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Antikkens eksistenskunst – frihetens dannelse

Kapittel 4 Vendingen mot antikken

4.1 Antikkens eksistenskunst – frihetens dannelse

Os rituais familiares fornecem aos investigadores acesso à dinâmica e estrutura familiar e revelam a sua identidade.Identidade essa que pode permitir analisar diferenças e semelhanças entre uma dada família e outros sistemas, tanto ao nível micro (outras famí- lias, família de origem), como ou nível macro (classe social, bairro, sociedade, cultura). Wolin et al. (1988) chamam a atenção para o facto da existência de rituais familiares ser algo universal, comum a todas as famílias, e falam dos rituais como uma “janela” particu- larmente rica de acesso à dinâmica familiar e aos seus temas, símbolos e valores. Além disso, os autores mencionam outras potencialidades no estudo dos rituais familiares: são observáveis e contêm elementos facilmente identificados pelos membros da família. Fiese et al. (2002) consideram três grandes vantagens que os rituais e as rotinas familiares ofere- cem aos investigadores: a) avaliam necessariamente a família no seu todo, porque, por definição, a realização dos mesmos envolve múltiplos membros familiares; b) como estão inseridos num contexto ecológico e cultural, a avaliação dos mesmos permitir-nos-á verifi-

car em que aspectos as famílias se assemelham ou se distinguem nas várias culturas, o que é particularmente pertinente na nossa investigação; c) enfatizam a relação entre o indivíduo e o sistema familiar. Assim, poderemos, através da sua avaliação, verificar como a dinâmi- ca da vida familiar afecta o ajustamento dos indivíduos, e vice-versa, como as característi- cas individuais afectam a dinâmica familiar. Desta forma, a pesquisa baseada nos rituais interliga os níveis individuais e familiares numa óptica sistémica (Fiese & Park, 2002), que consegue contemplar não só os diferentes sistemas familiares, mas também as suas com- plexas interligações (Dickstein, 2002).

Assim, apesar de ser suposto que a avaliação e a utilização terapêutica de rituais surgem como dois aspectos bastante interligados, parece ser um dado que o estado de arte, em cada um deles, remete para situações opostas. Enquanto a avaliação surge como um campo pouco explorado, onde basicamente se encontram alguns instrumentos de medida, a utilização terapêutica de rituais data de há longo tempo, tem-se revelado intensa e muito fecunda, particularmente na terapia familiar sistémica. Portanto, existem relativamente poucos instrumentos para avaliar rotinas e rituais familiares.Boyce et al. (1983) e Jensen et al. (1983) elaboraram o Inventário de Rotinas Familiares (Family Routines Inventory) com 28 itens que correspondem aos aspectos considerados mais importantes para as suas famí- lias, por uma grande amostra de participantes, como por exemplo, falar ou brincar com os filhos, ir uma vez por semana a um local especial, os pais terem um hobby, jantar de família à mesma hora, e visitar parentes.

Wolin et al. (1984; 1988) apresentam um formato de entrevista semi-estruturada, o Family Ritual Interview, que tem a desvantagem de mudar os parâmetros consoante o objectivo do estudo. Neste formato, podem ser averiguadas variáveis como o nível geral de actividades dos rituais familiares (religiosos ou não), o planeamento, os recursos disponí- veis, os sentimentos face aos rituais, a continuação na realização dos rituais familiares e a definição dos papéis na execução dos rituais familiares. Além disso, pede-se uma descrição detalhada de dois rituais familiares. Através de uma análise do conteúdo, avalia-se cada variável em alta, média ou baixa ritualização, chegando a um índice sobre o grau de rituali- zação.

Eaker e Walters (2002) desenvolveram o ASFRS (Adolescent Satisfaction in Family Rituals Scale) que se destina apenas a adolescentes e tem como objectivo avaliar o seu grau de satisfação em relação a celebrações e rotinas familiares.

Finalmente, existe o FRQ (Family Ritual Questionnaire) de Fiese e Kline (1993), que pretende avaliar os rituais familiares. Este questionário é constituído por sete contextos (hora de jantar, fins-de-semana, férias, feriados religiosos, tradições, comemorações e celebrações) que são avaliadas por oito dimensões distintas (ocorrência, papéis, rotina, comparência, afecto, significado simbólico, continuação e deliberação). O questionário distingue rituais familiares dos rituais culturais e contém dois factores: a realização e o significado dos rituais. Além disso, dispõe de dados psicométricos. Por estas razões, optá- mos, no nossos estudo, por este questionário, o qual iremos descrever mais detalhadamente no capítulo referente aos estudos sobre a validação dos instrumentos.

Falando agora da utilização terapêutica dos rituais, estes foram formalmente intro- duzidos nos modelos sistémicos da terapia familiar por Selvini-Palazzoli (1974, p. 238), definindo-os como “uma acção ou uma série de acções, acompanhadas por formulações verbais, que envolvem a família inteira. Consistem, como qualquer ritual, numa sequência regular de passos, realizados num tempo e espaço correctos”.

Mais tarde, a autora (1977) afirma que os rituais se encontram mais próximos do código analógico, não verbal, do que do código digital. Contudo, podemos afirmar que os rituais possuem a capacidade de interligar os aspectos analógicos e digitais da comunicação e oferecem a possibilidade de exprimir e vivenciar algo, que não se pode exprimir, mera- mente, por palavras. Desta forma, podem captar significados que se encontram para além das palavras. Isto significa, por exemplo, que a letra da canção “parabéns a você, ...” não vale muito em si, mas é importante pelo facto de toda a família estar reunida, cantando em conjunto, olhando para o aniversariante e batendo, no fim, palmas.

Os rituais familiares permitem ao terapeuta interligar os padrões de interacção observados com os significados atribuídos pela família. A questão central, na literatura sobre terapia familiar, parece ser a ideia de que os rituais familiares estão intimamente liga- dos à construção da “realidade” partilhada pela família. Já Wolin et al. (1988) afirmaram que os terapeutas familiares podem construir novos rituais familiares, restabelecer rituais

familiares que se perderam ou, ainda, redireccionar rituais familiares que tenham assumido um aspecto destrutivo. Fiese e Wamboldt (2000) propõem a introdução de novas rotinas e rituais familiares em famílias com um membro que sofre de uma doença crónica ou redi- reccionar as rotinas e rituais que estão demasiadamente focalizadas na doença. Roberts (2003) intervém com rituais familiares para que os pacientes possam lidar melhor com o cancro de mama. Mesmo em relação a determinadas patologias, como os distúrbios bipola- res, desenvolveram-se programas de intervenção com rotinas familiares (Frank et al., 2000).

A utilização de rituais familiares pode ser também extremamente importante em fases de transição, normativa ou não, do ciclo de vida familiar, como sucede após o casa- mento ou divórcio (exemplo: como festejar os aniversários dos filhos). Wamboldt e Reiss (1989) propõem, para os casais recém formados, a utilização de rotinas ou rituais para negociar as diferenças provindas das suas famílias de origem, o que, na nossa óptica, pode ser extremamente importante em casais biculturais, onde, como já vimos, poderão existir consideráveis diferenças. Howe (2002) refere-se a vários programas preventivos desenvol- vidos, onde rotinas e rituais familiares funcionam como factores protectores para reduzir o impacto negativo em casos como divórcio, falecimento de um parente ou perda de empre- go, mas também na formação de um novo agregado familiar após o casamento e no nasci- mento do primeiro filho. Deste modo, podemos entender Ciompi (2002) que considera os rituais terapêuticos como um meio altamente eficaz para lidar com situações emocional- mente explosivas.

Os rituais terapêuticos podem também servir para ultrapassar melhor uma crise, como, por exemplo, festejar-se, na reconciliação de um casal, um “segundo casamento”, eventualmente com novas alianças e uma “segunda lua-de-mel”. Winek e Craven (2003) descrevem como intervir com rituais em caso de infidelidade para restabelecer o relaciona- mento e a confiança no casal. Imber-Black (2002a) utiliza rituais terapêuticos para lidar com segredos familiares. Face à crescente dificuldade das famílias em se encontrarem simultaneamente num certo espaço e tempo, temos sugerido a introdução de “reuniões familiares” (Lind, 2005). Este tipo de reuniões oferece muitas vantagens como, por exem- plo: estimular a comunicação intra-familiar, aumentar a circulação da informação na famí- lia, possibilitar a reunião de toda a família para fazer o balanço semanal, fomentar a demo- cratização familiar, dando a palavra a todos os membros da família, intensificar a escuta

activa, e restringir o espaço onde são tratados os problemas. De igual forma, temos propos- to (Lind, 2005) uma metodologia para incrementar rituais familiares em famílias multias- sistidas, onde se verifica, normalmente, um elevado grau de subritualização e, em sua con- sequência, uma dependência das famílias dos serviços de apoio. Esta metodologia consiste em oito passos: diagnóstico sobre o grau de ritualização, levantamento dos rituais familia- res ainda existentes, revitalização dos rituais, elaboração, com a família, de potencialmente novos rituais, verificação da sua viabilidade, implementação dos novos rituais, operações de reajustamento e avaliação do seu impacto.

Falicov (2002) intervém no restabelecimento dos rituais em famílias imigrantes. Este assunto tem também relevância para os casais biculturais, uma vez que um, ou mesmo os dois cônjuges, se encontram numa situação de imigração. A autora fala da necessidade de restabelecimento dos rituais da cultura original dos imigrantes para poder lidar com o que ela chama de “perda indefinida”. Por “perda indefinida”, entende, a autora, o sentimen- to face a uma pessoa fisicamente ausente, mas psicologicamente presente, como acontece quando a um dos pais é negado o contacto com os seus filhos ou quando não se sabe o paradeiro de um familiar. Falicov (2002) verificou um fenómeno de sentimentos semelhan- tes em muitos emigrantes, o que, às vezes, é designado por nostalgia (do grego nosos = “saber” e algia = “dor”)24. Eles sentem que “perderam” pessoas e locais estimados, os seus costumes e o seu ambiente linguístico, ou seja, as suas raízes culturais. Para aumentar a resiliência dos emigrantes, no sentido de lhes permitir uma certa continuidade cultural, Falicov (2002) propõe, além de visitas e contactos regulares, um restabelecimento dos rituais culturais, como a preparação de pratos tradicionais, jogos populares, decoração da casa, mas também festejos de tradições e eventos importantes da sua cultura. A autora reconhece, ainda, que os casais biculturais enfrentam um desafio acrescentado porque os cônjuges podem possuir diferentes tradições do ciclo de vida familiar, que deverão ser, no entender da autora, ou misturados ou mutuamente adaptados (Falicov, 2002).

Podemos afirmar que rituais familiares oferecem uma valiosa forma de intervir jun- to das famílias, não só em casos específicos (famílias subritualizadas, emigrantes, casais biculturais), como também em determinadas situações (transições do ciclo de vida fami-

24 No alemão, emprega-se a palavra “Heinweh”, literalmente “dor da minha terra”, que se pode traduzir

liar).Achamos que este tipo de intervenção pode ser muito benéfico para estas famílias, nomeadamente, pode fortalecer as interacções e relações interpessoais, facilitar a comuni- cação e coordenação, aumentar a identidade e coesão familiar e revitalizar a sua estrutura, organização e funcionamento, permitir gerir melhor as mudanças, fornecer valores e signi- ficados preciosos e constituir um fio condutor, que pode vencer sentimentos de desamparo. Enfim, os rituais são um meio excelente para promover os recursos familiares. Trabalhar com rituais não é só compensador para os técnicos como também para as famílias em cau- sa, que sentem prazer nisso e falam, muitas vezes, espontaneamente e com prazer, sobre as suas refeições, aniversários, férias e outros eventos como o nascimento e o casamento de um familiar. Esta abordagem positiva tem a vantagem de evitar o enfoque na patologia ou na disfunção familiar porque enfatiza mais as capacidades, aptidões e os recursos da famí- lia.

2.1.4 Fundamentação da pertinência da investigação sobre rituais em famílias bicul-