. Nos TOs, também foram chave os adjetivos espiritual, grave, misterioso e desdichado (que significa infeliz em português). Já nos TTs, resultaram palavras-chave os adjetivos terrível, pobres, grotesco, decisivo e

semelhante. Alguns desses adjetivos-chave reforçam a temática existencialista que prevalece

no corpus de estudo, destacando seja o lado humano, espiritual ou misterioso da existência, por um lado, seja o lado mais atroz, grave ou terrível da realidade, por outro lado, tal como apontaram os resultados obtidos por meio das linhas de concordância, a partir da colocação

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desses adjetivos com os substantivos crise, mundo, realidade, vida, tempo e condição, entre outros.

A Figura 4.5 apresenta o conjunto dos adjetivos-chave reportados pela ferramenta

KeyWords:

Figura 4.5: Adjetivos-chave

Em outro grupo de palavras-chave, foram reunidos os advérbios (10 nos TOs e 08 nos TTs) e as conjunções (02 nos TOs e também 02 nos TTs) que apresentaram uma porcentagem de frequência significativa, com relação ao corpus de referência, sendo consideradas, portanto, palavras-chave pela ferramenta KeyWords.

A Figura 4.6 apresenta lado a lado as palavras resultantes tanto nos TOs como nos TTs:

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Figura 4.6: Advérbios e conjunções-chave

No conjunto dos advérbios-chave, prevaleceram aqueles que guardam características em comum com relação ao campo semântico do tempo. Esses advérbios indicam perpetuidade ou frequência (siempre/sempre, infinitamente, constantemente,

nuevamente/novamente), instantaneidade ((de) pronto), posteridade (luego/logo, finalmente, depois, (mais) tarde), tempo presente (hoy/hoje, ya/já, agora). Além desses, também foram

registrados como palavras-chave os advérbios de negação no/não, em língua espanhola, e

tampouco/tampoco, em língua portuguesa, e os advérbios de modo desgraciadamente nos

TOs (que significa infelizmente em português) e tragicamente nos TTs.

Além dos advérbios, as conjunções que resultaram palavras-chave foram quizá e

pero, nos TOs, que exprimem, respectivamente, dúvida a primeira (talvez, quiçá) e a segunda

basicamente oposição (mas). Nos TTs, a conjunção adversativa mas foi palavra-chave e também a conjunção enquanto, que denota tempo, proporção ou conformidade, segundo o dicionário Houaiss (2009). Por meio desse conjunto de palavras-chave (advérbios e conjunções), também se constata a chavicidade de expressões que registram a passagem do tempo e que confirmam a temática existencialista do corpus. Ainda é válido destacar que expressões denotativas de dúvida, negação e de oposição também resultaram palavras-chave no corpus, configurando-se, portanto, em elementos característicos dos textos analisados.

Por último, todos os pronomes pessoais (sujeito, complemento átonos e tônicos), possessivos, demonstrativos e indefinidos foram agrupados em duas listas independentes, a partir dos resultados nos TOs e nos TTs, com o intuito de identificar, por meio das palavras- chave, características inerentes à dêixis pessoal, abordada no capítulo anterior. A lista em espanhol reportou 21 pronomes e a de português 17. O pronome pessoal átono me foi o que

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registrou a maior chavicidade em ambos os subcorpora, inclusive essa foi a palavra que obteve a chavicidade mais elevada, na totalidade das palavras-chave do corpus de estudo.

A Figura 4.7 ilustra o conjunto dos pronomes-chave:

Figura 4.7: Pronomes-chave

A porcentagem de frequência nos TOs foi de 1,18%, a partir de 988 ocorrências do pronome me; no corpus de referência em espanhol, esse mesmo pronome registrou 1.150 ocorrências, correspondentes a uma porcentagem de frequência de 0,23% nesse corpus. Nos TTs, o pronome me registrou 625 ocorrências em posição proclítica, que corresponderam a uma porcentagem de 0,78%; já no corpus de referência em português, esse mesmo pronome reportou 983 ocorrências, equivalentes a 0,19% de frequência nesse corpus. A estes resultados em língua portuguesa, ainda devem ser somados os usos enclíticos do pronome me. Nos TTs, foram constatadas 315 ocorrências do pronome em posição enclítica e, no corpus de referência em português, 201. Somadas essas ocorrências às de posição proclítica, o pronome

me totalizou 940 ocorrências nos TTs, com uma porcentagem de frequência de 1,17% e, no

corpus de referência, 1.184 ocorrências, que representam uma porcentagem de frequência de 0,23%.

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Considerando que os corpora de referência possuem uma extensão aproximadamente seis vezes maior que os corpora de estudo, as diferenças positivas nas porcentagens de frequência de me, tanto nos TOs (0,95%) quanto nos TTs (0,94%), confirmam que o centro de referência na dêixis pessoal está fortemente marcado na 1ª pessoa do singular, com relação aos pronomes átonos. Ainda cabe destacar, em razão desses resultados e do contraste entre TOs/TTs com seus respectivos corpora de referência, a proporcionalidade entre os dados quantitativos. Do conjunto dos pronomes átonos, também resultou palavra-chave a 1ª pessoa do plural nos.

Os pronomes possessivos de 1ª pessoa do singular, tanto nos TOs (mi, mis e mío) como nos TTs (meu, minha, meus e minhas) também resultaram palavras-chave. No subcorpus dos TOs, também foram chave os pronomes possessivos de 1ª pessoa do plural (nuestro e nuestra). O pronome pessoal complemento de 1ª pessoa do singular, mí/mim, também resultou palavra-chave em ambos os subcorpora.

Entre as demais palavras-chave, no conjunto dos pronomes, ainda cabe mencionar o pronome pessoal reto yo, nos TOs, e eu, nos TTs. No primeiro caso, foram totalizadas 259 ocorrências do pronome yo, que representam uma porcentagem de frequência de 0,31% nos TOs; no corpus de referência em espanhol, o mesmo pronome registrou uma porcentagem de frequência de 0,08%. No segundo caso, foram totalizadas 476 ocorrências, que representam uma porcentagem de frequência de 0,59% em relação ao subcorpus de TTs; no corpus de referência em português, o pronome eu registrou 0,31%. Isto é, a porcentagem de frequência mais elevada do pronome pessoal reto eu, se contrastados os subcorpora de estudo e de referência, manteve a proporcionalidade em torno de 0,28% e 0,23% a mais, em relação ao pronome yo.

Por outro lado, a porcentagem superior de frequência desses pronomes, observada em ambos os subcorpora de estudo, em relação aos de referência, reforça as ponderações feitas a respeito do centro dêitico pessoal, em torno da 1ª pessoa do singular, e justifica a análise desse aspecto no capítulo anterior. Foi confirmada, por meio do teste estatístico, a significância das diferenças encontradas entre as proporções, nos diversos contrastes entre os pronomes yo e eu, tanto nos subcorpora de estudo como nos corpora de referência. Também foram palavras-chave os pronomes pessoais ella/ela e, apenas nos TOs, vos (significa você, em português) e nosotros (significa nós), que ocorreram tanto no caso reto quanto no oblíquo, neste último caso quando precedidos por preposição.

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Além dos pronomes pessoais e possessivos, os demonstrativos esos, esa, aquel,

ese e esas foram chave nos TOs; nos TTs, os pronomes demonstrativos que resultaram

palavras-chave foram essa, aquele, esses, aqueles e aquela. Já foram considerados diversos aspectos, em outra seção neste mesmo capítulo, relacionados à dêixis espaço-temporal, determinada a partir dos pronomes demonstrativos. Também constaram entre as palavras- chave alguns pronomes indefinidos: algo, tantos e tantas.

A próxima e última seção deste capítulo introduz a discussão dos resultados da análise e retoma os questionamentos vinculados, principalmente, aos dados quantitativos mais gerais do corpus de estudo e ao exame das palavras-chave, no sentido de resumir os resultados alcançados, em virtude das expectativas iniciais.