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A teoria da interpessoalidade de Sullivan e suas implicações para o social se encontram mais acentuadamente em duas de suas obras: “The interpersonal theory of psychiatry” e “The psychiatric interview”. Nesta sessão será considerada a definição e o olhar de Sullivan sobre os temas da interpessoalidade, considerando sua relação com a ansiedade, suas dinâmicas próprias entre pessoas e seus relacionamentos.

Sullivan define a interpessoalidade como sendo um campo constituído da interação dinâmica de dois ou mais organismos.103 Não muito diferente de outros autores, ele considera que a dinâmica relacional é a base da interpessoalidade. Trata-se do processo de ida e vinda em um relacionamento, do recebimento e da

102 Ronaldo SATHLER-ROSA, Pastoral de aconselhamento e interpersonalismo: um estudo

exploratório do pensamento de Harry Stack Sullivan, p. 2.

103 Harry S. SULLIVAN, The interpersonal theory of psychiatry, p. 40.

doação, do ser influenciado e do influenciar, enfim, este é o processo que compõe a interpessoalidade.

Ele desenvolveu, o que ele próprio chamou de “teorema da emoção recíproca.” Este teorema delineia sua visão interpessoal de relacionamento. Para Sullivan, este teorema está relacionado ao indivíduo desde a sua mais tenra infância. O mesmo está baseado em três aspectos práticos de interpretação dos efeitos das relações entre pessoas. Para ele a integração em uma situação interpessoal é um processo em que necessidades complementares são resolvidas, “ou agravadas”; padrões recíprocos de atividades são desenvolvidos “ou desintegrados”; e por fim previsão de satisfação “ou rejeição” de necessidades semelhantes são facilitadas.104

Assim, em um relacionamento as necessidades de cada parte podem ser preenchidas, ou, se houver negação da outra parte em preencher aquela expectativa ou vazio, a necessidade existente tende a se agravar pelo impacto da rejeição.

Quanto ao segundo aspecto, que afirma que padrões recíprocos de atividades são desenvolvidos ou desintegrados, ele refere-se ao relacionamento onde está existindo uma cooperação mútua para crescimento das partes, e de repente uma parte crê que já é hora de progredir mais, ameaçando a outra parte, que regride em sua cooperação. Ambas as partes, como se vê, causam a desintegração dos padrões até então recíprocos.

Por fim, o que ocorre para existir “previsão de satisfação” ou “previsão de rejeição” do preenchimento das necessidades que são similares, é a quebra dentro do relacionamento, da facilitação que as partes estavam proporcionando para que o outro se satisfizesse em suas necessidades. Existe assim a ruptura, por uma ou

ambas as partes dessa facilitação, a outra parte, logo prevê que suas necessidades não serão preenchidas e também suspende a facilitação.

Segundo Sullivan, todo este processo inicia na infância à partir do relacionamento da criança com sua mãe. Se houver cooperação nos três aspectos do teorema, a criança desenvolverá, em sua opinião, padrões sadios e cooperativos em suas relações interpessoais com diminuição de ansiedade e maior segurança. Por outro lado, quando o teorema é prejudicado, gera a ansiedade, a qual afetará o presente, e os futuros relacionamentos do indivíduo.

Para Sullivan, a interpessoalidade pode ser produtora de padrões positivos ou negativos. Ele entendia que a influência interpessoal proporciona formações de condutas assimiladas e estas, por sua vez, são desenvolvidas em forma de padrões. Os padrões podem ser bons ou ruins, positivos ou negativos, eles irão depender, como foi observado acima, da assimilação feita por meio do ambiente de convívio da pessoa.

Mabel Blake Cohen comenta sua conclusão do trabalho de Sullivan, e resume que as bases do entendimento deste autor sobre interpessoalidade estão fundamentadas em dois aspectos: primeiro que a maior parte dos problemas mentais de uma pessoa são resultados de comunicações inadequadas perpetuadas em relacionamentos, e segundo, que cada pessoa em uma dinâmica relacional é parte de uma única entidade relacional, ou seja, não são duas partes relacionais separadas, porém, duas pessoas em uma única parte, em um processo onde cada uma afeta e é afetada por esta entidade única.105

Para Sullivan, é no campo das emoções que surgem as ações e atitudes que afetam diretamente pessoas em suas expectativas com relação ao outro. A conduta interior sensitiva do indivíduo será, em sua totalidade, a responsável pela atitude

resultante em uma interação. Estas ações provocam transtornos ou melhoras em relacionamentos e as necessidades das pessoas e seus padrões de reciprocidade podem aumentar ou diminuir, ou seja, são desenvolvidos ou desintegrados, e as previsões de satisfação ou rejeição podem ser facilitadas ou impedidas.

Em seu ponto de vista, parece ser conclusivo dizer que: sempre e de alguma forma, uma pessoa está afetando outra por meio de sua emoção intencional ou não intencional. O que uma pessoa faz, crendo ser correto ou não, tem dimensões e efeitos que estarão de alguma forma influenciando o outro positiva ou negativamente em seu contexto relacional direto, familiar ou social. Assim, os relacionamentos passam a exercer uma influência por demais extensa na vida do outro.

Para Sullivan, esta dinâmica de comportamento interpessoal pode ser: integrativa, a qual leva pessoas a interações em situações variadas, com a intenção de resolução ou redução de tensões conflituais, ou não integrativas, que envolvem a ansiedade e leva à desintegração de certa situação ou relação.

É por meio do que ele chama de integração, ou não integração que se reflete o quadro interpessoal no relacionamento. Ele entende que a integração reduz a ansiedade e minimiza o quadro conflitual, levando a uma maior harmonia, enquanto que a não integração produz tensão e ansiedade, aumentando o quadro conflitual.

Neste sentido, ele faz uma especial elucidação à necessidade do exemplo e do respeito nos relacionamentos interpessoais. Para ele, o respeito pelo outro é elemento significativo no contexto social, porém este já era raro em seus dias. Ele entendia que o respeito, observado junto com o exemplo podem trazer reflexos significativos, capazes de acompanhar grandes mudanças na jornada de alguém.

Em seu artigo sobre pastoral do aconselhamento e interpessoalidade, Ronaldo Sathler sintetiza as afirmações essenciais de Sullivan como: as pessoas

são o centro estrutural de relacionamentos interpessoais, elas refletem em seu ser e em suas atitudes a qualidade de seus relacionamentos, as feridas emocionais que surgiram no passado permanecem dentro dos indivíduos, os atuais sistemas relacionais contribuem para um crescimento mínimo da personalidade, e por fim, o processo de cura não pode ser eficaz a não ser que as pessoas sejam capazes de estabelecer relacionamentos que contribuam para o crescimento, enquanto caminham para o futuro.106