Disponível em:<http://infograficos.estadao.com.br/especiais/favela-amazonia/capitulo-8.php>. Acesso em: 11 dez. 2016.
84 Sting e Rop-ni se conheceram naquela ocasião e logo deram início a uma amizade que ainda hoje perdura. Não demorou muito para que o artista, mundialmente conhecido, se engajasse na luta pela demarcação de terras indígenas no Brasil. Em abril daquele mesmo ano, os dois saíram em turnê mundial para denunciar a destruição do cerrado e da floresta amazônica, bem como o descaso do povo brasileiro para com as populações indígenas, aqui sitiadas. "Sem floresta, morre todo mundo, não só o índio, vocês também", declarava o líder mẽtyktire durante suas coletivas à imprensa.75 Por três meses viajaram mundo
afora visitando diversos chefes de Estado em busca de doações para a criação de uma instituição que ajudasse tanto na conservação do meio ambiente quanto na autodeterminação dos povos indígenas. Ao final, conseguiram reunir cerca de um milhão e meio de dólares e criaram, em Nova York, a Rainforest Foundation, que, entre outros projetos, financiou o reconhecimento oficial de Terras Indígenas pela bacia do Xingu, entre elas, a própria Capoto/Jarina.
A demarcação daquelas terras contíguas, entretanto, não garantiu a qualidade de vida esperada e, em pouco tempo, o desmatamento do entorno, financiado também com dinheiro estrangeiro e favorecido pelas mudanças climáticas, acabou apresentando ao Mẽtyktire o seu mais novo e disforme inimigo: o fogo descomedido das queimadas ilegais. Ele já havia presenciado sua fúria em Roraima, em 1998, quando se prontificou a debela-lo, depois de ver tanta calamidade e sucessivos fracassos das instituições ali envolvidas. Decidiu, dessa vez, enfrentar o descomedimento de outra forma, sem acionar nenhum artífice sobrenatural para tanto. Havia percebido que o caos ali instalado era fruto da ganância alheia, de uma arrogância em escala natural, podendo ser combatida, de início, através de seus guerreiros. Em 2003, depois de tanto descaso e sem ver outra alternativa, passou a preparar um grupo para o combate especializado, fazendo, para isso, uso de sua "célebre mobilidade [...] para fiscalizar seu território regularmente, para estar de prontidão no caso de ataques e para planejar quem e onde eles deviam atacar" (LEA, 2012, p. 77).
75 Sting e Rop-ni durante coletiva à imprensa, no Rio de Janeiro, em 1989. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,fotos-historicas-o-roqueiro-e-o-
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O gavião gigante
A avó chamou os netos Kukrytuire e Ngôkongrí para colher macaúba para comer à tarde. Ela não sabia que tinha ninho do gavião gigante. Eles estavam embaixo do ninho do gavião tirando macaúba para fazer massa. Os dois meninos estavam brincando de tatu embaixo do colonião, vão por baixo do capim e se encontram lá na frente, fazendo: húúú. Enquanto estavam brincando, o gavião pegou a avó e ela começou a gritar. O gavião levou a avó embora e foi para o seu ninho. Lá no ninho, a borduna pequena, caiu. É usada pelas mulheres para arrancar batata, trabalhar na roça. Os meninos ficaram olhando e chorando, levantaram e foram embora. Chegaram na aldeia chorando e pessoal perguntou: Que foi? Gavião comeu nossa avó! Todo mundo chorou. De noite, os pais dos meninos estavam conversando sobre como iriam fazer para os filhos crescerem rápido para vingar a avó. Os meninos eram filhos de duas irmãs que moravam na mesma casa, a casa da avó que morreu. Eles eram primos. Os pais ficaram pensando, pensando, como iam fazer. Falaram: Vamos colocar nossos filhos para crescer na água! De manhã cedo, foram tirar casca de jatobá. Por isso que nós tiramos até hoje casca de jatobá para passar nas crianças, para ficar forte e crescer mais um pouco. Pegaram uma casca para fazer cama e outra para cobrir. Enfeitaram as crianças, pintaram e colocaram enfeites, cortaram o cabelo [tonsura] e levaram para colocar na água. Colocaram o corpo dentro da água e só a cabeça ficou de fora. Os pais ficaram com eles até à tarde e foram embora. No outro dia, foram caçar para eles e trouxeram comida. Pediram para levantar o pé, já estava crescendo. Deram comida para eles e ficaram ali até à tarde e foram embora. No outro dia, os pais foram caçar de novo, trouxeram comida e pediram para levantar o pé: tinham crescido mais um pouco. Ficaram com ele e à tarde foram embora. No outro dia, foram caçar de novo e trouxeram mais comida, colocaram o pé fora da água e já estava bem grande. E foi assim, toda vez que traziam comida, pediam para ver o tamanho. Ninguém conta quanto tempo levou para eles crescerem da largura do Kokati [Tocantins], até encostar o pé no barranco. Os pais chamaram o pessoal para tirar os gigantes da água e lavar. Voltaram para a aldeia. Os pais construíram uma casa para eles no centro aldeia e fizeram a primeira lança com ponta de osso, além da borduna, do machado e do grande arco mẽbêngôkre. Eles pintaram o rosto de preto e os olhos ficaram com a bola preta [íris]. Antes, o olho era só branco. Eles tinham um apito que imitava o gavião, chamavam e, quando o gavião vinha, eles se abaixavam. Ficavam falando um para o outro: Vai você, krà! Não, vai você, krà! Não, vai você, krà! Até que foram. Chamaram o gavião e, quando ele veio, mataram. Todo o pessoal chegou com bordunas e quebraram todo o gavião. Naquele tempo, não existia passarinho como tem hoje. O pessoal assoprou as penas do gavião e viraram todo o tipo de passarinho. Eles foram os primeiros capitães da aldeia. Foi assim que aconteceu.
86 A organização sociocultural Mẽtyktire é, sem dúvida, fruto de um longo processo de interação deste povo com o (seu) meio ambiente, onde o outro não se restringe a imagem do homem, como seu semelhante, por mera aparência, um quase igual; pelo contrário, alcança outros seres vivos, naturais e sobrenaturais, moventes e não moventes, como animais e plantas, espíritos e alguns poderosos demiurgos. É um mundo extremamente complexo, que se reorganiza a todo instante, a cada desafio que lhe é imposto. As aldeias mẽbêngôkre mais antigas, por exemplo, eram bem maiores que as atuais e algumas possuíam, inclusive, duas casas dos homens: uma na parte leste e outra na parte oeste da praça; e até três círculos concêntricos de casas, de acordo com Turner (1992, p. 317), contrariando, desta forma, a teoria apresentada por Steward, em 1946, sobre o nomadismo Jê com horticultura incipiente.76 O arranjo instituído após o contato com a sociedade
nacional manteve apenas uma casa dos homens e um único círculo concêntrico. E mesmo com a propalada pacificação (?) e um relativo crescimento populacional, o receio de novas epidemias e de uma provável disputa entre as casas levou este povo a se organizar desta maneira,77 ajustando melhor a estrutura ao plano ideal,
já que no mito do gavião gigante, aqui colocado em evidência, "os pais construíram uma casa para eles no centro aldeia e fizeram a primeira lança com ponta de osso, além da borduna, do machado e do grande arco mẽbêngôkre".78
Lea (2012, p. 88) descreve uma representação feita por um homem em Gorotire, onde este comparou uma aldeia ideal ao corpo humano, tendo os dois as mesmas subdivisões. A metade leste (kraj) representaria as pernas (te) e a oeste (ênhôt) a cabeça (krã). Os lados setentrionais e meridionais seriam "os lados da barriga", porque o norte e o sul, ao contrário do eixo leste oeste, não são reconhecidos como pontos cardeais pelo Mẽbêngôkre, tendo eles pouca
76 . "[...] com Lévi-Strauss, os povos jê deixam de ser considerados primariamente como exemplo atípico de "cultura marginal" para se converterem na versão tipicamente sul-americana de organização dualista, e o paradoxo do "complexo matrilinear" entre os povos inferiores se transforma no problema da estrutura social centro-brasileira" (COELHO DE SOUZA, 2002, p. 71).
77 "Turner (1992, p. 328) argumenta que o contato com não índios exacerbou conflitos internos e levou a uma corrida armamentista entre os diversos bandos de Mẽbêngôkre na tentativa de proteger-se dos colonizadores, e subsequentemente de suas próprias facções inimigas" (LEA, 2012, p. 124).
78 "Em seguida, o pai construiu para os filhos uma casa enorme, de troncos de buriti, onde os dois jovens gigantes passaram a morar" (LUKESCH, 1976, p. 56).
87 importância. Já a casa dos homens seria uma espécie de umbigo da aldeia,79 onde
o Sol, quando em seu zênite, incide diretamente, imprimindo, sobre as demais casas, sua escaldante circunferência. Essa totalidade englobante, formada pela casa dos homens, ao centro, e pelo círculo de "matricasas",80 ao seu redor, todas
em oposições complementares, constitui a dialógica Mẽtyktire para uma vida em comunidade. No entanto, apenas duas aldeias em Capoto/Jarina possuem este formato ideal. As demais, formam um aglomerado de duas ou três casas de famílias extensas ou nucleares, ou se formaram a partir dos resquícios de alguma ocupação antiga, como no caso exclusivo de Piaraçú.
Foto 08: Aldeia Piaraçú, TI Capoto/Jarina, 2016.