O que cabe avaliar neste ensaio é a ansiedade existente no sistema e nas relações sociais, resultantes de uma produção de necessidades ilegítimas, imanentes de desejos produzido pelo meio comum e fortalecido pela ação da maioria. Neste sentido, o alcance do desejo conduz para além das necessidades e de seus objetos, a um desconhecido colhido e condensado por um objeto de perspectiva conforme os ideais dominantes.92
A sociedade capitalista do mundo pós-moderno alimenta no indivíduo o desejo consumista e o transforma em necessidade, que gera tensão competitiva entre as pessoas. O desejo passa a ser uma sedução dominante da sociedade que influencia não só as relações interpessoais, como também, o consumo, as organizações, a informação, a educação e os costumes.
O sistema competitivo atrai e fascina, suas propostas induzem a sonhos de consumo, às vezes jamais realizáveis. As tecnologias de informação e a mídia são instrumentos por demais manipuladores, falsos e desonestos. O despertar da competitividade diante de uma massa de indução com multidões de pessoas seguindo-a, não oferece quase que chance para aqueles que decidem não ser parte do sistema.
Parece ser inconsciente a atitude comum da sociedade atual, de armazenar e ter mais. Este tipo de conduta é priorizado sob pena da possibilidade de exclusão do meio ou grupo social. É neste quadro que relacionamentos interpessoais são desenvolvidos, dinâmicas de convívio são estabelecidas e normas de conduta são vivenciadas por indivíduos, baseadas em influências recebidas desde sua origem social, desde seus primeiros anos de existência.
Esta rivalidade existe por conta da assimilação individual dos valores apresentados no contexto e convívio onde as pessoas estão. O peso de uma ação é representado pelo valor a ela atribuído, este valor é atribuído individualmente por cada um, dependendo da dimensão que este objeto tem, em seu julgamento. E este julgamento por sua vez sofre a influência direta da visão do outro ou grupo e do valor que eles lhe atribuem.
Em certo sentido, as pessoas sofrem um grande risco no contexto social vigente. Suas ações e reações são retratos deste contexto e sendo assim, “não são de responsabilidade de ninguém”. A destruição emocional ou social de alguém ou de um grupo social, sempre terá um álibi em sua defesa, desde que, o contexto em que vive é reprodutor da ação, como alguém, de forma pessoal, pode ser culpado, de algo que é de autoria de todos.
Isto exerce considerável influência no indivíduo e por assim dizer na vida social e nas opções que uma pessoa tem. O meio, a mídia, o mercado, a comunidade, ou mesmo a cultura, o convence de ser diferente. O homem passa a ser tão somente produto e meio de produção do sistema, sendo influenciado e formado através dele. E à medida que as expectativas dominantes não são atendidas, a tensão produtora de ansiedade o controla. A renúncia por alguém, ou a cooperação com outro é ignorada, a disputa por sua vez é a premissa da sobrevivência, e a competitividade o carro chefe para este alcance.
Neste contexto em que está a realidade ocidental, a busca da riqueza passou a ser o mais importante objetivo na vida da maioria das pessoas... a mercadoria tornou-se o objeto de desejo.93 A atração e deslumbre de propostas, objetos do sentimento inconsciente de representatividade e pertença, levam o homem ao mundo do mercado, ao individualismo e à competitividade. Deixando a mercê do
secundário qualquer ação interpessoal promissora mergulhando em um mundo de lutas e ansiedades. Em certo sentido, o ter é a identificação do poder, desta forma, a busca por este ter, tem embutido em si a dimensão do poder a alguém. A competição advinda do interesse pelo poder comum é buscada pela maioria a fim de possuir a representatividade a ele imputada.
“O desejo está seguramente no cerne dos conflitos entre suas diversas orientações, com os recalques e as defesas resultantes, com as transposições, as sublimações e os ideais que se revelam”.94 Para ser aceito é preciso ter, desta forma surge o desejo de ter por conta da necessidade de pertencer. Nenhum homem parece ser isento da influência exercida pela valorização que é dada ao que tem e da humilhação e sofrimento inevitável ao que não tem.
Considerando que as necessidades básicas do homem são naturais à sua sobrevivência, é legítimo afirmar que elas virão antes dos desejos. Quando não se tem o básico, existe uma necessidade e passa-se a desejar. Se alguém tem fome – necessidade básica – desejará comer. Se uma criança sente medo da solidão – necessidade básica – irá desejar o abraço materno.
Este conjunto, não parece oferecer risco aparente para a relação de convívio, pois trata de relações naturais. Quando esta ordem se inverte surgem riscos potenciais, surgem necessidades baseadas em desejos criados. Esta ordem se inverte na medida em que o desejo passa a ditar ou interferir na necessidade. Desta forma o desejo pode não ser legítimo e interferir diretamente no relacionamento de forma negativa. Imagine o ser humano desejando o insaciável e necessitando o desnecessário.
Mesmo possuindo o que deseja, nunca estará totalmente realizado. A insatisfação irá o atingir, mesmo aquelas pessoas com auto poder aquisitivo passam
a viver uma eterna insatisfação, visto que seu desejo está direcionado a uma satisfação interior, em nada voltado a satisfação do outro, do meio onde vive, trazendo para ele a impressão que se realizar sua vontade, será feliz. A pergunta que surge diante desta atitude comum à maioria das pessoas é: como posso eu ser feliz se o meio onde vivo está infeliz? Como posso eu estar realizado, se as pessoas ao meu redor não estão?
Diferentemente das necessidades oriundas de desejos assimilados pelo meio onde as pessoas vivem, existem as necessidades naturais de uma pessoa. Elas estão ligadas a sua realidade e são inevitáveis à natureza humana. O alimento para saciar a fome, a água para saciar a sede, o movimento para firmar o corpo e a atenção ou carinho para assimilação da segurança. No entanto as necessidades criadas, oriundas de desejos assimilados pelo convívio, influenciadas pelo grupo ou comuns à maioria, trazem consigo riscos eminentes de fracassos interpessoais.
O ser humano deseja o desejo do outro, ou seja, o reconhecimento. Especialmente ser reconhecido como ser humano, isto é, como um ser com certo valor ou dignidade.95 Este reconhecimento se faz por meio do ter o que o outro
deseja, ou que para ele é importante. Desde que a realização deste desejo e reconhecimento é inatingível, o ser humano, pelo menos nestas circunstâncias, nunca alcançará este objetivo de forma completa. A esperança adiada faz adoecer o coração,96 a busca pelo inalcançável sempre será incômoda e o levará a uma tensão constante.
Esse desejo tem guiado a economia, gerado concentração de renda e dualismo social e econômico, isto passa a ser fator extremamente estressante,
95 Hugo ASSMANN, Jung MO SUNG, Competência e sensibilidade solidária: educar para a
esperança, p. 17.
96 Bíblia SAGRADA, versão revista e atualizada no Brasil, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil,
devastador às relações interpessoais e extremo produtor de ansiedade. Ele está ligado à influência de valores simbólicos, ligados ao ter, poder, possuir ou ser, tem relação e influência nos relacionamentos, especialmente por desenvolver uma cultura competitiva.
É nesta busca constante e insaciável que a ansiedade encontra espaço nos conflitos interpessoais produzidos pela competitividade. Especialmente na crise gerada pelo receio de rejeição social, sentimento não muito diferente do medo de rejeição interpessoal. O sentimento de não ser aceito, ou de ser rejeitado por um grupo ou pessoa, é algo por demais doloroso. Independente do sistema onde uma pessoa esteja inserida é natural ao ser, e parte de sua essência relacional ser e fazer parte do grupo.
Em não existindo tal adequação, a ansiedade passa a ser um produto natural deste sistema, e os conflitos sua resultante. A competição é priorizada tendo como interesse inconsciente o poder por trás do objeto desejado. A ação no conflito pode ser uma forma de comunicação e expressão de poder e, por isso, o poder é freqüentemente o motor, ou a moeda, do conflito. Este mesmo pode ser entendido como sendo a habilidade de agir, influenciar um resultado, ou opor resistência conseguir um fim, ou resultado desejado.97
Desta maneira o desejo proveniente do sistema, fomenta o senso competitivo que eleva a ansiedade e sofrimento, pelo fato de não se possuir. Estes fatores, por sua vez, dificultam as relações interpessoais, pois neste contexto, do vale o quanto pesa, quanto mais se tem, mais se vale, quanto menos, menor valor lhe é atribuído.
Esta assimilação é feita pelo indivíduo em seu contexto social, tem uma relação direta com seus relacionamentos e sua necessidade de pertencer ao grupo. É neste contexto que cabe a análise da influência que a natureza do ser humano e
seu desejo exercem sobre suas escolhas, dificultando seu ato harmônico e sua visão humanitária da necessidade do outro.
Para muitos, o sistema capitalista, particularmente o neoliberalismo, consolida o mercado como fundamento e centro das sociedades. O homem passa a ser tão somente produto e meio de produção deste sistema, sendo influenciado e formado através dele. A busca da riqueza passou a ser o mais importante objetivo na vida da maioria das pessoas. A atração e deslumbre de propostas, objetos e do inconsciente sentimento de representatividade e pertença, levam o homem ao mundo do mercado.
À medida que isto é vivenciado, o indivíduo luta para ser parte deste sistema, se esforça por reconhecimento, tenta ter representatividade. E as coisas pelas quais se esforça são basicamente as coisas que têm valor para a maioria. A busca pelo poder leva o homem ao desejo de ter, e para ter poder, ele tem que ter capital, assim ele entende a felicidade pelo poder. A acumulação de riqueza passa a ser o melhor caminho para satisfazer o desejo.
Neste contexto de competitividade as pessoas passam a crer que relacionamentos interpessoais saudáveis são impossíveis de acontecer. Elas vêm uma convivência antagônica entre harmonia interpessoal e competição, as direções se mostram opostas, não parece possível caminharem juntas. Por um lado existe o questionamento sobre até que ponto pode existir produtividade sem competitividade, e por outro, como pode existir harmonia em meio à competitividade.
Desta forma pode se entender como é extrema a relação existente entre reconhecimento e mercado. Sua força de influência é significativa, e quanto maior ela é, menor a esperança de alguém ser feliz ou solidário com outro. Haja vista, que ser solidário é algo que parte de uma intenção renunciadora, incomum a um mundo
competitivo. Como também, qualquer um que acha que tem algo, ou que é alguém acima de seu valor normal como pessoa, tem o risco de si tornar déspota, com facilidade pode ignorar o próximo e desestabilizar totalmente o sistema ao seu redor. Surge a pergunta: será que a forma em que o mercado influencia as pessoas não as estaria levando a uma sociedade desenfreada em busca de algo sem limites e inalcançável? Até que ponto um indivíduo tem submetido seus desejos a uma transformação evidente de suas necessidades, escravizando-se na tentativa de alcançá-lo? “Uma afirmação pode ser facilmente sintetizada quando se fala de desejos, é que eles não têm limites, sua busca é ilimitada e quando se deseja o ilimitado nunca sobra nada para partilhar; sempre falta”.98
E essa falta, bem como a competição para não padecê-la, pode armar um cenário gerador de ansiedade e conflitos interpessoais. E para um melhor entendimento destes conflitos e sua relação com a ansiedade, passamos a considerar Harry Satck Sullivan e sua colaboração com respeito a influência da ansiedade na interpessoalidade.
4. HARRY S. SULLIVAN: INFLUÊNCIA DA ANSIEDADE NA