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O quarto elemento que compõe a dinâmica do ativismo trata do planejamento, isto é, da elaboração racionalizada dos passos que a ação percorrerá em seu processo de execução. De antemão, importante ter como premissa que o planejamento nem sempre existe. Ações coletivas podem ser executadas sem um plano prévio, podem eclodir de forma não organizada, passional e não planificada. A existência de um caminho previamente delineado que precede a ação está intimamente ligada ao nível de organização (estruturação) que o

movimento sustenta (MEYER; STAGGENBORG, 2012). Quanto mais estruturado estiver o movimento, maior será a frequência de planejamento.

O objetivo do planejamento é criar um roteiro teórico prévio para tornar a ação exequível. Ou seja, estipulam-se previamente métodos e meios capazes de prever erros e evitar desvios no percurso da execução da ação. O planejamento também serve para sincronizar o engajamento, definindo papeis e dirimindo desgastes entre ativistas no interior do movimento.

Para se consolidar sua efetividade, o planejamento de uma ação coletiva pressupõe duas faces importantes e intrinsicamente relacionadas: (a) estratégia e (b) conhecimento. Embora a discussão mais geral sobre estratégia seja bastante popular em outras áreas (como Administração, Marketing, por exemplo), o debate teórico sobre estratégia no ativismo não é um tema largamente abordado, como lembra Meyer e Staggenborg (2012). Em linhas gerais, estratégia é o plano direcionado a uma ação mais ampla não imediata (de médio ou longo prazo) que visa guiar ações. Assim, um planejamento estratégico significa calcular, dimensionar, prever desvios, guiando a ação no plano de forma mais ampla possível para maximizar impactos, minimizando custos e aumentando as probabilidades de efetividade dos objetivos. De acordo com Meyer e Stagenborg (2012) pode-se elencar três elementos basilares que são levados em conta na composição da estratégia de uma ação coletiva: A demanda, a arena e as táticas. São fundamentos para se traçar uma estratégia ativista:

Collective action demands, arenas, and tactics are three key elements of strategy. Each involves the selection of targets, decisions about timing, and various types of relationships and strategic dilemmas. These choices are naturally related, and each decision opens up some strategic possibilities while foreclosing others. Once activists are drawn into particular venues, they learn to formulate demands and devise tactics appropriate to them. Activists who prefer particular tactics and demands are also likely to be attracted to venues where they could work (MEYER; STAGGENBORG, 2012, p. 6-7).

Como explicam os autores, a demanda significa aquilo que o movimento anseia e está intimamente ligada aos objetivos da causa. As demandas de um movimento podem ser múltiplas ou amplas, por isso, em alguns casos haverá priorização de demandas centrais, de médio ou longo prazo, sobre a qual os ativistas irão concentrar suas ações por considerarem mais urgentes ou fundamentais (ainda que no plano mais amplo seja parte de seus objetivos- fins). Por isso, toda estratégia estará voltada para uma demanda considerada de algum modo

importante, que pode ser tanto a realização dos objetivos do movimento como também pode ser delimitada em objetivos específicos prioritários de médio ou longo prazo. No caso das arenas, consistem no campo de ação onde a estratégia será desenhada:

Movement actors need to select arenas or venues in which to press their claims. Major arenas include legislatures, courts, electoral politics, mass media, and the public. Each venue provides access to different targets and audiences, and each requires different skills and styles of rhetoric and action (MEYER; STAGGENBORG, 2012, p. 8).

A decisão sobre quais arenas serão adotadas na estratégia está inevitavelmente vinculada ao poder dos ativistas de agir sobre determinados espaços de luta, ao potencial de impacto destes na realização da ação e às competências do movimento em dominar seus códigos e recursos. Isso também implica em escolhas estratégicas, pois o foco em uma arena pode levar à negligência de outras (MEYER; STAGGENBORG, 2012). As arenas nem sempre são iguais e podem possuir lógicas próprias: podem ser formais ou informais; configuram-se por um conjunto de regras e recursos através do qual ocorre a disputa; exigem certas habilidades e know how; oferecem determinados tipos de recompensas e resultados e, ao mesmo tempo, implicam em determinados riscos e também suscitam determinadas ameaças (JASPER, 2004). No caso das táticas, trata-se dos microplanos direcionados a uma ação concreta mais localizada e imediata54. São execuções específicas de uma estratégia. São micro-ações capazes de ativar a dinâmica de uma estratégia, ao definir formas de ação para metas que formam os objetivos. Táticas “are the specific means of implementing strategy, the forms of collective action taken by movement actors” (MEYER; STAGGENBORG, 2012, p. 8). A escolha das táticas não se dá de forma aleatória e, embora possa seguir padrões levando- se em conta o repertório de performances disponíveis (TILLY, 2006), a definição sobre quais táticas serão usadas em uma ação coletiva depende da experiência prévia do movimento na relação com outros atores (seja no embate ou no angariamento de apoio) e o quanto o uso de determinadas táticas demonstrou efetividade no passado (McCARTHY; ZALD, 1977).

O estabelecimento de uma boa estratégia em seus três componentes-chaves (demanda, arena e tática) requer a obtenção de informação e dados capazes de subsidiar e embasar as

54 Turner (1970) aponta três estratégias alternativas utilizadas por movimentos socias: Persuasão, barganha e

coerção. Considera-se esta divisão útil, porém avalia-se que o autor está tratando, na verdade, de táticas. Assim, podemos encaixar tais elementos como exemplos de táticas. De todo modo, para fins da discussão aqui proposta, a ideia não é elencar todas as táticas possíveis ou classificá-las, mas esclarecer o lugar da tática na estratégia do ativismo, ambas situadas no plano maior do planejamento da ação coletiva. Exemplos específicos de táticas serão abordados na próxima seção, já com foco nas táticas propiciadas pela comunicação digital.

escolhas e caminhos que a compõe. Por isso, o conhecimento sobre o adversário, sobre seus recursos, suas fraquezas, suas habilidades é a outra face do planejamento. O conhecimento é a matéria-prima da estratégia. E a informação é a matéria-prima do conhecimento. A informação isoladamente nada mais é do que dados sobre eventos, atores e fatos. Porém, quando combinamos os diferentes tipos de informação disponíveis pode-se gerar conhecimento que será fundamental para as escolhas dos elementos que compõem uma boa estratégia:

For activists, strategy refers to choices about claims, issues, allies, frames, identity and presentation of self, resources, and tactics. They act as though these choices matter, and we generally assume that they do, but the accumulation of activist knowledge is inevitably ad hoc (MEYER; STAGGENBORG, 2012, p. 4).

Por isso, a capacidade de coletar, armazenar, esconder e cruzar informações é tão importante para a efetivação de um plano, já que esses elementos estarão diretamente ligados à qualidade da estratégia desenhada.