Kapittel 4 Vendingen mot antikken
4.2 Subjektivering og makt
Imber-Black começa por interrogar-se “Como pode um casal bicultural criar sufi- ciente espaço para os seus rituais que cada cônjuge traz da sua família de origem?” (Imber- -Black, 2002b, p. 445) e nós acrescentamos “… para que seja satisfatório para o casal”. A mesma autora realça a necessidade peremptória de investigar os rituais familiares em famí- lias biculturais, afirmando “Como cada vez mais pessoas casam fora da sua cultura de ori- gem, formando casais biculturais e bireligiosos, necessitamos de pesquisas que examinem tanto o esforço requerido em criar e manter rituais em que o casal esteja de acordo e veri- ficar de que forma os rituais podem constituir um recursos para estes casais” (Imber- -Black, 2002b, p. 446). É precisamente o que nos propomos estudar no nosso trabalho: verificar os recursos em casais biculturais, verificar em que medida os rituais familiares podem constituir recursos para estes casais, mesmo sabendo que é possível que, à partida, existam consideráveis diferenças nos rituais familiares em casais biculturais.
Dispomos de diversas fontes, que fundamentam a pertinência do estudo da temática dos rituais familiares em casais biculturais.
1) Em primeiro lugar, sabemos, a partir do nosso estudo exploratório qualitativo, que os rituais familiares são uma temática muito importante na óptica dos próprios casais
biculturais (ver capítulo 4). Verificamos que os diferentes rituais familiares e culturais poderão constituir um recurso ou um risco para esta população alvo, dependendo da forma como são encarados, ou como um “enriquecimento mútuo”, como “alternativas que se podem experimentar” ou então como fonte de “discórdia ou conflito”.
2) Em segundo lugar, Fiese et al. (2002) afirmam que as rotinas e os rituais familia- res permitem verificar como a cultura afecta ou interfere com o funcionamento de toda a família, porque estão intrinsecamente ligados aos contextos culturais mais vastos. Os auto- res consideram os rituais familiares importantes fornecedores da cultura, porque a cultura desempenha um papel fulcral na forma como os rituais se exprimem ou revelam na família (Fiese et al., 2002). Estas afirmações baseiam-se em vários estudos que encontraram dife- renças significativas inter-culturais em relação às rotinas e rituais familiares. Assim, Marti- ni (1996) verificou que os japoneses residentes nos EUA discutem ao jantar mais activida- des de grupo e experiências partilhadas, enquanto os europeus se centram nas actividades dos filhos e nas experiências individuais. De forma semelhante, Blum-Kulka (1997, cit. por Fiese et al., 2002) verificaram que as famílias israelitas contam, ao jantar, histórias que incluem vários membros familiares enquanto as famílias americanas falam mais das suas experiências individuais diárias. Baxter e Clark (1996) aplicaram o Family Ritual Ques- tionnaire, de Fiese e Kline (1993), e constataram que o grau de rotinização (ou realização das rotinas e rituais familiares) estava, nas famílias europeias, negativamente correlaciona- do com um estilo de conversação aberto e positivamente correlacionado com a conformida- de e com conversas centrada nos adultos, o que não se verificou nas famílias de origem asiáticas. Estes estudos, embora limitados a algumas comunidades residentes nos EUA, de origens culturais diferentes, confirmam, de algum modo, a existência de uma variabilidade inter-cultural nos rituais familiares. Ciompi (2002), adepto da afectologia, recorre à metáfo- ra do dique para explicar esta variabilidade. Para o autor, o dique (componentes cognitivos estruturantes) serve para a contenção ou canalização da água (afectos). Os diques são construídos com material (terra, pedras, madeira) do ambiente cultural (pedreiras, flores- tas) circundante dos homens, podendo apresentar diferentes estruturas e conteúdos. Desta forma, e segundo o autor, os rituais familiares podem ser culturalmente diferentes nos seus conteúdos e estrutura, embora sirvam para o mesmo fim. A questão que, aqui, queremos colocar, é saber como o casal bicultural lida com esta diversidade nos rituais familiares? Como se posiciona na rede de sistemas mais vastos, onde fazem parte pelos menos duas diferentes culturas? Como são negociados e integrados os rituais familiares. Será que uma
maior discrepância da forma como se realizam os rituais familiares provindos de culturas diferentes em casais biculturais afecta negativamente a satisfação conjugal do casal?
3) Em terceiro lugar, sabemos que os rituais familiares servem para a transmissão de informação, valores, crenças e da herança cultural através das gerações (Viere, 2001). Já Laird (1988) afirmou que o ritual é, provavelmente, o mais potente mecanismo de sociali- zação disponível nas famílias, preparando os seus membros para, individualmente, com- preenderem o significado do grupo, continuarem as tradições e desempenharem os papéis sociais considerados essenciais para a sua continuidade. Por exemplo, num estudo de Rosenthal e Markshall (1988), quase 80% dos participantes afirmaram que utilizam rituais idênticos à sua família de origem com os seus filhos, e 65% encontraram até uma seme- lhança destes rituais em relação aos rituais praticados pelos seus avós. Os autores concluem que os rituais permitem uma ligação simbólica entre o passado e o futuro, fornecendo, assim, um sentido de continuidade na história de uma colectividade ou de um indivíduo. Também num estudo de Romano (2001) se constatou que muitos casais biculturais come- çam a ter uma melhor consciência sobre as suas diferenças a partir do nascimento do pri- meiro filho, uma vez que desde aí se debatem com formas diferentes de estilos educativos e valores que pretendem transmitir. A questão que colocamos é a de saber como são transmi- tidos diferentes rituais familiares nos casais biculturais? Mais por via da família de origem materna ou paterna, ou igualmente por ambas as famílias de origem? Ou será que o país de residência do casal bicultural exerce um papel predominante na realização dos rituais fami- liares em casais biculturais? Qual destas formas de transmissão dos rituais familiares são mais vantajosas em termos da satisfação conjugal do casal bicultural?
4) Em quarto lugar, sabemos que um maior grau de ritualização e um maior signifi- cado atribuído aos rituais familiares se revela, de alguma forma, benéfico para o relaciona- mento intra-familiar, extra-familiar, para o ajustamento, harmonia e satisfação conjugal e para a coesão familiar, como o têm demonstrado vários estudos com famílias monoculturais (Fiese et al., 2002; Kiser et al., 2005). Existem autores como McGoldrick et al. (1991) que consideram também benéfico para os casais biculturais a manutenção e integração, por ambos os cônjuges, dos seus rituais culturais. No entanto, interrogamo-nos sobre o seguin- te: será mesmo benéfico quando ambos os cônjuges de casais biculturais, ao pretenderem manter os seus rituais, optam por um elevado grau de ritualização e significado dos “seus” (diferentes) rituais? Ou será que tal pode constituir antes uma fonte de conflito entre o
casal? Recordemo que Falicov (1995) propõe uma visão adaptativa, equilibrada e flexível sobre as semelhanças e diferenças das culturas dos cônjuges de casais biculturais e que Romano (2001) aponta como ingrediente mais importante, neste tipo de casais, a capacida- de de ser extremamente flexível. De igual forma, como vimos no capítulo 1, alguns estudos em casais biculturais identificaram a flexibilidade e adaptabilidade como recursos para estes casais. Em suma, gostaríamos de saber se um maior grau de ritualização e um maior significado dos rituais familiares está, também nos casais biculturais, associado com uma maior satisfação conjugal, como acontece nos casais monoculturais, ou se, pelo contrário, uma maior flexibilidade na realização dos rituais familiares pode revelar-se benéfica espe- cificamente para os casais biculturais.
5) Finalmente, a exploração de rotinas e rituais familiares tem a vantagem de poder avaliar o casal no seu todo, numa perspectiva sistémica, o que inclui, simultaneamente, considerar aspectos culturais (Fiese et al., 2002). Desta forma, pensamos que os rituais familiares constituem uma excelente “porta de entrada” para estudar o encontro entre duas culturas num micro-contexto, ou seja, num casal bicultural,permitindo reduzir e delimitar a imensa complexidade dos fenómenos culturais.