Disponível em:<www.socioambiental.org/esp/soja/3.shtm>. Acesso em: 19 nov. 2016.
Passei a ouvi-lo atentamente, a partir daquele instante, e não demorou muito para que ele me impressionasse com seu ponto de vista a respeito do fogo e seu efeito nefasto quando em mãos estranhas e irresponsáveis. E depois de uma tarde inteira de conversas e traduções simultâneas, um convite inesperado surgiu: ir visitar sua terra e conhecer a realidade mais de perto. Vontade não faltava, mas o corpo de bombeiros não possuía sequer viatura adequada nem combustível suficiente para tal empreitada, mesmo estando aquela reserva dentro da nossa dissimulada circunscrição. A única caminhonete estava sendo improvisada como ambulância, justamente por não ter nenhuma ambulância. A maca era uma tábua improvisada e a (s) vítima (s) seguia (m) na carroceria a céu aberto. Dito isto, Megaron se prontificou a me levar, ficando eu de informar data oportuna tão logo obtivesse autorização para o deslocamento (sim, era preciso, cumprir nossa missão não era preciso). Saí dali já era noite e no caminho de volta muita coisa se passou pela minha cabeça. Algumas faziam sentido, outras não. A sensação de estar ao
49 lado deles era boa e a vontade de servi-los cada vez maior, porém, havia obstáculos a serem vencidos de forma legal, o que me fazia incessantemente perguntar: como proporcionar-lhes segurança pública de qualidade, sendo este o meu dever, sem poder contar com uma estrutura adequada, apoio institucional e vontade política? Era preciso encontrar uma solução à altura e fechar, de vez, aquela chamada ainda em aberto...
Já era dezembro e cansado de esperar pela autorização que nunca chegava, pela ação ministerial que não acontecia (segundo um ilustre promotor, pela ausência de nexo causal entre a poluição provocada pela queima de biomassa e os danos à saúde humana, ou seja, pela falta de provas da relação existente entre a conduta do agente e o resultado produzido, como se não houvesse outras tipificações penais possíveis) e pela minha promoção que havia sido preterida sem justo motivo, só para beneficiar outro oficial, o próximo da lista, decidi procurar o Ministério Público Federal (MPF) e a Ouvidoria Geral do Estado (OGE), em uma ida programada a Cuiabá. Recebido sem demora pelo agora governador de Mato Grosso, relatei a situação de forma sucinta e entreguei um histograma contendo a distribuição geográfica dos focos de calor no Estado. Ele me ouviu atentamente para depois dizer que estaria analisando o caso na forma da lei e tomando as providências cabíveis, se necessárias fossem. Era o que eu precisava ouvir. Solícito, ainda se dispôs a encaminhar ao MPE minha queixa contra a comissão de promoção do corpo de bombeiros. Agradeci, mas não quis incomodá-lo com assunto tão particular. Já estava bastante satisfeito com a reunião e sai dali em direção ao órgão ouvidor, convicto dos meus direitos. Dias depois, o Diário Oficial do Estado (DOE), de 08 de janeiro de 2004, trazia publicado a minha promoção ao posto de Major Combatente, a contar de 02 de dezembro de 2003, após parecer expedido pela Procuradoria Geral de Estado (PGE).
Justiça feita, faltava ainda uma coisa: atender ao convite de Megaron, mesmo que tardiamente, já que as chuvas haviam chegado naquela região. Decidi encarar de frente a situação e não esperar mais por uma autorização expressa, ilegal e imoral. Afinal, não pretendia extrapolar nenhum limite fora daquele "panóptico", pelo contrário, queria apenas estar presente onde o corpo de bombeiros já deveria estar. E assim foi feito. Partimos em direção ao Xingu ainda naquele mês, testemunhando, desde o início do percurso, o rastro de destruição
50 deixado pelo fogo. De Colíder a Matupá não se avistava mais floresta, apenas pastagem para pecuária extensiva e muita degradação ambiental. Na MT-322 (antiga BR-080) a situação não era diferente, contudo ainda se notava alguns trechos de floresta paralelos à estrada, mas bastava sair poucos metros do seu eixo para ver que se tratava de uma dissimulação grotesca para esconder a devastação daqueles que por ali passavam. E quanto mais próximo do nosso destino, mais evidentes eram os sinais de "terra arrasada".40
O bote mortal contra a Amazônia é armado na moita. Primeiro, o fazendeiro contrata uma madeireira para arrancar mogno de suas terras. Depois, vende outras árvores nobres, como a castanheira, o ipê e o cedro. A motosserra abre grandes clareiras na mata. Enfraquecida, a floresta sofre. A vegetação das bordas morre. Alguns fazendeiros mandam cortar também as madeiras brancas, usadas na fabricação de compensados e tábuas para a construção civil. Quando a floresta está esgotada, o fazendeiro dá o golpe final. Acende tochas feitas com pneus velhos e toca fogo. A mata arde por alguns dias. No momento em que o fogo se apaga, só restam cinzas e poucos troncos teimosos fincados como palitos na paisagem calcinada. À primeira chuva, o fazendeiro semeia capim (VEJA, 07 abr. 1999, p.108).
Depois de sete horas e meia de viagem e trezentos e cinquenta quilômetros percorridos até a margem esquerda do rio Xingu, sendo os últimos quarenta, reserva adentro, era preciso ainda atravessá-lo. Não havia nenhuma ponte ligando as duas margens e a travessia seria feita com apoio de uma balsa tomada do governo estadual, em 1984, em resposta às suas artimanhas para não demarcar terras tradicionalmente ocupadas. Ela já estava a meio caminho de nós quando Megaron aproveitou o momento para me dizer que a posse daquela embarcação, mantida mesmo depois da reivindicada demarcação, era para ter o controle de quem por ali passava, não os fazendo menos índios por isso, já que sua importância era de ordem exclusivamente simbólica, "como a de um troféu que nos faz lembrar de vitórias passadas", enfatizou. Despojo de guerra, aquele meio de transporte estava sendo mantido com o que se recebia por cada veículo transportado e durante período chuvoso quase não se navegava com ela. Do pouco dinheiro que entrava, a maior parte era separada para cobrir as despesas geradas
40 A tática de "terra arrasada" foi uma estratégia militar utilizada pela Rússia em conflitos contra potências europeias como a França de Napoleão e a Alemanha Nazista. Consiste basicamente na retirada civil e militar do território em conflito, destruindo tudo o que existe para que a tropa inimiga que adentra o território encontre um ambiente hostil.
51 com manutenção e obtenção de combustível e, com o que sobrava, atendia-se as necessidades mais urgentes como, por exemplo: a) compra e reparo de equipamentos de utilidade pública como radiocomunicadores, geradores de energia, barcos e motores de popa, ferramentas e utensílios em geral; b) transporte, hospedagem e alimentação de pessoas quando a luta, a burocracia e a doença as convocam até a cidade; c) aquisição de gêneros e produtos alimentícios de primeira necessidade, quando em festa ou quando o sol e o fogo lhes imputavam severos castigos.
Foto 04: Tomada da balsa do Xingu. Fonte: Cynthia Brito, 1984.