Years until exercise
8.0 Summary and conclusion of the dissertation
Conforme Ballone (2010) o aspecto para o qual se dirige a atenção é chamado de alvo perceptual e motor. Para explicar esse conceito, o autor faz uma analogia entre o focalizar da consciência e um alvo de tiro. O foco nessa perspectiva é “o elemento que, em dado momento, constitui o ponto central do campo da consciência” (BALLONE, 2010, p.4). Dessa maneira, tudo que é focal é percebido como uma concentração da atenção e uma secundarização dos elementos que estão fora deste campo. Há uma capacidade para concentrar a atividade psíquica em uma só coisa, que exclui total ou parcialmente as demais.
Para o autor, a duração de um determinado foco de atenção é breve, porque há uma constante passagem da atenção de uma parte da realidade para outra, visto que existe, tanto na atenção quanto em todos os processos psicológicos, uma forma de saciedade. Essa saciedade tende a inibir a continuidade da atenção em determinada direção, como se a pessoa estivesse continuamente em busca de novidades perceptivas.
Outro motivo para a passagem da atenção de uma parte da realidade para outra é a obtenção da organização perceptual (BALLONE, 2010). É difícil ou impossível, por exemplo, organizar o todo a ser percebido com um único olhar. Sendo assim, o autor analisa (2010, p.6):
A amplitude limitada da apreensão comprova que quanto maior a divisão da atenção menor a sua qualidade, acentua a necessidade da organização perceptual. Quando algumas partes do campo são
organizadas em todos maiores, a atenção necessária para percebê- las eficientemente será menor do que quando as partes são simplesmente observadas separadamente. Através da organização e do agrupamento de objetos a serem percebidos podemos estender a amplitude da atenção. Se separamos nove grãos de feijão em 3 grupos de 3 grãos, podemos vê-los mais facilmente. Este é um exemplo simples do princípio segundo o qual a organização tem como função permitir à pessoa dirigir a atenção para maior quantidade de material (BALLONE, 2010, p. 6).
Para Ballone (2010), esses aspectos temporais da organização perceptual são importantes, porque a percepção adequada envolve, invariavelmente, mudanças sucessivas de focos de atenção. Os aspectos organizacionais são, por exemplo, fundamentais para um artista que precisa construir sua obra de arte de forma que o olho do observador se dirija a um determinado ponto de um quadro ou estátua. Sem esse elemento organizacional a percepção dos detalhes alocados no objeto não seria possível.
O ato de perceber deve ser entendido na apreensão de uma totalidade de modo a identificá-la em sua integralidade, e não como uma simples soma dos elementos isolados captados pelos órgãos sensoriais. O todo sensorial caracteriza uma determinada forma, e essa forma percebida pelos sentidos será qualitativamente diferente daquilo que representa suas partes isoladas.
Para Ballone (2010) há duas qualidades importantes da atenção: a tenacidade e a vigilância. A primeira qualidade refere-se à capacidade de manter a atenção orientada permanentemente em determinado sentido, focando um ponto definido e preciso, enquanto a segunda promove um desvio da atenção para vários objetos, especialmente para estímulos do meio exterior. Essas duas qualidades da atenção são inversamente proporcionais, ou seja, quanto mais tenacidade sobre um determinado objeto, menos vigilância.
Figura 6: Tenacidade e vigilância.
Fonte: BALLONE (2010, p. 7).
De acordo com a figura, temos na tenacidade focalização e reunião dos recursos mentais em determinado objetivo. Já na vigilância, há uma pulverização do foco sem essa reunião dos recursos mentais (BALLONE, 2010).
Por conseguinte, a tenacidade é marcada pela concentração quando a atenção se orienta para um único objeto e os demais ficam numa zona obscura. No entanto, no objeto em que se concentrou a atenção, descobre-se uma infinidade de detalhes que haviam passado despercebidos quando este se achava imerso nos demais (BALLONE, 2010).
A concentração da atenção está determinada pela seleção de um círculo limitado de objetos ao que ela está dirigida. Quanto mais reduzido é esse círculo de objetos, mais concentrada é a atenção. Do ponto de vista fisiológico, a concentração da atenção é a limitação muito manifesta do foco de excitabilidade ótima do córtex cerebral (GONOBOLIN & SMIRNOV, 1969).
Conforme Ballone (2010) deve-se considerar dois aspectos no ato de concentrar a atenção. O primeiro aspecto ocorre quando se coloca determinado estímulo em primeiro plano no campo da consciência, mantendo seu conteúdo rigorosamente destacado e sem deixar-se desviar por influências excêntricas do campo da consciência. Esse processo ocorre por meio de uma escolha intencional
do sujeito. O segundo concerne ao aspecto temporal da atenção. Ballone (2010) considera que a passagem da atenção de uma parte da realidade para outra é desencadeada pela limitação da quantidade de material que pode ser incluída no foco de atenção, em cada momento considerado, uma vez que o ser humano pode apreender apenas uma proporção limitada da realidade.
O autor considera, ainda, que essa amplitude da atenção “se refere ao número máximo de objetos que podem ser percebidos” (BALLONE, 2010, p. 5). Como ilustração, afirma que, ao espalhar um pequeno número de grãos de feijão para verificar quantos existem, constataremos que cometeremos poucos erros caso sejam cinco ou seis os grãos, logo, a partir dessa quantidade, aumentaria a possibilidade de equívoco.
A intensidade da atenção se caracteriza pelo grau de direcionamento do foco da atenção para um determinado alvo, bem como pela abstração simultânea de todos os demais estímulos. Essa é a manifestação mais clara daquilo que, em geral, caracteriza a atenção. Quando tem uma atenção intensa, o sujeito está concentrado naquilo a que a atenção está dirigida, e não vê nem ouve o que se passa a seu redor (LURIA, 1979b).
Quanto menor o círculo de estímulos objetivos a que a atenção está dirigida, maior a possibilidade de uma atenção dirigida a eles e, pelo contrário, quanto maior o número de objetos que abarcam a atenção, mais difícil é alcançar um nível alto de sua intensidade. Quando se exige uma atenção intensa dirigida a algo, o círculo de objetos a que se dirige se reduz, interferindo, assim, no volume da atenção, caracterizado pela quantidade de objetos abarcados pelo foco atencional em detrimento dos demais estímulos percebidos simultaneamente. Sendo assim, o que corresponde ao volume da atenção, ou seja, à quantidade de objetos que ela abarca quando se percebe algo simultaneamente “depende das particularidades dos objetos percebidos e do caráter e fins da atividade do sujeito” (GONOBOLIN & SMIRNOV, 1969, p. 186).
A distribuição da atenção é o estado correspondente à ação simultânea de duas ou várias ações, por isso corresponde à fluidez da atenção em que os focos se substituem rapidamente. Para que essa característica ocorra, é necessário que somente uma das ações se efetue com a plena consciência exigida para sua execução, embora as outras se realizem com um reflexo incompleto da atenção que exigem.
Para Luria (1979b), a constância da atenção se determina por uma fixação prolongada sobre algo. Essa é sua característica no tempo. Entretanto, isso não significa que a atenção está dirigida todo o tempo ao mesmo objeto. Os objetos das ações e até mesmo estas podem mudar (o mais frequente é que mudem). Porém, a direção geral da atividade deve manter-se ao se realizar atividades como leitura, escrita e solução de problemas matemáticos. Nessas condições, se diz que o sujeito está fixo durante muito tempo em um assunto determinado e submetido a uma tarefa dada.
A constância da atenção, do ponto de vista fisiológico, significa que os focos de excitabilidade ótima são aquelas partes do córtex cerebral reguladoras das ações que formam os elos consecutivos de uma atividade única.
De acordo com Petrovski (1980), é necessário diferenciar a distração da mudança para outra atividade dependente de uma nova tarefa. Em muitos casos, a mudança da atenção se efetua intencionalmente porque já realizamos o trabalho anterior ou consideramos o novo mais importante ou mais interessante. Enquanto que na distração se altera a atividade que efetuamos, graças à ação dos estímulos acessórios, na mudança da atenção passa-se de uma tarefa para outra. Quanto mais rapidamente se efetua essa passagem, com mais rapidez a atenção muda. Por conseguinte, a influência prolongada da atividade precedente e sua ação inibidora sobre a nova significam uma troca lenta e insuficiente da atenção.
A rapidez e o êxito da troca da atenção dependem de seu grau de fixação na atividade anterior e do caráter dos objetos e ações novas a que ela passa. Quanto maior foi a atenção sobre a atividade anterior, os novos objetos têm menos qualidades para atrair a atenção, dificultando mais sua troca. Do ponto de vista fisiológico, a mudança da atenção significa o desenvolvimento da inibição ali onde antes havia um foco de excitação e a aparição, no córtex, de um novo foco de excitabilidade ótima (GONOBOLIN & SMIRNOV, 1969).
Conforme Gonobolin e Smirnov (1969), a distração é o contrário da atenção. Esse é o estado em que o sujeito não pode manter uma atenção intensa e prolongada sobre algo, pois, quando todo o tempo se distrai com algo acessório nada fixa sua atenção por grande tempo e, constantemente, passa de um objeto a outro. Esse estado, caracterizado por uma desorganização completa da atividade, aparece com muita frequência nos casos de esgotamento.
Sob o rótulo de distração existem dois estados diferentes: falta ou excesso de tenacidade. O primeiro diz respeito à dificuldade da atenção em fixar-se, portanto, à falta de tenacidade. A dificuldade de tenacidade não implica prejuízo da vigilância, pelo contrário, observa-se aí, quase sempre, uma hiper-vigilância acompanhada de hipo-tenacidade, que faz com que a pessoa desvie sua atenção diante de qualquer estímulo ambiental (BALLONE, 2010).
No segundo caso, trata-se do contrário: uma concentração ou tenacidade muito intensa em determinado estímulo, assunto ou representação, que acaba por impedir a apreensão de tudo que não se refira ao alvo principal da atenção, ou seja, acaba por quase abolir a vigilância. Trata-se da distração do preocupado, do sábio ou do estudioso, interessados vivamente e exclusivamente por algum pensamento.
Na distração do primeiro caso, decorrente da falta de tenacidade, ocorre a diminuição da atenção voluntária e o aumento da atenção espontânea. No segundo caso, ao contrário, por excesso de tenacidade há um aumento da atenção voluntária e diminuição espontânea de tudo que não faça parte desse foco. Podemos dizer que, nos estados de euforia, a distrabilidade é do primeiro tipo e nos casos depressivos ela é do segundo. Porém, em ambos extremos do humor haverá certamente prejuízo da atenção.
Após apresentadas as principais características da atenção, trataremos, a seguir, da interveniência da linguagem como um signo que requalifica culturalmente a função psíquica atenção.