Definir narrativa passa por conceitos explorados a fundo pela TSD: sentido, tempo, espaço, movimento ao longo do tempo e do espaço interno e externo (HERMANS e KEMPEN, 1993; HERMANS e KONOPKA, 2010). Uma história narrativa envolve a seqüência de duas ou mais unidades de informações- relacionadas a acontecimentos, estados mentais, pessoas ou ao que quer que seja- de tal modo que se a ordem da seqüencia for alterada, o sentido da história também se altera. É esta sequencialidade que é usada para diferenciar a narrativa das diversas outras formas de coletar e apreender informações sobre o mundo. Distingue-se da abstração da teoria, da momentaneidade do sentimento, da
21 Esta temática é há séculos tratada pela Teologia cristã. Há aqui uma riqueza sapiencial que não pode ser menosprezada pelo psicoterapeuta. Nesta tese, porém, por razão de método, a parte teológica da discussão não será considerada aqui como mereceria (cf. SÁVIO & BRUSCAGIN, 2008; SAVIOLI, 2008; GOMES, 2008), CLINEBELL, 2007). Meu estudo se restringe ao campo da Psicologia da Religião e da Psicoterapia. No entanto, desde o ponto de vista da formação do padre, tenho consciência de que também o psicoterapeuta precisa saber avaliar o peso que a visão teológica (não só a teórica e acadêmica) pode exercer sobre as reações psicológicas do seminarista e sobre seu maior ou menos amadurecimento humano. Também o próprio psicoterapeuta precisa estar consciente de sua experiência subjetiva do sagrado (cf. ANCONA LOPEZ, 2008).
simultaneidade das sensações, do vulto semântico da metáfora e da fixidez dos elementos de esquema. Distinguir-se de modo algum significa que os elementos referidos não estejam contidos na narrativa. Assim a define Kerby (1991, p.39)22:
A narrativa pode ser concebida como o contar uma série de eventos temporais de tal modo que se possa esquematizar uma seqüencia significativa – a história ou trama da narrativa.
Somos animais narrativos (BARTHES, 1982, p. 251-252)23 uma vez que “a narrativa está presente em todas as épocas, em todos os lugares, em todas as sociedades.... a narrativa é internacional, trans-histórica, trans-cultural: ela simplesmente está aí como a vida”. Para investigar e compreender nuances e desdobramentos do self dos jovens em atendimento é preciso ir além da queixa clínica, frequentemente associada à crença positiva e/ou negativa do chamado vocacional. Trata-se de algo como: se fui personagem desta história, então deve haver um sentido inerente a tudo isto que me leva a ser padre. É preciso então escutar as narrativas vindas das mais variadas facetas de meu ser no mundo para encontrar a possibilidade de inovações criativas.
Para Hermans (1999, p.70) “é na interface entre self e outro, como posições opostas numa estrutura espacializada, queu a inovação emerge”. É preciso manejo clínico para descontextualizar o jovem da vida social e comunitária que determina até mesmo suas emoções mais profundas. Inveja, disputa, jogos de poder ocultam o acesso ao mais íntimo de si. Estando eles ocupados com questões institucionais mas esquecidos de si próprios, cabe ao terapeuta ajudá-los a inovar os diálogos internos de modo a resgatar o sentido – ou as motivações – que estão por traz de sua escolha vocacional. Ao facilitarmos a instalação de uma polifonia de vozes internas fornecemos ao cliente uma visão extra, mais criativa e inovadora. Nas palavras de Hermans (1999, p. 84):
Central para esta visão é que a voz do outro é genuinamente independente da voz do próprio autor. Isto é, há uma genuína polifonia se o autor permite aos seus personagens terem status de outro eu, contra as afirmações de sua própria visão de autor. É precisamente este status independente do outro que permite o desvelamento de um outro setor fora do espaço imaginado anteriormente.
22 Apud Rapport e Overing (2000, p. 283). 23 Apud Rapport e Overing, Idem, ibidem.
Inovar é objetivo clínico. Para inovar é preciso entrar em contato com posições e contra-posições do eu. Este contato vai gradativamente instaurando uma meta-posição que passa a gerenciar – sem dominar- as várias outras posições que emergem. As histórias pessoais pinçadas do passado e aquelas vividas no presente da vida religiosa comunitária devem ser inter-seccionadas para visualizarmos o núcleo comum que fará o cliente se ver como agente ou - nas palavras de Pereira (2004, p.285-286), como “instituinte”- na peculiar cultura da Igreja. Sem o corte vertical que dedica atenção específica aos detalhes das histórias narradas me parece difícil ter acesso aos valores que dão sentido à vida dessas pessoas.
O que os faz permanecer e se adaptar às normas severas da Igreja Romana, mesmo quando atenuadas pelo saber das congregações inseridas na realidade cotidiana? Como poderei, no âmbito da psicoterapia ou do cuidado clínico ajudar o florescimento contínuo de condições mais adequadas para a identidade que hoje se postula, voltada para um viver feliz sem perder a visão de infinitude e o compromisso ético presente na espiritualidade cristã? E junto a isto, ainda, investigar pessoas religiosas de modo a construir saber na Psicologia da Religião. Estas perguntas foram sendo respondidas na medida em que me dediquei mais e mais à escuta das narrativas que repetiam um fundo comum nos vocacionados que se apresentavam para psicoterapia: falta de pai, famílias desestruturadas, abusos morais e sexuais na infância, perdas de entes queridos, sérias dificuldades econômicas.
Paralelamente ia se configurando em mim um refinamento que permitia ver cada pessoa como alguém absolutamente diferente de outra que vivia ou apresentava uma mesma ou análoga situação concreta, por exemplo: perda de pai. Passei a encantar-me com esta percepção que parece tão óbvia: cada caso é um caso. Sim, cada caso é um caso e o fundo comum ou enredo não os nivela. No entanto há um fundo comum! A interface da cultura da Igreja com as histórias individuais e com o que há de comum no enredo destas histórias mostrou-se um lugar fértil para a observação e reflexão.
Os relatos me afetavam de modo diferenciado e especial. Ao invés de cair na rotina de atendimentos, passei a viver a experiência de cuidar genuinamente, como quem cuida de muitos e diferentes ‘filhos’ (MASSIH, 2000, passim). Parte dessa sensação devia-se ao que denomino espiritualidade do paciente. Se o que os nivelava era a fala institucional construída ao longo do processo formativo, o que os
diferenciava eram os atos e atitudes pessoais em relação ao que entendiam como transcendência.
Mas não era tão simples chegar a este núcleo. Era preciso um tempo de escuta que espera o brotar da espontaneidade do paciente. Aprofundei a questão da espera na ocasião de meu mestrado (MASSIH, 2000) e agora me reencontrava com ela no acompanhamento de pessoas da vida religiosa católica. Poderia estender-me aqui na questão da confiança em seu duplo sentido: eu como terapeuta espero porque confio que a espontaneidade brotará. O paciente espera até que confie em mim e possa ser espontâneo. Não o farei de modo teórico mas tentarei transmitir esta sensação expressa em forma do verbo/ação – esperar – assim como o vivenciava na escuta ativa dos relatos dos clientes.
Cada um em sua posição: o paciente conta suas histórias enquanto espera o estado de confiança, o terapeuta as escuta e vai entrando no universo do paciente, colocando algo de si, algo do que já ouviu de outros, algo que imagina a partir de um som, uma palavra, um movimento de corpo, um olhar. Enfim, o terapeuta interpreta o que escuta. Geralmente o paciente faz sua interpretação do fato que viveu em primeira pessoa (no passado) ao narrá-lo na sessão. Em outras ocasiões, percebo (ou interpreto) não ser o paciente o personagem central da história. E sigo adiante na interpretação, perguntando: ‘quem’ em você conta essa história? Você está de que lado da história? Do pai que maltratou? Da mãe que falhou? De um personagem que habita o futuro, alguém que perdoa as falhas e segue adiante no percurso da vida?
Com isto os relatos tornam-se questão de uma pesquisa clínica interpessoal: como os demais personagens se inserem na(s) narrativa(s)? Como fomentar e firmar o diálogo com partes do self dos quais o paciente havia se afastado desde tenra idade? Precisava de ferramentas para dar conta deste universo de perguntas que brotavam de minha escuta. Os personagens e as estórias que compõem a história do paciente, com as possíveis versões/interpretações vindas de todos os lados: do passado, do presente e - agora que entramos no ‘circulo hermenêutico’ (GADAMER, 1960; BELZEN, 2010, p.147) - vindas também do futuro, dialogam entre si e re- configuram o enredo. Passamos a buscar o sentido pessoal único de cada estória trazida ao consultório e faremos o possível para não generalizar indevidamente. E - paradoxo! - mesmo sem falar expressamente do religioso, estaremos construindo
saber na interface entre o psicológico e o religioso, dimensões que no fundo são uma só experiência.
Os pacientes em questão mantêm fortes laços com a utopia (MASSIH, 2006) do Reino de Deus, ou seja, de mundo de paz, e fraternidade e justiça e sonham em eles próprios se tornarem um outro Cristo. Sua temporalidade estendida os coloca em diálogo direto com o passado; eles se identificam com santos que viveram há mais de mil anos, cuidam de patrimônios espirituais e materiais que datam de muito tempo. Seu presente se configura num fazer disciplinado, sistemático. Hora para acordar, hora para estudar, hora para dormir, hora para rezar. Como garantia de tudo isto está a Igreja e a congregação religiosa com a qual de identificam.
Passei a ver o tempo presente destas pessoas como um vasto campo de pesquisa: a partir de vivências no tempo presente da sessão poderíamos instaurar o espontâneo que traz à tona a intersecção do que é absolutamente próprio do paciente: ser ele mesmo em conexão com seu projeto vocacional e com a cultura da Igreja.Tudo isto dá sentido às suas vidas e enriquece seus encontros com os personagens do passado, re- significando-os, e com aqueles vindos do futuro: as múltiplas facetas do padre que este jovem deseja ser.Era como se assistisse a uma novela de TV: as posições eram móveis. A cada sessão alguns personagens se destacavam. Alguns tinham presença mais constante, outros eram ‘atores convidados’.
Personalizar-se, presentificar-se como um self em permanente movimento, respeitador dos anseios e das limitações que o papel social de padre cobra do homem que se propõe a dar continuidade à caminhada: esta é a tarefa central do fazer terapêutico e é sobre isto que me proponho a contar. Contar para constituir saberes. Contar para disponibilizar minha interpretação do que apreendo no dia a dia do consultório com estes Dom Quixotes pós- modernos (MASSIH, 2006).