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Simplified design according to NS3470

7.5 A case study

7.5.2 Simplified design according to NS3470

O segundo eixo que estrutura a dinâmica do ativismo é justamente o engajamento de indivíduos que constituirão a base de recursos humanos necessária para a concretização da ação coletiva. Isso envolve os modos de filiação, participação e pertencimento que viabiliza o ativismo enquanto uma ação que aglutina indivíduos em prol de um objetivo comum. Não existe ativismo sem indivíduos engajados51.

Há duas formas preponderantes de engajamento de um indivíduo em uma causa: (a) Formal, como membro devidamente filiado ou vinculado, ou (b) Informal, como alguém que apoia uma causa e atua em prol de sua concretização através de processos mobilizatórios não permanentes. Seja formalmente ou informalmente, um ponto importante de convergência dos atores na ação coletiva é a constituição da identidade coletiva de um grupo. Não devemos, pois, compreender a noção de identidade coletiva como algo fixo, imutável. Também não se trata de uma concepção compartilhada de posições puramente racionais no sentido mais extremo da palavra. Trata-se de algo que possui uma certa estabilidade, porém é fundamentalmente um constructo dinâmico, envolvendo também elementos subjetivos que atravessam a base cognitiva de valores sobre a qual os argumentos estão erguidos enquanto bandeira. Como aponta Melucci (1995, p. 44-45):

Collective identity is an interactive and shared definition produced by several individuals (or groups at a more complex level) and concerned with the orientations of action and the field of opportunities and constraints in which the action takes place. By "interactive and shared" I mean a definition that must be conceived as a process because it is constructed and negotiated through a repeated activation of the relationships that link individuals (or groups). First, collective identity as a process involves cognitive definitions concerning the ends, mean, and field of action. [...] Second, collective identity as a process refers thus to a network of active relationships between the actors, who interact, communicate, influence each other, negotiate, and make decisions. Forms of organizations and models of leadership, communicative channels, and technologies of communication are constitutive part of this network of relationships. [...] Finally, a certain degree of emotional investment, which enable individuals to feel like part of a common unity, is required in the definition of a collective identity (MELUCCI, 1995, p. 44-45).

51 Embora a configuração da causa deva ser pensada também como um pressuposto para que haja o ativismo,

isso não significa dizer que o surgimento da bandeira é necessariamente o primeiro elemento que surge, do ponto de vista cronológico, na estrutura daquilo que será o ativismo político. O engajamento pode já estar configurado previamente por outras razões, nem sempre políticas (no caso de comunidades de bairro, grupos recreativos, grupos religiosos etc.). Ou seja, é possível que haja, antes da causa, o engajamento cívico, social em um grupo sobre o qual uma causa de teor político pode ser acoplada.

Também é preciso frisar que a identidade coletiva é um processo relacional, por isso está tão umbilicalmente ligada ao engajamento. Por isso, para McAdam, Tarrow e Tilly (2001), a criação de identidades políticas envolve mudanças na consciência das pessoas envolvidas, mas também envolve alterações nas conexões entre as pessoas e grupos. Essas conexões entre ativistas são motivadas tanto por um cálculo racional que envolve o custo de engajamento, as vantagens decorrentes do engajamento e os recursos disponíveis para a sua efetividade (MCCARTHY; ZALD, 1977), quanto pela dimensão afetiva que também atravessa o ativismo:

A ação coletiva não está toda no agir, mas também no sofrer e no compartilhar. Ela tem uma dimensão de afeição e paixão coletiva. Mais do que serem propulsados em direção a um ponto estratégico, os membros que se engajam são afetados por situações em que contribuem para definir e dominar; eles são passíveis, expostos a eventos que os abalam e os tiram da rota, remanejando seus critérios de compreensão e reorganizando seus horizontes de inteligibilidade (CEFAÏ, 2009, p. 30-31).

Por ser relacional, o ativismo também envolve o antagonismo. Os constrangimentos externos também são elementos importantes que impulsionam o engajamento e reforçam identidades coletivas pois a identificação de um opositor comum ajuda um grupo ativista a se unir e se expandir, como afirma Gerlach (2001). Além disso, a existência de uma oposição também é um elemento importante para a criação de um senso de solidariedade do “nós” contra “eles” (GERLACH, 2001, p. 300).

Do ponto de vista mais amplo, a dimensão cultural, onde a identidade e as trocas simbólicas ocorrem, passa a ser cada vez mais um espaço importante para o engajamento de pessoas devido ao compartilhamento de determinadas crenças ou realidades em comum, o que também aumenta as possibilidades de conflitos com o “externo”:

O “ambiente cultural” de cada sujeito (indivíduo ou sociedade) é, pois, a condição de possibilidade de produção ‘da história’ correspondente ao respectivo meio. Por essa razão o referencial cultural de meios distintos pode acarretar incompreensões, conflitos e choques não apenas entre grupos geograficamente distantes mas aproximados, por exemplo, pelos processos de colonização, mas igualmente entre grupos internamente a uma mesma sociedade formal, como ocorre com as comunidades de imigrados em sociedades formais dominantes (MARTINS, 2002, p. 48-49).

Vale ressalvar que, embora o engajamento baseado em uma formação identitária forte seja um elemento importante no ativismo contemporâneo, nem sempre isso ocorrerá. Indivíduos podem aglutinar-se em ações coletivas e se tornarem ativistas baseados em fracos laços identitários, principalmente através de interesses comuns conjunturais, provisoriamente amarrados por um objetivo compartilhado. De todo modo, seja através da construção de identidades ou da conexão transitória de interesses comuns, é imprescindível notar que os processos de comunicação são recursos fundamentais pois funcionam como uma espécie de “liga” que viabilizaria a continuidade do engajamento, uma vez que renova os laços (sejam fortes ou fracos), possibilitando assim a ocorrência de ações conjuntas para além do domínio burocrático ou estatal, fomentando aquilo que Habermas (1981) chama de “mundo da vida”52.