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Esperamos a barcaça atracar do nosso lado para, então, iniciar a travessia daquele majestoso rio. De volta à terra firme, retomamos a estrada de chão batido e percorremos cerca de dois quilômetros até as imediações da aldeia Piaraçú.41 Saímos da estrada, dobrando à esquerda, e seguimos em direção à casa

central, onde havia algumas pessoas. Entramos em silêncio, sem precisar pedir

41 Criada no ano de 1980 como Posto Indígena de Vigilância, logo após o confronto entre índios e colonos da região, na margem direita do rio Xingu, Piaraçú passou, com o tempo, a receber cada vez mais moradores da região e se tornou uma aldeia interétnica, de predominância Kayapó.

52 licença, e tomamos assento ao lado dos demais presentes. Não havia mulheres naquele local, apenas homens das mais variadas idades e alguns poucos meninos brincando num dos extremos daquela cobertura de palha. O encontro me fez lembrar o primeiro contato em Colíder, só que dessa vez não havia porta nem paredes para nos confinar. Passamos a escutar os oradores a partir daquele momento e, aos poucos, mesmo sem entender o que estavam dizendo, fui percebendo a importância do discurso bem proferido, entre os membros daquela comunidade.42 Todos ali estavam empenhados em buscar a melhor performance e

parecia ser ela algum tipo de virtude desejada pela maioria dos falantes. O ambiente em tudo fazia lembrar a ágora, uma espécie de praça principal das antigas cidades gregas.43

Já estávamos no meio da tarde quando Megaron pediu a palavra para me apresentar e explicar, na presença de todos, o que ali estava acontecendo. E o assunto do dia era precisamente este: o uso desenfreado e irresponsável do fogo no entorno da Terra Indígena Capoto/Jarina.44 De acordo com seu relato, houve ali

quem abordasse o problema relembrando ocorrências passadas onde a queima da vegetação nativa, ao redor das suas terras, havia ultrapassado os limites estabelecidos pela lei e a fumaça invadido suas aldeias com seu "veneno" sempre nocivo; quem se lembrasse do evento em Roraima, em 1998, quando precisaram intervir em favor da vida por ocasião do incêndio florestal deflagrado por colonos; e ainda quem se dispusesse a contar suas próprias histórias, como a de um incêndio global provocado por um bicho-preguiça que, contrariado por duas crianças, acabou extinguindo quase toda a humanidade da superfície terrestre. Um dilúvio às

42 "O contador indígena costuma fazer seu relato com grande vivacidade e, quase sempre, acompanha com gestos e mímica de ator a descrição dos acontecimentos em pauta; por vezes, tal representação dramática até chega a substituir a palavra falada, constituindo seu complemento e sua continuação (Koch-Gruenberg, 1921: III). O índio Caiapó imita a voz e os gestos de homens, espíritos e animais. Frequentemente, representa cenas inteiras, como de uma luta de vida e morte, uma fuga, uma caçada emocionante, a aparição de espíritos, etc" (LUKESCH, 1969, p. XIX). 43 "O estudo de Vernant a respeito da praça (ágora) na Grécia antiga pode ajudar a compreender o modelo espacial das aldeias mẽbêngôkre [...]. As analogias entre as cidades da Grécia antiga e as aldeias Jê me surpreenderam. A casa (oikos) designa tanto a habitação quanto o grupo humano que nele reside (1973, p. 119). Segundo Vernant, a ágora surgiu do costume indo-europeu de ter uma classe de guerreiros que se reuniam em formação militar, formando um círculo (1973, p. 163). Em grego antigo, uma expressão sinônima de 'tornar público' é 'colocar no centro' (1973, p. 164)" (LEA, 2012, p. 396-397).

44 Decreto de 25 de janeiro de 1991. Homologa a demarcação da TI Capoto/Jarina. Disponível em: <http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=112128&norma=134659>. Acesso em: 25 ago. 2016.

53 avessas: uma inundação cataclísmica com fogo onde sobrevivera apenas a família de um poderoso xamã que, por força da sua poderosa magia, logrou salvar a humanidade de sua extinção total.

Era visível a preocupação daquele povo com os incêndios florestais e, neste sentido, falávamos a mesma língua. Honrado com o direito de me manifestar perante aquela assembleia, meu pronunciamento, feito na sequência, caminhou também nessa direção. Aproveitei a ocasião para explicar que minha opinião nem sempre refletia ações da parte institucional e que ali estava como cidadão ativo e solidário, atento à discriminação sofrida por aquele povo, justamente por falta de segurança pública. Coloquei-me à disposição novamente e sugeri-lhes uma visita ao MPF com o propósito de denunciar o cerco instalado pelo fogo e solicitar sua intervenção em todos os atos do processo. Megaron não perdeu tempo e perguntou-me sobre a possibilidade de treinar guerreiros do seu povo para que eles mesmos pudessem atuar em caso de necessidade extrema. Um pedido até então inusitado, porém legítimo, já que a iniciativa preencheria, em tese, os requisitos necessários para a exclusão de ilicitude (perigo atual, proteção do direito próprio ou alheio, situação de perigo não causada voluntariamente pelo agente, inexistência do dever legal de enfrentar o perigo), não havendo, inclusive, sacrifício de bem alheio: o que dispensaria o critério da razoabilidade entre a gravidade do perigo que ameaça o bem jurídico do agente ou alheio e o dano que será causado em outro bem para afastá-lo.

Mas algo ainda me intrigava e, por um instante, fiquei sem entender toda aquela situação, sobretudo, depois do ocorrido em Roraima. Não seria melhor fazer chover, quando necessário, e restabelecer a ordem dessa maneira? Perguntei. Como resposta, recebi de meu anfitrião a seguinte analogia: "para doença de índio remédio de índio, para doença de branco remédio de branco". Apesar de esclarecedora, o evento em Boa Vista ainda não se encaixava naquela relação, já que o fogo ali colocado não era de responsabilidade do índio e nem o remédio do branco havia o curado. Isto posto, escutei que a iniciativa indígena, naquela ocasião, foi necessária, pois tanto o índio quanto o branco estavam ficando doentes, carecendo, portanto, de uma ação mais contundente, especializada, feita com cautela e somente em última instância. Além do mais, continuou ele, os jornais diziam que "só a chuva pode [ria] salvar Roraima do fogo" (CORREIO

54 BRASILIENSE, 1998, p. 09). E de chuva entendiam eles, tendo ela como um ancestral em comum. Foi o suficiente para mim. Fiquei de escrever um projeto para captação de recursos junto aquela fundação nacional e entregá-lo o quanto antes, sem perder de vista a próxima estiagem. Passamos o sábado visitando outras aldeias à jusante daquele curso d’água e no domingo retornamos ao caos das nossas cidades.

Submeti o projeto naquela mesma semana e Megaron tratou de encaminhá-lo com a máxima urgência para Brasília. Não era muita coisa, apenas alguns poucos equipamentos e combustível suficiente para uma eventual mobilização entre as aldeias. Confiantes, passamos a esperar pela ajuda prometida da coordenaria de projetos especiais, contudo, nenhuma resposta de lá chegava. Como já estávamos no meio do ano e o entorno já acumulava mais de mil focos de calor, decidimos agir diferente e não esperar mais pela burocracia nem pela boa vontade de pessoas que se diziam compromissadas com a causa indígena. Adquirimos alguns equipamentos de proteção individual (EPI), tratamos de improvisar os de combate e agendamos uma data para o início do treinamento. Nesse interim, descobrimos, em São José do Xingu, um lote de equipamentos entregues àquele município pelo PREVFOGO e abandonados, posteriormente, num depósito da prefeitura, sem nenhum tipo de proteção e cuidado.

Por conta do seu posicionamento estratégico, da telecomunicação ali disponível e da sua história de luta, escolhemos Piaraçú como centro de treinamento e difusão. Coube às lideranças a seleção dos candidatos e uma semana depois vinte e um voluntários (era o que tínhamos de equipamento de proteção individual) já estavam em condições de atuar tanto na prevenção de incêndios florestais quanto no combate de focos iniciais. A língua foi a principal barreira durante a capacitação, contudo, o desejo de aprender daqueles guerreiros superou todas as minhas expectativas. De algum modo, nada do que transmiti era novidade para eles, exceto alguns poucos equipamentos de segunda mão. Cheguei a duvidar do nosso protagonismo enquanto detentores daquele conhecimento e a pensar que talvez tenhamos "apreendido" a manejar o fogo com os seus antepassados, antes de nos apropriar daquelas técnicas e transformá-las nesse

55 esquema de coisas que trata a natureza como matéria-prima e não mais como um mundo que emerge de si.45

Mesmo com o entorno tomado pelo fogo e quase nenhum equipamento disponível, foi possível contê-lo em diversas oportunidades e reduzir de cento e nove para setenta e três (isto é, de um ano para outro) o número de focos de calor no interior da Terra Indígena Capoto Jarina. Ainda que estes números traduzam apenas quantidade, deixando de lado aspectos culturais relevantes como, por exemplo, os da queima por eles praticada, tanto para o manejo das roças de subsistência quanto para proteger, estimular e diversificar pequenas porções de florestas, ao invés de criar grandes campos (POSEY, 1985, p. 143), sua distribuição espacial, aliada a cartografia do bioma, acabou servindo como base de dados para uma proteção etnoambiental mais efetiva. Os alertas de fogo eram transmitidos, grosso modo, por telefone e de lá retransmitidos, através de radiotransmissores, até as aldeias mais próximas. Os mais velhos acompanhavam atentamente os trabalhos e Megaron encaminhava, sempre que possível, uma carta-imagem com os focos de calor acumulados no período, além de combustível e mantimento extra. Estes últimos, porém, perdiam-se pelo caminho ou chegavam em menor quantidade, comprometendo o desempenho das atividades desempenhadas por aqueles guerreiros. Lamentavelmente, ele não podia contar com mais ninguém dentro daquela administração regional. Todos os servidores ali lotados deixavam transparecer, nitidamente, a insatisfação em ter um indígena como chefe e minha aproximação os enfureceu ainda mais.

45 "A primeira dessas distinções está entre o que os gregos chamaram de physis e poiesis. Physis geralmente é traduzido como natureza. Os gregos entendiam a natureza como um ser que se cria a si mesmo, como algo que emerge de si mesmo. Mas há outras coisas no mundo, coisas que dependem de que algo passe a existir. Poiesis é a atividade prática de fazer. Dela os seres humanos se ocupam quando produzem algo. Chamamos o que é criado de artefatos e incluímos entre eles os produtos da arte, do artesanato e os da convenção social. A palavra techné na Grécia antiga significa o conhecimento ou a disciplina que se associa com uma forma de poiesis. Techné está na origem das palavras modernas para técnica e tecnologia nas línguas ocidentais, embora, como verão, estas tenham adquirido um significado um pouco diferente. Por exemplo, a medicina é uma técnica cujo objetivo é curar o doente; a carpintaria uma técnica cujo propósito é construir a partir da madeira. Na visão grega das coisas, cada técnica inclui um propósito e um significado dos artefatos para cuja produção se orienta. Note-se que, para os gregos, as technai indicam o 'modo correto' de fazer coisas de maneira muito forte e definida, em um sentido imanente, absolutamente objetivo. Embora as coisas que são feitas dependam da atividade humana, o conhecimento contido nas technai não é matéria de opinião ou intenção subjetiva. Até mesmo os propósitos dos artefatos compartilham dessa objetividade, na medida em que estão definidas pelas technai" (FEENBERG, 2010, p. 52).

56 Não conseguimos ir adiante em 2005. Sem nenhuma resposta de Brasília e sem nenhum recurso para aquisição de novos equipamentos, decidimos optar pela mobilização somente em casos de extrema urgência. Os alertas de fogo continuaram sendo enviados até a aldeia Piaraçú e por diversas vezes organizaram-se para o combate das chamas com o que tinham disponível. Graças à ação da Curupira, operação desencadeada pelo MPF com o apoio da Polícia Federal (PF) e que culminou na prisão de cento e vinte e sete pessoas, sendo oitenta e duas em Mato Grosso, entre elas, o então secretário estadual de meio ambiente e o superintendente regional do IBAMA, 46 o número de focos de calor

detectados no Estado sofreu uma significativa redução em relação ao ano anterior. Com efeito, a presença dessas instituições integrantes dos ciclos de polícia e da persecução criminal atenuou, consideravelmente, a pressão exercida pelo agronegócio sobre as TIs, de modo geral, inclusive, as da bacia do Xingu, provando que ainda é melhor prevenir (e reprimir ilícitos) do que remediar, ainda mais se o remédio administrado for puro placebo, como os que se têm visto dentro dos órgãos ambientais e da defesa civil.

Em 2006 não foi diferente no que se refere a falta de recursos, porém, estávamos dispostos a improvisar mais uma vez. Eu havia sido transferido naquele início de ano para Cuiabá, depois de autorizar a interdição da arquibancada montada para maior e mais tradicional exposição agropecuária da região (que permaneceu isolada até sua adequação, um dia depois, mesmo após a intervenção do governador do Estado, que se recusou a dar a ordem por escrito) e ser responsabilizado, por boca miúda, pelo surgimento das operações contra o desmatamento e a exploração ilegal de madeira, naquela região. Mesmo servindo na capital, decidi fixar residência em Colíder para que pudesse manter minha palavra com Kayapó e ainda continuar lutando pela instalação de uma unidade do corpo de bombeiros naquele município, autorizada, em 2005, por um comandante- geral, e desautorizada, por outro, em 2006, alegando não ter efetivo nem equipamento suficientes, quando na verdade dirigia seus esforços para a construção do quartel em Lucas do Rio Verde, em parceria com a Amaggi, Friagil

46 Nota sobre a operação Curupira, desencadeada em Mato Grosso, em 2005. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0306200501.htm>. Acesso em 22 nov. 2016.

57 e Sadia, tradings de commodities agrícolas que buscavam, naquela mesma época, proteção particular, pagando, inclusive, menos seguro.

Fui lotado no setor que era responsável pelas unidades do interior. Não havia função ali para mim: passei apenas a cumprir o expediente, comer e pernoitar no quartel. Finais de semana alternados viajava para rever minha família e saber notícias do projeto lá no médio Xingu. E foi assim até o dia 29 de setembro daquele ano, uma sexta-feira, data do fatídico acidente aéreo envolvendo um Boeing 737- 8EH e um Embraer Legacy 600. Já estava em casa quando Megaron entrou em contato comigo dizendo que seu povo havia avistado "um avião muito grande caindo do céu", nas mediações da aldeia Piaraçú. Ele me pediu ajuda mais uma vez. Queria saber do ocorrido, se havia ou não alguma aeronave desaparecida naquela região. Tentei contato com o quartel de Alta Floresta, mas não sabiam ainda de nada. Apenas me disseram que um militar da base aérea do Cachimbo havia entrado em contato para saber de alguma ocorrência envolvendo uma aeronave daquele porte, na região de Peixoto de Azevedo. Era um indício forte, precisava ser checado de alguma maneira. Informei minha suspeita ao comandante do interior (que por acaso, era meu chefe), que imediatamente me autorizou a seguir viagem com a equipe da FUNAI. Não havia, naquele momento, outro oficial dentro daquela circunscrição. Meu substituto estava de férias e o efetivo continuava o mesmo...

Saímos da região do acidente depois de encontrar uma pequena parte da aeronave, além de outros componentes internos, confirmando, com isso, o acontecido. Era preciso buscar ajuda, indicar aquela localização com a maior brevidade possível. Havíamos percebido uma movimentação intensa de aeronaves vindo em nossa direção e, como não conseguíamos fazer nenhum tipo de contato, decidimos ir até a fazenda mais próxima para que isso se efetivasse de vez. Já havia se passado dois dias e a Força Aérea Brasileira (FAB) estava ali montando sua base de operação com o apoio de uma das empresas aéreas envolvidas no acidente... Uma equipe do corpo de bombeiros de outra circunscrição estava por lá com orientação de não se envolver naquela ocorrência e apenas prestar serviços de menor envergadura, isto é, fora das suas atribuições constitucionais e de acordo com a conveniência pessoal (como, por exemplo: relações públicas), deixando de lado a busca e o salvamento. O comando político da minha instituição havia se

58 esquivado de tal responsabilidade justamente para não expor a falta de estrutura e de pessoal qualificado para operações naquele ambiente. Nossa chegada foi marcada com muito pouco caso e sequer houve diálogo entre o comandante da operação e os servidores indígenas da FUNAI. Tentei intermediar a situação. Foi constrangedor. Por um momento, fiquei sem entender toda aquela rispidez. Afinal, corpos e destroços estavam à deriva no interior de uma terra indígena.

Depois de tudo que vi e ouvi, durante um brevíssimo encontro pautado, desde o início, pelo sarcasmo e o preconceito daquele e de outros boçais ali reunidos ("tira esses índios daqui"; "esses caras comem gente, sabia?"; "não estamos precisamos de canoa nem de arco e flecha para o resgate"; "dança da chuva de novo não, precisamos voar com o tempo firme"), decidi fazer uso do telefone daquela fazenda e relatar toda aquela situação ao meu superior imediato. Mostrei a ele toda minha preocupação com a segurança no local do impacto, pois tudo estava muito disperso e nada havia sido feito a respeito. Expliquei que as operações seriam aerotransportadas, enquanto houvesse luz do dia, e que depois cessariam, ficando tudo desguarnecido. Expliquei ainda que (além da nossa missão constitucional, ali freada por circunstâncias meramente políticas) me sentia "obrigado" a prestar esse tipo de "assistência", mesmo que ao lado de uma equipe da FUNAI, com base no Artigo 51 do Código Brasileiro de Aeronáutica (BRASIL, Lei 7.565, 1986).

Tirei os "índios" dali... Fui autorizado a acompanhá-los dentro dos seus limites. Na verdade, havia motivos para que eu me preocupasse também com a integridade moral daquelas pessoas. Não queria que fossem vítimas de acusações levianas movidas, às escuras, tanto pelo oportunismo quanto pelo ódio. Estava ali para servir também de testemunha, caso houvesse necessidade. A insensibilidade daqueles que nos trataram com descaso não havia me deixado outra alternativa. Se tivessem ouvido e levado em consideração o que eles tinham a dizer, talvez de canoa o resgate tivesse sido menos demorado, já que o nosso acampamento estava a menos de sete quilômetros do epicentro do impacto. Passamos a patrulhar seu perímetro até o final das operações e abrimos uma clareira para pouso e decolagem de helicóptero. Nossa iniciativa havia deixado muita gente (branca) furiosa e, sem entender toda aquela perseguição floresta adentro, Megaron decidiu chamar a imprensa e revelar o que ali estávamos fazendo. Era a única maneira de

59 mostrar a verdadeira realidade e acabar, de vez, com as calúnias e os ditames expedidos por chefes mal-intencionados, dispostos a se desfazer de seus erros às custas daquelas pessoas de bem e, por isso, não estavam preocupados com a segurança do perímetro nem com a aproximação de curiosos. Afinal, eram "índios" e a aeronave havia caído bem no quintal de suas casas. Mas não sabiam eles que para o Kayapó e o Yudjá tudo que pertence aos mortos acaba sendo queimado ou enterrado com o defunto, diferentemente de outros costumes.47 Além do mais, a

história tratou de mostrar que o verdadeiro destino dos pertences pilhados daquele local estava em outros quintais, bem longe dali.48

Após o encerramento das buscas, minha situação que já não era boa tornou-se insustentável, complicando-se de vez. Precisou de uma intervenção pouco amistosa daquelas lideranças indígenas, junto ao governador do Estado, para que os fatos, até então deturpados, propositalmente, fossem esclarecidos a contento. Fui, então, cedido à Casa Civil e lotado na Superintendência Estadual de Assuntos Indígenas, um órgão assistencialista de caráter duvidoso, mas que em nenhum momento criou dificuldades para que eu não pudesse retomar o projeto iniciado em 2003. E mesmo estando à disposição daquela pasta, jamais tive a sensação de estar realizando outra função, pelo contrário, tentava preencher um dos vazios deixados pelo fraco planejamento estratégico do corpo de bombeiros, que insistia em remar contra as demandas regionais e culturais, priorizando os ri (s) cos provenientes de alguns poucos centros urbanos, bem como a cadeia alimentada pelo agronegócio, deixando metade da população desprotegida e a maior parte do território desassistida. Do exposto, basta lembrar que dos cento e quarenta e quatro municípios mato-grossenses, apenas dezessete possuem,